quarta-feira, 28 de novembro de 2018

A Corrente

Paulo Rogério Rocco


A primeira impressão é a que te leva até o fim. E no caso de “O Sétimo Guardião” isso parece que vai acontecer, se não com uma massa gigantesca de audiência, com fieis espectadores ávidos por novos ventos na teledramaturgia.

A nova novela das nove resgata, como já tão alardeado pela mídia, o realismo fantástico – ou mágico – no horário nobre. O estilo tem suas bases na literatura, tendo como um de seus grandes expoentes, o colombiano Gabriel Garciaz Màrquez. Consiste basicamente em inserir no cotidiano “real” das personagens elementos mágicos, sobrenaturais, fantásticos; como se fosse, para essas mesmas personagens – e para o leitor ou público, a coisa mais comum do mundo.

A primeira e mais marcante lembrança que tenho deste gênero na televisão é o voo de João Gibão em “Saramandaia”, a original de 1976, considerada a precursora desse estilo. Eu tinha nove anos e meus pais não deixavam assistir a novela toda que passava às 10 da noite. Mas aqueles personagens de Dias Gomes me fascinavam mesmo assim, justamente por suas características inusitadas, como voar, colocar formigas pelo nariz, virar lobisomem ou explodir de tanto comer.

Um ano antes, Dias tentou emplacar na TV uma adaptação de sua peça “O Berço do Herói”, com o nome de “Roque Santeiro”. A novela, também com elementos mágicos, foi censurada. Apenas em 1985 a história foi ao ar, tornando-se um dos maiores sucessos da televisão brasileira.

Um dos autores que escreveu a novela com Dias Gomes foi o responsável por manter e aperfeiçoar o tal gênero na TV: Aguinaldo Silva. Ele emplacou uma sequência de novelas no estilo, consagrando títulos como “Pedra Sobre Pedra”, “Fera Ferida” e “A Indomada”. Mesmo “Tieta” e “Porto dos Milagres”, baseadas em romances de Jorge Amado, tinham algum elemento que remetia ao tema.

A partir de “Senhora do Destino”, no entanto, Aguinaldo fincou o pé na realidade e assim ficou até “Império” – mesmo que tenha homenageado o gênero em questão na cena onde o fantasma do imperador aparece na cena final – fazendo com que o realismo fantástico dormisse no berço dourado da memória afetiva de milhões de espectadores. Até ser despertado agora em “O Sétimo Guardião”.

Ao se falar de uma novela nova é inevitável uma citação à anterior, justamente por estar tão transparente na lembrança. Então, levando-se em conta que acabamos de ver “Segundo Sol”, a impressão que tenho é que, com a nova história, tiramos o pé do acelerador para, com calma, admirar a paisagem.

E esse quadro, visto da janela do carro, tem um nome: Serro Azul. Assim como a Terra Média tem suas regiões tão bem delineadas por Tolkien, como o Condado dos Hobbits; o universo do autor da novela das nove tem seu próprio mapa, onde suas cidades fazem divisa. Como Greenville, Tubiacanga e Porto dos Milagres, na Bahia e Resplendor e Serro Azul, mais ao sul, no estado de Minas Gerais.

E é justamente nessa última que passamos a viver todas as noites. Uma cidade pequena, parada no tempo, sem internet e com somente um morro onde pega o sinal do celular, batizado peculiarmente de orelhódromo. Talvez esse seja, justamente, o tipo de cidade onde 80% das pessoas que leem estas linhas agora, desejariam estar por algum tempo.

É um dos grandes méritos do realismo fantástico: tirar-nos desse dia-a-dia às vezes sufocante literal e subjetivamente falando e nos transportar para um universo onde é comum haver uma fonte da juventude guardada por sete guardiães, que são acompanhados e vigiados por um gato batizado justamente com o nome do pesquisador que, segundo a lenda – ou a história – buscou a tal fonte: Ponce de León. 

Aguinaldo gosta de gatos – tinha um chamado Jorge Tadeu – e era natural que um dia, um felino viesse a protagonizar uma história sua.

Também é normal nesse universo uma mulher chamada Luz ser guiada pelo negro gato – que já é astro – e desenterrar o futuro amado que havia sido colocado vivo em uma cova. Como não causa estranheza nenhuma uma senhora chegar à cidade a bordo de um mini-tornado. E vem muito mais coisas estranhas e deliciosas por aí.

Nosso mundo está literalmente de saco-cheio de uma realidade formada por corrupção, desmandos, violência, censura velada e um patrulhamento do politicamente correto a qualquer forma de arte que é – ou deveria ser – livre para dizer o que quiser e permitir que o público tenha o direito de ouvir e pensar sobre o que foi falado.

