sábado, 21 de abril de 2018

Como um Dia de Domingo


Relembrar acontecimentos não é viver no passado. É ter a consciência de que um determinado fato marcou de alguma forma sua vida e contribuiu para formar a pessoa que você é. Ou simplesmente dizer para o seu "eu" atual, que existiu outra pessoa em você, que viveu experiências, que presenciou a história, que era você em outra época. 

O dia de hoje tem alguns desses significados. Posso recordar até com riqueza de detalhes, nessa pequena crônica, o dia 21 de abril de 1985.

Era um dia de domingo, de manhã. A partir daquele ano, acho que passei a não ser muito fã dos domingos. Para um jovem do interior de São Paulo, recém transportado diretamente do colégio para uma Universidade como a PUC de Campinas, esse dia da semana significava deixar minha família e meus amigos - em um tempo que a maior parte dos amigos eram reais e estavam sempre juntos - para viajar quatro horas em um ônibus para uma cidade que, apesar de visitá-la constantemente durante toda a infância, passou a ser estranha para mim.

Naquele dia em particular, a corrida de Fórmula 1 de Estoril, em Portugal, terminava com um brasileiro que sairia na pole e seria vencedor pela primeira vez: Ayrton Senna. Um Lótus negro e dourado - meu carro preferido da categoria em todos os tempos - cruzava a linha de chegada com bandeira quadriculada, para a alegria de milhões de brasileiros, sob um temporal incessante.

Acabou a prova e fomos para o almoço em família, enquanto minhas malas já estavam sendo arrumadas e minha mãe colocava feijão e misturas congeladas em outra bolsa. 

Quatro horas da tarde entrava no ônibus que demorava as já citadas tantas horas para um percurso que hoje levo, de carro, pouco mais de uma hora e meia.

Cheguei na rodoviária de Campinas e peguei o ônibus circular, com duas ou três malas, até o prédio onde morava com dois amigos na época, na rua Dr. Quirino. Quando eu chegava lá, a tristeza passava um pouco. Gostava de conversar com eles e assistir televisão. E como adorava as aulas e meus colegas da faculdade, a segunda-feira prometia novos bons momentos.

Naquela noite, entretanto, foi um pouco diferente. Depois de comermos alguma coisa, sentamos nos colchões espalhados pela quitinete - que obviamente não tinha sofá e nem camas - e assistimos ao Fantástico em uma televisão de 14 polegadas, em preto & branco, que tinha levado de casa.

A programação foi interrompida para o pronunciamento do então secretário de imprensa do Governo Federal, Antonio Britto, que anunciou a morte do Presidente Tancredo Neves, ocorrida às 22 horas e 23 minutos, daquele feriado de Tiradentes.

O político mineiro foi o primeiro civil a ocupar o cargo após o Golpe Militar de 1964 e carregava consigo a esperança do povo brasileiro. O domingo estava terminado. 

As aulas de segunda estavam suspensas e os anseios de milhões de pessoas se transformaram em lágrimas vertidas pelo Presidente que o povo queria, pelo homem que teve seu martírio acompanhado diariamente pela nação e pela história que ainda nem imaginávamos que viria, com a posse de José Sarney e os tempos negros que se revezariam na política brasileira, sob temporais incessantes.

Sem comentários. 

terça-feira, 3 de abril de 2018

Esgotos sob Brasília


Paulo Rogério Rocco

Basta um filme – ou série – se tornar “polêmico” que o planeta começa a ficar superpovoado de críticos e entendedores do setor audiovisual e da sétima arte.

É assim com “O Mecanismo”, que teve a primeira temporada disponibilizada pela Netflix. Produzida por José Padilha e roteirizada por ele e por Elena Soarez, a história gira em torno dos primórdios da Operação Lava-Jato e dos primeiros movimentos desse jogo de gato e rato que monopoliza – para o bem e para o mal – a manchetes brasileiras dos últimos anos.

Pois bem, não precisava ser nenhum vidente para saber que a repercussão da série seria gigantesca, mais precisamente do tamanho do fanatismo político e da divisão da arquibancada que move o país principalmente depois das últimas eleições presidenciais – cujos protagonistas desfilam pelos episódios em interpretações propositalmente caricaturais. Mas convenhamos, vivemos em um Brasil tão surreal que por mais ridículo que for a personagem, dificilmente supera seu contraponto real.

