quinta-feira, 6 de novembro de 2014

A Fábula de Joãsinho

Paulo Rogério B. Rocco

Era uma vez um jovem dedicado que veio de São Luís, no Maranhão, para trabalhar em uma repartição pública, dançou no Municipal do Rio e se tornou uma lenda do Carnaval brasileiro. É isto. Isto é, seria esse o resumo da ópera se a história não tivesse sido contada como foi em “Trinta”, o filme-biografia do mais famoso Joãosinho do Brasil.

Matheus Nachtergaele vive o personagem-título, no sentido de viver plenamente uma personalidade que, apesar da baixa estatura, agiganta-se na tela como o fez na vida do lado de cá.

O filme dirigido com talento e com carinho aparente pela figura de Joãosinho, por Paulo Machline, narra a história desde que ele saiu do trabalho para se aventurar como bailarino, provocando o desprezo da própria família. Nas óperas do Municipal do Rio de Janeiro conhece um cenógrafo que o convida para ser seu assistente em um desfile de carnaval do Salgueiro. Nasce Joãosinho das Alegorias, alçado posteriormente e de forma quase acidental a carnavalesco da Escola.

O pequeno grande homem luta contra os próprios colegas, contra a contagem regressiva para o Carnaval e contra o preconceito, para tentar levar à avenida o enredo “O Rei de França na Ilha da Assombração”, considerado sua estreia-solo no maior espetáculo da terra.

Sagrando-se campeão, é reconhecido pela inovação, pela criatividade com materiais inusitados até então em um desfile – tipo forminhas de brigadeiro – e pela genialidade, confirmada a cada ano e que atingiu seu ápice, talvez, em “Ratos e Urubus, larguem a minha fantasia”, o polêmico enredo do Cristo censurado pela Igreja e que saiu coberto por sacos de lixo. O artista foi o primeiro a comparar a métrica da ópera ao Desfile da Sapucaí.

Isso tudo não é segredo para ninguém e talvez seja uma atração à parte no filme para quem não se interessa efetivamente pelo carnaval ou pela figura de Joãosinho, mas o diferencial está justamente na maneira como esta história é contada no filme.

Matheus empresta à Joãosinho a personalidade de um artista contemplativo, sensível – como todo artista deve ser – e seguro de sua missão, além de nuances em olhares e gestos que exemplificam essas qualidades. Destaque para a cena em que o artista “explode” no barracão da Escola e destila dezenas de palavrões em poucos segundos, numa das cenas mais hilárias do cinema brasileiro dos últimos tempos, talvez por não ser esperada, talvez pelo contexto da história naquele momento mas, sobretudo, pelo talento do ator.
Paulo Machline nos apresenta, com sua direção segura, grande momentos na obra, sobretudo com o auxílio da maravilhosa fotografia de Lito Mendes da Rocha. As sequencias das óperas no Teatro e principalmente uma cena em que Joãosinho está sozinho no palco, diante de uma plateia vazia, remete ao perfeccionismo e à simetria da escola kubrickiana.

O elenco tem ainda Milhem Cortaz, Paolla Oliveira, Fabrício Boliveira, Ernani Moraes e Paulo Tiefenthaler, entre outros que vieram também do carnaval – como a atriz Maria Paixão Jesus que também é baiana na Avenida – e ajudam a demonstrar a veracidade do trabalho executado no barracão.

Nesse cenário, aliás, é onde acontece o toque mágico que o cinema é capaz de nos proporcionar, ao aliar as imagens características da oficina do Samba à música clássica que é executada nessas cenas. E há de se dar outro destaque à trilha de André Abujamra, em uma composição que une a bateria de uma escola de samba às cordas de uma orquestra, sobretudo aos violinos. Uma lindíssima composição tocada quase no final do filme.

“Trinta” é para se visto pelos amantes do cinema, do samba, das artes, de Joãosinho e por qualquer pessoa que queira, por uma hora e meia, ser levado pelo lúdico e pela força dessa obra.

