quarta-feira, 19 de julho de 2017

Um Balde de Água Fria

Paulo Rogério B. Rocco

Quando eu falo do "jornalismo" inconsequente, principalmente dos grandes sites, é a isto que estou me referindo. Essa´ é uma manchete de destaque do Globo.com do dia 19 de julho:

"Prefeitura de SP joga água fria em morador de rua".

E exatamente abaixo ainda tem um subtítulo: "Morador de rua é achado morto sob frio".

A principio a reação é de ódio intenso e vontade de mandar o prefeito para aquele lugar. Aí você abre o link que leva ao portal CBN da Fabíola Cidral. E a "manchete" muda:

"Moradores de rua em São Paulo são acordados com jatos de água fria".

Lendo a cabeça da matéria: "Apesar do clima na cidade nesta madrugada, que chegou a 8º, as pessoas que dormem em vias públicas e praças reclamam do tratamento de agentes públicos. A prefeitura de São Paulo informa que foram distribuídos edredons para proteger do frio."

Então começa a reportagem assinada por Camila Olivo: 

"Moradores de rua da região da Sé, em São Paulo, reclamam que funcionários que fazem a limpeza de praças e vias públicas jogam água em locais próximos de onde grupos de pessoas dormem".

Concluindo: Não estou aqui defendendo a administração de São Paulo, estou apenas expondo a maneira como alguns jornalistas chamam a atenção para seu trabalho ou acusam esse ou aquele político com manchetes que não dizem a verdade. 

Quando se lê a matéria toda entende-se que funcionários da limpeza lavam as calçadas - talvez até de forma imprudente - e que chegam a molhar moradores de rua. 

Quando se lê só a primeira página do site, fato comum nos dias de hoje, parece que a prefeitura vai lá com uma mangueira, mira no morador de rua e joga água para congelá-lo. 

Repito: não defendo esse ou aquele administrador e seus métodos de trabalho, questiono aqui o inconsequente jornalismo praticado de qualquer jeito. 

E para finalizar a tal matéria - depois daquele manchete que você leu lá em cima - vem esse parágrafo:

"O prefeito regional da Sé, Eduardo Odloak, afirma que vai apurar o procedimento e que a orientação é para que as equipes sempre abordem os moradores de rua antes de começar a limpeza. A prefeitura de São Paulo anunciou que vai fazer duas distribuições emergenciais de cobertores nesta quarta-feira, às 16h e outra às 20h. Na terça-feira, foram entregues mil cobertores durante a noite".

Sem comentários.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

É só uma ótima História de Rock

Paulo Rogério B. Rocco


Quando posso, sempre escolho uma novela para acompanhar diariamente. Decido pelo autor, pela história inicial ou na maioria das vezes pelo horário em que não estou ensaiando ou dando aulas de teatro. Atualmente, minha atenção cai sobre “Rock Story” principalmente pelo tema que aborda: música. Como também se encaixou em um horário disponível, vamos lá: era essa.

Fui pego no primeiro capítulo, como tem que ser a relação de toda boa novela com o espectador. De cara já conhecia as principais personagens, já aconteceram os encontros necessários para direcionar a história e já apareceram alguns conflitos que viriam a permear meses e meses de uma boa história.

Aliás, esse é o primeiro mérito de Maria Helena Nascimento: um ótimo argumento. Com uma carreira consolidada como colaboradora é sua primeira obra como autora principal. E traz em cada capítulo todos os elementos capazes de transformar uma novela no que se espera dela: um sucesso.

A essa altura, praticamente na sua metade, todos que acompanham a trama das sete já conhecem as personagens principais e suas histórias de cor e salteado, como as fãs histéricas conhecem as músicas de Léo Régis. Então repetir o enredo aqui seria menosprezar a inteligência do público, o que o roteiro de Maria Helena não faz. Ele é preciso, inteligente, bem humorado, emocionante na medida certa e com tiradas deliciosas.

De início, apesar de a autora desconversar em algumas entrevistas, o nome dos protagonistas e antagonistas são junções de nomes de cantores ou duplas sertanejas o que, a princípio sairia do mote musical principal, o rock; mas se assemelharia ao universo que esbarra no cantor metido, infantil, vislumbrado pelo sucesso e com talento duvidoso defendido muito bem por Rafael Vitti.