Em “O Mecanismo”, a história é narrada (em primeira pessoa como já é característica de Padilha) pelos policiais federais que desencadearam a Operação – PS: a partir daqui, tudo o que eu citar se refere aos episódios da série e não à história real. – e a guerra deles contra o que parece ser um dos maiores esquemas de corrupção da história do planeta.

Os “mocinhos” da trama são Marco Ruffo, um policial bipolar obcecado vivido por Selton Mello e Verena sua parceira também da Polícia Federativa, interpretada por Caroline Abras. Sim, a polícia é “federativa” por que a Federal queria ler o roteiro antes de ser exibido para que autorizasse o uso do nome verdadeiro. E como qualquer diretor ou produtor que se preze, logicamente Padilha negou.

Em síntese, a série é policial e não política, como tem sido nossa realidade, com homens e mulheres que frequentavam as páginas políticas indo parar na seção policial dos jornais.

Os atores que interpretam os políticos mais parecem ter saído de uma ópera bufa e o fazem com maestria, aproximando a interpretação, em alguns momentos, a uma charge ou – repito – caricatura viva.

Tudo o que está descrito ali já aconteceu, acontece e vai acontecer perto de você. Como diz o próprio Padilha, “se a nova lei de delações premiadas tivesse sido sancionada com o PSDB no poder, os políticos denunciados teriam sido Aécio, Serra e FHC. Mas como foi sancionada com o PT e o PMDB no poder, os denunciados foram Palocci, Lula, Cunha, Cabral e Temer”.

PS2: Pode ser que nem tudo o que eu publicar a partir deste parágrafo seja sobre a série. Posso me referir ao mecanismo.
A corrupção começa nas prefeituras das cidades menores, segue para o Estado e desemboca em Brasília. Não necessariamente nessa ordem. E parece irônico que o quartel general da Lava-Jato seja em Curitiba, reconhecidamente uma das melhores cidades do país.

Coube a um juiz tomar decisões que, se não tivessem ocorrido, o Brasil – de todos os partidos – teria empurrado, mais uma vez, todo esse esgoto para debaixo do tapete. O mesmo tapete onde estão a coroa-brastel, o escândalo das joias, o mensalão, o escândalo do metrô e tantos outros capítulos dessa pátria subtraída em tenebrosas transações, como canta meu caro amigo Chico.

Padilha, depois de ter escancarado a polícia militar do Rio de Janeiro em conluio com traficantes e políticos e de contar a vida de Pablo Escobar (que também causou inúmeros protestos do filho de Escobar, pelo menos) mostra, com esse novo trabalho, que o Brasil definitivamente não é para amadores.

Ainda espero do cineasta uma série sobre Collor de Mello, o impeachmado presidente escorraçado pelos caras-pintadas que voltou ao senado nos braços do povo, sendo parceiro político de um ex-líder dos... caras-pintadas; e de seu assessor direto, PC Farias, morto em um crime até hoje envolto nas brumas do poder. Mas isso é outra história.

Em resumo: “O Mecanismo” – a única série que já vem com spoiler – é muito legal como entretenimento (apesar dos “entendidos” acharem mil defeitos técnicos) e necessária como história recente de um país que supera qualquer ficção em seus desmandos diários.

A direção é segura, sabe o que faz, domina seu ofício. A fotografia (até ela criticada pelos experts) é profissional como em todos os trabalhos da equipe. O roteiro é bom – e falar mal de páginas e páginas por um diálogo equivocado se comparado com revistas da época – é um apontamento totalmente desnecessário face ao gigantismo negativo do fato.

Quem dramatiza um caso real está sujeito a erros e, no mais, uma frase solta que não altera em nada a dramaturgia é procurar liminar em ovo. E, por fim, os atores são muito bons, como nem precisam provar que são.

Haverá outras temporadas com certeza, pois mesmo com o boicote solicitado por apaixonados seguidores, a audiência e as novas assinaturas da Netflix devem ter tido um aumento considerável. É sempre assim: os maiores interessados em denegrir uma obra artística são os que mais a promovem.

Outro sinal de novas temporadas é que a história que move o mecanismo que volta a mover a história para mover novos mecanismos está girando a cada dia, como um oroboro macabro.

Mesmo que a eleições que estão por vir altere as personagens – o que, sinceramente, acho difícil – as engrenagens nos subterrâneos de Brasília sempre serão as mesmas. E farão jorrar os esgotos em tampas de bueiros superfaturadas.  

Sem comentários.