Matheus nos disse, na pré estreia, que o personagem reforçou para ele a ideia de que todo artista é solitário no momento de sua arte. E é isso que ocorre. Mas, no momento em que aplausos surgirem nas galerias dos teatros, nas poltronas dos cinemas ou nas arquibancadas do Sambódromo, a solidão é compartilhada e, pelo menos por preciosos minutos, o artista se sente abraçado.

Bravo. Palmas à Joãosinho e a todos que o trouxeram de volta.


Sem comentários. 

domingo, 12 de outubro de 2014

O Samba e a Vã Filosofia na História do Brasil

Paulo Rogério B. Rocco

Com o aparecimento das imagens de Tancredo Neves no programa de Aécio, lembrei-me de uma pasta de recortes de jornais que montei durante a eleição, doença e morte dele.
Tinha terminado de entrar na faculdade de Comunicação Social da PUC, recém-saído de uma escola pública de Tambaú e a Nova República dava seus primeiros passos, depois de negros anos pelos quais o país havia atravessado e que, como hoje vivemos em uma democracia, ainda existe gente que diz ter saudade desse tempo. Ou ignoram o que foi aquilo ou usam levianamente o termo “saudade”.
No nosso interior de São Paulo os anos de chumbo não chegavam com sua força avassaladora, pelo menos não que tivéssemos notícias. Atenção: Estou falando do começo das décadas de 70 e 80, portanto, sem qualquer meio de comunicação que não fosse o rádio, os jornais, revistas e a televisão. A ditadura chegava até nós em poucas notícias e no fato de termos que colocar bandeirinhas no peito com os dizeres “Brasil, Ame-o ou Deixei-o”.
Mas sempre fomos ligados ao que estava acontecendo, mesmo que as informações fossem poucas. Nossa Semana Universitária se encarregava de escancarar a realidade das grandes cidades que os generais tentavam disfarçar. E vieram as “Diretas Já”. E se foram também. Sem acontecer.
Mas a esperança passou a se chamar Tancredo Neves. Pelo menos ele era civil. O primeiro presidente não militar em vinte anos. Achei importante guardar os registros e comecei a pasta que é o mote deste artigo.
O primeiro recorte é de 14 de março de 1985. A manchete: “Mesmo doente, Tancredo não interrompe trabalho”. Dia 15, o dia da Posse: “Tancredo é operado, e se não puder assumir, Sarney toma posse”. 16 de Março: “Sarney toma Posse conforme a lei. Tancredo já anda no quarto”. 20 de março: “O pós-operatório de Tancredo complica-se”. 25 de março: “Tancredo poderá ter alta na sexta”. 27 de março: “Médicos fazem terceira cirurgia para tentar salvar a vida de Tancredo”. 3 de abril: “Operado mais uma vez, Tancredo enfrenta nova infecção”. 5 de abril: “Tancredo em estado crítico é mantido vivo por aparelho”. 12 de abril: “Estado desesperador leva Tancredo à sétima cirurgia”. 19 de abril: “Seu coração já dá sinais de que a batalha chega ao fim”. 22 de abril: “Tancredo Neves está morto”. O último recorte é de 26 de abril: “Três mil visitam túmulo de Tancredo”.
Em um parágrafo, resumida a agonia e morte de um presidente. E depois?
Depois veio José Sarney, o homem que ficou encarregado de encaminhar o país à nova democracia. Não foi bem. Apesar da abertura política externa, da redemocratização e de algumas conquistas diplomáticas, a Inflação herdada dos militares era astronômica e apareceu o primeiro Plano Econômico da nova Era em Fevereiro de 1986: o Plano Cruzado.
Logo em Novembro do mesmo ano conhecíamos o Plano Cruzado II. E não era título de filme, tipo “A Missão”. Em junho de 87 veio o Plano Bresser. E em janeiro de 89 o Plano Verão.
Quem gostava de inflação alta era quem ganhava muito dinheiro com ela. Para nós, pobres mortais, era época de fazermos compras com calculadora e analisando na hora o que podíamos levar do mercado. Viramos até fiscais do Sarney, para combater o abuso que o comércio fazia se aproveitando da situação.
