sábado, 28 de dezembro de 2019

Habemus Papas


Paulo Rocco

Pryce e Hopkins em cena de "Dois Papas".
Quando ainda estava no colégio havia uma pegadinha onde costumávamos perguntar aos mais desavisados: como se chama uma reunião de papas? Obviamente a brincadeira era seguida de risadas após ser revelado, obviamente, que não existia algo assim.

Mas a vida sempre trata de superar até mesmo brincadeiras infantis e alterá-las conforme o planeta vai dando suas voltas no universo. E foi mais precisamente em 2013 que a piada perdeu sua graça. Tínhamos no mundo – teórica e praticamente – dois papas.

Com a renúncia de Bento XVI em 11 de fevereiro daquele ano e a consequente eleição de Francisco, 30 dias depois, o Vaticano ficou com dois representantes máximos da igreja vivos, mesmo que um deles tenha deixado o cargo, o que historicamente teria acontecido apenas três vezes antes, nos anos 235 DC, 1294 e 1415. Bento é Papa Emérito e Francisco é... O Papa.

Mas tudo isso não cabe ser analisado aqui. A história é um conjunto de variáveis – como gosto de lembrar – e é justamente uma dessas variáveis que o Diretor Fernando Meirelles aborda no excelente “Dois Papas”, produção da Netflix disponível desde o dia 20 de dezembro e que foi indicada a quatro Globos de Ouro, inclusive de Melhor Filme.
Na sinopse – bem mais simples do que tal “reunião” poderia sugerir – Bento XVI, o alemão Joseph Ratzinger convoca o cardeal argentino, Jorge Mario Bergoglio, para uma conversa em Roma, ao mesmo tempo em que o segundo enviava ao Vaticano seu pedido de aposentadoria.

Esse encontro que acontece primeiro nos jardins da residência de verão de Sua Santidade vai trazer à tona não só o passado – muitas vezes controverso – dos religiosos, quanto aproximar dois antagonistas tão díspares em se tratando dos rumos da Igreja Católica naqueles turbulentos anos.

Voltando um pouco na história, o filme começa com a morte de João Paulo II em 2005 e o conclave que se seguiu para a eleição do novo representante máximo do catolicismo. Celebrando nos bairros pobres de Buenos Aires, Bergoglio é chamado e parte para Roma. Logo acontece uma cena divertida que – pedindo perdão pelo pecado de cometer um pequeno spoiler – dá a direção do que virá a seguir. Um filme com cenas de alguma tensão, diálogos muito bem escritos e uma boa dose de humor elegante.  

Pois bem, a tal cena: o argentino está no banheiro assoviando “Dancing Queen” quando o alemão entra e pergunta qual é aquela música. A explicação do cardeal sul-americano e as expressões em seu rosto quando faz isso são impagáveis.

Outro mini spoiler (lembrando que estou comentando apenas o início do filme) e que rende uma sequência – em minha opinião – já antológica é o conclave ao som do grande sucesso do Abba. Um divertido toque de mestre de Meirelles.

E de novo ao roteiro do filme – primorosamente escrito por Anthony McCarten, também indicado ao Globo de Ouro – a conversa dos dois continua em plena Capela Sistina, sob o teto de Michelangelo, em outra sequência entremeada por flashbacks e avanços na história que irão culminar em um dos anúncios mais impactantes da história do Vaticano.

É quase um desperdício de parágrafo aqui – e um pleonasmo crítico – falar da batalha de atuações entre Anthony Hopkins como Bento XVI e Jonathan Pryce como Francisco, tamanha a grandiosidade do que se vê na tela, desde um olhar para o lado, até um mexer nos dedos das mãos. Gestos pensados, milimetricamente concebidos por anos e anos do ofício da arte. Vale lembrar que as outras duas Indicações ao prêmio do Cinema e Televisão foram justamente para o trabalho dos dois protagonistas. Tudo captado e direcionado pelo talento de Meirelles.

O Diretor brasileiro mostra, mais uma vez, uma das maiores e melhores características de sua obra: o filme não é “dele”. É dos atores e da história em si, que se conta fluindo através da técnica perfeita da dupla principal do elenco.