E para que nosso saco não estoure feito uma Dona Redonda, existe a fuga para esses mundos criados por escritores, dramaturgos e afins.

Em Serro Azul, vários personagens fumam (fato raro na atual teledramaturgia), mas como já disse, a cidadezinha mineira está parada em um espaço-tempo onde isso ainda é “permitido”. E não são somente os vilões, como Sampaio (Marcelo Novaes) que o fazem. Adamastor (Theodoro Cochrane), um dos personagens que mais chamou a atenção nesta largada da novela, ostenta o tempo todo seu cigarro na ponta de uma piteira cheia de estilo. Não é definitivamente um “incentivo” ao vício, é uma composição cênica que ajuda a compor maravilhosamente bem, uma personagem.

A Direção comandada por Rogério Gomes acompanha os moradores e visitantes da cidade e a história deles sem se envolver demais, o que, na minha opinião, é um grande mérito. A câmera apenas registra o que está acontecendo em Serro Azul e não se preocupa em aparecer mais que o elenco, com acontece em outras novelas, filmes ou séries, com movimentos epiléticos e drones desgovernados. Tudo na fotografia de “O Sétimo Guardião” está no devido lugar, assim como a Direção de Arte que, com licença ao pleonasmo, é impecável.

Por falar em série, é clara a referência, principalmente nas imagens, às séries atuais segundo a cartilha Netflix ou HBO, por exemplo. A cena em que Luz (Marina Ruy Barbosa) tem o pesadelo com Gabriel (Bruno Gagliasso) no primeiro capítulo, por exemplo, poderia estar perfeitamente em um dos episódios de “A Maldição da Residência Hill”. Aguinaldo é um grande fã de boas séries e isso está visível nesse novo trabalho.

Mas é claro também, que as características da velha e boa teledramaturgia clássica não foram esquecidas, sobretudo nas cenas envolvendo Lilia Cabral e Tony Ramos, gigantes como sempre.

Lilia, aliás, tem várias cenas inspiradas em “O Diabo Veste Prada” – com Fernanda de Freitas fazendo às vezes de Anne Hathaway – onde sua Valentina Marsalla usa e abusa de linguagens de cena, inclusive quebrando a quarta parede, como dissemos no teatro, para falar diretamente para a câmera ou utilizando-se da metalinguagem ao citar, por exemplo, que se fosse em uma novela da nove ela quebraria todo o escritório em um acesso de raiva.

Se o público em geral vai embarcar nessa fantasia pelos próximos cinco ou seis meses ainda é cedo para dizer. A última novela no estilo – do próprio autor – foi há mais de 20 anos, se considerarmos “A Indomada” ao invés de “Porto dos Milagres”. É quase uma geração não acostumada a obras assim. Tivemos o remake de “Saramandaia”, mas passou às onze da noite.

Ainda há muita história a se contar, personagens para habitarem a cidade e fatos estranhos para acontecerem. Tudo para, no final, o amor vencer e o casal principal viver feliz, mesmo que seja na pequena Serro Azul, ao som da maravilhosa “The Chain”, da banda Fleetwood Mac, resgatada de outros gloriosos tempos musicais.

E nós, do lado de cá da tela, seguros em nossa outra realidade tão ou mais absurda que a deles, torcemos para que, no nosso íntimo, nunca quebremos essa corrente que nos liga à fantasia, ao sonho, à magia; elementos tão caros aos dias de hoje.

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quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Quando não se nota a Dramaturgia


Paulo Rocco

Sigo quase sempre as temporadas de “Malhação”, umas mais fielmente do que outras. Além de ser um laboratório de interpretação que indico a meus alunos – e de vez em quando discutimos isso – a novela teen da Globo me coloca em sintonia atualizada para conversar com adolescentes na língua momentânea deles.

A que está no ar atualmente – vou começar falando de “Vidas Brasileiras” – é escrita por Patrícia Moretzsohn com colaboração da Renata Dias Gomes, Chico Soares, Laura Rissin e Ricardo Tiezzi, além de Daniel Ortiz supervisionando. A experiência de Ortiz e de Patrícia em sua quarta temporada à frente de “Malhação”, obviamente garantem um bom texto aos capítulos.

Baseada na novela canadense “30 Vies” de Fabienne Larouche – pela qual a autora foi indicada quatro vezes ao Emmy – essa temporada de “Malhação” é mais uma entre as vinte e seis já produzidas, umas com mais e outras com menos êxito. Aí é que está o diferencial que nos remete ao objetivo de discussão desta crítica: a temporada anterior, “Viva a Diferença”, mostrou-se muito – muito mesmo – adiante do lugar comum.

