terça-feira, 30 de janeiro de 2018

O Reverso das Esmeraldas

Paulo Rocco


Ela começou com o quase sempre usual flashback, – em relação aos tempos atuais da história – um recurso dos autores para transformar as personagens em “conhecidos de uma vida toda” para os espectadores. “O Outro Lado do Paraíso”, confesso, não me pegou de cara. Aos poucos, no entanto, tornou-se a minha novela a ser seguida. Sempre acompanho com mais frequência uma ou duas delas – a outra atualmente é “Malhação”, em minha opinião uma ótima obra teledramatúrgica, principalmente pelo texto e construção das personagens. Claro que também dou uma olhada em “Tempo de Amar”, conheço as personagens e me encanta o texto e direção de arte, sobretudo. “Deus Salve o Rei” não vi quase nada ainda. Mas é da novela das nove que estamos falando.

Listar os atores e atrizes aqui não é necessário, pelo simples fato de estarmos diante de alguns dos melhores profissionais do país, como é o caso de Fernanda Montenegro, Juca de Oliveira, Lima Duarte, Marieta Severo, Laura Cardoso – e todo o elenco que cerca esse quinteto obrigatoriamente a ser citado, pela história pessoal e profissional de cada um nessa História toda.

 Walcyr Carrasco sempre soube como segurar o público diante da TV, mas de “Amor à Vida” para cá, parece ter se pós-graduado nessa técnica com louvor. Com obras tão díspares quanto “Verdades Secretas” e “Eta Mundo Bom”, para citar apenas as mais recentes, o autor encontrou no trabalho atual, aquele que seria seu correspondente na literatura: o mestre dos best-sellers, Sidney Sheldon.

Os ganchos colocados no final dos capítulos em muito se assemelham àqueles que finalizam também os capítulos de livros como “Se Houver Amanhã”, “Conte-me Seus Sonhos”, “O Reverso da Medalha” ou “O Outro Lado da Meia-Noite”, título primo-irmão da novela. E não falo isso desmerecendo um ou outro autor. É um elogio aos escritores que, se não são unanimidade entre críticos; arrebata milhões de leitores e reúne muitos milhares de pessoas diante da tela, respectivamente.

Um mestre da teledramaturgia, Aguinaldo Silva – de quem tive a honra de ser aluno em sua Master Class – ensina que entre a lógica e a boa história, devemos optar pela segunda. E é nesse ponto que alguns torcem o nariz para o estilo de Walcyr de desenvolver a sua trama. Mas quase não me interessa procurar lógica e “falhas” em novelas, peças teatrais ou filmes. Se a história, a interpretação e a direção me fisgam pela emoção e pelo trabalho apresentado, a arte cumpriu seu papel.

Se há um senão que me incomoda em “O Outro Lado do Paraíso” são alguns diálogos entre Clara (a excelente Bianca Bin) e Renato (Rafael Cardoso), por exemplo, quando falam da tal vingança e repetem à exaustão frases do tipo “- Agora é a vez do delegado. – Sim, agora é a vez do delegado Vinicius que forjou provas contra mim” ou algo assim. O ‘didatismo’ cansa nesse momento, mas também tenho consciência de que a novela é escrita para todos os tipos de público, inclusive para aquele curioso que nunca a assistiu, mas resolveu ver naquela noite. Isso acontece também nos diálogos de Sophia com Gael ou com Lívia. São quase sempre sobre o mesmo assunto e de igual construção, soando artificiais em alguns momentos.

O núcleo de humor funciona às vezes sim às vezes não, seja no salão de beleza frequentado pela sociedade de Palmas ou recentemente na casa do Dr. Samuel, sua ex, seu namorado, a ex dele e a mãe. Algumas piadas acabam sendo repetitivas e à base de bordões, mas o elenco tem segurado a onda, principalmente no salão.

De um modo geral os diálogos, fora desses exemplos são bons. E alguns atores ou atrizes contribuem para momentos de uma sensibilidade ímpar, como foi o caso de Malu Rodrigues na cena em que sua Karina esteve com Diego (Arthur Aguiar) e não contou a ele sobre a gravidez. A fala quase tragada pela tristeza e o olhar de Malu enriqueceram a sequencia e trouxeram à tona todo o sofrimento da garota de programa que sonha com uma vida diferente.

Voltando ao encontro telenovela/literatura de “O Outro Lado do Paraíso”, não é segredo que toda a história da vingança de Clara, bem como os cenários e sequências inteiras foram “retiradas” de “O Conde de Monte Cristo”. Todos que tenham lido o romance de Dumas publicado em 1844 já esperavam as cenas serem vistas na novela. Repito: nenhum demérito. Um talento, isso sim, para contar de novo uma história tão antiga e tão brilhante e fazê-la nova, para um novo público.  

Outro recurso dominado por Carrasco é a “história do gatinho”, como diria o dramaturgo Roberto Alvim. Trata-se de um objeto ou citação ou personagem que será “utilizado” em futuras cenas para o desenvolver da história. Um exemplo foi a sequencia onde Sophia (Marieta) reprendia a filha Estela (Juliana Caldas) por ir a um baile com um vestido novo feito por Rosalinda (Vera Mancini). Sophia pegou uma tesoura e picotou o vestido no melhor estilo Cinderela. Sophia sai. Quando Estela olha para a mesa em seguida, a tesoura não está mais lá. É com esse objeto que a vilã irá assassinar a prostituta algumas cenas mais tarde. Mas ela não sabia disso quando colocou a tesoura na bolsa por impulso.

Outra situação foi Clara ter deixado a porta da sua casa aberta para o caso de Duda (Glória Pires) “passar mal e chamar socorro mais rapidamente”. A casa foi invadida por Natanael (Juca de Oliveira) – que não usou a porta da frente, mas o artifício foi útil para seu filho chegar em seguida, entrar e flagrar a conversa.

    Há um "gatinho" também escondido na história de Renato. De algum tempo pra cá, há uma convenção informal entre autores de que somente os vilões fumam nas novelas - sem entrar no mérito da questão - e o médico já apareceu em várias cenas com o cigarro, o que poderia indicar uma transformação de seu personagem.     

Nos capítulos mais recentes, do julgamento de Duda/Elizabeth e as revelações que aconteceram naquele tribunal, resultaram em ganchos muito bons como há tempos não se via nas novelas. Mesmo que para trazer o público no dia seguinte, na mesma hora, no mesmo sofá; fosse necessário em alguns momentos subverter a lógica.

    Mas o público em geral não se importa. Logo estará em Palmas, mais uma vez, para acompanhar atento ao desenrolar – e novos enrolares – dessa história, refletida no verso e reverso das esmeraldas escavadas no paraíso de Carrasco. 

     Sem comentários.