quinta-feira, 13 de março de 2014

A Delicadeza Agressiva de Jesus Cristo Superstar

Paulo Rogério B. Rocco

A noite de 11 de março me deu uma oportunidade que esperava desde que vi pela primeira vez o filme de Norman Jewison e conheci Jesus Cristo Superstar a obra de Andrew Lloyd Webber e Tim Rice: Assistir ao vivo este espetáculo.
Minha coleção sobre ela, que inclui o vinil com a primeira montagem brasileira de 1972, o filme do ano seguinte, outra gravação para televisão e a mais recente montagem em Londres; não me preparou para as emoções que vivi no Teatro do Complexo Ohtake Cultural, em São Paulo.
Uma primeira imagem de Pilatos (Fred Silveira) tendo visões sobre seu julgamento futuro já coloca a plateia na história mais conhecida de todos os tempos. Mas sem esperar, no entanto, pela maneira com que ela seria contada, mesmo para quem conhece a sequencia das cenas quase com sabedoria didática. 
A cenografia de Paulo Correa e Jorge Takla é formada basicamente de portas e paredes de aço, como aquelas que descem para trancar os comércios. A boca de cena, inclusive, é fechada por uma dessas. Uma primeira alusão às manifestações recentes no país? Várias dessas portas de aço foi alvo de vândalos, sendo quebradas ou pichadas, nas ruas.
Na chegada de Jesus e seus seguidores à Jerusalém os ramos de palmeiras, magnificamente feitos em ferro e tela, são segurados como escudos de soldados pelo talentosíssimo coro que entoa “Hosanna”. Outra alusão aos protestos?  
Nesse momento o público já é discípulo inconteste do Jesus de Igor Rickli, tamanha a identificação emocional e física que o ator confere ao papel. Se Judas (Alírio Netto) se preocupa com a crescente popularidade do Rei dos Judeus, isso ainda não nos atinge e junto aos seus discípulos, o saudamos com aplausos.
Os mercadores do templo se tornaram traficantes de armas pesadas. O que Jesus enfrentaria hoje para cumprir sua missão? O mal é o mesmo de sempre, o que mudou são suas vestes.
Os figurinos assinados por Mira Haar traduzem este mal no monocromático conjunto de sobretudos negros e nas capas escuras dos sacerdotes, em contraponto com o multi colorido das roupas do povo de Jesus. Menos no de Judas, que transita pelos dois lados da moeda de César.  
Além das portas e paredes de aço, o palco é formado por praticáveis, andaimes e escadas que dão leveza às coreografias e rendem momentos como a sublime interpretação de Negra Li para I Don't Know How to Love Him. A cena, um dos alvos preferidos de grupos religiosos fanáticos e equivocados – que nunca viram nem irão ver o espetáculo – é em cima de uma dessas plataformas. “Críticos” desses grupos costumam reclamar por aí da relação entre Jesus e Madalena na peça e não sabem que quando ela canta essa música, ele está dormindo e não a ouve. E tem mais, ao final, Judas interpreta parte da mesma canção; o que configura esse amor como o sentimento humano, fraternal.
A última ceia é de uma beleza delicadíssima, mesmo que não termine na santa paz, como já se sabe. Assim como a sequencia do jardim de Getsêmani, com uma grande oliveira ao fundo da cena, iluminada pela luz da lua.
Daí em diante a agressividade se instala nas músicas, nas letras da versão de Bianca Tadini e Luciano Andrey, na interpretação visceral de Pilatos e na inquieta dúvida de Jesus em cumprir seu papel.  
A trágica sequencia final para a qual se encaminha inevitavelmente o musical é somente cortada pela cena onde um Herodes impagável (Wellington Nogueira) dança com cinta-liga sobre um piano de oncinha acompanhado pelo seu séquito de homens e mulheres-leopardos. Um show à parte.  
De volta a Pilatos e daí para a condenação. A morte originalíssima de Judas e Jesus é pregado à cruz que é erguida no centro do palco.
Judas retorna em uma Harley-Davidson para dar início a mais esperada sequência. Em meio a anjos e dançarinas, com figurinos prateados sobre o chão espelhado que reflete a iluminação digna de um superstar, o público se diverte e se deleita como talvez o povo de Jerusalém o fazia quando pediu a condenação do Cristo.   
O show cessa. A cruz flutua a alguns metros e é iluminada somente no alto. Por momentos o diretor nos dá a mais clássica das cenas. Por mais que esta ópera-rock acompanhe cada época em que é montada, a crucificação nos causa a sensação de sempre, há mais de dois mil anos, representada no olhar e no coração de Maria Madalena.
E aquela imagem parece durar para sempre. Aplaudido em cena aberta praticamente após cada uma das músicas e coreografias, agora o silêncio reina gritante.
E é o que aconteceria se Jesus voltasse hoje. Repetiríamos o mesmo roteiro. Seguiríamos a mesma sequência. Condenaríamos a ele e a nós da mesma maneira. Hipócritas que somos, talvez até assistiríamos a tudo como um grandioso espetáculo transmitido em tempo real. O resto seria silêncio.
A direção sempre competente de Jorge Takla é extramente suave em olhares, gestos, movimentos quando assim deve ser. E firme, violenta, metódica quando o roteiro pede. Em suma, Takla nos entrega um espetáculo já consagrado, mas de um jeito singular, belíssimo, dirigido e interpretado com uma delicadeza agressiva, com uma força do tamanho da Fé.

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