quarta-feira, 17 de junho de 2020

Pássaros sobre Xícaras a Observarem


Paulo Rocco

Esse tempo sombrio de quarentena – no qual ainda estamos entranhados por mais que saiam às ruas afoitos consumidores do nada – tem trazido novidades artísticas que acompanham a solidão da única cadeira ocupada na plateia.

Se não há palco para preencher, não há crítica para escrever sobre o que estaria no tablado. Então, há que se substituir o alvo da escrita, como artistas humildemente trocaram – neste momento – o palco pela tela a nossa frente.

Foi assim que comecei a escrever sobre esse novo formato do teatro na tela, que não é cinema, que não é novela e – tema de infindável discussão entre colegas – não seria teatro. Da maneira como vejo, alguns espetáculos virtuais são sim teatro, na sua essência do imediato, na emoção do “ao vivo” ou na troca de experiências e olhares com o público.

É acima de tudo um formato novo que pode continuar em um mundo pós-pandemia ou cair no esquecimento das nuvens quando voltarmos aos Teatros. Esquecimento a que me refiro é no sentido de se continuar criando esse tipo de encenação e não sobre seu conteúdo obviamente que, nos exemplos que estou presenciando serão lembrados sempre, da mesma maneira que uma peça toca nossa alma quando se fecham as cortinas.

Foi assim que guardei na lembrança – e nas resenhas que fiz – o espetáculo “Todos os Sonhos do Mundo” de Ivam Cabral ou que – todas as terças – tenho a sala invadida pelo talento de Cléo de Paris e sua peça, sempre inédita, “Desamparos”.  Ambos, aliás, integrantes da Cia. Os Satyros que produziu o primeiro espetáculo on line, com grande elenco e ao vivo, para ser assistido em plataforma digital: “A Arte de Encarar o Medo”, justamente sobre esse período.

Mas o assunto desta vez é sobre outro carinho imenso na alma, a lembrança viva de um tempo onde as cores eram outras. Estou falando de "Desconscerto", a peça online criada por Matheus Nachtergaele e adaptada do seu espetáculo “Processo de Conscerto do Desejo" – e que pode ser vista na página do Sesc São Paulo no You Tube.

A criação da palavra no título é intencional. O jogo do conserto e concerto está exposto, mesmo que sutilmente, nos poemas e nas palavras da mãe do artista, Maria Cecília Nachtergaele, que partiu pouco tempo depois do seu nascimento.

Mas ela não só vive nas palavras proferidas com a técnica perfeita do Ator, como em cada gesto que ele, meticulosamente, constrói para acompanhar os versos. Ela vive também no vestido com o qual ele cobre o corpo, evocando a presença feminina que está em cada espaço do cenário/casa. “Cenário”, aliás, com uma profundidade de deixar orgulhoso qualquer cenógrafo e que permite a um diretor marcar as cenas em diferentes alturas do palco. Belo complemento cênico.

Uma música às vezes permeia a cena e até os latidos ao fundo parecem planejados, como se a sonoplastia eficiente entrasse no momento exato em que as memórias da personagem se fundem com as nossas próprias.

Matheus sabe que está sendo visto através de uma lente – tem experiência rica em cinema e televisão – mas o que se vê em “Desconscerto” é a relação do Ator com o público, olho no olho, como quando ele se aproxima da câmera, sempre parada, até ser possível tocarmos com as mãos sua emoção.

E também é cinema, como quando ele sai para o canto da cena e seu rosto aparece no espelho sobre a mesa, emoldurando o reflexo de um passado distante e tão presente.

A lanterna pendurada no fundo da cena seria como um sinal de onde possamos chegar se mergulharmos a fundo nas lembranças. Um túnel cujo final tem uma luz, a única que não se apaga quando ele termina o espetáculo.

Versos tão lindos como “Mãos de jardineiro quando está chovendo” ou “O coração bate no pescoço e o relógio cada vez mais alto” são exemplos do tamanho da poesia de dona Maria, que encerra suas palavras não com rimas ricas ou sílabas emotivas, mas com um recado para não se esquecerem de levar o menino – o mesmo que brincava com o sininho no berço – para tomar a segunda dose da vacina.

E sai. Nas paredes os pássaros pousados sobre xícaras de porcelana observam o vazio há pouco preenchido de passado. Escondido na memória ou algum canto da casa onde não conseguimos alcançar, o trenzinho que o menino não ganhou.

Toda uma vida que poderia ter sido e não foi se constrói. Matheus é o gigante de sempre, uma aula de interpretação, uma alma generosa a repartir conosco versos tão necessários nesses dias e sempre.

Obrigado por esse momento capaz de cortar essa realidade com o fio afiado da poesia. Matheus, quase sem perceber, amamos você.

Sem comentários.

terça-feira, 9 de junho de 2020

Pequeno Almanaque de uma Propaganda de Novelas - Último Capítulo


Paulo Rocco

O Reino de Avilan em
"Que Rei Sou Eu?".
E aqui estão as últimas resenhas dessa deliciosa turnê pelas clássicas novelas da nossa teledramaturgia que estão e estarão disponíveis na Globoplay. A ordem dos títulos seguida aqui foi a mesma que apareceu na primeira propaganda do serviço de streaming sobre esses lançamentos. Ao final apresento um breve resumo desse pequeno almanaque de uma propaganda de novelas escrito em oito capítulos. E agradeço a você leitor e telespectador, a grande audiência.

A Favorita – 2008. Sei que muitos não estão preparados para essa discussão, mas em minha opinião, essa novela de João Emanuel Carneiro é melhor que aquela que está no alto do pedestal: “Avenida Brasil”. O autor reverteu uma “ordem” pré-estabelecida na “cartilha” da telenovela e iniciou sua trama sem dizer quem era mocinha e quem era a vilã. Flora (Patrícia Pillar) e Donatela (Claudia Raia) formavam uma dupla sertaneja quando jovens. Flora é acusada pela morte do marido de Donatela – de quem era amante – e fica 18 anos na prisão. Depois que cumpre sua pena quer se aproximar da filha Lara (Mariana Ximenes) e se apaixona pelo mesmo homem de sua rival novamente, Zé Bob (Carmo Dalla Vecchia). Por alguns meses o público é levado a acreditar que Flora é do bem – e teria sido acusada injustamente – e que Donatela não é o que parece. Depois as coisas se invertem. Vários crimes com personagens importantes acontecem pela novela. Salvatore (Walmor Chagas), Maíra (Juliana Paes) e Gonçalo (Mauro Mendonça), por exemplo, são vítimas da vilã. Alguns morrem com requintes de crueldade. Ary Fontoura (Silveirinha) tem um papel de destaque e Iran Malfitano interpreta Orlandinho, homossexual que acaba se apaixonando por Maria do Céu (Deborah Secco). Outros personagens injetaram vitalidade na história embalada pelo “Beijinho Doce” da dupla principal, como é o caso de Romildo Rosa (Milton Gonçalves), um deputado corrupto que trafica armas e Catarina (Lilia Cabral), que sofre nas mãos de um marido violento até se tornar amiga da homossexual Stela (Paulo Burlamaqui) e se tornar independente. A música de abertura era a instrumental “Pa' Baillar”, da banda uruguaia/argentina Bajofondo. Por se tratar de um tango eletrônico, lembra muito a canção “Fina Estampa”, na abertura da novela homônima. “A Favorita” teve 197 capítulos e foi a primeira dessa lista a estrear na Globoplay. A novela não foi reeditada e todos os capítulos estão disponíveis na mesma quantidade de quando a obra foi ao ar.

