quinta-feira, 6 de novembro de 2014

A Fábula de Joãsinho

Paulo Rogério B. Rocco

Era uma vez um jovem dedicado que veio de São Luís, no Maranhão, para trabalhar em uma repartição pública, dançou no Municipal do Rio e se tornou uma lenda do Carnaval brasileiro. É isto. Isto é, seria esse o resumo da ópera se a história não tivesse sido contada como foi em “Trinta”, o filme-biografia do mais famoso Joãosinho do Brasil.

Matheus Nachtergaele vive o personagem-título, no sentido de viver plenamente uma personalidade que, apesar da baixa estatura, agiganta-se na tela como o fez na vida do lado de cá.

O filme dirigido com talento e com carinho aparente pela figura de Joãosinho, por Paulo Machline, narra a história desde que ele saiu do trabalho para se aventurar como bailarino, provocando o desprezo da própria família. Nas óperas do Municipal do Rio de Janeiro conhece um cenógrafo que o convida para ser seu assistente em um desfile de carnaval do Salgueiro. Nasce Joãosinho das Alegorias, alçado posteriormente e de forma quase acidental a carnavalesco da Escola.

O pequeno grande homem luta contra os próprios colegas, contra a contagem regressiva para o Carnaval e contra o preconceito, para tentar levar à avenida o enredo “O Rei de França na Ilha da Assombração”, considerado sua estreia-solo no maior espetáculo da terra.

Sagrando-se campeão, é reconhecido pela inovação, pela criatividade com materiais inusitados até então em um desfile – tipo forminhas de brigadeiro – e pela genialidade, confirmada a cada ano e que atingiu seu ápice, talvez, em “Ratos e Urubus, larguem a minha fantasia”, o polêmico enredo do Cristo censurado pela Igreja e que saiu coberto por sacos de lixo. O artista foi o primeiro a comparar a métrica da ópera ao Desfile da Sapucaí.

Isso tudo não é segredo para ninguém e talvez seja uma atração à parte no filme para quem não se interessa efetivamente pelo carnaval ou pela figura de Joãosinho, mas o diferencial está justamente na maneira como esta história é contada no filme.

Matheus empresta à Joãosinho a personalidade de um artista contemplativo, sensível – como todo artista deve ser – e seguro de sua missão, além de nuances em olhares e gestos que exemplificam essas qualidades. Destaque para a cena em que o artista “explode” no barracão da Escola e destila dezenas de palavrões em poucos segundos, numa das cenas mais hilárias do cinema brasileiro dos últimos tempos, talvez por não ser esperada, talvez pelo contexto da história naquele momento mas, sobretudo, pelo talento do ator.
Paulo Machline nos apresenta, com sua direção segura, grande momentos na obra, sobretudo com o auxílio da maravilhosa fotografia de Lito Mendes da Rocha. As sequencias das óperas no Teatro e principalmente uma cena em que Joãosinho está sozinho no palco, diante de uma plateia vazia, remete ao perfeccionismo e à simetria da escola kubrickiana.

O elenco tem ainda Milhem Cortaz, Paolla Oliveira, Fabrício Boliveira, Ernani Moraes e Paulo Tiefenthaler, entre outros que vieram também do carnaval – como a atriz Maria Paixão Jesus que também é baiana na Avenida – e ajudam a demonstrar a veracidade do trabalho executado no barracão.

Nesse cenário, aliás, é onde acontece o toque mágico que o cinema é capaz de nos proporcionar, ao aliar as imagens características da oficina do Samba à música clássica que é executada nessas cenas. E há de se dar outro destaque à trilha de André Abujamra, em uma composição que une a bateria de uma escola de samba às cordas de uma orquestra, sobretudo aos violinos. Uma lindíssima composição tocada quase no final do filme.

“Trinta” é para se visto pelos amantes do cinema, do samba, das artes, de Joãosinho e por qualquer pessoa que queira, por uma hora e meia, ser levado pelo lúdico e pela força dessa obra.

Matheus nos disse, na pré estreia, que o personagem reforçou para ele a ideia de que todo artista é solitário no momento de sua arte. E é isso que ocorre. Mas, no momento em que aplausos surgirem nas galerias dos teatros, nas poltronas dos cinemas ou nas arquibancadas do Sambódromo, a solidão é compartilhada e, pelo menos por preciosos minutos, o artista se sente abraçado.

Bravo. Palmas à Joãosinho e a todos que o trouxeram de volta.


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