Eu sempre comprei revistas em quadrinhos e nessa época os gibis não tinham preço na capa. Eles vinham com um código que era verificado em uma tabela, na hora da compra, para saber o valor da revista. E tal como o jornal, essa tabela chegava diariamente ao jornaleiro, com os preços alterados. Que país era este?
Mas tudo mudaria em 1989 finalmente com as eleições diretas pra Presidente. Com seu dom de lançar personagens de um dia para o outro, o Brasil apresentou um cara simpático, que gritava como ninguém, esbraveja contra Sarney, chamando-o de “corrupto, incompetente e safado" e cerrava os punhos ao se auto intitular “O Caçador de Marajás”. A mídia fazia conhecer e endeusava Fernando Collor de Mello.
Mas eu tinha, como tenho, um “péssimo defeito” de não acreditar cegamente na comunicação social, da qual eu fazia parte. Sempre fui crítico e com um pé atrás sobre tudo que nos era empurrado garganta abaixo. Nunca fui com a cara de Collor.
Naquele ano pendurei na minha camisa, o botton do PT que tenho até hoje. Votei em Lula, que tinha sua importância de luta, de ideais e de ser contra o que a televisão (sobretudo a Globo) e a mídia de um modo geral, salvo honrosas exceções como a Folha, queriam: eleger Collor.
Perdi meu voto. Mas hoje penso também que Lula não governaria facilmente com a economia como estava e com os mandantes do país todos contra ele. Lula tinha um destino e aquele não era o momento de se realizar.
Collor era o primeiro presidente eleito pelo povo e tomou posse em 15 de março de 1990. No dia 16 anunciou o Plano Collor, voltou o Cruzeiro como moeda, substituindo o Cruzado novo. Confiscou as poupanças e congelou salários. Tudo sob responsabilidade da então toda poderosa ministra Zélia Cardoso de Mello.
Em Janeiro de 1991, veio o Pano Collor II, que logo também se mostrou ineficiente quanto à inflação que era de 20% ao mês. Em maio, Zélia deixa o cargo e o novo ministro lança o Plano Marcílio.
Em maio de 1992, Pedro Collor de Mello, irmão do presidente, declara à revista Veja o esquema de corrupção que envolvia o ex-tesoureiro da campanha de Collor, Paulo César Farias, o PC. Em meio a uma gigantesca comoção popular, já com o apoio da própria mídia que elegeu Collor, inicia-se uma CPI para apurar a responsabilidade do Presidente nos fatos. Em 29 de setembro a CPI culmina no impeachment de Collor. O “caçador de marajás” virou a caça.
PC Farias foi encontrado morto, junto com sua namorada Suzana Marcolino, uma casa de praia em 1996. Investigações do legista Badan Palhares indicaram que Suzana Marcolino matou PC Farias e se suicidou em seguida. O caso é considerado oficialmente apenas como um crime passional, mas para o médico-legista alagoano George Sanguinetti e o perito criminal Ricardo Molina de Figueiredo, o casal foi assassinado.
Pedro Collor morreu de câncer no cérebro, em 1994, em Nova York, deixando a esposa, Thereza Collor (musa do impeachment) e três filhos.
Zélia Cardoso de Mello foi absolvida pelo Supremo Tribunal Federal, em 2006, das acusações de crime contra a administração pública durante o Governo Collor.
E Fernando Collor? Bem, foi eleito Senador por Alagoas na semana passada, com 689.266 votos (55.69%).
Com a queda de Collor em 1992, Itamar Franco assumiu a Presidência. O Brasil estava no meio de uma grave crise econômica, com a inflação chegando a 1.100% em 1992 e alcançando 2.708,55% no ano seguinte (a maior da história). Itamar trocou de ministros da economia várias vezes, até que Fernando Henrique Cardoso assumisse o Ministério da Fazenda.
Em fevereiro de 1994, o governo Itamar lançou o Plano Real que estabilizou a economia e acabou com a hiperinflação. O Presidente Itamar Franco fez também projetos de combate à miséria ao lado do sociólogo Betinho, irmão de Henfil. Em 1994 Itamar apoiou o então candidato Fernando Henrique Cardoso, que saiu vitorioso nas urnas.
O resto é história recente. FHC estabiliza a economia e é reeleito em 1998. Derrotou Lula por duas vezes. Luis Inácio percebe então o quanto estava sendo burro politicamente ao manter sua posição ultrapassada e se transforma em um político mais próximo de tudo o que ele criticava.
