terça-feira, 12 de abril de 2016

Cuba ouve os Rolling Stones


Paulo Rogério B. Rocco

Dias sombrios esses em que vivemos. Presidiários (!) foram levados à Esplanada dos Ministérios para erguerem um "muro" de ferro que irá separar manifestantes a favor e contra o impeachment.

O que esses bandidos metamorfoseados em políticos fizeram foi separar nosso povo, sempre tão orgulhoso de tantas lutas conjuntas, de tantas dificuldades vencidas, de tanta esperança em um país digno.

Aliás, a divisão sempre foi a diretriz principal de certos políticos, jogando uns contra os outros: ricos e pobres, empresários e trabalhadores, patrões e funcionários, amarelos e vermelhos. E detalhe: como camaleões sempre estiveram infiltrados em todos os “times”, sem que o outro percebesse. Ou vai falar que não? Isso nunca vai aparecer em livros didáticos. Afinal a história é sempre contada pela ótica dos “vencedores”.

Queria muito me equilibrar sobre esse muro da vergonha em Brasília, observando em cada face que urra palavras de ordem, o ódio destilado sobre seu próprio compatriota; por causa de ladrões, de ambos os lados, que roubam descaradamente seu dinheiro, sua educação, sua saúde, sua cultura e agora até sua cidadania.

Gostaria de estar lá para ver, quem sabe, – se meu lado poeta aflorasse mais uma vez pelo menos – duas pessoas trocando olhares e tocando as mãos sobre o muro, apaixonando-se, em meio ao caos, como Romeu e Julieta, como Tristão e Isolda, como Peri e Ceci, como Ordem e Progresso.

Enquanto somos confinados nesses currais eleitorais e nos dão o pasto da esplanada como rinha; Cuba, no Século XXI, ouve os Rolling Stones.

Sem comentários. 

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Meu DeLorean, Por Favor


Paulo Rogério B. Rocco

De muitas imagens icônicas da trilogia "De Volta para o Futuro", uma que sempre me intrigou é a da foto da família de Marty que vai desaparecendo conforme o passado vai sendo alterado. Não gosto da ideia.

Sou do tempo dos álbuns de fotos de família onde estão todos lá, sejam os vivos, sejam os vivos de outras épocas.

Hoje, nesse desvario digital, as fotos não mais amarelam ou se esvanecem, elas ficam. Mas ficam em lugares onde quase não vemos. Não são mais perecíveis, mas também trazem na maioria das vezes, apenas a emoção fria dos pixels.

No tempo louco em que nos permitimos na frente das telas, quase não sobra nenhum segundo para abrirmos aquela foto, daquela viagem, daquele trabalho, daquele palco onde representamos; arquivada em dezenas de pastas que se misturam à dados contábeis, textos mal acabados ou projetos ainda por vir.

E quando vez ou outra uma dessas imagens, em alta ou baixa resolução, surge em uma janela eletrônica, tem o poder de abrir outra delas, em um cantinho da mente, onde estão verdadeiramente armazenadas as lembranças de outros tempos.

Se na foto no computador, no celular, onde quer que seja, ainda estão todos, felizes, acreditando em coisas cada vez melhores; no photoshop de uma realidade onde não nos permitimos voltar-nos nem mesmo para o Presente; os amigos, familiares, colegas de palco, de copo e de cruz vão desaparecendo igual a família de McFly.

Meu DeLorean, por favor.

E sem comentários.