Tinha um roteiro que classifico como excepcional – dentro do seu gênero, claro e da faixa etária a que se propunha. E o responsável por este salto ocorrido foi o dramaturgo Cao Hamburger e sua história sobre a vida de cinco amigas, muito diferentes entre si, que se conheceram ao auxiliar o nascimento do filho de uma delas, em pleno vagão do metrô paulistano.

Lica, Benê, Tina, Ellen e Keyla são lembradas com saudades, não só pela interpretação na medida correta das atrizes Manoela Aliperti, Daphne Bozaski, Ana Hikari, Heslaine Vieira e Gabriela Medvedovski, respectivamente; que deixavam seus personagens absurdamente reais; mas também pelo texto crível de Hamburger, redigido linha a linha para sair da boca daquelas adolescentes envoltas com problemas, como diria Roberto, que só gente grande é que tem.

A identificação com o público era tão intensa que parecia que, ao dobrarmos uma esquina qualquer na Vila Mariana, poderíamos dar de cara com uma das meninas. Mérito também da Direção comandada por Paulo Sivestrini.

Para resumir aquela temporada: média de 20 pontos de audiência, a melhor desde 2009 e recentemente uma indicação do Emmy Kids.

E voltamos para “Vidas Brasileiras” e a diferença para sua antecessora: o texto é bom, mas não é como o outro. As personagens não aparentam existirem na realidade como as amigas do vagão e os coadjuvantes que as cercavam.

A característica de “30 Vies”, onde cada temporada tem uma protagonista, fica diluída na tentativa de semanalmente – ou quinzenalmente – alçar uma personagem a esta condição. No começo isso era mais nítido. Hoje é menos perceptível.

“Malhação” sempre teve – com raras exceções como a anterior – casais protagonistas que tomam para si a centralização da história como um todo. Isso não acontece esse ano, principalmente por causa dos atores Daniel Rangel e Alice Milagres, notadamente os que mais precisam melhorar no elenco.

Com o objetivo de mostrar adolescentes de todos os tipos e gêneros, algumas personagens exalam justamente o que deveriam “combater”: uma caricatura pouco sutil de si mesmas. Não vejo, entretanto, esse problema proveniente do texto. É mais um ajuste de Direção. E cuidados maiores com a afinação de interpretação dos atores e atrizes.

Essa temporada tem momentos legais, tem a tentativa de discutir problemas adolescentes com certo cuidado, tem um elenco de apoio experiente; mas não tem um texto como a anterior, escrito com propriedade, talento e o mais importante: uma dramaturgia que não se fazia notar, para leigos, dentro da história.

Ninguém que cruzasse com Lica ou Keyla – para exemplificar a afirmação do parágrafo anterior – na estação Ana Rosa do Metrô, iria pensar que elas estavam dizendo textos previamente escritos e não o que viesse na cabeça fervilhante delas, naquele exato momento. É a diferença.

Sem comentários.

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Quando o Segundo Sol sair

                                                         Paulo Rocco

Demorei mais de cem capítulos para opinar sobre “O Segundo Sol”. Confesso que, quando saíram as chamadas da nova obra de João Emanuel Carneiro, tinha decidido que não iria acompanhar a novela. Sempre escolho uma para seguir fielmente e vejo trechos das outras, por gosto e profissão.

Pensei – e acho que cheguei a postar: novela se passando inteiramente em Salvador (depois de “A Força do Querer” fincar os dois pés no Pará, “O Outro Lado do Paraíso” desembarcar em Tocantins e eu com vontade de ver uma história em São Paulo); trilha sonora onde predominaria o Axé Music; e Débora Secco “chorando” em todos os diálogos – que iria “passar” essa e esperar a próxima.

Isto posto, não vi a primeira fase. Não me chamou a atenção. Sabia o que estava ocorrendo, porque hoje em dia, abrindo uma página inicial, você sabe de tudo ao mesmo tempo, inclusive sobre o dia-a-dia das novelas.

Mas eis que chega a segunda fase. E não me recordo ao certo por que, comecei a seguir a história de Beto Falcão, o cantor morto-vivo e tudo o que envolvia essa farsa. Fiquei interessado.

Apesar de o autor ser glorificado pelo mega sucesso “Avenida Brasil”, entre suas criações gosto mais de “A Favorita”. A troca de “mocinha” e “vilã” na metade da novela me parecia algo novo dentro da teledramaturgia. E mesmo que não fosse, soava assim.