Resultado: Lula vence finalmente. O segundo mandato de FHC termina em 1º de janeiro de 2003, com a posse de Luís Inácio Lula da Silva. Para a transmissão do cargo, FHC criou o inédito sistema de "Governo de Transição", estabelecendo através de Medida Provisória um modelo de partilhamento de pessoal e dados entre a antiga e a nova equipe que assumiria, contando inclusive com infraestrutura logística.
Com uma política econômica seguindo os moldes de Fernando Henrique e ampliando seus programas de combate à fome e à pobreza, aprimorando-os e dando destaque para o assistencialismo que, embora eu condene como foi feito às vezes, é inegável que retirou muita gente da miséria; Lula é reeleito e inicia a hegemonia petista no Governo Federal, elegendo a praticamente desconhecida Dilma como sua sucessora. O PSDB não teve força política, criativa, administrativa e organizacional para vencer o PT nesses anos todos. Como o PT jamais entrou em São Paulo, onde o PSDB dá as cartas há muitos anos.
Mas Dilma não é Lula. Não tem o talento político, o jogo de cintura e nem o comando sobre seus próprios comandados. E muito menos o carisma inegável do ex-presidente.
Comprando briga de um modo geral com todos e afundada no escândalo da Petrobrás que não tem como não respingar nela, Dilma e o PT são ameaçados de forma real por Aécio Neves que tem, neste surpreendente segundo turno, o apoio de sindicalistas (!), de quase todos os partidos não coligados ao PT, da família de Eduardo Campos que, ao morrer mudou o rumo das eleições, de Marina Silva que se consolida, aí sim, como líder política e da mídia em geral, graças principalmente ao tiro no pé que o PT deu ao apresentar, em maio deste ano, a proposta de regulação da imprensa, desenterrando a ideia da “censura” dos anos descritos no início destas linhas.
Independente para quem eu vote ou votei nesses anos todos gosto de ficar analisando o jogo político, a ação da mídia em geral, amplificada à ‘n’ potência pelas redes sociais e o trabalho dos homens de marketing. Afinal, também estive dentro desse mar quando fui vereador. Por alguns meses ou anos cheguei a acreditar que a política, pelo menos em nossa pequena cidade, poderia ser diferente a partir daquele momento. Não foi. E eu caí fora. Mas o assunto, sobretudo no nível estadual e federal, me instiga.
Eu sabia que Marina não chegaria ao segundo turno. Foi catapultada pela comoção geral e os responsáveis por sua campanha não souberam escapar das armadilhas da política. Sua campanha foi equivocada principalmente no final. Como tinha conhecimento de que ela não venceria Dilma (intuição) e que se vencesse, não governaria adequadamente (constatação), afinal tinha a minoria dos apoios necessários para isso.
Agora penso que estamos acompanhando os últimos dias do PT que, se sair nesse dia 26 de outubro, não volta tão cedo a ver o alvorecer no Palácio.
No primeiro programa do segundo turno Dilma fala equivocadamente – falando do ponto de vista do marketing – em 90% do tempo em que está no ar. Isso após o Jornal Nacional divulgar a pesquisa mostrando Aécio na frente e o relato de que o tesoureiro do PT recebeu grande parte da propina da Petrobrás.
Aécio, pelo contrário, mostra nas primeiras imagens o que eu, como publicitário, já teria feito no primeiro turno: candidato ao lado do seu avô Tancredo Neves. E voltamos, tal qual Ouroboros, no começo desta breve história recente do Brasil.
Tudo isso para mostrar a quem está chegando agora e começando a acompanhar nosso Brasil que hoje grita nas ruas por 20 centavos, que tivemos épocas e fatos e fotos bem piores do que supõe nossa vã filosofia facebookiana.
E só para ilustrar, para o bem ou para o mal, já que não entro na briga partidária – afinal tenho amigos de todos os times – o samba de Jorge Aragão:

