terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Um Homem ao Pé da Montanha

Paulo Rogério B. Rocco

Há algum tempo um comercial da Vivo me fez pensar, como poucas vezes uma publicidade conseguiu antes, em minha condição de mero espectador. Ao som de “I Can’t Live” de Mariah Carey, por exatos quinze segundos, uma família, em uma casa linda nas montanhas, de frente para um mar incrível, em meio a uma floresta mágica; está entediada. Na segunda metade da propaganda, dois toques na campainha e um cara vestido de roxo traz a “salvação” com o Box da internet que chega onde as outras não chegam.  
Ele é abraçado e recebe honras de chefe de estado ou de um deus da tecnologia essencial. Faltou o tapete vermelho. 
     E por quê? Por ter trazido o mundo novamente para os cegos do castelo. Eles não precisariam mais sentar em um banco na varanda, no meio de árvores e olhar em direção ao oceano. Nem fazer bolhas de sabão. Nem abraçar o cachorro que nos próximos segundos seria relegado a uma grande solidão.
E há quadros no chão. A garota não se dispôs a pendurá-los porque esperava o profeta cibernético que lhe traria as tábuas virtuais dos novos mandamentos. Um deles, talvez, transcrito na letra da música: “I can’t live, if living is without you”. Claro, com o contexto absurdamente deturpado.  
Mas ponto final: Eles estão felizes com os quadros ainda no chão, o cachorro sem atenção, a paisagem monótona com a floresta e o mar atrás da janela, enquanto olham para a Windows do mundo.    
    Milhões de pessoas podem dar razão a eles, incapazes de viverem desconectados alguns minutos sequer; mas vou confessar que daria meu mundo e nada mais para que estivesse agora naquela casa, naquele lugar. Pode até parecer um paradoxo, já que você está lendo isso pela internet e pode ter sido avisado da existência deste artigo através de uma rede social; mas é isso.  
Penso que as pessoas tendem a inverter um dia, pelo menos no desejo, a corrida desenfreada que se tornou a vida. Pode ser que isso não aconteça agora, nem nos próximos anos; mas vai acontecer. O ser humano é, na sua essência, humano. E para tanto precisa conviver com pessoas, animais, plantas, com a própria vida. Mesmo que estejam dominados pela inteligência artificial.  
Observo nas crianças, adolescentes, jovens e em vários adultos, a dependência crítica da conexão imediata e a submissão ao facebook, sobretudo. Se Mark Zuckerberg resolvesse desinventar essa sua criação agora, neste instante, essas crianças, adolescentes, jovens e vários adultos; sairiam às calçadas batendo cabeças uma nas outras, nos postes, nas paredes e tropeçando nas cadeiras imaginárias com fantasmas de um passado cada vez mais forte na memória, principalmente de quem foi de uma época em que se vivia muita mais plenamente.
Quer um exemplo? Por que hoje voltaram a comprar os jurássicos Long Plays? Por que o vinil, tão execrado na metade da década de 80, quando surgiram os compact discs, são hoje cultuados e adquiridos por valores de quatro ou seis CDs, que tem o som muito mais puro? Esses fãs gostam do chiado do velho LP ou da maneira como se coloca a agulha, com todo cuidado, na faixa desejada?  
Eu gosto de pensar, em um breve momento de saudosismo saudável, que o que esses admiradores buscam – e me incluo entre eles – é o reviver de uma época em que, não digo que éramos mais felizes, mas talvez, que o mundo fosse mais simples. Onde um pequeno gesto de escolher a faixa predileta no disco poderia nos proporcionar um prazer sincero, uma dança inesquecível, uma lembrança para a vida toda. Mesmo que a vitrola estivesse na sala espaçosa de uma casa nas montanhas, de frente para o mar, tocando “I can’t live, if living is without you”.
E aí, se a campainha soasse dois toques, as manchetes do dia seguinte falariam sobre um cara de roxo, estendido com um olho da mesma cor, ao pé da montanha, na beira da praia. Sem comentários.