Guerra dos Sexos – 1983. A versão que estará disponível é a clássica (mesmo porque a nova, de 2012, já está no serviço). Essa obra de Silvio de Abreu também dispensa uma grande resenha. Está no inconsciente coletivo de todo mundo que viveu naqueles incríveis anos 80. Para começar, uma novela que tem Fernanda Montenegro e Paulo Autran já nasce obra-prima. A comédia escrachada é, obviamente, sobre a disputa entre homens e mulheres, tendo como “líderes” os primos Charlô (Fernanda) e Otávio (Paulo). A premissa era simples, como convém ao gênero de humor: um tio deixa uma herança milionária, mas os dois só podem colocar as mãos no dinheiro se deixarem as brigas de lado, morando na mesma casa e trabalhando juntos. O tom farsesco é predominante em todos os capítulos, desde a batalha da equipe feminina de Charlô – para elevar os lucros da rede de lojas que leva seu nome e não permitir que Otávio seja o único proprietário da fortuna – até a icônica sequência do café da manhã entre os protagonistas. No remake de 2012, a cena do café foi reproduzida em computação gráfica para a nova abertura. A metalinguagem está presente nas ações da personagem Nieta (Yara Amaral) que, apaixonada por novelas achava Felipe (Tarcísio Meira) muito parecido com o galã Tarcísio Meira. Glória Menezes vive Roberta, que tem um romance com o motorista Nando (Mário Gomes), mais novo do que ela. A abertura trazia Os Fevers com a música “Guerra dos Sexos”. A novela teve 185 capítulos.
Que Rei Sou Eu? – 1989. Essa talvez seja uma das novelas pela qual tenho o maior carinho. Estava na faculdade quando a comédia histórica de Cassiano Gabus Mendes estava no ar. Ela estreou em fevereiro, portanto, antes de começarem as aulas. Quando o curso de Publicidade voltou eu viajava todas as noites para Ribeirão Preto para estudar. O ônibus chegava por volta das 19 horas – horário de exibição da trama. Eu me sentava nos carrinhos de lanche em frente à Universidade para jantar e assistia à novela na pequena TV. Eu e dezenas de fãs. Nos últimos meses o sucesso era tanto que professores – que assistiam à novela na cantina ou nos carrinhos com a gente – só começavam as aulas quando terminava o capítulo. E a obra ainda era objeto de discussão na classe. Uma paródia genial do sempre caótico governo brasileiro, “Que Rei Sou Eu?” contava a história do reino de Avilan a partir do momento que o rei (Gianfrancesco Guarnieri) morre. O único herdeiro é o filho bastardo Jean-Pierre (Edson Celulari) que não sabe disso. Os impagáveis conselheiros da Rainha Valentine (Tereza Rachel, no papel de sua vida) resolvem “criar” um rei (como sempre acontece por aqui) na figura do mendigo Pichot (Tato Gabus Mendes). Por trás de tudo está o bruxo Ravengar – ou Olavo de Carvalho ou PC Farias ou ACM; entre outros, só para ver como a trama pode ser atual sempre – interpretado magistralmente por Antônio Abujamra. Jean-Pierre lidera um grupo de revolucionários para derrubar o governo corrupto. Jorge Dória, Carlos Augusto Strazzer, Laerte Morrone, John Hebert e Oswaldo Loureiro formam o Conselho Real. A mãe da Rainha é ninguém menos que Dercy Gonçalves e Stênio Garcia faz Corcoran, o bobo da corte. Claro que tem a história de amor do príncipe e a plebeia (a doce Giulia Gam) e da princesa (Cláudia Abreu) pelo mendigo. A alusão aos acontecimentos reais no Brasil era imediata, com a maior velocidade que as gravações permitiam. Até troca de moedas Avilan teve em meio ao desastroso Plano Cruzado. Ao final, em uma cena catártica, o povo de Avilan grita “Viva o Brasil”. Não perca essa chance de assistir a essa obra-prima. O ritmo alucinante, a reconstituição de época, a interpretação de gigantes da nossa dramaturgia, a genialidade de Cassiano Gabus Mendes, enfim... Veja. A música de abertura era “Rap do Rei”, composta por Boni (o próprio) e cantada por Luni, que também faz uma participação especial na gravação do outro tema que permeava a novela: “Que Rei Sou Eu” na voz de Eduardo Dusek. A obra teve 185 capítulos. E foi pouco.
Quatro por Quatro – 1994. Divertida novela de Carlos Lombardi sobre a vingança orquestrada por quatro amigas contra seus ex-parceiros. Abigail (Betty Lago), Auxiliadora (Elizabeth Savala), Tatiana (Cristiane Oliveira) e Babalu (Letícia Spiller) se conhecem após baterem seus carros ao mesmo tempo e serem presas na mesma cela. O tom de comédia escrachada do autor conquistou milhões de fãs. Outra característica de Lombardi, de colocar os homens sem camisa em várias cenas das novelas, já despontava aqui. Aqueles que seriam as vítimas do plano das mulheres eram vividos por Gustavo (Marcos Paulo), Alcebíades (Tato Gabus Mendes), Fortunato (Diogo Vilela) e Raí (Marcello Novaes). Esse último protagonizou um dos casais mais famosos da história das novelas ao lado de Babalu. O tema de abertura era “Picadinho de Macho” com Sandra de Sá. A novela teve 233 capítulos.

Vereda Tropical – 1984. Essa foi a estreia de Carlos Lombardi como autor titular, dez anos antes de “Quatro Por Quatro”. Walmor Chagas interpreta Oliva, um empresário que perde um filho e decide criar o neto Zeca (Jonas Torres) para fazer dele o seu herdeiro. A mãe do menino, Silvana (Lucélia Santos), operária da fábrica, entra na briga judicial. A vilã da história é Catarina (Marieta Severo) que tenta se livrar do garoto. Mário Gomes como Lucas, um jogador de futebol, ganhou a atenção do público, assim como Jamil (Gianfrancesco Guarnieri). Marcos Frota também foi sucesso com o impagável Téo, um gago com muita imaginação que pensava ser um super-herói. A música de abertura, obviamente era o sucesso de Ney Matogrosso com o mesmo nome da novela, que teve 184 capítulos.

E assim chegamos ao final dessa lista de 43 grandes sucessos. Claro que a Globoplay tem outras novelas em seu catálogo, como as vencedoras do Emmy Internacional: “Império” (Aguinaldo Silva), “Jóia Rara” (Duca Rachid e Thelma Guedes), “Lado a Lado” (João Ximenes Braga e Cláudia Lage), que venceu – entre outras – “Avenida Brasil”; o remake de “O Astro” (Alcides Nogueira e Geraldo Carneiro, baseados na original de Janete Clair) e “Caminho das Índias” (Glória Perez).
Nesse pequeno Almanaque o autor que mais teve novelas citadas – que terá suas obras clássicas inclusas no Globoplay – é Aguinaldo Silva, com sete de suas criações.

A novela mais longa é “Barriga de Aluguel” – com 243 capítulos – seguida de perto por “Quatro por Quatro”, com 233.
A trama mais curta que foi ao ar dessa lista foi “O Fim do Mundo”, com 35 capítulos. E a segunda que ficou menos tempo em exibição foi “Estrela-Guia”, com 83 capítulos.

A média, ao final, é de 187 capítulos por novela, a duração em vigor nos anos em que foram escritas. A tendência atual é a diminuição no número de capítulos.

Ao todo, somente nessa série de resenhas, a novelas exibidas somam 8.060 capítulos, o que equivale a aproximadamente 322 meses no ar, ou seja, se você escolher assistir todas na íntegra no Globo play, com um capítulo por dia, irá demorar cerca de 27 anos.

Entre os autores lembrados aqui, já nos despedimos de Janete Clair em 1983, Dias Gomes em 1999, Ivani Ribeiro em 1995 e Cassiano Gabus Mendes em 1993.

Benedito Ruy Barbosa é o autor com mais idade – 89 anos – seguido de Manoel Carlos com 87. Ambos não escrevem mais novelas.

Alguns dos atores e atrizes citados nesses oito capítulos também já se foram. Tornaram-se estrelas ainda maiores e vivem intensamente nas obras das quais fizeram parte: Tônia Carrero, Paulo Autran, Lilian Lemmertz, Dina Sfat, Raul Cortez, Rogério Cardoso, Paulo Goulart, Thales Pan Chacon, Chico Anysio, Rubens de Falco, Maria Alice Vergueiro, Armando Bógus, José Wilker, Tereza Rachel, Gianfrancesco Guarnieri, Yoná Magalhães, Miriam Pires, Guilherme Karan, Ileana Kwasinski, Walmor Chagas, Daniela Perez, Marília Pera, Paulo Gracindo, Eloísa Mafalda, João Carlos Barroso, Yara Amaral, Hugo Carvana, Cláudio Marzo, Dercy Gonçalves, Antônio Abujamra, Betty Lago, Marcos Paulo e todo o conselho do reino de Avilan: Jorge Dória, Carlos Augusto Strazzer, Laerte Morrone, John Hebert e Oswaldo Loureiro. Meus respeitos e saudades. Aplausos.