O espectador não percebe a Direção, o que muitas vezes pode colocar um filme a perder, principalmente quando um diretor quer demonstrar suas características de filmagem a qualquer preço. Não é o caso de Meirelles, obviamente.

Não que o estilo do Diretor passe despercebido para os mais atentos. Sua ótima direção de atores está ali, bem como sua câmera na mão, distanciando-se quando o cenário é importante para a história – como na cena em que Ratzinger deixa Bergoglio falando sozinho no jardim e do alto os vemos seguindo em direções opostas (como suas ideologias) – e puxando um zoom no rosto do ator quando um franzir de testa é relevante para a cena. Nuances de um grande profissional.

“Dois Papas” tem ainda outras divertidas cenas – como a pizza com Fanta na sacristia – e momentos emocionantes, com se o público estivesse em plena Praça de São Pedro olhando atentamente para a sacada, momentos após a fumaça branca erguer-se nos céus de Roma.

É isso. Habemus Papam. Dois deles.

Sem comentários. 

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Hora de Acordar


Paulo Rocco

Os figurinos da gêmeas durante exposição
realizada em São Paulo em 2013. 
Se você gosta de filme de terror e não viu “O Iluminado” você não gosta de filme de terror. Se você viu e gosta da versão do incomparável Stanley Kubrick para a obra do inigualável Stephen King, pare de dormir em berço esplêndido e corra aos cinemas para conferir “Doutor Sono”.

Primeiro voltemos a 1977 quando Stephen King publicou seu terceiro livro, após os sucessos de “Carrie” e “Salem’s Lot”. “The Shining” – nem precisaria resumir, mas vamos lá – traz em suas páginas a história de Jack Torrance, sua mulher Wendy e o filho Danny. Jack aceita o emprego de zelador no hotel Overlook durante a temporada de inverno, quando o prédio fica vazio e isolado do mundo pela neve, no meio das montanhas rochosas do Colorado. O chefe da família é escritor e professor (como a maioria dos personagens de King), alcoólatra em recuperação e tem um passado problemático, quando inclusive chegou a quebrar acidentalmente o braço do filho e perdido o emprego.

Pois bem, eles chegam ao Overlook e descobrem que o hotel é grandioso, maravilhoso e muito bem assombrado, obrigado. Se você leu o livro primeiro é provável que seus medos particulares tenham criado imagens assustadoras, mas por mais que você seja criativo, essas imagens não vinham sob os ângulos perfeitos de Stanley Kubrick e nem acompanhadas da música inesquecível de Wendy Carlos.
Em resumo: O diretor americano pegou os pesadelos de King, elevou à potência máxima e nos entregou um pesadelo pronto, ainda maior do que supunha nossa vã imaginação ao ler o romance. Estamos em 1980, “The Shining” estreia nos cinemas.

O Iluminado do título é Danny, com seus amigos imaginários, mas nem tanto. É o garotinho loiro que vivencia e nos leva juntos a algumas das cenas mais impactantes do cinema. Seu triciclo correndo pelos corredores imensos do Overlook – com o som se alternando entre o “suave” ao passar pelos inúmeros tapetes e o “angustiante”, ao tocar o chão centenário de madeira.

Aliás, a abertura de “Doutor Sono” já nos remete automaticamente ao hotel. Mas ainda é cedo para falar do novo filme aqui. Antes continuemos no hotel.

As filmagens do clássico de Kubrick ocorreram em parte no Timberline Lodge, no Parque Nacional Mount Hood em Oregon, EUA. E uma curiosidade sobre essa locação: o famoso quarto 237 não existe no hotel. Os diretores pediram à produção do filme original que alterasse o número do quarto 217 (que era o descrito no roteiro) para o que aparece no filme, com receio de que as pessoas não alugassem o quarto. Até hoje o quarto 217, por conta disso, é um dos mais solicitados no hotel real.

Apesar da violência da sequência final e com o famoso machado atravessando uma porta em cena, é na imagem de duas gêmeas que – em minha opinião – está uma das piores (ou melhores) cenas do cinema de horror. Só de escrever essas linhas já estou arrepiado. E para a satisfação dos fãs de King e de Kubrick, “Doutor Sono”, que estreou recentemente, traz todo esse universo de volta.