“Avenida Brasil” era a novela que o país queria naqueles tempos e caiu como uma luva no gosto dos brasileiros – e mundial, visto o número de vezes que foi exportada. Levantaram-se teses acadêmicas e rodas de conversa em bares sobre Carminha, Tufão e todas as personagens que orbitavam o núcleo principal. Mas esse não é o foco aqui.

João Emanuel alcançou o posto de novo gênio da teledramaturgia. Não nego seu poder de criar tramas rocambolescas, diálogos nervosos e, sobretudo, ganchos eficientes para o final dos capítulos. Não o vejo, no entanto, como um inovador do gênero. O autor descobriu uma maneira hábil, na minha humilde opinião, de reciclar e turbinar as clássicas novelas dos anos 70, sobretudo. Não é difícil pinçar características em sua teledramaturgia recolhidas de Janete Clair ou até mesmo de Glória Magadan, na década anterior.

Há cenas na novela das 9 que poderiam estar encaixadas perfeitamente em dramalhões mexicanos – como a revelação de que Remy era filho de Nestor em pleno “velório” do rapaz (que hoje a história encaminha para que volte à vida). Na verdade, aos olhares mais atentos foi possível enxergar um leve sorriso de Vladimir Brichta como Remy, dentro do caixão, visto pelo vidro. Pode ter sido impressão minha, mas isso me leva a outra constatação: por mais absurdas que pareçam e sejam várias sequências e cenas criadas por João Emanuel, a sempre eficiente Direção de Dennis Carvalho deixa o produto final mais crível dentro do possível.

A “Regra do Jogo”, novela anterior de João Emanuel acabou se perdendo no caminho, tamanhas as descidas de sua montanha-russa teledramatúrgica. Sem Dennis e com a “caixa cênica” de Amora Mautner na Direção, a impressão que tive foi que, naquela obra, o carrinho do brinquedo acabou dando defeito e parou com a cabeça para baixo.

Mas volto à trama atual e faço um mea culpa: tinha um preconceito com o axé music que invadiu o país há alguns anos e me cansava um pouco. Hoje gosto. Perto do lixo musical que brota com o sobrenome “universitário” e o funk de baixo nível, o Axé baiano voltou quase com a alcunha de “clássico” e com uma boa dose de saudosismo. E a trilha da novela equilibrou sabiamente novas versões – algumas até internacionais – com músicas de outros gêneros. Ponto pra novela.

Quanto às locações, apaixonei-me por Salvador, que conheço bem pouco. São tomadas belíssimas e uma explanação legal da cultura local. E Débora... Ah, gosto de sua Karola. A voz choramingada diverte no dramalhão-falso-exagerado dela e convence na raiva explosiva aos esbravejar com seus inimigos e contra a marisqueira dos infernos.

A novela sofre um pouco pelo exagero já característico de João Emanuel. Conheço pessoas que não acompanham e dizem não gostar de passar nem perto da sala, tamanha a quantidade de diálogos gritados e neuróticos. Mas para quem acompanha, faz certo sentido – e mérito maior novamente para a Direção da novela nesse quesito também.

A velocidade da história pode causar deslizes – que só não confirmo agora porque ainda faltam alguns capítulos e os assuntos podem voltar, mas o caso da compra do casarão invadido por Roberval se perdeu no tempo, inclusive com o empresário trabalhando ao lado dos moradores do imóvel na reconstrução do restaurante de Cacau, sem que ninguém tocasse no assunto.

O elenco manda muito bem no exagero cênico. Aliás, sobre os atores e atrizes, pouco a se dizer sem parecer óbvio.  Da força e talento dos jovens como Chay Suede, Luisa Arraes, Giovanna Lancellotti e Letícia Collin, entre vários; ao prazer de se ver Francisco Cuoco, Roberto Bonfim, Odilon Wagner e Arlete Salles em cena; não há muito que acrescentar.

Mas se a história dispara em várias vertentes a cada capítulo, a trajetória principal continua ali, permeando os núcleos satélites e rumando para desencadear no final feliz na fictícia praia de Boiporã, que é na verdade um misto das lindas Trancoso, Arraial d'Ajuda e Porto Seguro.

Não é uma novela para se divertir, ela é tensa, acelerada e indicada para quem gosta dessa vertigem. E isso parece ter refletido na audiência com média de 32 pontos por enquanto, cinco ou seis abaixo da sua antecessora assinada por Walcyr Carrasco. Embora essa reta final tenha registrado índices melhores.

Nos brechtinianos tempos sombrios em que vivemos, no entanto, talvez o público espere mais por uma boa dose de fantasia, escapismo e uma obra que nos leve um pouco adiante dessa nossa realidade.