Dos monstros sagrados da atuação em nosso país, ainda em atividade, com mais idade, meus aplausos de pé para Lima Duarte – 90 anos e para as atrizes Fernanda Montenegro – 90 anos e Laura Cardoso – 92 anos.

Assim é feita a melhor fábrica de telenovelas do planeta. Não só dos gigantescos estúdios do Projac, mas, sobretudo, do talento de nossos atores e atrizes, produtores, cenógrafos, figurinistas, contrarregas, câmeras, fotógrafos, visagistas, camareiros, diretores; enfim, de todos aqueles que dão vida à imaginação do profissional onde tudo isso começa: o Autor.

A seguir cenas dos primeiros capítulos...

FIM

Sem comentários. 

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Pequeno Almanaque de uma Propaganda de Novelas - Penúltimo Capítulo


Paulo Rocco

Chaplin na abertura
de "O Dono do Mundo".
E chegamos ao penúltimo capítulo desse almanaque abrangendo as novelas que estarão disponíveis na Globoplay, de acordo com a publicidade veiculada pelo canal de streaming nas últimas semanas.

Mais do que resenhas que relembrem sucessos incontestáveis, escrevi sobre autores e autoras geniais, personagens pelos quais nos apaixonamos e outros que adoramos odiar, atores e atrizes espetaculares e tramas que nos levaram a lugares físicos e oníricos, muito além do que a maioria de nós imaginava. E ainda há muitos sonhos – dos autores e nossos – por vir.

Mulheres Apaixonadas – 2003. Mais uma Helena, mais Leblon, mais bossa nova, mais conversas no jantar. Apesar de ser admirador do trabalho de Manoel Carlos enquanto autor, seu estilo de novela não é o meu preferido. Mas não é por isso que não tenha seus méritos e milhões de fãs. Aqui a Helena de Christiane Torloni é diretora em uma escola no Rio. A instituição de ensino pertence ao marido Téo (interpretado por Tony Ramos) e à irmã dele, Lorena (Suzana Vieira). O casal tem um filho adotado que, na verdade, é filho de Téo com Fernanda (Vanessa Gerbelli) que era garota de programa e que tem outra filha, Salete (Bruna Marquezine (outra razão pela qual não aprecio a novela). No mais, várias personagens femininas têm problemas envolvendo temas como amor, traição, casamento, paixões, ou seja; o básico em uma obra teledramatúrgica. Uma centena de personagens desfilou por essa trama, onde alguns se sobressaíram, como Clara (Alinne Moraes) e Rafaela (Paula Picarelli) que tinham um romance. Outro destaque foi a malvada Dóris, vivia por Regiane Alves, que atormentava a vida dos avós. Uma campanha social – extremamente útil nos dias sombrios pelos quais passa hoje o Brasil – foi a do desarmamento, tendo como mote a trama de Fernanda e Téo, vítimas de bala perdida. Inclusive o elenco participou de passeata no Rio pelo Estatuto do Desarmamento que seria votado no Congresso Nacional. E que hoje está enterrado sob o que você já sabe. A abertura foi com a maravilhosa “Pela Luz Dos Olhos Teus”, com Tom e Miúcha. A novela teve 203 capítulos.

O Dono do Mundo – 1991. Essa sim, era no estilo que eu gosto e já disse aqui: com protagonistas poderosos – para o bem ou para o mal. A novela de Gilberto Braga sofreu ataques já no início, pela sinopse e pelos primeiros capítulos, embora eu pense terem sido infundados – e isso em um tempo onde não havia nem o embrião das redes sociais. Afinal é uma obra de ficção. Antonio Fagundes é o cirurgião plástico Felipe Barreto e no dia do casamento do seu funcionário Walter (Tadeu Aguiar), aposta com um amigo que levará a noiva virgem dele, Márcia (Malu Mader), para a cama antes do marido. Para concretizar seu plano sórdido, presenteia o casal com uma lua de mel no Canadá e vai junto, alegando uma viagem de negócios. Ele ganha a aposta. Com o desespero de ver a mulher nos braços do médico, Walter sofre um acidente de carro e morre. Humilhada e rejeitada, Márcia decide se vingar de Felipe e se une a uma cafetina, Olga Portela (a deusa Fernanda Montenegro). E de onde vieram os ataques? Tanto pela canalhice do médico (até ameaças de associações de cirurgiões plásticos houve, indignados com a postura do “colega”) quanto a maneira “fácil” como a mocinha teria se entregue a ele. O autor teve que fazer algumas mudanças para “amenizar” sua história – o que hoje geraria discussões porque, tanto temos situações em séries e novelas que superam essa premissa, quanto o “politicamente correto” – na maioria das vezes sem qualquer argumento sensato – declararia guerra. Polêmicas de lado, eu gosto dessa novela. E, claro, essa obra tem um dos casais mais lembrados da teledramaturgia brasileira: Beija-Flor e Taís (Ângelo Antonio e Letícia Sabatella). A abertura se tornou clássica. Com a belíssima música “Querida”, de Tom Jobim, era reproduzida a mais icônica sequência do filme “O Grande Ditador”, com Chaplin imitando Adolf Hitler, brincando com o mundo (redondo, claro).  Na vinheta de Hans Donner, belas mulheres apareciam dentro do globo terrestre. A novela teve 197 capítulos.

Top Model – 1989. De Walter Negrão e Antonio Calmon, essa divertida trama fez um enorme sucesso, sobretudo com o público jovem. O surfista Gaspar Kundera (Nuno Leal Maia) cria os filhos Elvis (Marcelo Faria), Olívia (Gabriela Duarte), Jane (Carol Machado), Ringo (Henrique Faria) e Lennon (Igor Lage); cada um de uma mãe diferente. Seu irmão Alex (Cecil Thiré, um dos meus atores preferidos) é dono de uma agência de modelos e de uma confecção famosa. O sucesso veio de uma mistura de assuntos que hoje é comum em “Malhação”: os filhos de pais divorciados tinham que lidar com a separação, menstruação, masturbação, gravidez precoce, entre outros. Malu Mader era a modelo daquela que seria a trama principal, mas acabou ficando em segundo plano com o sucesso da família da Gaspar. Rita Lee fez uma participação como mãe de um dos filhos do surfista. A abertura, inspirada nos quadros do artista holandês Escher era com a música “Eu Só Quero Ser Feliz”, do grupo Buana 4. A novela teve 198 capítulos.

Renascer – 1993. O estilo épico de Benedito Ruy Barbosa está de volta na história de José Inocêncio (Leonardo Vieira, na primeira fase e Antônio Fagundes, na segunda) que chega a Ilhéus, na Bahia e finca seu facão em uma árvore, um jequitibá, que passa a representar sua vida, acompanhando o personagem durante toda a novela. Ele vira um empresário do ramo de Cacau. A mulher morre ao dar à luz ao quarto filho, João Pedro (Marcos Palmeiras), rejeitado então pelo pai daí em diante. Com a chegada de Mariana (Adriana Esteves), os dois se apaixonam por ela. Ela é neta de Belarmino (José Wilker), inimigo de José Inocêncio que é morto na primeira fase. Ela aparece para se vingar, mas se apaixona pelo coronel. Paralela à clássica trama de vingança surge histórias como a de Tião Galinha (Osmar Prado), catador de caranguejo e que denuncia as condições de trabalho e de vida precária no país. Maria Luisa Mendonça vive uma de suas personagens mais lembradas, a hermafrodita Buba, por quem José Venâncio (Taumaturgo Ferreira), um dos filhos do coronel, apaixona-se. A novela também entrou em temas como reforma agrária e corrupção. Um fato de que todos se recordam é do diabinho criado dentro de uma garrafa pelo coronel e a quem ele atribui seu sucesso nos negócios. Na abertura, a música “Confins”, com Ivan Lins. A novela teve 213 capítulos.

