quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Louca Anatomia de um Espetáculo

 Paulo Rogério B. Rocco

Quem, em sã consciência, faria um show em que a música de abertura fosse “Surabaya Johnny” de Brecht e Weill, passasse por “Eu Não sou Cachorro Não”, do Waldick e terminaria com “Samba e Amor”, de Chico Buarque? 
A resposta correta é a alternativa B: (   ) NDA.

Mesmo porque Elias Andreato não usou consciência para elaborar o roteiro e dirigir o novo Espetáculo de Débora Duboc. E nem Débora usou a sua consciência para interpretar canções tão díspares como complementares. Ambos usaram o coração.

Daí nasceu, obviamente, “Sou Toda Coração”, que está em cartaz no Teatro Itália, em São Paulo, até 10 de Dezembro, às quartas e quintas.

Maiakóvski emprestou o título para essa obra cênica que se torna um show musical ou um show musical que se torna um cabaré teatral ou um cabaré que se torna um poético sarau. Ou tudo isso, para alegria, deleite e emoção do público.

Brincadeiras à parte, não é difícil encontrar lógica no roteiro/repertório proposto pelo Diretor. Afinal Chico e Brecht/Weill tem uma “parceria” histórica que advém da “Ópera do Malandro”. E se Waldick Soriano está presente em um dos momentos divertidos do espetáculo, por que não incluir também Lamartine, Noel, Cazuza, Caetano, Ataulfo e qualquer outro compositor que ousou falar de Amor.

Ousadia sim. É um terreno delicado para todo artista, porque ao se tocar nesse assunto; em cada pessoa, em cada coração, a mensagem chega de uma maneira. Mas isso também é quase um pleonasmo poético, já que qualquer maneira de amor vale a pena. Não é?

Débora se despe de seus personagens, está de cara limpa, de figurino sóbrio, para ser ao mesmo tempo todos nós, vários personagens à procura de um amor. E começa o espetáculo em frente ao espelho, como se dissesse tudo aquilo a si mesma. Ao mesmo tempo em que reflete o sentimento de cada um, em cada poltrona.

O desenho de luz, do próprio Andreato e de André Acioli é simples, apenas pontua as canções. Cumpre seu papel de jogar luz, em todos os sentidos, sobre questões inerentes a esse órgão que sobra no poeta russo.

Débora está sozinha quando olha para seu próprio peito e arranca da alma, com sua voz intensa, “A Gota d’Água” ou quando ternura-se para lembrar “Menino Bonito”, de Rita Lee. Mas ela está muito bem acompanhada sempre do pianista Jonatan Harold, que também assina a Direção Musical. Discreto, excelente músico, deixa Débora à vontade para destilar sua emoção, mas não se distancia em nenhum momento da parceira de cena, às vezes respondendo aos versos jogados entre as canções, às vezes sendo cúmplice das interpretações.

A cenografia se resume ao piano e ao “camarim” da artista. E a uma moldura projetada que às vezes permanece vazia, para que cada um de nós enquadre ali, nossas mais remotas, intensas, divertidas, tristes, poéticas, nostálgicas lembranças de amor. 

Sem Comentários. 

terça-feira, 30 de junho de 2015

Vem ver Charles Chaplin!

Paulo Rocco

Ah, que pena ser talvez tardia essa crônica, comentário, crítica (!), artigo a respeito de “Chaplin, o Musical”, em cartaz por pouco tempo agora no Teatro Net em São Paulo. Que convenhamos é o local perfeito para a encenação, já que a arquitetura deste belo espaço mescla-se incrivelmente aos cenários e à proposta cênica.

A criação de Thomas Meehan e Christopher Curtis chega ao Brasil com canções versadas por Miguel Falabella. Mas o correto seria afirmar que o musical parte do Brasil, já que várias das canções foram criadas especialmente para essa montagem.

Jarbas Homem de Mello nos entrega uma interpretação corretíssima, como era de se esperar de um ator com técnicas corporais e vocais tão apuradas. Mas, mais do que isso, Mello nos apresenta, de forma até “assustadora” – tamanha a delicadeza do ato – a alma do artista que entregou a sua própria, de forma tão brilhante, à Sétima Arte.

Desde a primeira cena/canção, vários dos elementos e personagens dos filmes de Chaplin são apresentados ao público. Estão ali o policial que servia de escada para o Vagabundo, o garoto, a bela florista e tantas outras pessoas comuns que, na visão de um grande artista, transformam-se em ‘personagens vivendo de ilusão’. E é sempre assim, não Charlie? Os melhores filmes são feitos com pedaços de vida, simplesmente.

O que poderia escrever sobre esse trabalho? Que o elenco está afinadíssimo em todos os sentidos e se entrega de corpo, alma e voz para contar a história? Que o personagem título está rodeado de grandes talentos, que passa pela estreia de Marcello Anthony em musicais, por Paula Capovilla, Naíma, Paulo Goulart Filho, Giulia Nadruz e tantos outros? Que as coreografias assinadas por Alonso de Barros pontuam exatamente cada tom de cada cena?

Quem sabe poderia me ater à Direção primorosa de Mariano Detry que torna tão importante cada gesto não realizado no palco, como cada movimento dos atores pelos cenários e praticáveis que se alternam em várias marcações? O trabalho do Diretor é de uma limpeza e plasticidade dignas do perfeccionismo do próprio Chaplin.

A história de Charles Chaplin, também contada magnificamente por Richard Attenborough em seu filme de 1992, está toda ali: da infância pobre ao recebimento do Oscar honorário – ou de consolação – entregue pela Academia em 1972. Mas o teatro deixa a magia da obra do ator e diretor ainda mais evidente. Na cena em que recebe o prêmio, por exemplo, Chaplin é aplaudido entusiasticamente pela ‘plateia’ no palco e pela plateia nas poltronas, a esta altura, já totalmente imersa no jogo emocional proposto por Mello em sua composição primorosa.

Aplaudimos, com lágrimas nos olhos, um dos maiores artistas de todos os tempos, ao vê-lo receber um prêmio dos mesmos americanos que o levaram a se exilar na Suíça vinte anos antes. Aplaudimos o Sir que nos deixou na noite de Natal, em 1977. Aplaudimos o profissionalismo e talento do teatro brasileiro nesse espetáculo que envolve tantos atores, técnicos, músicos e assistentes. Aplaudimos Jarbas Homem de Mello por nos trazer de volta a oportunidade de ver o vagabundo que tanto amamos. E aplaudimos, por fim, esse adorável vagabundo que deixa a cena, através da tela do cinema, distanciando-se – com seus passos tortos – dos nossos olhos e se aproximando ainda mais do nosso coração.

E por que disse que essas palavras podem ser tardias? Porque a cortina em breve se fechará. A temporada está chegando ao fim. Mas se você ama Chaplin, ama cinema, ama teatro, não pense em contrariar o convite feito pela atriz Mariana Tozzo em cena: “Vem ver Charles Chaplin”.

Sem comentários.