É do conhecimento de todos que King não gostou da adaptação de Kubrick. O diretor alterou o final do livro e – simplesmente por ser quem era – acabou “tomando para si” a obra do escritor. “O Iluminado” se tornou então um filme de Kubrick mais do que um livro de King.

Mas essa opinião do autor premiadíssimo e que já publicou mais de 60 obras literárias – muitas adaptadas para o cinema e para a televisão com resultados irregulares, indo de obras-primas à filmes horrorosos (no mal sentido) – mudou um pouco após ver “Doutor Sono”. Ele teria dito ao diretor Mike Flanagan (da excelente minissérie “A Maldição da Residência Hill”) que seu filme teria “aquecido” sua opinião a respeito do filme original.

Quanto à “Doutor Sono”, King derreteu-se de amores e elogios à nova produção. E é realmente um grande filme que, se não se aproxima muito do capítulo anterior – fato impossível em se tratando de Stanley Kubrick – também não faz feio e entrega uma sequência respeitosa, empolgante e, obviamente, assustadora.

King gostou de cara desse filme por uma simples razão: seu terror costuma ser visceral. Ele gosta do sangue, da violência, da ação andando de mãos dadas com o horror psicológico. E isso “Doutor Sono” tem em equilíbrio perfeito.

O filme novo é baseado também em livro de King onde o mestre continuou uma de suas obras mais aclamadas. Foi lançado em 2013 e conta como é hoje a vida de Danny Torrance. Ele continua sendo um iluminado, mas tenta – só tenta – se manter distante dos fantasmas vivos e mortos que o aterrorizaram há bem mais de trinta anos. 

Como o personagem principal dos livros e dos filmes, consequentemente, sabemos ser o Overlook, é claro que esperamos ansiosamente que a imagem da monstruosa construção em meio à neve preencha a tela toda do cinema, levando os fãs às lágrimas.
Falar muito de “Doutor Sono” é estragar a magia de assisti-lo em toda sua plenitude, segredos e referências, então vou me ater a apresentar apenas alguns personagens novos que passam a povoar o universo de Danny e ficam harmonizados com a realidade atual do protagonista (interpretado por Ewan McGregor).

Há a garotinha Abra (Kyliegh Curran), iluminada como ele; há Rose the Hat (a maravilhosa Rebecca Ferguson que rouba a cena com sua beleza e talento), há o bando de Rose que – como vampiros de almas – sobrevive com a essência dos iluminados e, principalmente, há alguns personagens de volta – que não vale citar aqui.

A Direção de Arte é um espetáculo à parte, tanto na “reconstrução” dos espaços do Overlook, como na “ressurreição” de alguns personagens. Flanagan destila pelas cenas várias referências, citações nos diálogos, nas imagens, nos ângulos; que são um deleite de perfeição e uma clara homenagem à Kubrick e sua obra. E a música... Ah, a música... Garanto que se, após o filme, ela fosse executada pelos corredores do shopping e você precisasse ir ao banheiro, iria pensar duas vezes.

Não creio que o filme fará grande bilheteria. Ele não tem super-herói, continua uma história exibida há quase 40 anos e “afasta” quem não viu o filme de Kubrick. É um capítulo 2. Não tem conversa. Mas o cinema precisa dele.

Daqui a algum tempo não digo que será cultuado como seu antecessor, mas estará na mesma caixa, na estante ou na lembrança dos fãs de dois dos maiores gênios do cinema e da literatura fantástica.

Sem comentários.

sábado, 2 de novembro de 2019

Entrelaçados


Paulo Rocco 


Giulia Benite, Kevin Vechiatto, Laura Rauseo e Gabriel Moreira.
“Turma da Mônica - Laços” é o primeiro filme live action da turminha mais querida do Brasil e que nos segue desde os primeiros meses de vida até enquanto quisermos continuar a sonhar, nos divertir e – sobretudo depois do lançamento do selo “Graphic MSP” – nos emocionar. 

Emoção foi o que gritou mais alto quando li há seis anos mais ou menos, a primeira Graphic assinada por Vitor e Lu Cafaggi com a Turma de Mônica e a segunda da série aberta pelo Astronauta de Danilo Beyruth. 