E para isso vem aí, de Aguinaldo silva, mestre do realismo fantástico na teledramaturgia, “O Sétimo Guardião” para realinhar as órbitas dos planetas.

Sem Comentários. 

sábado, 21 de abril de 2018

Como um Dia de Domingo


Relembrar acontecimentos não é viver no passado. É ter a consciência de que um determinado fato marcou de alguma forma sua vida e contribuiu para formar a pessoa que você é. Ou simplesmente dizer para o seu "eu" atual, que existiu outra pessoa em você, que viveu experiências, que presenciou a história, que era você em outra época. 

O dia de hoje tem alguns desses significados. Posso recordar até com riqueza de detalhes, nessa pequena crônica, o dia 21 de abril de 1985.

Era um dia de domingo, de manhã. A partir daquele ano, acho que passei a não ser muito fã dos domingos. Para um jovem do interior de São Paulo, recém transportado diretamente do colégio para uma Universidade como a PUC de Campinas, esse dia da semana significava deixar minha família e meus amigos - em um tempo que a maior parte dos amigos eram reais e estavam sempre juntos - para viajar quatro horas em um ônibus para uma cidade que, apesar de visitá-la constantemente durante toda a infância, passou a ser estranha para mim.

Naquele dia em particular, a corrida de Fórmula 1 de Estoril, em Portugal, terminava com um brasileiro que sairia na pole e seria vencedor pela primeira vez: Ayrton Senna. Um Lótus negro e dourado - meu carro preferido da categoria em todos os tempos - cruzava a linha de chegada com bandeira quadriculada, para a alegria de milhões de brasileiros, sob um temporal incessante.

Acabou a prova e fomos para o almoço em família, enquanto minhas malas já estavam sendo arrumadas e minha mãe colocava feijão e misturas congeladas em outra bolsa. 

Quatro horas da tarde entrava no ônibus que demorava as já citadas tantas horas para um percurso que hoje levo, de carro, pouco mais de uma hora e meia.

Cheguei na rodoviária de Campinas e peguei o ônibus circular, com duas ou três malas, até o prédio onde morava com dois amigos na época, na rua Dr. Quirino. Quando eu chegava lá, a tristeza passava um pouco. Gostava de conversar com eles e assistir televisão. E como adorava as aulas e meus colegas da faculdade, a segunda-feira prometia novos bons momentos.

Naquela noite, entretanto, foi um pouco diferente. Depois de comermos alguma coisa, sentamos nos colchões espalhados pela quitinete - que obviamente não tinha sofá e nem camas - e assistimos ao Fantástico em uma televisão de 14 polegadas, em preto & branco, que tinha levado de casa.

A programação foi interrompida para o pronunciamento do então secretário de imprensa do Governo Federal, Antonio Britto, que anunciou a morte do Presidente Tancredo Neves, ocorrida às 22 horas e 23 minutos, daquele feriado de Tiradentes.

O político mineiro foi o primeiro civil a ocupar o cargo após o Golpe Militar de 1964 e carregava consigo a esperança do povo brasileiro. O domingo estava terminado. 

As aulas de segunda estavam suspensas e os anseios de milhões de pessoas se transformaram em lágrimas vertidas pelo Presidente que o povo queria, pelo homem que teve seu martírio acompanhado diariamente pela nação e pela história que ainda nem imaginávamos que viria, com a posse de José Sarney e os tempos negros que se revezariam na política brasileira, sob temporais incessantes.

Sem comentários. 

terça-feira, 3 de abril de 2018

Esgotos sob Brasília


Paulo Rogério Rocco

Basta um filme – ou série – se tornar “polêmico” que o planeta começa a ficar superpovoado de críticos e entendedores do setor audiovisual e da sétima arte.

É assim com “O Mecanismo”, que teve a primeira temporada disponibilizada pela Netflix. Produzida por José Padilha e roteirizada por ele e por Elena Soarez, a história gira em torno dos primórdios da Operação Lava-Jato e dos primeiros movimentos desse jogo de gato e rato que monopoliza – para o bem e para o mal – a manchetes brasileiras dos últimos anos.

Pois bem, não precisava ser nenhum vidente para saber que a repercussão da série seria gigantesca, mais precisamente do tamanho do fanatismo político e da divisão da arquibancada que move o país principalmente depois das últimas eleições presidenciais – cujos protagonistas desfilam pelos episódios em interpretações propositalmente caricaturais. Mas convenhamos, vivemos em um Brasil tão surreal que por mais ridículo que for a personagem, dificilmente supera seu contraponto real.