“Vá com seus botões, que eu fico com os meus. PT, saudações, adeus”.

Sem comentários.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Eu protesto. Tu Protestas. Eles não Sabem o que Fazem.

Paulo Rogério B. Rocco

   O Brasil não vai passar incólume por esta Copa do Mundo, seja por qual motivo for. A seleção terá em seu encalço o espírito de 1950 e o país, além de todos os recordes desta edição, terá o eterno fantasma da corrupção, escancarado em forma de obras monumentais e superfaturadas.
   E, claro, há os protestos. Extremamente atrasados, diga-se de passagem e cujos objetivos se misturaram aos aproveitadores partidários, representantes de classes – cada um defendendo o seu – e vândalos, que só querem quebrar tudo o que encontram pela frente para “protestarem” contra o desperdício do dinheiro público. Oi?
   Onde estava dormindo essa gente quando o senhor Lula, ídolo e guru de grande parte dela, disse a jornalistas, em setembro de 2006, que o Brasil deveria construir doze novos estádios para ser capaz de sediar a Copa?
   Nesta mesma época, Orlando Silva, então Ministro dos Esportes, comentou que o Brasil faria o necessário para que a Copa fosse realizada no país. E o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, disse então que recuperar estádios ou construir outros novos seria responsabilidade da iniciativa privada. E ninguém acordou com um barulho desses?
   Tempos depois, em um já distante 30 de Outubro de 2007, a FIFA escolheu o Brasil. Aí sim, protestos poderiam ter resultados e se mostrarem funcionais. Agora é chorar sobre o pênalti perdido.
   Vai ter Copa, sim. Quer os contestadores queiram ou não. Podem até organizar protestos – como um já anunciado pelo Movimento Passe Livre, durante a Copa, para exigir ônibus de graça. Esse pessoal do MPL, aliás, é o mesmo que deflagrou os movimentos do ano passado e desapareceu da mídia bravamente quando tudo atingiu proporções homéricas e fugiu do controle.
   Mas eles atingiram os objetivos dos vinte centavos e de quebra conseguiram que a dona Dilma contra-atacasse com os polêmicos médicos cubanos. E agora querem ônibus totalmente de graça. Desculpe, acho que não vai dar. Não estão em Cuba. Esse é um país capitalista, com todos seus ônus e bônus.
 Acho muito justo protestarem contra a corrupção e o superfaturamento dos estádios.  O custo original dos estádios já subiu 36% e as obras de infraestrutura tiveram um custo de 4,5 bilhões de reais acima das previsões iniciais. E alguém pensou que seria diferente? Mas acredito que a coerência deva prevalecer. Se tiver corintiano, por exemplo, protestando contra os estádios na quinta e no domingo indo ver jogo no Itaquerão, já é bola fora.