Meu Bem, Meu Mal – 1990. Depois de uma série de tramas escritas para o horário das sete, Cassiano Gabus Mendes desenvolve essa novela para ser exibida às 20 horas. Dom Lázaro (Lima Duarte) é um empresário paulistano e dono da Venturini Designers. Seu sócio e inimigo é Ricardo Miranda (José Mayer), filho de sua mulher em uma relação adúltera. Ricardo é amante de Isadora (Silvia Pfeifer), viúva do filho de Lázaro. Ao descobrir o caso dos dois, o empresário sofre um derrame, o que rendeu desde cenas dramáticas até algumas involuntariamente engraçadas com ele repetindo que queria “melões”. Um destaque dessa novela foi o ator Guilherme Karan, o mordomo Porfírio, que era completamente apaixonado pela “divina” Magda, personagem de Vera Zimermann. A abertura, claro era com “Meu Bem, Meu Mal”, de Caetano, cantada por Marcos André. A novela teve 173 capítulos.

Continua... 

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quarta-feira, 3 de junho de 2020

Pequeno Almanaque de uma Propaganda de Novelas - Capítulo 6


Paulo Rocco

Sônia Braga na Frenetic Dancing Days.
Escrevo esse capítulo da nossa jornada pelas novelas que estão/estarão disponíveis no Globoplay – na ordem que apareceram na propaganda do serviço de streaming – no dia em que parte Maria Alice Vergueiro. Coincidentemente ela está no elenco de uma das novelas a terem sua resenha nesse artigo: “Sassaricando”, umas das duas em que participou na Rede Globo, ao lado de “Bebê a Bordo”. À grande atriz dos nossos palcos e telas, minha homenagem.

Barriga de Aluguel – 1990. Depois de terminar “Eu Prometo”, onde colaborava com Janete Clair após sua morte, de escrever “Partido Alto” com Aguinaldo Silva e de uma passagem pela Rede Manchete onde escreveu “Carmen”; Glória Perez tem sua estreia como autora principal nessa novela que já mostrava o caminho a ser seguido em suas obras. O tema científico estava presente na discussão sobre a inseminação artificial envolvendo mães de aluguel. Cássia Kiss é Ana que tem um casamento até então maravilhoso com Zeca (Victor Fasano), mas eles não conseguem ter filhos. Clara (Cláudia Abreu) é então contratada para ser mãe de aluguel, ou seja, gerar em seu útero o filho do casal. Pobre, a moça aceita a missão colocando um fim no seu romance com o caminhoneiro João (Humberto Martins) e é expulsa de casa pelo pai religioso Ezequiel (o grande Leonardo Villar). Claro que há os conflitos onde Ana sofre por não sentir os prazeres e dores da gravidez e onde Ana reluta em saber que a criança será entregue aos pais depois de nascer. E como uma novela que se preze, Clara acaba ainda se apaixonando por Zeca. Enquetes com pessoas reais alimentavam a discussão e as brilhantes participações de Mário Lago e Beatriz Segall como médicos, incentivavam o debate. Em 2001 a dupla voltou em uma participação especial em “O Clone”. Para o resultado final e jurídico de quem ficaria com a criança, a autora contou com a assessoria de dois juízes reais. A abertura era com a música “Aguenta Coração” de José Augusto. Daniela Perez, filha de Glória, estreou nessa obra, no papel de uma dançarina. A novela teve 243 capítulos, a maior até agora nessa lista, ficando quase 10 meses no ar.

Dancin’ Days – 1978. A mais antiga desse “almanaque”. Escrita por Gilberto Braga foi um divisor de águas no comportamento do jovem nacional que, inspirado pelo que vinha acontecendo no mundo, rendeu-se as discotecas e à moda que vinha das pistas. Duas irmãs, a ex-presidiária Júlia (Sônia Braga) e a socialite Yolanda (Joana Fomm) são rivais. Após 12 anos na prisão, Júlia tenta se adaptar novamente à sociedade e se aproximar da filha Marisa (Glória Pires, aos 15 anos). Nessa busca conhece o diplomata Cacá (Antônio Fagundes) com quem vive um romance, mas ela acaba se casando com Ubirajara (Ary Fontoura), um milionário. A grande reviravolta – que, perdão por me repetir, nos adoramos e aguardamos em quase todas as novelas – é quando Júlia volta da Europa completamente mudada. Uma cena icônica é o show de dança que Júlia protagoniza da Frenetic Dancing Days, a discoteca da novela que virou febre imediata. Com sequencias inspiradas no filme “Os Embalos de Sábado à Noite”, a história se consagrou tanto pelo enredo quanto pela moda lançada. A abertura era ao som das Frenéticas no hino “Dancing Days”, composto por Nelson Motta. A trilha musical vendeu perto de 1 milhão de cópias e as meias coloridas desapareciam das lojas. Foi a primeira novela brasileira exibida no México, também famoso produtor de teledramaturgia. A novela teve 174 capítulos.

Felicidade – 1991. Manoel Carlos traz uma nova Helena (Maitê Proença) nessa história inspirada em contos de Aníbal Machado, sobretudo “Tati, a Garota”. Na cidade de Vila Feliz, Helena se apaixona por Álvaro (Tony Ramos), mas ela acaba se casando com Mário (Herson Capri). Sempre tem um “acaba se casando com outro” nas novelas, na boa intenção dramatúrgica, claro. Depois de oito anos e com uma filha (Tatyane Goulart), Helena se separa e vai trabalhar no Rio com a mãe de Álvaro, Cândida (Laura Cardoso). Ele está casado com Débora (Viviane Pasmanter). Claro que a filha é de Álvaro e vendo a paixão do marido por Helena, Débora se torna a “vilã” da história. A música e abertura era “Felicidade” com Roupa Nova. A novela teve 203 capítulos.

Fera Ferida – 1993. Mais uma de Aguinaldo Silva, Ricardo Linhares e Ana Maria Moretzsohn, desta vez livremente baseados no universo literário de Lima Barreto. O cenário é Tubiacanga, para onde Feliciano Júnior (Edson Celulari) volta para se vingar da morte dos pais. José Wilker interpreta o prefeito Demóstenes, inimigo de Feliciano, assim como Praxedes (Juca de Oliveira), Numa Pompílio (Hugo Carvana) e major Bentes (Lima Duarte). Todos estão na lista de vinganças a serem efetuadas, mas Feliciano se apaixona por Linda Inês, filha do prefeito. Com o nome de Raimundo Flamel, Feliciano atiça a cidade dizendo ser um alquimista capaz de transformar ossos em ouro, fazendo com que o poço comece a violar as sepulturas da cidade. Adentrando ao universo do Realismo Fantástico mais uma vez, tudo o que Flamel toca acaba virando ouro, inclusive sua amada Linda. Camila (Cláudia Ohana) é um anjo que dorme por meses e acorda ao sentir o cheiro de estrogonofe de bacalhau (fico pensando como a cabeça dos autores pode pensar em coisa assim, no melhor dos sentidos, claro) e Cláudio Marzo interpreta Orestes, um coveiro que fala com os mortos. Uma cena marcante foi quando Rubra Rosa (Susana Vieira) faz amor com seu amante Demóstenes e tudo ao redor se incendeia. Esse fato também acontecia com a personagem de Sônia Braga, em “Saramandaia”. Cássia Kiss é a divertida Ilka Tibiriçá, que prepara receitas exóticas para ajudar curar Ataliba Timbó (Paulo Gorgulho) da impotência sexual. A música de abertura é uma das melhores composições de Roberto e Erasmo Carlos, em minha opinião e ganhou aqui a versão definitiva na intensa interpretação – quase teatral – de Maria Bethânia para os tristes versos. A novela teve 221 capítulos.

Sassaricando – 1987. Que delícia é ver Paulo Autran em cena. Sempre. E nessa novela de Silvio de Abreu ele faz o impagável Aparício Varella que, após a morte da esposa, passa a namorar três mulheres ao mesmo tempo: Rebeca (Tônia Carrero), Leonora (Irene Ravache) e Penélope (Eva Wilma). Repare no time em cena. Cristina Pereira interpreta outra personagem inesquecível da nossa teledramaturgia: Fedora, a mimada filha de Aparício, que é casada com Leonardo Raposo (Diogo Vilela), um assassino que só mata alvos errados. Também atormentam o velho protagonista as cunhadas Fabíola (Ileana Kwasinski) e Lucrécia (a grande homenageada de hoje, Maria Alice Vergueiro). Até a esposa (Jandira Martini), volta da morte para infernizá-lo. Cláudia Raia brilha no papel de Tancinha, a feirante que ficava “divididinha” entre os amores de Beto (Marcos Frota) e Apolo (Alexandre Frota). A música de abertura, claro, era a marchinha carnavalesca “Sassaricando”, gravada por Rita Lee. A novela teve 184 capítulos.