No texto, o Floquinho desaparece e a turminha tem que encontrar e resgatar o cãozinho verde do Cebolinha.  As primeiras páginas do livro – com o momento em que um Cebolinha bebê ganha o seu pet – é de uma delicadeza que só poderia sair do traço da Lu Cafaggi. Mas isso é assunto para outro texto que publicarei em breve sobre as graphics editadas por Sidney Gusman com os personagens icônicos do mestre. 

O foco aqui é o filme, que assisti somente agora, após adquirir o DVD. E foi uma pena não ter conseguido ver nos cinemas. Rezende conduziu a obra com um respeito imenso tanto ao livro em que o roteiro de Thiago Dottori é inspirado, quanto aos personagens de Mauricio de Sousa. 

Há sequências idênticas aos quadrinhos e personagens “secundários” – como o Xaveco – que pipocam na tela e nos cenários coloridíssimos, com as casas, cercas e objetos em matizes fortes por todos os lados, em uma Direção de Arte primorosa de Cássio Amarante e Mariana Falvo.  

Há o Titi xavecando a Aninha perto de uma árvore, tem o Jeremias, a Cascuda, o Quinzinho, a Clotilde e a Cremilda - que vivem querendo dar banho no Cascão - e até a Xabéu, a apaixonante irmã do Xaveco, capaz de fazer brilhar os olhinhos do Cascão e do Cebolinha. Ah, tem também a participação da turma da rua de cima, responsável por aumentar a confusão em que a turminha se mete. 

Há também o Gusman como vendedor de flores, os irmãos Cafaggi e até o próprio mestre Mauricio em uma aparição como o dono de uma banca de revistas. É dele a observação mais divertida do filme ao ver o cartaz das crianças procurando o Floquinho: “É verde?”. 

Os fãs mais atentos vão se deliciar com o vendedor de cachorro-quente da pracinha que ninguém mais é do que o querido Sr. Juca, que tanto a turminha azucrina nos quadrinhos, em suas mais diversas tentativas profissionais. 

Há outros detalhes que nos remetem aos gibis, como o Jotalhão e o Horácio em bonecos de pelúcia e tantas referências clássicas a histórias já contadas. E isso é um deleite visual e emocional. 

Além dos atores do quarteto principal, escolhidos a dedo para nos trazer personagens tão conhecidos da nossa vida e memória afetiva – com atuações excepcionais, sobretudo da Giulia Benite, que faz a Mônica – há participações especiais como a de Paulo Vilhena como Seu Cebola, Monica Iozzi como a Dona Luisa, mãe da Mônica e Rodrigo Santoro como o Louco. 

Por falar no Louco é aí que cabe minha vírgula quanto ao filme. Primeiro meu afago: Santoro é um dos grandes atores de sua geração e que tão bem tem representado nosso país na maior indústria cinematográfica do mundo; seu “Louco” é a perfeita encarnação do personagem que atormenta e só contracena com o “Cenourinha” nos gibis. Sou fã. Dos dois. 

A cena é divertida até, mas em minha opinião – bem particular e que nem um pouco deprecia a obra em si – não precisaria necessariamente estar neste filme. A sequencia avança muito pouco a história principal, altera o livro original (quando Cascão fica vigiando o acampamento da floresta e não o Cebolinha e o Louco nem aparece) e tem apenas uma sutil e luminosa ligação com um momento lá na frente.

Mas foi uma opção de roteiro, da Direção e de toda a equipe e deve ser respeitada. Mas é sempre bom ver Santoro em cena e o seu Louco merece uma adaptação de sua própria graphic. 

No mais, com pequenas alterações de cenário nos momentos finais, a história segue como na graphic, sempre ilustrada por uma trilha sonora muito legal – composta por Fábio Góes – com citações ao clássico tema da Mônica e uma bela canção de Tiago Iorc. Com detalhes ricos acrescentados, como os laços colocados na floresta e na história. Que venham “Lições” e “Lembranças”. E tantos outros. 

“Laços”, o filme, ainda deixa a mensagem para o público de todas as idades de que precisamos vencer nossos próprios medos para conseguir o que queremos. Parece óbvio, mas a maneira como a boa Direção de Daniel Rezende ilustra isso é o que mantém Mônica, Cebolinha, Magali, Cascão, enfim, toda a turma e nós, fãs e espectadores, entrelaçados para sempre.
  
Sem comentários.

domingo, 27 de outubro de 2019

Send in the Joker!


