quarta-feira, 28 de novembro de 2018

A Corrente

Paulo Rogério Rocco


A primeira impressão é a que te leva até o fim. E no caso de “O Sétimo Guardião” isso parece que vai acontecer, se não com uma massa gigantesca de audiência, com fieis espectadores ávidos por novos ventos na teledramaturgia.

A nova novela das nove resgata, como já tão alardeado pela mídia, o realismo fantástico – ou mágico – no horário nobre. O estilo tem suas bases na literatura, tendo como um de seus grandes expoentes, o colombiano Gabriel Garciaz Màrquez. Consiste basicamente em inserir no cotidiano “real” das personagens elementos mágicos, sobrenaturais, fantásticos; como se fosse, para essas mesmas personagens – e para o leitor ou público, a coisa mais comum do mundo.

A primeira e mais marcante lembrança que tenho deste gênero na televisão é o voo de João Gibão em “Saramandaia”, a original de 1976, considerada a precursora desse estilo. Eu tinha nove anos e meus pais não deixavam assistir a novela toda que passava às 10 da noite. Mas aqueles personagens de Dias Gomes me fascinavam mesmo assim, justamente por suas características inusitadas, como voar, colocar formigas pelo nariz, virar lobisomem ou explodir de tanto comer.

Um ano antes, Dias tentou emplacar na TV uma adaptação de sua peça “O Berço do Herói”, com o nome de “Roque Santeiro”. A novela, também com elementos mágicos, foi censurada. Apenas em 1985 a história foi ao ar, tornando-se um dos maiores sucessos da televisão brasileira.

Um dos autores que escreveu a novela com Dias Gomes foi o responsável por manter e aperfeiçoar o tal gênero na TV: Aguinaldo Silva. Ele emplacou uma sequência de novelas no estilo, consagrando títulos como “Pedra Sobre Pedra”, “Fera Ferida” e “A Indomada”. Mesmo “Tieta” e “Porto dos Milagres”, baseadas em romances de Jorge Amado, tinham algum elemento que remetia ao tema.

A partir de “Senhora do Destino”, no entanto, Aguinaldo fincou o pé na realidade e assim ficou até “Império” – mesmo que tenha homenageado o gênero em questão na cena onde o fantasma do imperador aparece na cena final – fazendo com que o realismo fantástico dormisse no berço dourado da memória afetiva de milhões de espectadores. Até ser despertado agora em “O Sétimo Guardião”.

Ao se falar de uma novela nova é inevitável uma citação à anterior, justamente por estar tão transparente na lembrança. Então, levando-se em conta que acabamos de ver “Segundo Sol”, a impressão que tenho é que, com a nova história, tiramos o pé do acelerador para, com calma, admirar a paisagem.

E esse quadro, visto da janela do carro, tem um nome: Serro Azul. Assim como a Terra Média tem suas regiões tão bem delineadas por Tolkien, como o Condado dos Hobbits; o universo do autor da novela das nove tem seu próprio mapa, onde suas cidades fazem divisa. Como Greenville, Tubiacanga e Porto dos Milagres, na Bahia e Resplendor e Serro Azul, mais ao sul, no estado de Minas Gerais.

E é justamente nessa última que passamos a viver todas as noites. Uma cidade pequena, parada no tempo, sem internet e com somente um morro onde pega o sinal do celular, batizado peculiarmente de orelhódromo. Talvez esse seja, justamente, o tipo de cidade onde 80% das pessoas que leem estas linhas agora, desejariam estar por algum tempo.

É um dos grandes méritos do realismo fantástico: tirar-nos desse dia-a-dia às vezes sufocante literal e subjetivamente falando e nos transportar para um universo onde é comum haver uma fonte da juventude guardada por sete guardiães, que são acompanhados e vigiados por um gato batizado justamente com o nome do pesquisador que, segundo a lenda – ou a história – buscou a tal fonte: Ponce de León. 

Aguinaldo gosta de gatos – tinha um chamado Jorge Tadeu – e era natural que um dia, um felino viesse a protagonizar uma história sua.

