sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Novo Dia na Ribalta

Paulo Rogério B. Rocco


Recebi nesta semana, devidamente autografado, o CD “Teu Colo”, primeiro trabalho musical de Eloy Nunes. Primeiro CD, na verdade, que já Eloy é veterano de shows de Música Popular Brasileira e está há 25 anos nos palcos e na frente das câmeras. Acompanhei a gênese desse projeto e grande parte do seu desenvolvimento. Sou testemunha do esforço, da vontade e, sobretudo, do talento desse artista.

“Teu Colo” tem 16 faixas. Conheci cada uma no primeiro tratamento, apenas com acompanhamento de piano e duas delas através dos vídeos na internet. Tinha sido apresentado a algumas letras durante um almoço, no metrô ou em breves visitas à Eloy que, sempre com o entusiasmo de quem está sempre recomeçando e se reinventando, falava cada verso com o sentimento que ele havia sido escrito. E esses poemas se tornaram canções. E belas canções.

Da música romântica que abre o CD aos boleros, da Bahia de Caymmi ao samba carioca, do frevo pernambucano aos ares e à sonoridade peculiar do Pará, sua terra; tudo passa por esse trabalho, fluindo sem percalços, como se a viagem pelos estados fosse feita em rio sereno, em um barquinho de papel.

A viagem começa à noite. E convida, como no clipe, que se deguste cada palavra que se seguirá. Depois de uma valsa nas estrelas, um xote no Ceará, mas o contraste – bem vindo em várias composições – já é visível: uma música alegre com versos tão belos como tristes, como “teu lindo coração está trancado em um porão e ninguém consegue ver”. Assim como na faixa seguinte, “O Abismo”, que mantém o ritmo e a tristeza discreta do poeta. Ele tenta se ‘recuperar’ em “A Cura”. E consegue.

Então parte pelas águas do seu Nordeste, passa pela Bahia de Dorival em “Ah”, faz desenhos na areia já com uma alegria transparente e mergulha nos barquinhos dançantes de sua imaginação.

Com divisões e nuances claras, o CD abre sua terceira parte com “Contradança”, evocando Milton, talvez Djavan ou Chico. O mesmo em “Bálsamo”, um delicioso samba de roda. E o poeta está feliz.

“Meu Abraço Seu” tem um ritmo pop e uma letra determinada: “Vão-se os anéis, fica a mão”. “Enlace” chega para afirmar que o tal do sentimento ilhado, morto, amordaçado pode voltar a incomodar. Mas a ‘recaída’ breve é exorcizada em “A Luz”, que abre com o verso “A vida segue e eu pressinto o futuro”.

A faixa-título é uma canção de ninar, um acalanto. E “Embora” parece confirmar o que disse Vinicius: que o poeta só é grande se sofrer.
Mas Eloy é uma pessoa positiva, com palavras de carinho e amizade sempre a postos para seus amigos, admiradores do seu trabalho e agora para aqueles que tiverem o prazer de ouvir sua estreia autoral. E é esse compositor que termina o CD com “Novo Dia”. “O mundo que quero de volta nunca emerge ou cai do céu. É uma ilusão da ribalta, um grão de areia na imensidão”, são meus versos preferidos de todo o CD.

Eloy, como todo grande artista, cercou-se de outros tão competentes quanto ele. A produção musical é de Marcos Azzella e Jonatan Harold que recentemente acompanhou Débora Duboc em “Sou Toda Coração”, espetáculo dirigido por Elias Andreato. Harold ainda toca piano, teclados e acordeom no disco, além de fazer parceira na composição de “Embora”. A banda se completa com Azzella no contrabaixo, Vinicius Nicoletti nas guitarras, violões e afins, Rodrigo Star na bateria e Egimar Alves na percussão. Roberto Straub é parceiro do cantor em “Novo Dia” e “Meu Abraço Seu”.

A música que encerra o CD tem a participação marcante e o timbre cortante de Corina Sabbas, que contribui para esse nascer do novo dia na carreira de Eloy Nunes.

“O artista que sobe no palco enfrenta o medo e a solidão”, canta o poeta. Solidão onde todos estão juntos, por mais paradoxal que isso soe, em cada linha ou melodia desse seu belo trabalho de estreia.

Sem comentários. 


  

terça-feira, 12 de abril de 2016

Cuba ouve os Rolling Stones


Paulo Rogério B. Rocco

Dias sombrios esses em que vivemos. Presidiários (!) foram levados à Esplanada dos Ministérios para erguerem um "muro" de ferro que irá separar manifestantes a favor e contra o impeachment.

O que esses bandidos metamorfoseados em políticos fizeram foi separar nosso povo, sempre tão orgulhoso de tantas lutas conjuntas, de tantas dificuldades vencidas, de tanta esperança em um país digno.