Paulo Rocco

Joaquin Phoenix como o Coringa em cena já clássica. 
O que dizer do Coringa que ainda não foi dito? O que leva um filme cujo personagem é icônico, mas não é novidade, a alcançar tamanha bilheteria e ser aclamado pela crítica, a ponto de um autor consagrado como Aguinaldo Silva se referir a ele como o melhor filme que viu nos últimos dez anos?

Como já comentei sobre as expectativas do filme e os exagerados cuidados por parte de autoridades americanas quanto à possível fomentação de ataques de malucos no post anterior deste blog, vou me ater a falar somente sobre a obra em si. Se é que isso é possível em se tratando de um personagem criado em 1940 e que em pleno ano de 2019 provoca admiração, repulsa, surpresa e – acima de tudo – diversão, um dos objetivos da criação da Sétima Arte.

Por falar nesse aspecto – e já começo me contrariando a não me referir somente ao filme como prometido no parágrafo anterior – vale citar que “Joker” foi o estopim para uma polêmica declaração de Martin Scorsese que depois foi corroborada por ninguém menos que Francis Ford Coppola.

O primeiro teria dito que o que a Marvel faz não é cinema. Então, como é comum no implacável mundo virtual em que fingimos viver, a repercussão veio de grandes cineastas a pobres mortais que chegaram a comentar “quem é esse Scorsese pra julgar meu filme de herói preferido?”.

Se eu tiver explicar aqui quem é Martin Scorsese, você é que não precisa continuar a ler esse singelo artigo. Pode parar aqui mesmo e vamos continuar sendo amigos no facebook.

Pois então – voltando ao tema principal e tentando não fugir para outro assunto como se minha cabeça pirasse de vez em sempre – ao assistir o filme habilmente dirigido por Todd Phillips (cujo currículo tem como destaque a trilogia “The Hangover” ou “Se beber Não Case”, no criativo título que os filmes ganharam por aqui), compreendemos – nós que entendemos de Cinema – a frase dita por Scorsese.

Há música e existe Música. Há literatura e existe Literatura. Há teatro e existe Teatro. Obviamente existe o cinema e o Cinema. Nenhum deixa de ser música, literatura, teatro ou cinema; só para ficar nessas quatro áreas de tantas possíveis. Os filmes da Marvel e muitos outros são sim, cinema também.

Estão aí para divertir, emocionar e fazer milhões de pessoas torcerem nas salas escuras; mas com algumas exceções como “Pantera Negra”, assemelham-se sim, a parques temáticos e ajudam a vender milhares de HQs e Action Figures, sem falar em jogos e os próprios filmes em plataformas digitais ou formas físicas. A lição foi ensinada em uma galáxia distante, no longínquo 1977. E funciona com a mesma fórmula até hoje.

PS: Antes de me jogarem em um tanque com ácido nos comentários – nas respectivas páginas de vocês, por que aqui democraticamente é sem comentários – quero dizer que sou sim um fã da Marvel e de seus filmes também.

Viu como saí do assunto novamente? (Ouve-se ao fundo uma risada descontrolada).

Agora, diante de um filme como “Coringa”, percebe-se o cuidado com a interpretação – que deve levar Joaquin Phoenix ao seu segundo Oscar e o primeiro a ser dado a dois atores diferentes por um mesmo personagem; a impecável Fotografia que mantém a câmera no tripé, na grua ou no trilho quando necessário – ao contrário da maioria dos campeões de bilheteria atuais; a Trilha Sonora pontuada e perfeitamente disposta em cada sequência; a Direção de Arte minuciosamente criada em parceria com a iluminação e, claro, o já citado trabalho de Direção. E com tudo isso em conjunto já temos de imediato uma sequência clássica, uma nova “escadaria de Odessa”. Ou melhor, de Gotham ou Bronx, como queira.  

Tudo isso está em “Coringa”. O que faz dele um excelente filme, o tal Cinema.

O manual de jornalismo diz que antes de terminar tenho que citar um resumo da história, então lá vai: um palhaço que sonha ser um comediante de stand-up e que cuida da mãe doente é quase que literalmente massacrado pela sociedade – e nem tinha rede social ainda – e acaba surtando em uma catarse que é o primeiro ponto de virada do filme (estou bem didático hoje). O que ele vai se tornar já sabemos, o que não podíamos imaginar é que um louco assim teria seguidores. Send in the clowns!