  A Arena Corinthians é o terceiro maior gasto dos estádios da Copa com 1,15 bilhão de reais, em que grande parte veio, graças ao Governo Federal, do dinheiro público. Só perde em custo para o Maracanã (1,35 bilhão de reais) e para o campeão Mané Garrincha, não o jogador que morreu quase pobre, o estádio em Brasília; com custo estimado em 1,48 bilhão de dólares. Para se ter uma ideia, a Arena Pantanal custou aproximadamente 1/3 desse valor.
  Ah, claro, contestador contra a Copa não pode trocar figurinhas durante o protesto também, como alguns têm feito. E nem assistir aos jogos pela televisão. Sair para comemorar em caso de vitória então, nem pensar. Se for tomar uma cervejinha com os amigos, depois de uma vitória da Seleção, peça para o garçom colocar a TV na Record na hora do jogo. Repetindo: Coerência e foco, em protesto, são o que vale.
  Todos sabem que o Brasil precisa de Educação, Saúde, Cultura, Transporte e tudo o mais e é necessário, principalmente, acabar com a falta de vergonha dos políticos, seja a que partido pertencerem.
   A corrupção vista nas obras dos estádios acontece também todos os dias por todo esse imenso território. E em valores muito maiores do que esses.
  Na sexta, dia 23, foi publicado na capa da Folha de S. Paulo que os gastos com a Copa equivalem a apenas um mês de gastos com a Educação no país – 25,8 bilhões de reais com a Copa e 280 bilhões anuais com a Educação. Soma-se a isso, 206 bilhões gastos com a saúde por ano. Este dinheiro está sendo bem utilizado, manifestantes? Se o dinheiro dispensado a essas duas áreas fosse bem utilizado, teríamos hospitais e escolas padrão mais do que FIFA.
  O que acontece no momento é que os estádios estão visíveis para o mundo e as outras obras e falta de investimentos básicos, não.
  Uma sugestão de protesto para a multidão que invade a Paulista que pode repercutir mundialmente e provocar mudanças: No dia das eleições, em outubro, esqueça que você faz parte de um admirável gado novo disperso em currais eleitorais e não saia de casa para votar.
  Ah, sim. E outra sugestão para manifestantes profissionais: a hora para protestar contra a Olimpíada do Rio é agora. Daqui a dois anos, com tudo pronto, não adianta xingarem atletas na Vila Olímpica, como aconteceu neste dia 26 de maio no Rio, quando um grupo de cem professores hostilizou os jogadores do Brasil que estão fazendo o trabalho deles. Atenção professores: repetindo, o gasto com a educação no país é de mais de 23 bilhões de reais por mês. Estão se manifestando contra pessoas erradas, no lugar errado e na hora errada. Certo?
  Afinal, os jogadores não têm culpa do que o Governo que vocês elegeram faz com vocês; a Copa do Mundo vai trazer milhares de turistas; já está movimentando milhões em negócios também para muita gente honesta e para quem admira o esporte, vai dar um show de futebol com alguns dos melhores jogadores dos últimos tempos.
  Hay que protestar, pero sin perder nunca el final.
  