Ele é a primeira brincadeira – voluntária ou não (!) – com o nome do personagem: Leonardo Régis. Há o Leonardo – que fazia dupla com Leandro e existe o Régis – que faz dupla com Raí. Léo é o “novo”, o “sucesso do momento”, o “top das paradas”; como dezenas e dezenas de cantores e duplas que saem dos escritórios do próprio Leonardo (o cantor) ou do Sorocaba, dois dos maiores empresários do setor e descobridores de novos ‘talentos’.

Do outro lado do ringue, a música em sua essência bruta, o rock and roll, o gênero contestador que dá nome à novela e seu maior representante: um ídolo do passado, mas lembrado pelos fãs, representado adequadamente por Vladimir Brichta e que atende pelo nome de Guilherme Santiago – igualzinho à dupla sertaneja homônima.

Reafirmando, não vou me aprofundar na história que no primeiro capítulo já mostrou as desavenças entre eles, principalmente por estarem se relacionando com a mesma mulher, Diana. O que importa aqui é que, nesse trio principal, assim como em todos os personagens que os rodeiam, incluindo as ramificações necessárias em uma obra como essa; há uma profundidade quase incomum hoje na teledramaturgia. Conhecemos a personagem, sua personalidade e as motivações que leva a cada ação e reação de seu núcleo ou de outro que se interliga.

E por existir essa profundidade, mérito também do elenco talentoso e afinado e da regência de Dennis Carvalho na Direção, é que quase todos, com raríssimas exceções, têm sua importância e seu momento na história.

História essa que quase sempre, se tivermos um pouco de atenção e conhecer um pouco de teledramaturgia, é possível saber para onde caminha. O que não é demérito, pelo contrário. A meu ver é um dos grandes trunfos de “Rock Story”.

Os “vilões” são outro ponto interessante. Assim mesmo entre aspas, porque não são característicos como uma Nazaré Tedesco ou um Tião Bezerra, para citar dois personagens do gênero bem comentados esses dias. Diana (Alinne Moraes) ou Lázaro (João Vicente de Castro) tem seus motivos – justificáveis para eles – para fazerem o que fazem. E até o bandido da periferia (Jaílson dos Santos) tem seu lado humano, demonstrado na cena em que ele começou a tocar o baixo que roubou da banda 4.4 – e que, na minha humilde opinião vai acabar fazendo parte dela.

Se esses vilões são capazes de demonstrar um pouco de simpatia é graças a todo o conjunto da novela. O humor preciso do texto e o sarcasmo de Lázaro deixam hilárias as cenas entre ele e a Dona Néia de Ana Beatriz Nogueira. A dupla conta ainda com a intervenção do fotógrafo Ramon (Gabriel Louchard) em cenas muito engraçadas.

Assim como são divertidíssimas as cenas dos capangas de Alex (Caio Paduan): Romildo (Paulo Verlings) e William (Leandro Daniel). O dia em que a dupla roubou o corpo do cemitério foi digno das boas chanchadas da década de 70. Marisa (Júlia Rabello) também é uma personagem divertida, tamanha a dualidade com que se apresenta dependendo de quem está em cena com ela.

Os dois ‘lados’ de Vanessa (Lorena Comparato), por exemplo, como já é uma personagem mais séria, foi sendo alterado ao longo de vários capítulos. Ela pendia para ser “vilã” no início, mas como tem um passado coeso, uma família de gente boa; assim que soube da verdade sobre Júlia, acabou ficando do lado dela e a apoiando. É isso que eu dizia sobre uma personagem bem construída.

Todos do elenco têm sua vez e entrelaçam as histórias. Sabemos que a 4.4 será um sucesso. Sabemos que os conflitos entre os meninos vão ao extremo – como em toda boa banda de rock ou pop que se preza, seja por conta das investidas de Lázaro ou pelos ciúmes com as mulheres. Aqui nesse núcleo, aliás, estão concentrados também os conflitos entre casais, já que os principais pares da novela, salvo pequenas discussões, vão muito bem, obrigado. Ponto para Maria Helena também. Foge do lugar comum e o público gosta disso.