O crítico de algum site disse que o filme tem uma “ligação” com o universo DC criado por Zack Snyder ao mostrar uma cena em que o casal Thomas e Marta Wayne saem do cinema – onde está em cartaz “A Marca do Zorro” – com o pequeno Bruce. Na verdade, o que está em cartaz em "Coringa" é "As Duas Faces do Zorro", paródia do herói californiano com George Hamilton produzida em 1981, que pode ser a época em que se passa a história. Outro filme cujo cartaz aparece é "Excalibur", do mesmo ano. Esse sim também é mostrado na obra de Snyder.  

Mas “Joker” não tem ligação nenhuma com os filmes da DC realizados ultimamente. Essa obra tem vida própria. E isso está arrastando multidões aos cinemas. A propagada violência é mais psicológica do que real, com exceções dos assassinatos cometidos pelo príncipe palhaço do crime e com duas cenas em particular que podem impressionar os mais desavisados. Mas é só.

Se o seu Superego, no entanto, não permite que você saia do cinema e despache o primeiro desafeto que encontrar no beco, seu Id poderia facilmente – nesses tempos brechtinianos em que vivemos – levá-lo a uma loja de fantasias para comprar uma máscara.

Sorria. Ao menos que você não tenha entendido a piada.

Sem comentários.

sábado, 28 de setembro de 2019

O filme mais violento que ainda não vi


Paulo Rocco

Coringa - 2019
Nesta semana um dos mais icônicos e conhecidos vilões do planeta toma de assalto os cinemas do mundo todo. O primeiro filme solo do Coringa, o arqui-inimigo do Batman criado em 1940, ainda nem estreou é já tem causado polêmica. Aliás, em um mundo ditado pelas fake news twitter-facebookianas, polêmica é algo tão cotidiano como escovar os dentes. Cada dia surge uma nova. E a bola da vez é essa produção envolvendo o personagem que nasceu das cabeças geniais de Jerry Robinson, Bill Finger e Bob Kane, na revista Batman nº 1.

Não vou me estender aqui sobre o personagem. Se você não viveu os últimos 79 anos de Marte para frente já ouviu falar dele. Até na Lua deve ter alguma pegada com o número maior do que a de Armstrong.

Vamos falar sobre o filme que já é tido como uma obra incrível baseada nos quadrinhos da DC e que em sua gênese teve a valiosa colaboração de Martin Scorsese. E por que ele chega também com essa aura “pesada” a ponto do FBI editar um memorando interno sobre o mesmo, alertando que há um grupo de suspeitos chamados de “incel” (um diminutivo da expressão "involuntary celibates"), ou celibatários involuntários; homens que não conseguem ter relações sexuais e amorosas e culpam as mulheres e os homens sexualmente ativos por isso. O memorando diz que esses indivíduos idolatram figuras violentas como o atirador do cinema na cidade de Aurora, no Colorado e também o vilão do Batman. Coisas assim levaram o exército americano a ficar em alerta para a estreia do filme.

O Cavaleiro das Trevas
Ressurge - 2012
A tal discussão teria começado após um grupo de familiares de vítimas justamente do ataque no Colorado recorrer à Warner – produtora do filme – dizendo-se preocupado com possíveis repetições do que sofreram. O grupo falava sobre o fato ocorrido em 2012 quando um homem identificado como James Holmes, invadiu uma sessão de “Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge” em Aurora, matou 12 pessoas e deixou 70 feridos.

Respeito a dor dos familiares, condeno veementemente o ocorrido, mas não consigo ver relação alguma com o novo filme, a não ser talvez Bob Kane. Na sessão em que ocorreu o ataque, não há sequer menção do Coringa. Os vilões que aparecem ali são Bane, o Espantalho, Ra's Al Ghul e – por definição – a Mulher-Gato.

As pessoas aplaudem Trump e seus admiradores tupiniquins – que proclamam o uso da arma como se fosse um complemento da sua roupa de trabalho; aprovam a venda livre dos armamentos e acham o máximo políticos fazendo sinais de revólveres com as mãos. E colocam a culpa da violência em personagens de ficção.