Em “O Mecanismo”, a história é narrada (em primeira pessoa como já é característica de Padilha) pelos policiais federais que desencadearam a Operação – PS: a partir daqui, tudo o que eu citar se refere aos episódios da série e não à história real. – e a guerra deles contra o que parece ser um dos maiores esquemas de corrupção da história do planeta.

Os “mocinhos” da trama são Marco Ruffo, um policial bipolar obcecado vivido por Selton Mello e Verena sua parceira também da Polícia Federativa, interpretada por Caroline Abras. Sim, a polícia é “federativa” por que a Federal queria ler o roteiro antes de ser exibido para que autorizasse o uso do nome verdadeiro. E como qualquer diretor ou produtor que se preze, logicamente Padilha negou.

Em síntese, a série é policial e não política, como tem sido nossa realidade, com homens e mulheres que frequentavam as páginas políticas indo parar na seção policial dos jornais.

Os atores que interpretam os políticos mais parecem ter saído de uma ópera bufa e o fazem com maestria, aproximando a interpretação, em alguns momentos, a uma charge ou – repito – caricatura viva.

Tudo o que está descrito ali já aconteceu, acontece e vai acontecer perto de você. Como diz o próprio Padilha, “se a nova lei de delações premiadas tivesse sido sancionada com o PSDB no poder, os políticos denunciados teriam sido Aécio, Serra e FHC. Mas como foi sancionada com o PT e o PMDB no poder, os denunciados foram Palocci, Lula, Cunha, Cabral e Temer”.

PS2: Pode ser que nem tudo o que eu publicar a partir deste parágrafo seja sobre a série. Posso me referir ao mecanismo.
A corrupção começa nas prefeituras das cidades menores, segue para o Estado e desemboca em Brasília. Não necessariamente nessa ordem. E parece irônico que o quartel general da Lava-Jato seja em Curitiba, reconhecidamente uma das melhores cidades do país.

Coube a um juiz tomar decisões que, se não tivessem ocorrido, o Brasil – de todos os partidos – teria empurrado, mais uma vez, todo esse esgoto para debaixo do tapete. O mesmo tapete onde estão a coroa-brastel, o escândalo das joias, o mensalão, o escândalo do metrô e tantos outros capítulos dessa pátria subtraída em tenebrosas transações, como canta meu caro amigo Chico.

Padilha, depois de ter escancarado a polícia militar do Rio de Janeiro em conluio com traficantes e políticos e de contar a vida de Pablo Escobar (que também causou inúmeros protestos do filho de Escobar, pelo menos) mostra, com esse novo trabalho, que o Brasil definitivamente não é para amadores.

Ainda espero do cineasta uma série sobre Collor de Mello, o impeachmado presidente escorraçado pelos caras-pintadas que voltou ao senado nos braços do povo, sendo parceiro político de um ex-líder dos... caras-pintadas; e de seu assessor direto, PC Farias, morto em um crime até hoje envolto nas brumas do poder. Mas isso é outra história.

Em resumo: “O Mecanismo” – a única série que já vem com spoiler – é muito legal como entretenimento (apesar dos “entendidos” acharem mil defeitos técnicos) e necessária como história recente de um país que supera qualquer ficção em seus desmandos diários.

A direção é segura, sabe o que faz, domina seu ofício. A fotografia (até ela criticada pelos experts) é profissional como em todos os trabalhos da equipe. O roteiro é bom – e falar mal de páginas e páginas por um diálogo equivocado se comparado com revistas da época – é um apontamento totalmente desnecessário face ao gigantismo negativo do fato.

Quem dramatiza um caso real está sujeito a erros e, no mais, uma frase solta que não altera em nada a dramaturgia é procurar liminar em ovo. E, por fim, os atores são muito bons, como nem precisam provar que são.

Haverá outras temporadas com certeza, pois mesmo com o boicote solicitado por apaixonados seguidores, a audiência e as novas assinaturas da Netflix devem ter tido um aumento considerável. É sempre assim: os maiores interessados em denegrir uma obra artística são os que mais a promovem.

Outro sinal de novas temporadas é que a história que move o mecanismo que volta a mover a história para mover novos mecanismos está girando a cada dia, como um oroboro macabro.

Mesmo que a eleições que estão por vir altere as personagens – o que, sinceramente, acho difícil – as engrenagens nos subterrâneos de Brasília sempre serão as mesmas. E farão jorrar os esgotos em tampas de bueiros superfaturadas.  

Sem comentários.

domingo, 11 de março de 2018

Uma Luz Presa no Vidro


Paulo Rogério Rocco


Eu tenho um texto onde escrevi que o medo de não saber o que vamos encontrar atrás da porta, muitas vezes nos impede de ir até ela. Não é o caso aqui.

