domingo, 11 de março de 2018

Uma Luz Presa no Vidro


Paulo Rogério Rocco


Eu tenho um texto onde escrevi que o medo de não saber o que vamos encontrar atrás da porta, muitas vezes nos impede de ir até ela. Não é o caso aqui.

Ir até o Teatro Itália para ver “Entre! A Porta Está Aberta” é uma experiência como todo teatro tem que ser. Em minha opinião – e gosto pessoal – um espetáculo deve instigar, emocionar, divertir e, acima de tudo, deve fazer o público sair dali pensando no que acabou de presenciar. Foi assim que passei pela porta neste sábado.

A primeira cena da peça escrita por Glória Rabelo mostra Guta, um senhora sentada em uma poltrona, acompanhada de três personagens – Gabriela Gama, Emerson Grotti e Guilherme Araújo, ótimos – dizendo que não é impossível ser feliz sozinha. Sozinha? Essa frase permeia toda a encenação. Como ficamos “sozinhos”?

A irmã de Guta, a própria Glória, vai chegar para passar “uma semaninha” que pode ser um ano, uma vida. Elas vão conversar sobre Deus e todo mundo, literalmente quase. Sempre acompanhadas das recordações, pessoas, familiares ausentes, histórias, decisões e objetos que compõem a vida de cada uma. As vidas de cada uma. As que vivem e as que sonhavam viver.

A direção limpa de Dan Rosseto ao invés de deixar clara a intenção da dramaturgia, propõe um jogo com o público – que me lembrou de Meyerhold em vários momentos – mas, no entanto, sem deixar o público “ganhar” de cara. E essa sensação vai até o final e o ultrapassa. Até agora, escrevendo esses poucos parágrafos, coloco-me a pensar em alguns trechos do que vi.

O cenário de Kleber Montanheiro é de uma funcionabilidade incrível para a trama em cada momento que é composto, decomposto e recomposto pelos atores que também – inteligentemente – são contrarregras em cena. Com vários simbolismos, como a luz “presa” no vidro, a cenografia é outra “atriz” em cena. Como o são a trilha de Fred Silveira e a luz de Wagner Pinto.

Aliás, vale um parágrafo a belíssima canção “Passagem, o Tempo”, cantada lindamente por Guilherme Araújo em um recorte lindo da montagem.

Tudo se fecha em torno da relação das duas irmãs e de como elas irão sair intactas de mais esse encontro. O que não acontece, felizmente, com a plateia. Quase ninguém sai daquela porta da mesma maneira que entrou. O que é ótimo.

Você tem somente mais uma chance de vivenciar isso, no próximo sábado, às 18 horas. Melhor abrir a tampa do vidro. Entre! A vida está aberta.

Sem Comentários.