Aliás, a divisão sempre foi a diretriz principal de certos políticos, jogando uns contra os outros: ricos e pobres, empresários e trabalhadores, patrões e funcionários, amarelos e vermelhos. E detalhe: como camaleões sempre estiveram infiltrados em todos os “times”, sem que o outro percebesse. Ou vai falar que não? Isso nunca vai aparecer em livros didáticos. Afinal a história é sempre contada pela ótica dos “vencedores”.

Queria muito me equilibrar sobre esse muro da vergonha em Brasília, observando em cada face que urra palavras de ordem, o ódio destilado sobre seu próprio compatriota; por causa de ladrões, de ambos os lados, que roubam descaradamente seu dinheiro, sua educação, sua saúde, sua cultura e agora até sua cidadania.

Gostaria de estar lá para ver, quem sabe, – se meu lado poeta aflorasse mais uma vez pelo menos – duas pessoas trocando olhares e tocando as mãos sobre o muro, apaixonando-se, em meio ao caos, como Romeu e Julieta, como Tristão e Isolda, como Peri e Ceci, como Ordem e Progresso.

Enquanto somos confinados nesses currais eleitorais e nos dão o pasto da esplanada como rinha; Cuba, no Século XXI, ouve os Rolling Stones.

Sem comentários. 

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Meu DeLorean, Por Favor


Paulo Rogério B. Rocco

De muitas imagens icônicas da trilogia "De Volta para o Futuro", uma que sempre me intrigou é a da foto da família de Marty que vai desaparecendo conforme o passado vai sendo alterado. Não gosto da ideia.

Sou do tempo dos álbuns de fotos de família onde estão todos lá, sejam os vivos, sejam os vivos de outras épocas.

Hoje, nesse desvario digital, as fotos não mais amarelam ou se esvanecem, elas ficam. Mas ficam em lugares onde quase não vemos. Não são mais perecíveis, mas também trazem na maioria das vezes, apenas a emoção fria dos pixels.

No tempo louco em que nos permitimos na frente das telas, quase não sobra nenhum segundo para abrirmos aquela foto, daquela viagem, daquele trabalho, daquele palco onde representamos; arquivada em dezenas de pastas que se misturam à dados contábeis, textos mal acabados ou projetos ainda por vir.

E quando vez ou outra uma dessas imagens, em alta ou baixa resolução, surge em uma janela eletrônica, tem o poder de abrir outra delas, em um cantinho da mente, onde estão verdadeiramente armazenadas as lembranças de outros tempos.

Se na foto no computador, no celular, onde quer que seja, ainda estão todos, felizes, acreditando em coisas cada vez melhores; no photoshop de uma realidade onde não nos permitimos voltar-nos nem mesmo para o Presente; os amigos, familiares, colegas de palco, de copo e de cruz vão desaparecendo igual a família de McFly.

Meu DeLorean, por favor.

E sem comentários.


segunda-feira, 28 de março de 2016

Batman Vs Superman - Quem vence? (Sem Spoilers)

   O filme é muito, muito bom. Crítica tem pra todos os gostos, se curte os personagens vá agora para o cinema e divirta-se. 

   As primeiras cenas do filme são as últimas de "O Homem de Aço", com variações de ângulos, o que revela novos personagens. O que quer dizer que se você não viu o longa do Superman, vai boiar em alguns detalhes. Desde as primeiras notícias se sabia que era uma sequência e assim é. Confesso que eu mesmo saí do cinema após ver "O Homem de Aço" incomodado com o tanto de barulho e destruição. Gostei mais do filme quando revi em Blu-ray. Mas agora toda aquela bagunça causada em Metrópoles faz ainda mais sentido.

   Toda a sequência inicial, sob os créditos é de arrepiar, mesmo constando uma cena que qualquer fã do Homem-Morcego já assistiu pelo menos uma dezena de vezes nas telas e já viu em centenas de HQs. Mesmo esta sendo reproduzida exatamente como em uma história em particular (no que, convenhamos, o diretor Snyder é especialista).

   Por falar em quadrinhos, tem referências (e cenas idênticas) do "Cavaleiro das Trevas" de Miller (óbvio); de "Crise nas Infinitas Terras", de Wolfman e Pérez; de "A Morte do Superman", de Lousie Simonson e Jon Bogdanove (onde surgiu o Apocalypse); de "Paz na Terra", de Alex Ross  e Paul Dini e de "Morte em Família", de Jim Starlin e Jim Aparo; só para ficar nas principais que notei mesmo com a emoção à flor da pele.