Se você que estiver lendo agora esse texto tiver menos que 40 anos saiba que não é a primeira vez que a Sétima Arte incomoda tanto e não será a última. Em 1986, por exemplo, apesar de pouca gente se lembrar e quase não haver notícias na internet sobre isso – mas graças à minha memória me recordo perfeitamente – aconteceram no Brasil, já sob a Nova República, censuras e cortes em filmes de grandes diretores e reconhecidos atores mundiais, acusando-os de violentos ou blasfemos. Uma das vítimas foi Stallone com seu filme “Cobra”.

Cobra - 1986
Exibido como veio ao mundo, a história do violento policial Marion Cobretti foi um sucesso arrebatador, após o igualmente violento “Rambo 2 – A Missão”. Acontece que Cobra – com perdão do trocadilho, não estava na selva – e sim agindo na cidade, contra uma gang de malucos que trucidavam as vítimas com foices e ganchos.

Vi o filme no cinema, na íntegra. Semanas depois a censura cortou cinco cenas consideradas de extrema violência, ou seja, justamente aquelas que eram importantes para a ação. O filme – que já era de um roteiro sofrível – ficou sem um mínimo de sentido. E não há relatos de que nos EUA ou qualquer outro lugar tenha havido ataques inspirados no trabalho de Marion Cobretti.

Je Vous Salue, Marie - 1986
No mesmo ano – apenas para citar, já que não tem a ver com violência propriamente dito e a “acusação” passa a ser a blasfêmia – acontece a proibição do Presidente José Sarney para o “Je Vous Salue, Marie”, de Godard. Um filme de arte, chato em certos pontos e que passaria despercebido, a não ser pelos fãs do Diretor, caso não tivesse sido proibido, com uma repercussão que levou até a uma discussão via Folha de S. Paulo entre Roberto Carlos (a favor da proibição) e Caetano Veloso (contra). Como também não é o tema aqui, pesquise sobre isso se quiser aprofundar o assunto.

A Última Tentação - 1988
A história veio se repetir em 1988 com a proibição de “A Última Tentação de Cristo”, uma das mais incríveis obras de Martin Scorsese, baseada na livro de Nikos Kazantzakis. O governo, já sob os ares da Nova Constituição que – em teoria – liquidou a censura, quis proibir justamente a sequência que dá sentido à existência da obra. Vi o filme em um cinema “escondido” na cidade de Santos, mas em diversas grandes cidades ele foi retirado dos cinemas.

A Paixão de Cristo - 2004
E assim vai. Para ficar no mesmo tema, o mundo – e governos – considerou violentíssimo o filme “A Paixão de Cristo” de Mel Gibson lançado em 2004, por conta das torturas sofridas por Jesus há mais de dois mil anos e retratadas – dizem os estudiosos – exatamente como deve ter acontecido. Em vários países a obra foi “condenada” por conta disso.

E como a questão das armas – com uma liberdade de análise, obviamente –, as pessoas vão à igreja, ouvem o evangelho na Semana Santa, choram por Jesus ter sido torturado e entregue aos romanos, velam o Cristo morto, o enterram e – quando um filme conta exatamente a mesma coisa, condenam-no pela “violência”.

Voltando ao “Coringa”, alguns afirmam que têm medo de que uma pessoa que está à beira de se tornar um atirador pode ser encorajada por esse filme. Claro que isso pode acontecer, mas poderia ser com um admirador de Michael Douglas em “Um Dia de Fúria”; ou com um fã de Jason usando uma máscara de hóquei em qualquer sexta-feira 13; ou com seguidores de Michael Myers no final de outubro. Ou tantos outros, como o mesmo John Rambo já citado e que, no capítulo IV e recentemente no V, corta inimigos ao meio com suas armas.

Com Direção de Todd Phillips, “Coringa” tem no elenco Joaquim Phoenix e Robert De Niro, entre outros e conta a história de Arthur Fleck que trabalha como palhaço para uma agência de talentos e toda semana precisa comparecer a uma agente social, devido aos seus problemas mentais. Após ser demitido, Fleck reage mal às provocações de três homens e os mata. Os assassinatos iniciam um movimento popular contra a elite de Gotham City, da qual Thomas Wayne é seu maior representante. Thomas é o pai de Bruce o que leva a história a um passado de Gotham onde ainda não existe o Batman.

