terça-feira, 30 de junho de 2015

Vem ver Charles Chaplin!

Paulo Rocco

Ah, que pena ser talvez tardia essa crônica, comentário, crítica (!), artigo a respeito de “Chaplin, o Musical”, em cartaz por pouco tempo agora no Teatro Net em São Paulo. Que convenhamos é o local perfeito para a encenação, já que a arquitetura deste belo espaço mescla-se incrivelmente aos cenários e à proposta cênica.

A criação de Thomas Meehan e Christopher Curtis chega ao Brasil com canções versadas por Miguel Falabella. Mas o correto seria afirmar que o musical parte do Brasil, já que várias das canções foram criadas especialmente para essa montagem.

Jarbas Homem de Mello nos entrega uma interpretação corretíssima, como era de se esperar de um ator com técnicas corporais e vocais tão apuradas. Mas, mais do que isso, Mello nos apresenta, de forma até “assustadora” – tamanha a delicadeza do ato – a alma do artista que entregou a sua própria, de forma tão brilhante, à Sétima Arte.

Desde a primeira cena/canção, vários dos elementos e personagens dos filmes de Chaplin são apresentados ao público. Estão ali o policial que servia de escada para o Vagabundo, o garoto, a bela florista e tantas outras pessoas comuns que, na visão de um grande artista, transformam-se em ‘personagens vivendo de ilusão’. E é sempre assim, não Charlie? Os melhores filmes são feitos com pedaços de vida, simplesmente.

O que poderia escrever sobre esse trabalho? Que o elenco está afinadíssimo em todos os sentidos e se entrega de corpo, alma e voz para contar a história? Que o personagem título está rodeado de grandes talentos, que passa pela estreia de Marcello Anthony em musicais, por Paula Capovilla, Naíma, Paulo Goulart Filho, Giulia Nadruz e tantos outros? Que as coreografias assinadas por Alonso de Barros pontuam exatamente cada tom de cada cena?

Quem sabe poderia me ater à Direção primorosa de Mariano Detry que torna tão importante cada gesto não realizado no palco, como cada movimento dos atores pelos cenários e praticáveis que se alternam em várias marcações? O trabalho do Diretor é de uma limpeza e plasticidade dignas do perfeccionismo do próprio Chaplin.

A história de Charles Chaplin, também contada magnificamente por Richard Attenborough em seu filme de 1992, está toda ali: da infância pobre ao recebimento do Oscar honorário – ou de consolação – entregue pela Academia em 1972. Mas o teatro deixa a magia da obra do ator e diretor ainda mais evidente. Na cena em que recebe o prêmio, por exemplo, Chaplin é aplaudido entusiasticamente pela ‘plateia’ no palco e pela plateia nas poltronas, a esta altura, já totalmente imersa no jogo emocional proposto por Mello em sua composição primorosa.

Aplaudimos, com lágrimas nos olhos, um dos maiores artistas de todos os tempos, ao vê-lo receber um prêmio dos mesmos americanos que o levaram a se exilar na Suíça vinte anos antes. Aplaudimos o Sir que nos deixou na noite de Natal, em 1977. Aplaudimos o profissionalismo e talento do teatro brasileiro nesse espetáculo que envolve tantos atores, técnicos, músicos e assistentes. Aplaudimos Jarbas Homem de Mello por nos trazer de volta a oportunidade de ver o vagabundo que tanto amamos. E aplaudimos, por fim, esse adorável vagabundo que deixa a cena, através da tela do cinema, distanciando-se – com seus passos tortos – dos nossos olhos e se aproximando ainda mais do nosso coração.

E por que disse que essas palavras podem ser tardias? Porque a cortina em breve se fechará. A temporada está chegando ao fim. Mas se você ama Chaplin, ama cinema, ama teatro, não pense em contrariar o convite feito pela atriz Mariana Tozzo em cena: “Vem ver Charles Chaplin”.

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