   Há ainda homenagens/citações aos longas de Christopher Nolan e ao "Batman" de Tim Burton. Pelo menos assim eu imaginei ao ver um ângulo de Batman idêntico ao que se usava para algumas peças da promoção do filme de 1989, que inclusive foi capa da Veja por aqui.

  Todo o elenco está incrível. Isso é comprovado quando não percebemos mais Ben Affleck, Henry Cavill ou Gal Gadot e passamos a ver somente a Trindade mais famosa do Universo. Gostei de Eisenberg como Luthor. Era minha única dúvida sobre o elenco, mas a construção da personagem (mesmo que remeta ao Coringa, como alguns disseram) termina por se fazer eficiente.

   A aparição alardeada de membros da Liga da Justiça cumpre seu papel de ligar com o próximo filme da DC com destaque para um dos heróis.

   "Batman Vs. Superman - A Origem da Justiça" não é filme para quem coloca no pedestal máximo a segunda aventura do Vingadores, por exemplo. Este universo é mais adulto, mais complexo, mais sério e bem menos colorido do que aquele que abriga os heróis da Marvel (vamos ver se "Guerra Civil" dá um passo adiante nesse sentido como aconteceu com "Capitão América - Soldado Invernal" e despencou com a sequência dos Vingadores).

   Não é um filme para adolescente. Quem está nessa fase e é iniciado no mundo nerd vai curtir, outros vão se aborrecer e aporrinhar espectadores nos cinemas. Portanto escolha sessões legendadas, de preferência em salas tipo IMAX, XD ou coisa assim e 3D, apesar da fotografia ficar ainda mais escura (mas estamos falando de Batman, não é?).

   Divirta-se com as citações, homenagens, referências e frases bem construídas, que são inseridas o tempo todo nas duas horas e meia de projeção deste filme que já é campeão de bilheteria.

   E, claro, a cena da luta entre os dois é bem legal, apesar de rápida. E quem vence? Nós, fãs do Batman, do Superman, de um bom filme de ação e aventura, de quadrinhos e da cultura pop em geral.

    Sem comentários.


quarta-feira, 2 de março de 2016

20 Anos sem a Tal da Suruba

Paulo Rogério B. Rocco

Da série "Pra não dizer que não falei dos Mamonas": À parte das matérias sensacionalistas de apresentadores e apresentadoras babacas de televisão (quase todos, com raras exceções), a banda era legal.

No ano de lançamento do disco eu tinha tanto um amigo da minha idade quanto uma prima de 2 ou 3 anos que adoravam as músicas irreverentes dos garotos. Os adultos que gostavam do trabalho deles curtiam o deboche, a crítica, as referências, a brincadeira sacana das letras colocadas naquelas músicas que soavam familiares como cantigas de infância - e eram mesmo.

As crianças ficam vidradas nos figurinos de heróis, personagens de TV e afins que mais pareciam frequentadores desses bailes à fantasia que não tinham grana para grandes produções ou blocos carnavalescos, como a roupa de "presidiário".

O único disco foi um fenômeno poucas vezes visto na indústria fonográfica. E atenção: estou falando de uma época pré-internet e pré-redes sociais. Aquilo era genuíno. O público - que gostava, repito - o fazia porque sim, não porque a mídia despejava o "sucesso" em cima dele como acontece hoje com tantas duplas semi-sertanejas que "estouram" a cada semana.

Se eu fosse resumir a carreira dos Mamonas Assassinas (nome genial que remete à nossas guerrinhas de mamonas na infância) diria que era uma grande brincadeira levada à sério e que mandava à favas toda e qualquer forma de censura, brincando de maneira saudável e ingênua (para as crianças) com várias instituições e assuntos "tabus".

Não creio que o acidente tenha sido essencial para imortalizar a banda. Ajudou sim a dar audiência para os sanguessugas de microfone. O que deixou o nome dos Mamonas vivo para sempre foram essas características que citei sobre o trabalho deles. Mesmo que talvez não tivessem passado do segundo disco (do primeiro passariam com certeza), aquela capa com a mulher com seios a mostra (caricatura dos seios de Mari Alexandre que tinha acabado de sair na Playboy) já estaria para sempre fixada na memória dos adolescentes, no ouvido dos adultos e nos passinhos coreografados das crianças em frente aos monitores de TV ligados nos programas de auditório que se "rendiam" ao fenômeno.

Que falta faz os Mamonas hoje! Em tempos hipocritamente corretos, politicamente governados por chatos de galocha e julgados por "pós-graduados em qualquer área" do Facebook, as músicas da banda caíram como bálsamo.

Mas não se engane: hoje sim eles não passariam do primeiro disco e seriam pregados na cruz virtual, de ponta cabeça, até pelo grupo de defensores da Maria, aquela mesma que foi pra uma tal de suruba.

Sem comentários.