Tropicaliente – 1994. O litoral cearense foi cenário dessa ensolarada novela de Walter Negrão. A trama é simples: Letícia (Silvia Pfeiffer) larga a família para morar com o pescador Ramiro (Herson Capri). Depois que ele desaparece por três meses no mar, ela acha que foi abandonada e volta para a casa dos pais. Anos depois eles se reencontram. Ela, agora viúva, volta a se envolver com Ramiro, mas também é desejada por François (Victor Fasano). O pescador é casado com Serena (Regina Dourado). Outros romances que encantaram na novela foram com o casal Dalila (Carla Marins) e Cassiano (Márcio Garcia) e entre as personagens de Açucena (Carolina Dickermann) e Vitor (Selton Mello). Em resumo: Histórias de amor em belos cenários. A música de abertura foi “Coração da Gente” com Elba Ramalho. A novela teve 197 capítulos.

Continua...

Sem comentários.

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Pequeno Almanaque de uma Propaganda de Novelas - Capítulo 5


Paulo Rocco

Capa da Veja em 1985. 
Começamos a entrar na reta final – ou pelo menos na segunda metade – desse pequeno almanaque sobre grandes obras da nossa teledramaturgia que estão e estarão disponíveis no serviço de streaming Globoplay e que foram divulgadas na propaganda.

Estamos nos capítulos finais desse garimpo em busca de personagens inesquecíveis – que se tornaram tão reais que parece ser possível que os encontremos ao dobrar a esquina em época de não isolamento social, de acontecimentos fictícios que poderiam ter saído de livros de história e de tramas que – nascidas das cabeças de geniais autores – invadiram nossas memórias e se tornaram parte de nossas vidas.

Os mais atentos hão de perceber duas ocasionalidades nos textos: às vezes o tempo dos verbos se confunde, já que estou escrevendo sobre novelas que foram exibidas e que, no entanto, estão ou estarão de novo nas telas. E a outra particularidade é que, em alguma resenha é inevitável o spoiler, mas ao contrário das atuais séries de televisão, novela sempre foi “impulsionada” também pelo spoiler antes mesmo de o conhecermos como tal. As famosas revistas de TV e hoje os sites, inclusive da própria emissora – trazem o resumo e acontecimentos dos capítulos antes de serem exibidos.

Isto posto vamos às obras deste capítulo:

Pedra Sobre Pedra – 1992. Nesse grande sucesso, Aguinaldo Silva, Ricardo Linhares e Ana Maria Moretzsohn escancaram o realismo fantástico (sobre o qual falei no capitulo 3 dessa saga). Renata Sorrah é Pilar Batista e Lima Duarte interpreta seu inimigo político Murilo Pontes. A fictícia cidade de Resplendor, localizada na Chapada Diamantina e no mesmo universo de Greenville, Tubiacanga, Asa Branca ou Serro Azul; é o palco da disputa entre esses dois rivais que já foram amantes. A sina de “Romeu e Julieta” volta em Marina (Adriana Esteves) e Leonardo (Mauricio Mattar), herdeiros apaixonados das famílias que se odeiam. Fábio Júnior faz o papel da sua vida na pele de Jorge Tadeu, o fotógrafo que é assassinado, mas aparece para seduzir as mulheres que comem a flor que nasce em seu túmulo. A flor é uma espécie do Antúrio, escolhida por seu formato fálico, talvez. Jorge Tadeu, que depois de morto tinha seu corpo coberto de borboletas, virou febre nacional. Outro personagem inesquecível foi o Sérgio Cabeleira de Osmar Prado, que sofre de terríveis dores de cabeça em noites de lua cheia (aliás, “noites de lua cheia” costumam alterar personagens e acontecimentos em várias novelas de Aguinaldo). Miriam Pires interpreta Dona Quirina que aos 120 anos tem uma memória perfeita. Outro ponto marcante do realismo fantástico foi o vilão Cândido Alegria (Armando Bógus) – atenção para Spoiler – virar pedra no final da novela. Em tempo: Murilo Pontes voltou a participar em algumas cenas de “A Indomada”. Devido ao grande sucesso, essa obra que teve coprodução da emissora RTP de Portugal, foi vendida para vários países, inclusive Cuba, onde alcançou êxito também. A abertura foi com o grande sucesso “Pedras Que Cantam” de Fagner e, a exemplo de “Tieta”, trazia uma bela modelo, Mônica Fraga, nua, com seu corpo se unindo à natureza. Depois Mônica se tornou atriz chegando a participar de “Senhora do Destino”. A novela teve 176 capítulos.

Brega e Chique – 1987. Uma deliciosa trama de Cassiano Gabus Mendes, autor de primeira grandeza que participou da fase inaugural da TV no Brasil e foi responsável por inúmeros programas de sucesso. Sua novela de estreia na Globo foi “Anjo Mau”, em 1976. Nessa aqui, o personagem de Jorge Dória, o empresário Herbert Alvaray, tinha duas famílias e simula sua morte para fugir do país. Suas duas mulheres interpretadas por Marília Pêra, a chique e Glória Menezes, a brega; tornam-se amigas sem saber do “parentesco”. Naquelas viradas que amamos, Rosemere da Silva (Glória) herda uma fortuna e passa a ensinar Rafaela (Marília) a economizar depois dela ficar endividada com a “morte” do marido. O tal volta ao país com outro nome e outra cara (agora vivido por Raul Cortez). A abertura é uma das mais lembradas da história das telenovelas e mostrava um modelo nu, ao som da música “Pelado”, da banda Ultraje a Rigor. Por um tempo a famigerada censura federal exigiu que uma folha de parreira (!) fosse colocada para tapar a bunda do homem. Depois de muita negociação, a versão original voltou a desfilar todas as noites em nossas salas. A novela teve 173 capítulos.

Roque Santeiro – 1985. Essa próxima resenha deveria ser escrita de joelhos. Não é uma novela apenas. Ultrapassou qualquer parâmetro da teledramaturgia. Virou mania nacional. Tornou-se objeto de estudos acadêmicos. Transformou a vida de vários dos envolvidos em sua produção e recebeu o título de clássico absoluto. Foi eleita pela revista Veja (da qual foi capa) como uma das três melhores telenovelas brasileiras – ao lado de “Vale Tudo” (de Gilberto Braga e Aguinaldo Silva) e “Avenida Brasil” (de João Emmanuel Carneiro). E tem história aqui.

Com uma audiência invejável, a trama de Dias Gomes e Aguinaldo Silva, foi baseada na peça escrita pelo primeiro, “O Berço do Herói”, proibida pela Ditadura Militar em 1963 e montada apenas dois anos depois. Em 1975, Dias tentou levar sua novela ao ar com o título “A Incrível história de Roque Santeiro e sua fogosa viúva, a que era sem nunca ter sido”. A censura implacável também proibiu a novela. Dez anos mais tarde, no entanto, sob os ares da Nova República e o “fim da censura”, “Roque Santeiro” estreou.

Na fictícia Asa Branca os moradores vivem em torno dos supostos milagres de Roque Santeiro, um coroinha que teria sido morto ao defender a cidade de um bandido, conforme cantado na música de Sá e Guarabira. Dezessete anos depois o tal reaparece, ameaçando a paz local e o poder de Sinhozinho Malta (um dos melhores papéis de Lima Duarte, ao lado de Zeca Diabo, em minha opinião), do prefeito Florindo Abelha (Ary Fontoura), do comerciante Zé das Medalhas (Armando Bógus) e até do padre Hipólito (Paulo Gracindo). Sinhozinho é amante da fogosa “viúva” Porcina que dizia ter sido casada com Roque. A que foi sem nunca ter sido foi vivida intensamente por Regina Duarte, maravilhosa no papel que a afastou do título de “namoradinha do Brasil” e da imagem de mocinha correta das outras novelas.

