quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Quando não se nota a Dramaturgia


Paulo Rocco

Sigo quase sempre as temporadas de “Malhação”, umas mais fielmente do que outras. Além de ser um laboratório de interpretação que indico a meus alunos – e de vez em quando discutimos isso – a novela teen da Globo me coloca em sintonia atualizada para conversar com adolescentes na língua momentânea deles.

A que está no ar atualmente – vou começar falando de “Vidas Brasileiras” – é escrita por Patrícia Moretzsohn com colaboração da Renata Dias Gomes, Chico Soares, Laura Rissin e Ricardo Tiezzi, além de Daniel Ortiz supervisionando. A experiência de Ortiz e de Patrícia em sua quarta temporada à frente de “Malhação”, obviamente garantem um bom texto aos capítulos.

Baseada na novela canadense “30 Vies” de Fabienne Larouche – pela qual a autora foi indicada quatro vezes ao Emmy – essa temporada de “Malhação” é mais uma entre as vinte e seis já produzidas, umas com mais e outras com menos êxito. Aí é que está o diferencial que nos remete ao objetivo de discussão desta crítica: a temporada anterior, “Viva a Diferença”, mostrou-se muito – muito mesmo – adiante do lugar comum.

Tinha um roteiro que classifico como excepcional – dentro do seu gênero, claro e da faixa etária a que se propunha. E o responsável por este salto ocorrido foi o dramaturgo Cao Hamburger e sua história sobre a vida de cinco amigas, muito diferentes entre si, que se conheceram ao auxiliar o nascimento do filho de uma delas, em pleno vagão do metrô paulistano.

Lica, Benê, Tina, Ellen e Keyla são lembradas com saudades, não só pela interpretação na medida correta das atrizes Manoela Aliperti, Daphne Bozaski, Ana Hikari, Heslaine Vieira e Gabriela Medvedovski, respectivamente; que deixavam seus personagens absurdamente reais; mas também pelo texto crível de Hamburger, redigido linha a linha para sair da boca daquelas adolescentes envoltas com problemas, como diria Roberto, que só gente grande é que tem.

A identificação com o público era tão intensa que parecia que, ao dobrarmos uma esquina qualquer na Vila Mariana, poderíamos dar de cara com uma das meninas. Mérito também da Direção comandada por Paulo Sivestrini.

Para resumir aquela temporada: média de 20 pontos de audiência, a melhor desde 2009 e recentemente uma indicação do Emmy Kids.

E voltamos para “Vidas Brasileiras” e a diferença para sua antecessora: o texto é bom, mas não é como o outro. As personagens não aparentam existirem na realidade como as amigas do vagão e os coadjuvantes que as cercavam.

A característica de “30 Vies”, onde cada temporada tem uma protagonista, fica diluída na tentativa de semanalmente – ou quinzenalmente – alçar uma personagem a esta condição. No começo isso era mais nítido. Hoje é menos perceptível.

“Malhação” sempre teve – com raras exceções como a anterior – casais protagonistas que tomam para si a centralização da história como um todo. Isso não acontece esse ano, principalmente por causa dos atores Daniel Rangel e Alice Milagres, notadamente os que mais precisam melhorar no elenco.

Com o objetivo de mostrar adolescentes de todos os tipos e gêneros, algumas personagens exalam justamente o que deveriam “combater”: uma caricatura pouco sutil de si mesmas. Não vejo, entretanto, esse problema proveniente do texto. É mais um ajuste de Direção. E cuidados maiores com a afinação de interpretação dos atores e atrizes.

Essa temporada tem momentos legais, tem a tentativa de discutir problemas adolescentes com certo cuidado, tem um elenco de apoio experiente; mas não tem um texto como a anterior, escrito com propriedade, talento e o mais importante: uma dramaturgia que não se fazia notar, para leigos, dentro da história.

Ninguém que cruzasse com Lica ou Keyla – para exemplificar a afirmação do parágrafo anterior – na estação Ana Rosa do Metrô, iria pensar que elas estavam dizendo textos previamente escritos e não o que viesse na cabeça fervilhante delas, naquele exato momento. É a diferença.

Sem comentários.

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Quando o Segundo Sol sair

                                                         Paulo Rocco

Demorei mais de cem capítulos para opinar sobre “O Segundo Sol”. Confesso que, quando saíram as chamadas da nova obra de João Emanuel Carneiro, tinha decidido que não iria acompanhar a novela. Sempre escolho uma para seguir fielmente e vejo trechos das outras, por gosto e profissão.

Pensei – e acho que cheguei a postar: novela se passando inteiramente em Salvador (depois de “A Força do Querer” fincar os dois pés no Pará, “O Outro Lado do Paraíso” desembarcar em Tocantins e eu com vontade de ver uma história em São Paulo); trilha sonora onde predominaria o Axé Music; e Débora Secco “chorando” em todos os diálogos – que iria “passar” essa e esperar a próxima.

Isto posto, não vi a primeira fase. Não me chamou a atenção. Sabia o que estava ocorrendo, porque hoje em dia, abrindo uma página inicial, você sabe de tudo ao mesmo tempo, inclusive sobre o dia-a-dia das novelas.

