domingo, 12 de outubro de 2014

O Samba e a Vã Filosofia na História do Brasil

Paulo Rogério B. Rocco

Com o aparecimento das imagens de Tancredo Neves no programa de Aécio, lembrei-me de uma pasta de recortes de jornais que montei durante a eleição, doença e morte dele.
Tinha terminado de entrar na faculdade de Comunicação Social da PUC, recém-saído de uma escola pública de Tambaú e a Nova República dava seus primeiros passos, depois de negros anos pelos quais o país havia atravessado e que, como hoje vivemos em uma democracia, ainda existe gente que diz ter saudade desse tempo. Ou ignoram o que foi aquilo ou usam levianamente o termo “saudade”.
No nosso interior de São Paulo os anos de chumbo não chegavam com sua força avassaladora, pelo menos não que tivéssemos notícias. Atenção: Estou falando do começo das décadas de 70 e 80, portanto, sem qualquer meio de comunicação que não fosse o rádio, os jornais, revistas e a televisão. A ditadura chegava até nós em poucas notícias e no fato de termos que colocar bandeirinhas no peito com os dizeres “Brasil, Ame-o ou Deixei-o”.
Mas sempre fomos ligados ao que estava acontecendo, mesmo que as informações fossem poucas. Nossa Semana Universitária se encarregava de escancarar a realidade das grandes cidades que os generais tentavam disfarçar. E vieram as “Diretas Já”. E se foram também. Sem acontecer.
Mas a esperança passou a se chamar Tancredo Neves. Pelo menos ele era civil. O primeiro presidente não militar em vinte anos. Achei importante guardar os registros e comecei a pasta que é o mote deste artigo.
O primeiro recorte é de 14 de março de 1985. A manchete: “Mesmo doente, Tancredo não interrompe trabalho”. Dia 15, o dia da Posse: “Tancredo é operado, e se não puder assumir, Sarney toma posse”. 16 de Março: “Sarney toma Posse conforme a lei. Tancredo já anda no quarto”. 20 de março: “O pós-operatório de Tancredo complica-se”. 25 de março: “Tancredo poderá ter alta na sexta”. 27 de março: “Médicos fazem terceira cirurgia para tentar salvar a vida de Tancredo”. 3 de abril: “Operado mais uma vez, Tancredo enfrenta nova infecção”. 5 de abril: “Tancredo em estado crítico é mantido vivo por aparelho”. 12 de abril: “Estado desesperador leva Tancredo à sétima cirurgia”. 19 de abril: “Seu coração já dá sinais de que a batalha chega ao fim”. 22 de abril: “Tancredo Neves está morto”. O último recorte é de 26 de abril: “Três mil visitam túmulo de Tancredo”.
Em um parágrafo, resumida a agonia e morte de um presidente. E depois?
Depois veio José Sarney, o homem que ficou encarregado de encaminhar o país à nova democracia. Não foi bem. Apesar da abertura política externa, da redemocratização e de algumas conquistas diplomáticas, a Inflação herdada dos militares era astronômica e apareceu o primeiro Plano Econômico da nova Era em Fevereiro de 1986: o Plano Cruzado.
Logo em Novembro do mesmo ano conhecíamos o Plano Cruzado II. E não era título de filme, tipo “A Missão”. Em junho de 87 veio o Plano Bresser. E em janeiro de 89 o Plano Verão.
Quem gostava de inflação alta era quem ganhava muito dinheiro com ela. Para nós, pobres mortais, era época de fazermos compras com calculadora e analisando na hora o que podíamos levar do mercado. Viramos até fiscais do Sarney, para combater o abuso que o comércio fazia se aproveitando da situação.
Eu sempre comprei revistas em quadrinhos e nessa época os gibis não tinham preço na capa. Eles vinham com um código que era verificado em uma tabela, na hora da compra, para saber o valor da revista. E tal como o jornal, essa tabela chegava diariamente ao jornaleiro, com os preços alterados. Que país era este?