  Sem comentários. 

quinta-feira, 13 de março de 2014

A Delicadeza Agressiva de Jesus Cristo Superstar

Paulo Rogério B. Rocco

A noite de 11 de março me deu uma oportunidade que esperava desde que vi pela primeira vez o filme de Norman Jewison e conheci Jesus Cristo Superstar a obra de Andrew Lloyd Webber e Tim Rice: Assistir ao vivo este espetáculo.
Minha coleção sobre ela, que inclui o vinil com a primeira montagem brasileira de 1972, o filme do ano seguinte, outra gravação para televisão e a mais recente montagem em Londres; não me preparou para as emoções que vivi no Teatro do Complexo Ohtake Cultural, em São Paulo.
Uma primeira imagem de Pilatos (Fred Silveira) tendo visões sobre seu julgamento futuro já coloca a plateia na história mais conhecida de todos os tempos. Mas sem esperar, no entanto, pela maneira com que ela seria contada, mesmo para quem conhece a sequencia das cenas quase com sabedoria didática. 
A cenografia de Paulo Correa e Jorge Takla é formada basicamente de portas e paredes de aço, como aquelas que descem para trancar os comércios. A boca de cena, inclusive, é fechada por uma dessas. Uma primeira alusão às manifestações recentes no país? Várias dessas portas de aço foi alvo de vândalos, sendo quebradas ou pichadas, nas ruas.
Na chegada de Jesus e seus seguidores à Jerusalém os ramos de palmeiras, magnificamente feitos em ferro e tela, são segurados como escudos de soldados pelo talentosíssimo coro que entoa “Hosanna”. Outra alusão aos protestos?  
Nesse momento o público já é discípulo inconteste do Jesus de Igor Rickli, tamanha a identificação emocional e física que o ator confere ao papel. Se Judas (Alírio Netto) se preocupa com a crescente popularidade do Rei dos Judeus, isso ainda não nos atinge e junto aos seus discípulos, o saudamos com aplausos.
Os mercadores do templo se tornaram traficantes de armas pesadas. O que Jesus enfrentaria hoje para cumprir sua missão? O mal é o mesmo de sempre, o que mudou são suas vestes.
Os figurinos assinados por Mira Haar traduzem este mal no monocromático conjunto de sobretudos negros e nas capas escuras dos sacerdotes, em contraponto com o multi colorido das roupas do povo de Jesus. Menos no de Judas, que transita pelos dois lados da moeda de César.  
Além das portas e paredes de aço, o palco é formado por praticáveis, andaimes e escadas que dão leveza às coreografias e rendem momentos como a sublime interpretação de Negra Li para I Don't Know How to Love Him. A cena, um dos alvos preferidos de grupos religiosos fanáticos e equivocados – que nunca viram nem irão ver o espetáculo – é em cima de uma dessas plataformas. “Críticos” desses grupos costumam reclamar por aí da relação entre Jesus e Madalena na peça e não sabem que quando ela canta essa música, ele está dormindo e não a ouve. E tem mais, ao final, Judas interpreta parte da mesma canção; o que configura esse amor como o sentimento humano, fraternal.
A última ceia é de uma beleza delicadíssima, mesmo que não termine na santa paz, como já se sabe. Assim como a sequencia do jardim de Getsêmani, com uma grande oliveira ao fundo da cena, iluminada pela luz da lua.
Daí em diante a agressividade se instala nas músicas, nas letras da versão de Bianca Tadini e Luciano Andrey, na interpretação visceral de Pilatos e na inquieta dúvida de Jesus em cumprir seu papel.  
A trágica sequencia final para a qual se encaminha inevitavelmente o musical é somente cortada pela cena onde um Herodes impagável (Wellington Nogueira) dança com cinta-liga sobre um piano de oncinha acompanhado pelo seu séquito de homens e mulheres-leopardos. Um show à parte.  
De volta a Pilatos e daí para a condenação. A morte originalíssima de Judas e Jesus é pregado à cruz que é erguida no centro do palco.
Judas retorna em uma Harley-Davidson para dar início a mais esperada sequência. Em meio a anjos e dançarinas, com figurinos prateados sobre o chão espelhado que reflete a iluminação digna de um superstar, o público se diverte e se deleita como talvez o povo de Jerusalém o fazia quando pediu a condenação do Cristo.   
O show cessa. A cruz flutua a alguns metros e é iluminada somente no alto. Por momentos o diretor nos dá a mais clássica das cenas. Por mais que esta ópera-rock acompanhe cada época em que é montada, a crucificação nos causa a sensação de sempre, há mais de dois mil anos, representada no olhar e no coração de Maria Madalena.
E aquela imagem parece durar para sempre. Aplaudido em cena aberta praticamente após cada uma das músicas e coreografias, agora o silêncio reina gritante.
E é o que aconteceria se Jesus voltasse hoje. Repetiríamos o mesmo roteiro. Seguiríamos a mesma sequência. Condenaríamos a ele e a nós da mesma maneira. Hipócritas que somos, talvez até assistiríamos a tudo como um grandioso espetáculo transmitido em tempo real. O resto seria silêncio.
A direção sempre competente de Jorge Takla é extramente suave em olhares, gestos, movimentos quando assim deve ser. E firme, violenta, metódica quando o roteiro pede. Em suma, Takla nos entrega um espetáculo já consagrado, mas de um jeito singular, belíssimo, dirigido e interpretado com uma delicadeza agressiva, com uma força do tamanho da Fé.

Sem comentários. 