Discorrer sobre a trama aqui exigiria um artigo à parte, mas é impossível não citar personagens como o mulherengo ator Roberto Mathias (Fábio Júnior) que interpreta Roque Santeiro em uma filmagem que ocorre na cidade sobre a vida do seu ilustre morador; o padre vivido por Cláudio Cavalcanti, que defende contar a verdade sobre a não morte de Roque e se envolve com Tânia (a linda Lídia Brondi), filha de Sinhozinho e as dançarinas da boate Sexus: Ninon (Cláudia Raia em sua estreia em novelas) e Rosaly (Isis de Oliveira). As meninas comandadas por Matilde (Yoná Magalhães) enfrentavam as beatas comandadas por Pombinha Abelha (Eloísa Mafalda), mulher do prefeito de Asa Branca. Lucinha Lins também está adorável como Mocinha, a eterna noiva de Roque Santeiro, que permanece virgem até a volta do mesmo. Difícil não lembrar também de Jiló (João Carlos Barroso) o guia turístico de Asa Branca. Outro personagem icônico é o professor Astromar (Rui Rezende), que nas noites de lua cheia vira lobisomem.

Há pouco tempo perguntei a Aguinaldo Silva se, enquanto escritores e colaboradores, eles tinham muito contato com Dias Gomes ou a missão de escrever os capítulos era mesmo dele? O autor respondeu: “Quando a novela estreou, Dias estava viajando pela Europa e, antes de ir, nos dera carta branca. Quando ele voltou, eu já estava no capítulo cento e poucos e a novela era o que era. A certa altura ele decidiu fazer reuniões quinzenais para que eu dissesse a ele o que tinha planejado para os próximos capítulos. Até que, num dado momento, quando faltavam 30 capítulos para o fim, ele decidiu que escreveria o final da novela. Ainda fiquei dois blocos e saí quando faltavam dezoito capítulos, mas aí a novela foi esticada em mais trinta e ele continuou até o fim com Joaquim (Assis) e Marcílio (Moraes)”.

Em um post no facebook, no início de maio, Aguinaldo fala da novela: “Roque Santeiro me dava a mesma alegria que dava ao povo. Mas não era nisso que pensava quando, junto com Joaquim Assis e Marcílio Moraes, produzíamos um após outro, seus capítulos diários. Eu pensava no que já acontecera com a novela antes por conta da censura - os cortes, as restrições que resultariam na morte de personagens e tramas e, por fim, o pior de tudo: a proibição de um produto cultural de tamanho alcance e, em sua essência e no bom sentido, tão subversivo. A nós o que cabia era resgatá-la do seu passado terrível. Sim, a alegria de escrever a novela era menor que o senso da responsabilidade de escrevê-la. Porém, maior que tudo isso era a própria novela, que saía de nossas máquinas de escrever aos borbotões, afinal sem nada que a constrangesse".

O último capítulo trouxe uma referência ao clássico “Casablanca”, reproduzindo quase em detalhes a sequência final do filme de Michael Curtiz. A abertura trazia o grande sucesso “Santa Fé” de Moraes Moreira, carro-chefe de uma trilha de clássicos imediatos da MPB. A história de sucesso ganhou um pequeno romance adaptado por Mauro Alencar em 2008 e um musical há três anos. A novela teve 209 capítulos.

Continua...

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sábado, 30 de maio de 2020

Pequeno Almanaque de uma Propaganda de Novelas - Capítulo 4


Paulo Rocco

A deslumbrante Natasha
e o Conde Vlad de "Vamp".
Nesse nosso quarto capítulo sobre as obras mais marcantes da teledramaturgia brasileira, que estarão disponíveis na Globoplay, alguns sucessos incontestáveis que frequentaram nossas salas por tantos anos. Obrigado a todos que estão acompanhando essa viagem e relembrando vidas de personagens que se misturam à nossa.

Fera Radical – 1988. Assim como Walcyr Carrasco em partes de “Chocolate com Pimenta”, Walter Negrão teria se inspirado na peça “A Visita da Velha Senhora”, de Friedrich Dürrenmatt, para escrever essa novela. Para vingar o assassinato de sua família, Cláudia (Malu Mader) cria uma nova identidade e trabalha como empregada na fazenda cujos proprietários são suspeitos pelo crime. A história de amor é entre Cláudia e Fernando, personagem de José Mayer, filho do fazendeiro Altino Flores (Paulo Goulart). A vilania fica por conta de Marília (Carla Camurati) que tem um caso proibido com Fernando, apesar de ser casada com o irmão dele, interpretado por Thales Pan Chacon, falecido precocemente em decorrência da AIDS aos 41 anos, em 1997. Yara Amaral, no papel de Joana, mulher de Altino, também persegue a mocinha. A música de abertura foi gravada pela cantora Solange e mostrava Malu mexendo em um computador com tela ainda com linguagem em DOS. A novela teve 203 capítulos.

Vamp – 1991. Sucesso absoluto. Amada por uma geração, essa novela de Antonio Calmon ganhou uma continuação (“O Beijo do Vampiro”, em 2022) e mais recentemente um musical de sucesso. Não havia um adolescente ou jovem na época, inclusive eu, que não fosse apaixonado pela cantora de rock Natasha, interpretada por Cláudia Ohana. E é ela que chega à pacífica e fictícia cidade de Armação dos Anjos para bagunçar a vida de muita gente. Natasha é uma vampira que se tornou famosa após um pacto com o conde Vlad (papel icônico de Ney Latorraca, repetido nas versões citadas acima). Reginaldo Faria faz o capitão Jonas Rocha, viúvo e pais de seis filhos que se casa com Carmen Maura (Joana Fomm), também viúva e também com seis filhos. Esses 12 foram um sucesso à parte na novela, por suas aventuras ao estilo Goonies. Há também a rádio Corsário (que gerou um disco extra de trilha sonora com a programação a emissora). Outros personagens inesquecíveis são o padre Garotão (Nuno Leal Maia) e a família de vampiros de Matoso, formada por Otávio Augusto, Patrícya Travassos e os filhos Matosão (Flávio Silvino) e Matosinho (André Gonçalves). Impagáveis. Inclusive, Matoso era um vampiro com um só dente. Um momento marcante da novela foi o clip de Vlad e vários mortos-vivos dançando “Thriller” de Michael Jackson, cena repetida nos palcos com Latorraca e Ohana. A trilha sonora rendeu grandes sucessos, como a versão de Cláudia Ohana para “Sympathy for the Devil” dos Stones. A música de abertura era “Noite Preta” cantada por Vange Leonel, que infelizmente nos deixou aos 51 anos de idade. A novela teve 179 capítulos.

Rainha da Sucata – 1990. Silvio de Abreu criou aqui um dos grandes sucessos de sua carreira repleta deles. Os característicos tons de comédia ganharam alguns contornos dramáticos na história de Maria do Carmo (Regina Duarte, pré-tudo isso) que fica rica com o ferro-velho do pai vivido por Lima Duarte. Apaixona-se por Edu (Tony Ramos) que a humilhava na juventude, mas que está à beira da falência. Ela casa-se com ele e vai morar no casarão dos Figueroa, nos Jardins, bairro nobre paulistano. A madrasta de Edu, Laurinha Figueroa (Glória Menezes) passa a infernizar Maria do Carmo, por ser obcecada pelo enteado. Daniel Filho interpreta Renato Maia, um corrupto que aplica um golpe na protagonista e destrói os negócios de Laurinha. Uma cena marcante da novela é o suicídio de Laurinha se atirando de um dos prédios da Avenida Paulista, em uma da poucas vezes que algo assim foi mostrado em uma novela. Para complicar a trama ela tinha nas mãos um brinco de Maria do Carmo. Uma personagem que transcendeu a novela foi a Dona Armênia de Aracy Balabanian e seus filhos interpretados pelos atores Marcelo Novaes, Jandir Ferrari e Gerson Brenner. O bordão “Na chon” era repetido diariamente por milhares de pessoas pelo país afora. A família voltou na novela “Deus nos Acuda”, dois anos mais tarde. Um casal de sucesso da história foi a Adriana, de Cláudia Raia – a “bailarina da coxa grossa” – e o professor gago vivido por Antonio Fagundes.  Marisa Orth com sua Nicinha também construiu uma grande personagem. A música de abertura foi o grande sucesso “Me Chama que eu Vou”, de Sidney Magal e ajudou a alavancar o sucesso da lambada, febre musical na época. A novela foi a primeira da emissora a não ter mais as “Cenas do Próximo Capítulo” e durou 177 capítulos.