Ir até o Teatro Itália para ver “Entre! A Porta Está Aberta” é uma experiência como todo teatro tem que ser. Em minha opinião – e gosto pessoal – um espetáculo deve instigar, emocionar, divertir e, acima de tudo, deve fazer o público sair dali pensando no que acabou de presenciar. Foi assim que passei pela porta neste sábado.

A primeira cena da peça escrita por Glória Rabelo mostra Guta, um senhora sentada em uma poltrona, acompanhada de três personagens – Gabriela Gama, Emerson Grotti e Guilherme Araújo, ótimos – dizendo que não é impossível ser feliz sozinha. Sozinha? Essa frase permeia toda a encenação. Como ficamos “sozinhos”?

A irmã de Guta, a própria Glória, vai chegar para passar “uma semaninha” que pode ser um ano, uma vida. Elas vão conversar sobre Deus e todo mundo, literalmente quase. Sempre acompanhadas das recordações, pessoas, familiares ausentes, histórias, decisões e objetos que compõem a vida de cada uma. As vidas de cada uma. As que vivem e as que sonhavam viver.

A direção limpa de Dan Rosseto ao invés de deixar clara a intenção da dramaturgia, propõe um jogo com o público – que me lembrou de Meyerhold em vários momentos – mas, no entanto, sem deixar o público “ganhar” de cara. E essa sensação vai até o final e o ultrapassa. Até agora, escrevendo esses poucos parágrafos, coloco-me a pensar em alguns trechos do que vi.

O cenário de Kleber Montanheiro é de uma funcionabilidade incrível para a trama em cada momento que é composto, decomposto e recomposto pelos atores que também – inteligentemente – são contrarregras em cena. Com vários simbolismos, como a luz “presa” no vidro, a cenografia é outra “atriz” em cena. Como o são a trilha de Fred Silveira e a luz de Wagner Pinto.

Aliás, vale um parágrafo a belíssima canção “Passagem, o Tempo”, cantada lindamente por Guilherme Araújo em um recorte lindo da montagem.

Tudo se fecha em torno da relação das duas irmãs e de como elas irão sair intactas de mais esse encontro. O que não acontece, felizmente, com a plateia. Quase ninguém sai daquela porta da mesma maneira que entrou. O que é ótimo.

Você tem somente mais uma chance de vivenciar isso, no próximo sábado, às 18 horas. Melhor abrir a tampa do vidro. Entre! A vida está aberta.

Sem Comentários. 

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

O Reverso das Esmeraldas

Paulo Rocco


Ela começou com o quase sempre usual flashback, – em relação aos tempos atuais da história – um recurso dos autores para transformar as personagens em “conhecidos de uma vida toda” para os espectadores. “O Outro Lado do Paraíso”, confesso, não me pegou de cara. Aos poucos, no entanto, tornou-se a minha novela a ser seguida. Sempre acompanho com mais frequência uma ou duas delas – a outra atualmente é “Malhação”, em minha opinião uma ótima obra teledramatúrgica, principalmente pelo texto e construção das personagens. Claro que também dou uma olhada em “Tempo de Amar”, conheço as personagens e me encanta o texto e direção de arte, sobretudo. “Deus Salve o Rei” não vi quase nada ainda. Mas é da novela das nove que estamos falando.

Listar os atores e atrizes aqui não é necessário, pelo simples fato de estarmos diante de alguns dos melhores profissionais do país, como é o caso de Fernanda Montenegro, Juca de Oliveira, Lima Duarte, Marieta Severo, Laura Cardoso – e todo o elenco que cerca esse quinteto obrigatoriamente a ser citado, pela história pessoal e profissional de cada um nessa História toda.

 Walcyr Carrasco sempre soube como segurar o público diante da TV, mas de “Amor à Vida” para cá, parece ter se pós-graduado nessa técnica com louvor. Com obras tão díspares quanto “Verdades Secretas” e “Eta Mundo Bom”, para citar apenas as mais recentes, o autor encontrou no trabalho atual, aquele que seria seu correspondente na literatura: o mestre dos best-sellers, Sidney Sheldon.

Os ganchos colocados no final dos capítulos em muito se assemelham àqueles que finalizam também os capítulos de livros como “Se Houver Amanhã”, “Conte-me Seus Sonhos”, “O Reverso da Medalha” ou “O Outro Lado da Meia-Noite”, título primo-irmão da novela. E não falo isso desmerecendo um ou outro autor. É um elogio aos escritores que, se não são unanimidade entre críticos; arrebata milhões de leitores e reúne muitos milhares de pessoas diante da tela, respectivamente.