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Um Homem ao Pé da Montanha

Paulo Rogério B. Rocco

Há algum tempo um comercial da Vivo me fez pensar, como poucas vezes uma publicidade conseguiu antes, em minha condição de mero espectador. Ao som de “I Can’t Live” de Mariah Carey, por exatos quinze segundos, uma família, em uma casa linda nas montanhas, de frente para um mar incrível, em meio a uma floresta mágica; está entediada. Na segunda metade da propaganda, dois toques na campainha e um cara vestido de roxo traz a “salvação” com o Box da internet que chega onde as outras não chegam.  
Ele é abraçado e recebe honras de chefe de estado ou de um deus da tecnologia essencial. Faltou o tapete vermelho. 
     E por quê? Por ter trazido o mundo novamente para os cegos do castelo. Eles não precisariam mais sentar em um banco na varanda, no meio de árvores e olhar em direção ao oceano. Nem fazer bolhas de sabão. Nem abraçar o cachorro que nos próximos segundos seria relegado a uma grande solidão.
E há quadros no chão. A garota não se dispôs a pendurá-los porque esperava o profeta cibernético que lhe traria as tábuas virtuais dos novos mandamentos. Um deles, talvez, transcrito na letra da música: “I can’t live, if living is without you”. Claro, com o contexto absurdamente deturpado.  
Mas ponto final: Eles estão felizes com os quadros ainda no chão, o cachorro sem atenção, a paisagem monótona com a floresta e o mar atrás da janela, enquanto olham para a Windows do mundo.    
    Milhões de pessoas podem dar razão a eles, incapazes de viverem desconectados alguns minutos sequer; mas vou confessar que daria meu mundo e nada mais para que estivesse agora naquela casa, naquele lugar. Pode até parecer um paradoxo, já que você está lendo isso pela internet e pode ter sido avisado da existência deste artigo através de uma rede social; mas é isso.  
Penso que as pessoas tendem a inverter um dia, pelo menos no desejo, a corrida desenfreada que se tornou a vida. Pode ser que isso não aconteça agora, nem nos próximos anos; mas vai acontecer. O ser humano é, na sua essência, humano. E para tanto precisa conviver com pessoas, animais, plantas, com a própria vida. Mesmo que estejam dominados pela inteligência artificial.  
Observo nas crianças, adolescentes, jovens e em vários adultos, a dependência crítica da conexão imediata e a submissão ao facebook, sobretudo. Se Mark Zuckerberg resolvesse desinventar essa sua criação agora, neste instante, essas crianças, adolescentes, jovens e vários adultos; sairiam às calçadas batendo cabeças uma nas outras, nos postes, nas paredes e tropeçando nas cadeiras imaginárias com fantasmas de um passado cada vez mais forte na memória, principalmente de quem foi de uma época em que se vivia muita mais plenamente.
Quer um exemplo? Por que hoje voltaram a comprar os jurássicos Long Plays? Por que o vinil, tão execrado na metade da década de 80, quando surgiram os compact discs, são hoje cultuados e adquiridos por valores de quatro ou seis CDs, que tem o som muito mais puro? Esses fãs gostam do chiado do velho LP ou da maneira como se coloca a agulha, com todo cuidado, na faixa desejada?  
Eu gosto de pensar, em um breve momento de saudosismo saudável, que o que esses admiradores buscam – e me incluo entre eles – é o reviver de uma época em que, não digo que éramos mais felizes, mas talvez, que o mundo fosse mais simples. Onde um pequeno gesto de escolher a faixa predileta no disco poderia nos proporcionar um prazer sincero, uma dança inesquecível, uma lembrança para a vida toda. Mesmo que a vitrola estivesse na sala espaçosa de uma casa nas montanhas, de frente para o mar, tocando “I can’t live, if living is without you”.
E aí, se a campainha soasse dois toques, as manchetes do dia seguinte falariam sobre um cara de roxo, estendido com um olho da mesma cor, ao pé da montanha, na beira da praia. Sem comentários.