Sinhá Moça – 2006. Sinceramente não sei qual das duas versões será colocada no catálogo da Globoplay, então vou falar sobre a mais recente, o remake de 2006, exibido 20 anos após a primeira versão da novela de Benedito Ruy Barbosa. A história de Sinhá Moça (Débora Falabella repetindo o papel que havia sido de Lucélia Santos) que é filha do Barão de Araruna (Osmar Prado no papel defendido por Rubens de Falco na primeira versão) é baseada no romance de Maria Dezonne Pacheco Fernandes e foi um grande sucesso mundial em 1986, o que motivou a nova produção. Abolicionista, Sinhá Moça enfurece o pai com suas ideias e se apaixona pelo advogado Rodolfo (aqui vivido por Danton Mello). Esta obra foi indicada ao Emmy Internacional na categoria de Série Dramática e Milton Gonçalves concorreu ao prêmio de Melhor Ator pelo papel de Pai José. Chico Anysio também chegou a participar da novela. A música de abertura foi gravada por Leonardo. A novela teve 185 capítulos.

Cabocla – 2004. Essa é o mesmo caso, mas acredito que a novela que estará de volta, claro, seja a versão deste ano citado. Escrita pelas filhas de Benedito Ruy Barbosa e supervisionada pelo próprio, é o remake do grande sucesso de 1979. Aqui a história é sobre a disputa por terras e o romance entre a cabocla Zuca (Vanessa Giácomo) e Luís Gerônimo (Daniel de Oliveira). Indo morar no campo para cuidar da saúde, o rapaz se apaixona pela doce mocinha, que desiste do casamento com o peão Tobias (Malvino Salvador). Os atores Tony Ramos e Mauro Mendonça dão vida aos coronéis rivais Boanerges e Justino cujos filhos, no melhor estilo shakespeariano, se amam. Uma curiosidade é que temas polêmicos e que não puderam ser abordados devidamente na primeira versão – graças à Ditadura Militar – voltaram no remake com mais intensidade, como as questões de posse de torre e usucapião. A música de abertura era cantada pelo grupo Madrigal. A novela teve 167 capítulos.

A Viagem – 1994. Outro remake, mas desta vez de uma novela da TV Tupi. A original, de 1975, é uma de minhas primeiras lembranças de novela, de assistir na televisão em preto-e-branco na casa do meu avô. Tenho a imagem nítida na memória dos portões de um jardim que provavelmente era o céu da história. A trama da genial Ivani Ribeiro foi o último grande sucesso da extinta TV paulistana, já começando a ser ameaçada pela Rede Globo. Seguindo a doutrina espírita Kardecista, a autora mostrava vários personagens em suas vidas terrenas e depois de desencarnarem. Alexandre (Guilherme Fontes) é um bandido que se mata na cadeia, após ser condenado por homicídio. Já no Além, é mandado ao vale dos suicidas. De lá ele atormenta a vida na Terra, principalmente daqueles que julga culpados por seu destino. Seu irmão Raul (Miguel Falabella), Theo (Maurício Mattar) que é seu cunhado e o advogado Otávio Jordão (Antonio Fagundes) são os que mais sofrem as ameaças do espírito. Quando sua irmã Dinah (Christiane Torloni), apaixona-se por Otávio, desencadeia de vez a fúria de Alexandre. Sessões espíritas e sequências passadas em um céu ao som de “Crazy” de Julio Iglesias, com coelhinhos brancos dando passeios, completam o cenário. O vale onde fica Alexandre é muito mais sofisticado que o paraíso, do ponto de vista cenográfico. E, ao menos que minha memória aos oito anos seja muito vaga, eu tenho um carinho mais especial pela primeira versão. A música de abertura era a bela canção “A Viagem” do Roupa Nova. A novela teve 160 capítulos.

A Próxima Vítima – 1995. De uma coisa não se pode negar: Silvio de Abreu foi ousado na premissa de algumas de suas tramas. É o caso desse grande sucesso onde o gênero policial invadia de vez a teledramaturgia tradicional como se estivéssemos em um jogo de tabuleiros tipo “Scotland Yard” ou “Detetive”. Um elenco cheio de estrelas como Aracy Balabanian, Cecil Thiré, Susana Vieira, José Wilker, Tereza Rachel, Cláudia Ohana, Natália do Vale, Yoná Magalhães, Gianfrasceco Guarnieri, Rosamaria Murtinho, Viviane Pasmanter, Lima Duarte, Vera Holtz, Marcos Frota, Otávio Augusto e Tony Ramos, entre outros; participavam de uma trama calcada em três questões: “Quem Matou?”, Por que matou?” e “Quem será a próxima vítima?”. Ao todo, onze personagens são assassinados e um Chevrolet Opala preto que segue as vítimas é a única ligação entre os casos. O verdureiro Juca (Tony Ramos) fez tanto sucesso na novela que barracas do mercadão de São Paulo ganharam seu nome, na época. A história se passava na Mooca e no Bixiga, recorrentes também na obra de Silvio de Abreu. Discussões sociais e raciais, com uma família negra bem sucedida, formada por Antônio Pitanga e Zezé Motta e a relação homossexual de Sandro (André Gonçalves) e Jefferson (Lui Mendes) foram outros pontos marcantes da novela. Se um “quem matou?” em novela já instiga o público, aqui a ferramenta foi usada em série. O tema de abertura era “Vítima”, de Rita Lee. A novela teve 203 capítulos.

Continua...

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quinta-feira, 28 de maio de 2020

Pequeno Almanaque de uma Propaganda de Novelas - Capítulo 3


Paulo Rocco

Italianos desembarcam no porto
de Santos em "Terra Nostra". 
Nesse terceiro capítulo da nossa volta ao passado através das obras mais marcantes da teledramaturgia brasileira, que estarão disponíveis na Globoplay, é possível notar o que, na verdade, sempre soubemos: somos os melhores do mundo na arte da telenovela. Impossível não notar a diversidade de tramas, personagens, cenários e tudo o mais que envolve a produção dessa fábrica de sonhos.

Por mais que leigos insistam em dizer que “novelas” são todas iguais, desafio a você, caro leitor, a encontrar nessa próxima lista de resenhas, histórias idênticas ou personagens parecidos. Claro que há uma “fórmula” quase sempre seguida pelos autores, que é a base do sucesso dessa Arte, mas a criatividade e a busca pelo novo – dentro do gênero obviamente – mesmo que sejam seguidas “regras”, resultam em obras que, aos olhos do público sempre se tornam únicas e inesquecíveis.

A Indomada – 1997. Aguinaldo Silva e Ricardo Linhares escreveram esse grande sucesso calcado no gênero do realismo fantástico, uma das marcas dos autores e que surgiu nas telenovelas brasileiras em “Saramandaia”, de Dias Gomes. A alcunha vem de uma forma de literatura do início do Século 20 e que ganhou força das décadas de 60 e 70 na América do Sul, sobretudo com Gabriel García Márquez e Arturo Uslar Pietri. Mas nosso foco aqui é a novela. A história se passa em Greenville, uma das muitas cidades criadas por Aguinaldo e onde se mistura o inglês dos colonizadores e o nordestino, em um dialeto peculiar e divertidíssimo. Eva Wilma interpreta a vilã Altiva – um de seus grandes papéis de uma lista imensa – e Ary Fontoura é o deputado Pitágoras, representantes nobres da corrupção local. A mocinha Helena é vivida por Adriana Esteves, filha de Zé Leandro (Carlos Alberto Riccelli), que morre em um naufrágio com a amada Eulália (também interpretada por Esteves na primeira fase), após ter conseguido enriquecer no garimpo. Helena é a única sobrevivente e vai estudar na Inglaterra antes de voltar e sofrer nas mãos de Altiva. Personagens impagáveis garantiram o sucesso da trama, como a prostituta Zenilda (Renata Sorrah), o prefeito Ipiranga Pitiguari (Paulo Betti) e sua esposa Scarlet (Luzia Tomé) – que voltaram a aparecer na recente “O Sétimo Guardião” – e a juíza Mirandinha (Betty Faria). Personagens que “voltam” também são constantes na obra do autor, como Pitágoras que esteve também em “Porto dos Milagres”. Alguns tiveram finais “mágicos” como Manoel (Selton Mello) que vira um anjo e Motinha, o delegado interpretado por José de Abreu, que cai num buraco indo direto para o Japão. Claro que não dá pra falar dessa novela sem citar o Cadeirudo, uma misteriosa figura que atacava as mulheres em noites de lua cheia. A música de abertura era instrumental. A novela teve 203 capítulos.