Mas tudo mudaria em 1989 finalmente com as eleições diretas pra Presidente. Com seu dom de lançar personagens de um dia para o outro, o Brasil apresentou um cara simpático, que gritava como ninguém, esbraveja contra Sarney, chamando-o de “corrupto, incompetente e safado" e cerrava os punhos ao se auto intitular “O Caçador de Marajás”. A mídia fazia conhecer e endeusava Fernando Collor de Mello.
Mas eu tinha, como tenho, um “péssimo defeito” de não acreditar cegamente na comunicação social, da qual eu fazia parte. Sempre fui crítico e com um pé atrás sobre tudo que nos era empurrado garganta abaixo. Nunca fui com a cara de Collor.
Naquele ano pendurei na minha camisa, o botton do PT que tenho até hoje. Votei em Lula, que tinha sua importância de luta, de ideais e de ser contra o que a televisão (sobretudo a Globo) e a mídia de um modo geral, salvo honrosas exceções como a Folha, queriam: eleger Collor.
Perdi meu voto. Mas hoje penso também que Lula não governaria facilmente com a economia como estava e com os mandantes do país todos contra ele. Lula tinha um destino e aquele não era o momento de se realizar.
Collor era o primeiro presidente eleito pelo povo e tomou posse em 15 de março de 1990. No dia 16 anunciou o Plano Collor, voltou o Cruzeiro como moeda, substituindo o Cruzado novo. Confiscou as poupanças e congelou salários. Tudo sob responsabilidade da então toda poderosa ministra Zélia Cardoso de Mello.
Em Janeiro de 1991, veio o Pano Collor II, que logo também se mostrou ineficiente quanto à inflação que era de 20% ao mês. Em maio, Zélia deixa o cargo e o novo ministro lança o Plano Marcílio.
Em maio de 1992, Pedro Collor de Mello, irmão do presidente, declara à revista Veja o esquema de corrupção que envolvia o ex-tesoureiro da campanha de Collor, Paulo César Farias, o PC. Em meio a uma gigantesca comoção popular, já com o apoio da própria mídia que elegeu Collor, inicia-se uma CPI para apurar a responsabilidade do Presidente nos fatos. Em 29 de setembro a CPI culmina no impeachment de Collor. O “caçador de marajás” virou a caça.
PC Farias foi encontrado morto, junto com sua namorada Suzana Marcolino, uma casa de praia em 1996. Investigações do legista Badan Palhares indicaram que Suzana Marcolino matou PC Farias e se suicidou em seguida. O caso é considerado oficialmente apenas como um crime passional, mas para o médico-legista alagoano George Sanguinetti e o perito criminal Ricardo Molina de Figueiredo, o casal foi assassinado.
Pedro Collor morreu de câncer no cérebro, em 1994, em Nova York, deixando a esposa, Thereza Collor (musa do impeachment) e três filhos.
Zélia Cardoso de Mello foi absolvida pelo Supremo Tribunal Federal, em 2006, das acusações de crime contra a administração pública durante o Governo Collor.
E Fernando Collor? Bem, foi eleito Senador por Alagoas na semana passada, com 689.266 votos (55.69%).
Com a queda de Collor em 1992, Itamar Franco assumiu a Presidência. O Brasil estava no meio de uma grave crise econômica, com a inflação chegando a 1.100% em 1992 e alcançando 2.708,55% no ano seguinte (a maior da história). Itamar trocou de ministros da economia várias vezes, até que Fernando Henrique Cardoso assumisse o Ministério da Fazenda.
Em fevereiro de 1994, o governo Itamar lançou o Plano Real que estabilizou a economia e acabou com a hiperinflação. O Presidente Itamar Franco fez também projetos de combate à miséria ao lado do sociólogo Betinho, irmão de Henfil. Em 1994 Itamar apoiou o então candidato Fernando Henrique Cardoso, que saiu vitorioso nas urnas.
O resto é história recente. FHC estabiliza a economia e é reeleito em 1998. Derrotou Lula por duas vezes. Luis Inácio percebe então o quanto estava sendo burro politicamente ao manter sua posição ultrapassada e se transforma em um político mais próximo de tudo o que ele criticava.