Também é normal nesse universo uma mulher chamada Luz ser guiada pelo negro gato – que já é astro – e desenterrar o futuro amado que havia sido colocado vivo em uma cova. Como não causa estranheza nenhuma uma senhora chegar à cidade a bordo de um mini-tornado. E vem muito mais coisas estranhas e deliciosas por aí.

Nosso mundo está literalmente de saco-cheio de uma realidade formada por corrupção, desmandos, violência, censura velada e um patrulhamento do politicamente correto a qualquer forma de arte que é – ou deveria ser – livre para dizer o que quiser e permitir que o público tenha o direito de ouvir e pensar sobre o que foi falado.

E para que nosso saco não estoure feito uma Dona Redonda, existe a fuga para esses mundos criados por escritores, dramaturgos e afins.

Em Serro Azul, vários personagens fumam (fato raro na atual teledramaturgia), mas como já disse, a cidadezinha mineira está parada em um espaço-tempo onde isso ainda é “permitido”. E não são somente os vilões, como Sampaio (Marcelo Novaes) que o fazem. Adamastor (Theodoro Cochrane), um dos personagens que mais chamou a atenção nesta largada da novela, ostenta o tempo todo seu cigarro na ponta de uma piteira cheia de estilo. Não é definitivamente um “incentivo” ao vício, é uma composição cênica que ajuda a compor maravilhosamente bem, uma personagem.

A Direção comandada por Rogério Gomes acompanha os moradores e visitantes da cidade e a história deles sem se envolver demais, o que, na minha opinião, é um grande mérito. A câmera apenas registra o que está acontecendo em Serro Azul e não se preocupa em aparecer mais que o elenco, com acontece em outras novelas, filmes ou séries, com movimentos epiléticos e drones desgovernados. Tudo na fotografia de “O Sétimo Guardião” está no devido lugar, assim como a Direção de Arte que, com licença ao pleonasmo, é impecável.

Por falar em série, é clara a referência, principalmente nas imagens, às séries atuais segundo a cartilha Netflix ou HBO, por exemplo. A cena em que Luz (Marina Ruy Barbosa) tem o pesadelo com Gabriel (Bruno Gagliasso) no primeiro capítulo, por exemplo, poderia estar perfeitamente em um dos episódios de “A Maldição da Residência Hill”. Aguinaldo é um grande fã de boas séries e isso está visível nesse novo trabalho.

Mas é claro também, que as características da velha e boa teledramaturgia clássica não foram esquecidas, sobretudo nas cenas envolvendo Lilia Cabral e Tony Ramos, gigantes como sempre.

Lilia, aliás, tem várias cenas inspiradas em “O Diabo Veste Prada” – com Fernanda de Freitas fazendo às vezes de Anne Hathaway – onde sua Valentina Marsalla usa e abusa de linguagens de cena, inclusive quebrando a quarta parede, como dissemos no teatro, para falar diretamente para a câmera ou utilizando-se da metalinguagem ao citar, por exemplo, que se fosse em uma novela da nove ela quebraria todo o escritório em um acesso de raiva.

Se o público em geral vai embarcar nessa fantasia pelos próximos cinco ou seis meses ainda é cedo para dizer. A última novela no estilo – do próprio autor – foi há mais de 20 anos, se considerarmos “A Indomada” ao invés de “Porto dos Milagres”. É quase uma geração não acostumada a obras assim. Tivemos o remake de “Saramandaia”, mas passou às onze da noite.

Ainda há muita história a se contar, personagens para habitarem a cidade e fatos estranhos para acontecerem. Tudo para, no final, o amor vencer e o casal principal viver feliz, mesmo que seja na pequena Serro Azul, ao som da maravilhosa “The Chain”, da banda Fleetwood Mac, resgatada de outros gloriosos tempos musicais.

E nós, do lado de cá da tela, seguros em nossa outra realidade tão ou mais absurda que a deles, torcemos para que, no nosso íntimo, nunca quebremos essa corrente que nos liga à fantasia, ao sonho, à magia; elementos tão caros aos dias de hoje.

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