Torre da Babel – 1998. Essa obra de Silvio de Abreu foi de cara “rejeitada” pelo público. Acostumados à trama lebloniana de “Por Amor”, o telespectador se deparou com uma história que já iniciava com José Clementino (Tony Ramos) matando a mulher após flagrá-la em traição com dois homens. Ele mata também um dos homens e é condenado a 20 anos de prisão. Como sempre interpretava heróis românticos, o personagem de Ramos casou estranheza. Ao sair da cadeia, Clementino decide explodir o shopping Tropical Towers, de propriedade de César Toledo (Tarcísio Meira) tido como a testemunha-chave de sua prisão. Quando se apaixona por Clara (Maitê Proença), Clementino desiste da vingança. Mas alguém explode o shopping, deixando muitos mortos e feridos. Recheada de temas fortes para a época como drogas, homossexualismo e violência, a novela gerou mais polêmica que audiência. Christiane Torloni e Silvia Pfeiffer viviam as lésbicas Rafaela e Leila e Cláudia Raia era a psicopata Ângela. Com essa “inversão” de papéis de alguns atores e atrizes, a novela ficou marcada de forma não muito positiva, mesmo com mudanças na história por parte de Silvio, como a personalidade de José Clementino. Isso cabe dentro do que citei no primeiro parágrafo, talvez, sobre a inovação e a fórmula. Mas merece ser revista hoje. Um destaque que caiu nas graças do público foi Cacá Carvalho e seu inesquecível Jamanta. Uma curiosidade que demonstra o “poder de Deus” de um autor: Vários personagens rejeitados pelo público morreram na explosão do shopping. A música de abertura era um épico instrumental de Alberto Rosenblite, gravada com um coral poderoso. A novela teve 203 capítulos.

O Fim do Mundo – 1996. Foi a última novela escrita pelo genial Dias Gomes – ele viria a escrever ainda a adaptação de “Dona Flor e Seus Dois Maridos” para minissérie em 1998, um ano antes de sua morte em um acidente de carro. “O Fim do Mundo” era para ser originalmente também uma minissérie exibida às 22 horas, mas vários fatores a transformaram na mais curta novela das oito. Em seu lugar seria exibida “O Rei do Gado”, que substituiria “Explode Coração”, de Glória Perez, mas a novela de Benedito Ruy Barbosa estava com a produção atrasada. Decidiu-se então colocar a trama de Dias Gomes que se passa na fictícia Tabacópolis onde o paranormal Joãozinho de Dagmar (Paulo Betti) prevê a destruição do mundo dali a três meses. As personagens passam a correr contra o tempo para realizarem seus desejos mais secretos, que incluem desde a perda da virgindade pelas mocinhas até a soltura de detentos da prisão e loucos do hospício. Obviamente o mundo não acaba – não daquela vez – e todos tem que arcar com as consequências de suas loucuras. A música de abertura, claro, era “O Último Dia”, de Paulinho Moska. A novela teve apenas 35 capítulos o que, em minha opinião, deve torná-la uma das mais vistas no novo formato, por sua proximidade de duração com as atuais séries de streaming.

Terra Nostra – 1999. Essa é clássica também, não desmerecendo todas as outras, claro. Mas ela tem um tom de filme épico, da Era de Ouro de Hollywood. Talvez uma das mais caras produções da Globo. Benedito Ruy Barbosa nos trazia, na passagem entre os séculos XIX e XX, a história do romance entre Matteo (Thiago Lacerda) e Giuliana (Ana Paula Arósio), personagens da vida do casal de atores. Em 1894 os jovens italianos embarcam em um navio para o Brasil. Uma epidemia atinge a embarcação e a mocinha fica órfã. Os corpos dos doentes são jogados ao mar para evitar que a peste se espalhe (tenho arrepios ao escrever isso agora por razões óbvias). Uma cena fortíssima da novela e que arrebatou o público foi quando iam jogar um bebê ao mar, pensando ter morrido e ele chora segundos antes de ser atirado às águas. A novela foi toda carregada de fortes cores, seja na fotografia deslumbrante ou na construção das personagens e cenas. O casal principal chega ao nosso país e, claro, se perde um do outro, para que a clássica fórmula (de novo lembro a introdução desse artigo) se cumpra. Atores como Raul Cortez e Antonio Fagundes agigantam o sentido de épico que teve mais de cinco mil peças de figurinos confeccionadas e a adaptação de um navio a vapor de 1940 para se tornar o Andrea I da história. As cenas de embarque dos italianos foram filmadas em Southampton, na Inglaterra e no Canal da Mancha e reuniu cerca de 300 figurantes. O desembarque foi gravado no porto de Santos. Dois anos antes James Cameron emocionava o planeta com “Titanic” e algumas tomadas da novela foram inspiradas pelo filme americano. O tema de abertura era “Tormento d'Amore” nas vozes perfeitas de Charlotte Church e Agnaldo Rayol e se tornou um grande sucesso. A novela teve 221 capítulos.

A Gata Comeu – 1985. Ivani Ribeiro era o pseudônimo de Cleide Freitas Alves Ferreira, autora de 39 novelas e uma das precursoras do gênero. Entre seus clássicos absolutos estão “A Viagem”, “Mulheres de Areia” e “O Profeta”. Todos ganharam remakes, inclusive. Para se ter uma ideia da importância de Ivani, ela era admirada pela “maga das oito”, Janete Clair e por diversos teledramaturgos. “A Gata Comeu” é uma adaptação de sua novela “A Barba Azul”, exibida na TV Tupi nos Anos 70 e conta a história de Jô Penteado (Christiane Torloni) que fica noiva sete vezes sem nunca ter se apaixonado de verdade. Em uma excursão acaba ficando presa em uma ilha deserta onde se apaixona pelo professor Fábio Coutinho (Nuno Leal Maia). Claro que a história de amor terá seus reveses principalmente por culpa da noiva de Fábio, Paula (Fátima Freire) e Gláucia (Bia Seidl), irmã de Jô. O tema de abertura era “Comeu”, de Caetano Veloso, gravada pela Magazine, a banda de Kid Vinil. A novela teve 167 capítulos.  

Explode Coração – 1996. A novela do cigano Igor. Claro que é uma brincadeira, a trama de Glória Perez é muito mais do que essa lembrança do papel de Ricardo Macchi que, de uma forma ou de outra, era tema de conversas e revistas de TV. Na história, a cigana Dara (Tereza Seiblitz) estuda sem os pais saberem e esconde sua origem dos amigos, com medo de ser repreendida por Jairo (Paulo José), seu pai e Lola (Eliane Giardini), sua mãe, adeptos das tradições ciganas. Em um avanço digno das novelas de Glória, a moça se envolve, pela internet – apenas 10 anos após a rede ter chegado ao Brasil e na época em que surgiram os primeiros portais por aqui – com o empresário Júlio Falcão (Edson Celulari), apesar de prometida ao cigano Igor. Dara engravida de Júlio, mas mesmo assim Igor aceita se casar com ela. A questão é como comprovar a virgindade da moça, exigida pela tradição cigana. O cigano faz um corte no próprio pulso e mancha a saia dela de sangue, em uma cena marcante da trama. O núcleo cômico tem Regina Durado e Rogério Cardoso como o divertido casal Lucineide e Salgadinho. A questão social tão forte nas tramas da autora também aparece, sobretudo, na exploração do trabalho infantil e no desaparecimento de crianças. Fotos e depoimentos divulgados pela novela ajudaram a encontrar várias crianças desparecidas de verdade. Empresas se uniram a isso e participaram da campanha imprimindo em suas embalagens fotos de crianças que eram procuradas. O tema de abertura era uma música cigana instrumental e as imagens de Hans Donner mostravam um homem pesquisando as tradições em tela touchscreen – quase uma ficção científica na época – bem parecida com as que temos hoje. A novela teve 185 capítulos. 

Continua...

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