Resultado: Lula vence finalmente. O segundo mandato de FHC termina em 1º de janeiro de 2003, com a posse de Luís Inácio Lula da Silva. Para a transmissão do cargo, FHC criou o inédito sistema de "Governo de Transição", estabelecendo através de Medida Provisória um modelo de partilhamento de pessoal e dados entre a antiga e a nova equipe que assumiria, contando inclusive com infraestrutura logística.
Com uma política econômica seguindo os moldes de Fernando Henrique e ampliando seus programas de combate à fome e à pobreza, aprimorando-os e dando destaque para o assistencialismo que, embora eu condene como foi feito às vezes, é inegável que retirou muita gente da miséria; Lula é reeleito e inicia a hegemonia petista no Governo Federal, elegendo a praticamente desconhecida Dilma como sua sucessora. O PSDB não teve força política, criativa, administrativa e organizacional para vencer o PT nesses anos todos. Como o PT jamais entrou em São Paulo, onde o PSDB dá as cartas há muitos anos.
Mas Dilma não é Lula. Não tem o talento político, o jogo de cintura e nem o comando sobre seus próprios comandados. E muito menos o carisma inegável do ex-presidente.
Comprando briga de um modo geral com todos e afundada no escândalo da Petrobrás que não tem como não respingar nela, Dilma e o PT são ameaçados de forma real por Aécio Neves que tem, neste surpreendente segundo turno, o apoio de sindicalistas (!), de quase todos os partidos não coligados ao PT, da família de Eduardo Campos que, ao morrer mudou o rumo das eleições, de Marina Silva que se consolida, aí sim, como líder política e da mídia em geral, graças principalmente ao tiro no pé que o PT deu ao apresentar, em maio deste ano, a proposta de regulação da imprensa, desenterrando a ideia da “censura” dos anos descritos no início destas linhas.
Independente para quem eu vote ou votei nesses anos todos gosto de ficar analisando o jogo político, a ação da mídia em geral, amplificada à ‘n’ potência pelas redes sociais e o trabalho dos homens de marketing. Afinal, também estive dentro desse mar quando fui vereador. Por alguns meses ou anos cheguei a acreditar que a política, pelo menos em nossa pequena cidade, poderia ser diferente a partir daquele momento. Não foi. E eu caí fora. Mas o assunto, sobretudo no nível estadual e federal, me instiga.
Eu sabia que Marina não chegaria ao segundo turno. Foi catapultada pela comoção geral e os responsáveis por sua campanha não souberam escapar das armadilhas da política. Sua campanha foi equivocada principalmente no final. Como tinha conhecimento de que ela não venceria Dilma (intuição) e que se vencesse, não governaria adequadamente (constatação), afinal tinha a minoria dos apoios necessários para isso.
Agora penso que estamos acompanhando os últimos dias do PT que, se sair nesse dia 26 de outubro, não volta tão cedo a ver o alvorecer no Palácio.
No primeiro programa do segundo turno Dilma fala equivocadamente – falando do ponto de vista do marketing – em 90% do tempo em que está no ar. Isso após o Jornal Nacional divulgar a pesquisa mostrando Aécio na frente e o relato de que o tesoureiro do PT recebeu grande parte da propina da Petrobrás.
Aécio, pelo contrário, mostra nas primeiras imagens o que eu, como publicitário, já teria feito no primeiro turno: candidato ao lado do seu avô Tancredo Neves. E voltamos, tal qual Ouroboros, no começo desta breve história recente do Brasil.
Tudo isso para mostrar a quem está chegando agora e começando a acompanhar nosso Brasil que hoje grita nas ruas por 20 centavos, que tivemos épocas e fatos e fotos bem piores do que supõe nossa vã filosofia facebookiana.
E só para ilustrar, para o bem ou para o mal, já que não entro na briga partidária – afinal tenho amigos de todos os times – o samba de Jorge Aragão:

“Vá com seus botões, que eu fico com os meus. PT, saudações, adeus”.

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