Muito disco vai rolar ainda por estes capítulos. Deve ter a ascensão e queda da banda e nova ascensão; o declínio de Léo Régis e talvez um renascimento mais modesto; a revelação do envolvimento de Lorena no contrabando e a “ressurreição” de Alex; a descoberta das gravações do CD do Gui e o novo estouro do roqueiro; entre tanta coisa.

Mas de uma coisa tenho certeza, “Rock Story” vai continuar divertindo e prendendo a atenção da gente, da mesma maneira que acontecia quando eu comprava um LP novo, o colocava no toca-discos e sentava na sala para ouvi-lo, com toda a atenção do mundo, por longos e deliciosos 40 minutos. É só rock’n’roll, mas eu gosto.

Sem comentários.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Tempo de Chuva

 Paulo Rogério B. Rocco

Assisti nessa semana ao 11º episódio da primeira temporada de “Legends of Tomorrow”, série que reúne alguns heróis e vilões da segunda divisão da DC Comics, em viagens através do tempo para deter um vilão que vai dominar o mundo. E é esse capítulo em especial que me levou a escrever os próximos parágrafos.

Intitulado "The Magnificent Eight" (Os Oito Magníficos), obviamente uma referência/homenagem ao filme “The Magnificent Seven” (Sete Homens e um Destino); a história leva os personagens ao velho oeste americano, tendo que defender uma cidade de um bando de bandidos.

Um deles, Rip Hunter, justamente o Mestre do Tempo – que pode viajar por todo o sempre e além, a bordo de uma nave – em certo momento confessa que já esteve naquela época e que tanto se identificou com aquele lugar (e tempo), que não queria ter saído de lá e voltado para sua realidade. É esse diálogo que me chamou a atenção.

Agora uma pausa no fluxo temporal do texto para saltarmos a 1967, quando foi exibido o Episódio 28 da primeira temporada de Star Trek. “The City on the Edge of Forever” (ou Uma Cidade à Beira da Eternidade) é considerado por muitos como o melhor capítulo da séria clássica de Jornada nas Estrelas e mostra a tripulação da Enterprise voltando a Terra de 1930. Kirk se apaixona por uma moça e por aquela época.

E por que o passado tanto nos fascina? Qual a mágica que há em épocas tão díspares quanto os anos 50, a efervescência dos 60 ou mesmo os incríveis anos 70? Isso para falar de Brasil. Na França, Inglaterra, Estados Unidos, outras décadas despertam a paixão das pessoas.

O melhor relato talvez sobre todo esse assunto esteja no filme “Meia Noite em Paris”. Woody Allen dá uma aula de cinema ao contar a história de um roteirista famoso em Hollywood que sonha largar tudo e se tornar um escritor.

Em uma viagem com a noiva à Cidade-Luz, ele caminha pela cidade em busca de inspiração. Em uma dessas noites ele está andando pelas ruelas históricas quando aceita carona em um carro e vai parar na década de 20.

Lá ele encontra escritores como Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway; os artistas plásticos Picasso, Matisse e Salvador Dalí, entre outros. Todos seus ídolos. Tudo é incrível. Ali ele se apaixona pela cidade, pela época, pelos bares, pelos novos amigos e, claro, por uma mulher.

Em determinado momento conhece pessoas do tempo em que está, absolutamente fascinadas pelo final do século 19, como se essa sim, fosse a época perfeita. Ele “volta” mais um pouco e encontra pessoas como Toulouse-Lautrec, Rimbaud, Paul Gauguin e Edgar Degas. E fica ainda mais fascinado.

É isso: nunca estamos (quase todos) felizes com o tempo em que vivemos. Ou queríamos estar atrás ou pensamos estar à frente dele, do tempo ideal. Do tempo exato em que fomos, somos ou seremos felizes.

Mas não temos a nave de Rip Hunter e sua equipe. Nem tampouco a Enterprise e seus teletransportadores tão desejados... Pôxa, não temos nem mesmo o elegantérrimo Peugeot 184 Coupé-Limousine Landaulet que leva o personagem de Owen Wilson em busca de suas paixões.

O que fazer então? Talvez exatamente igual o que o personagem sonhador faz no final do filme: ser feliz, de verdade, na época em que está vivendo.


Pode chover de vez em quando nessa minha convicção? Sim, pode. Mas Paris também é escandalosamente bela na chuva. Em qualquer tempo.

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