Mas eis que chega a segunda fase. E não me recordo ao certo por que, comecei a seguir a história de Beto Falcão, o cantor morto-vivo e tudo o que envolvia essa farsa. Fiquei interessado.

Apesar de o autor ser glorificado pelo mega sucesso “Avenida Brasil”, entre suas criações gosto mais de “A Favorita”. A troca de “mocinha” e “vilã” na metade da novela me parecia algo novo dentro da teledramaturgia. E mesmo que não fosse, soava assim.

“Avenida Brasil” era a novela que o país queria naqueles tempos e caiu como uma luva no gosto dos brasileiros – e mundial, visto o número de vezes que foi exportada. Levantaram-se teses acadêmicas e rodas de conversa em bares sobre Carminha, Tufão e todas as personagens que orbitavam o núcleo principal. Mas esse não é o foco aqui.

João Emanuel alcançou o posto de novo gênio da teledramaturgia. Não nego seu poder de criar tramas rocambolescas, diálogos nervosos e, sobretudo, ganchos eficientes para o final dos capítulos. Não o vejo, no entanto, como um inovador do gênero. O autor descobriu uma maneira hábil, na minha humilde opinião, de reciclar e turbinar as clássicas novelas dos anos 70, sobretudo. Não é difícil pinçar características em sua teledramaturgia recolhidas de Janete Clair ou até mesmo de Glória Magadan, na década anterior.

Há cenas na novela das 9 que poderiam estar encaixadas perfeitamente em dramalhões mexicanos – como a revelação de que Remy era filho de Nestor em pleno “velório” do rapaz (que hoje a história encaminha para que volte à vida). Na verdade, aos olhares mais atentos foi possível enxergar um leve sorriso de Vladimir Brichta como Remy, dentro do caixão, visto pelo vidro. Pode ter sido impressão minha, mas isso me leva a outra constatação: por mais absurdas que pareçam e sejam várias sequências e cenas criadas por João Emanuel, a sempre eficiente Direção de Dennis Carvalho deixa o produto final mais crível dentro do possível.

A “Regra do Jogo”, novela anterior de João Emanuel acabou se perdendo no caminho, tamanhas as descidas de sua montanha-russa teledramatúrgica. Sem Dennis e com a “caixa cênica” de Amora Mautner na Direção, a impressão que tive foi que, naquela obra, o carrinho do brinquedo acabou dando defeito e parou com a cabeça para baixo.

Mas volto à trama atual e faço um mea culpa: tinha um preconceito com o axé music que invadiu o país há alguns anos e me cansava um pouco. Hoje gosto. Perto do lixo musical que brota com o sobrenome “universitário” e o funk de baixo nível, o Axé baiano voltou quase com a alcunha de “clássico” e com uma boa dose de saudosismo. E a trilha da novela equilibrou sabiamente novas versões – algumas até internacionais – com músicas de outros gêneros. Ponto pra novela.

Quanto às locações, apaixonei-me por Salvador, que conheço bem pouco. São tomadas belíssimas e uma explanação legal da cultura local. E Débora... Ah, gosto de sua Karola. A voz choramingada diverte no dramalhão-falso-exagerado dela e convence na raiva explosiva aos esbravejar com seus inimigos e contra a marisqueira dos infernos.

A novela sofre um pouco pelo exagero já característico de João Emanuel. Conheço pessoas que não acompanham e dizem não gostar de passar nem perto da sala, tamanha a quantidade de diálogos gritados e neuróticos. Mas para quem acompanha, faz certo sentido – e mérito maior novamente para a Direção da novela nesse quesito também.

A velocidade da história pode causar deslizes – que só não confirmo agora porque ainda faltam alguns capítulos e os assuntos podem voltar, mas o caso da compra do casarão invadido por Roberval se perdeu no tempo, inclusive com o empresário trabalhando ao lado dos moradores do imóvel na reconstrução do restaurante de Cacau, sem que ninguém tocasse no assunto.

O elenco manda muito bem no exagero cênico. Aliás, sobre os atores e atrizes, pouco a se dizer sem parecer óbvio.  Da força e talento dos jovens como Chay Suede, Luisa Arraes, Giovanna Lancellotti e Letícia Collin, entre vários; ao prazer de se ver Francisco Cuoco, Roberto Bonfim, Odilon Wagner e Arlete Salles em cena; não há muito que acrescentar.

Mas se a história dispara em várias vertentes a cada capítulo, a trajetória principal continua ali, permeando os núcleos satélites e rumando para desencadear no final feliz na fictícia praia de Boiporã, que é na verdade um misto das lindas Trancoso, Arraial d'Ajuda e Porto Seguro.

Não é uma novela para se divertir, ela é tensa, acelerada e indicada para quem gosta dessa vertigem. E isso parece ter refletido na audiência com média de 32 pontos por enquanto, cinco ou seis abaixo da sua antecessora assinada por Walcyr Carrasco. Embora essa reta final tenha registrado índices melhores.

Nos brechtinianos tempos sombrios em que vivemos, no entanto, talvez o público espere mais por uma boa dose de fantasia, escapismo e uma obra que nos leve um pouco adiante dessa nossa realidade.

E para isso vem aí, de Aguinaldo silva, mestre do realismo fantástico na teledramaturgia, “O Sétimo Guardião” para realinhar as órbitas dos planetas.

Sem Comentários.