Um mestre da teledramaturgia, Aguinaldo Silva – de quem tive a honra de ser aluno em sua Master Class – ensina que entre a lógica e a boa história, devemos optar pela segunda. E é nesse ponto que alguns torcem o nariz para o estilo de Walcyr de desenvolver a sua trama. Mas quase não me interessa procurar lógica e “falhas” em novelas, peças teatrais ou filmes. Se a história, a interpretação e a direção me fisgam pela emoção e pelo trabalho apresentado, a arte cumpriu seu papel.

Se há um senão que me incomoda em “O Outro Lado do Paraíso” são alguns diálogos entre Clara (a excelente Bianca Bin) e Renato (Rafael Cardoso), por exemplo, quando falam da tal vingança e repetem à exaustão frases do tipo “- Agora é a vez do delegado. – Sim, agora é a vez do delegado Vinicius que forjou provas contra mim” ou algo assim. O ‘didatismo’ cansa nesse momento, mas também tenho consciência de que a novela é escrita para todos os tipos de público, inclusive para aquele curioso que nunca a assistiu, mas resolveu ver naquela noite. Isso acontece também nos diálogos de Sophia com Gael ou com Lívia. São quase sempre sobre o mesmo assunto e de igual construção, soando artificiais em alguns momentos.

O núcleo de humor funciona às vezes sim às vezes não, seja no salão de beleza frequentado pela sociedade de Palmas ou recentemente na casa do Dr. Samuel, sua ex, seu namorado, a ex dele e a mãe. Algumas piadas acabam sendo repetitivas e à base de bordões, mas o elenco tem segurado a onda, principalmente no salão.

De um modo geral os diálogos, fora desses exemplos são bons. E alguns atores ou atrizes contribuem para momentos de uma sensibilidade ímpar, como foi o caso de Malu Rodrigues na cena em que sua Karina esteve com Diego (Arthur Aguiar) e não contou a ele sobre a gravidez. A fala quase tragada pela tristeza e o olhar de Malu enriqueceram a sequencia e trouxeram à tona todo o sofrimento da garota de programa que sonha com uma vida diferente.

Voltando ao encontro telenovela/literatura de “O Outro Lado do Paraíso”, não é segredo que toda a história da vingança de Clara, bem como os cenários e sequências inteiras foram “retiradas” de “O Conde de Monte Cristo”. Todos que tenham lido o romance de Dumas publicado em 1844 já esperavam as cenas serem vistas na novela. Repito: nenhum demérito. Um talento, isso sim, para contar de novo uma história tão antiga e tão brilhante e fazê-la nova, para um novo público.  

Outro recurso dominado por Carrasco é a “história do gatinho”, como diria o dramaturgo Roberto Alvim. Trata-se de um objeto ou citação ou personagem que será “utilizado” em futuras cenas para o desenvolver da história. Um exemplo foi a sequencia onde Sophia (Marieta) reprendia a filha Estela (Juliana Caldas) por ir a um baile com um vestido novo feito por Rosalinda (Vera Mancini). Sophia pegou uma tesoura e picotou o vestido no melhor estilo Cinderela. Sophia sai. Quando Estela olha para a mesa em seguida, a tesoura não está mais lá. É com esse objeto que a vilã irá assassinar a prostituta algumas cenas mais tarde. Mas ela não sabia disso quando colocou a tesoura na bolsa por impulso.

Outra situação foi Clara ter deixado a porta da sua casa aberta para o caso de Duda (Glória Pires) “passar mal e chamar socorro mais rapidamente”. A casa foi invadida por Natanael (Juca de Oliveira) – que não usou a porta da frente, mas o artifício foi útil para seu filho chegar em seguida, entrar e flagrar a conversa.

    Há um "gatinho" também escondido na história de Renato. De algum tempo pra cá, há uma convenção informal entre autores de que somente os vilões fumam nas novelas - sem entrar no mérito da questão - e o médico já apareceu em várias cenas com o cigarro, o que poderia indicar uma transformação de seu personagem.     

Nos capítulos mais recentes, do julgamento de Duda/Elizabeth e as revelações que aconteceram naquele tribunal, resultaram em ganchos muito bons como há tempos não se via nas novelas. Mesmo que para trazer o público no dia seguinte, na mesma hora, no mesmo sofá; fosse necessário em alguns momentos subverter a lógica.

    Mas o público em geral não se importa. Logo estará em Palmas, mais uma vez, para acompanhar atento ao desenrolar – e novos enrolares – dessa história, refletida no verso e reverso das esmeraldas escavadas no paraíso de Carrasco. 

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