Vamos torcer para que toda a preocupação sobre a estreia não passe da teoria e do marketing involuntário que a DC ganhou para sua produção. E como diria uma faixa em um protesto contra a proibição de “A Última Tentação de Cristo”: “It’s only a movie”.

Quem está doente não é o Coringa. É a humanidade.

Sem comentários. 

terça-feira, 30 de julho de 2019

Nosso Bebê


Paulo Rocco

A primeira lembrança que tenho de “Dumbo” é um compacto da coleção “Disquinho” da Disney que trazia a história do elefantinho voador. O disco de vinil era preto e ainda não fazia parte daquela coleção colorida da qual muitas pessoas com mais de 40 anos se recordam e tinham em suas discotecas. Minha mãe então recortava figurinhas dos gibis e as colava para eu saber quais eram os discos que queria ouvir mesmo antes de saber ler.

E desta mesma época da minha vida, outras duas lembranças reforçavam minha convicção de ser esta uma das minhas histórias Disney preferidas: um Dumbo inflável que volta e meia precisava ser “remendado” pelo meu pai e uma coleção de slides do filme.

Os slides – para quem não conheceu essa maravilha visual – eram cartõezinhos de papel com transparências no meio, que se tornavam quadros estáticos projetados como um data-show. Passados na sequência, contavam a história como uma fotonovela em tela grande. Como o slide não tinha som, a gente colocava o disquinho na vitrola e começava a projetar, simultaneamente, as lindas imagens na parede.

Algumas curiosidades antes de entrarmos no assunto propriamente dito deste artigo: “Dumbo”, o clássico de Walt Disney, foi lançado em 1941 e é um dos filmes preferidos do criador. Devido às economias de guerra foi uma das mais baratas produções do estúdio, que chegava a sua quarta produção – custou 814 mil dólares (quase a metade do custo de “Branca de Neve”, por exemplo) – e tem a menor duração com apenas 64 minutos.

Os slides que citei, assim como o vinil são do início da Década de 70. Em 1990 foi lançado no Brasil o VHS do filme. E é claro que ainda tenho todas essas versões.

O que nos leva ao tema principal: a releitura do clássico Disney pelas mãos do diretor Tim Burton, que estreou este ano nos cinemas e chega agora ao DVD e Blu-Ray. Burton criou um novo filme. Novos personagens, novas tramas e fortes emoções sem, no entanto, descuidar um minuto sequer dos 78 anos de história do personagem, respeitando cenas emblemáticas do longa de animação e homenageando sequências inteiras.

No novo filme, Colin Farrell é Holt Farrier é um ex-astro que retorna da guerra e encontra o circo em que trabalhava passando por grandes dificuldades financeiras. Sua esposa morreu e os filhos cresceram longe dele. Sem os cavalos com os quais trabalhava – vendidos para ajudar nas finanças – ele fica encarregado de cuidar da elefanta dona Jumbo e seu bebê recém-nascido, cujas orelhas gigantes fazem dele motivo de piada de toda a trupe.

São os filhos de Holt que descobrem que o pequeno elefante é capaz de utilizar essa sua diferença para um feito extraordinário: voar.

Essa é a premissa. Simples demais contando assim, mas que se torna nas mãos do genial Burton, uma poderosa história sobre superação, dedicação à arte, busca por objetivos e, sobretudo, amor por seus semelhantes e pelos animais. “Dumbo” é amor do princípio ao fim. E por estar razão – entre outras – arrancou lágrimas de milhões de pessoas através do planeta.

O público não enxerga ali um impossível elefante que voa, criado em CGI e que em momento algum esteve presente entre nós. O que vemos na tela é sim, um animalzinho indefeso no início, separado da mãe – a icônica cena de Dumbo no lado de fora do vagão-prisão de sua mãe está ali, em toda sua emoção e dor – por culpa da ganância e do desprezo humano que luta, ao lado do casal de crianças, apenas para encontrar sua felicidade. E como não ficar tocado ao ver os olhos de Dumbo?

A história se complica quando o circo dirigido pelo sempre incrível Danny DeVito é vendido para um empresário – Michael Keaton, sempre ótimo – que comanda uma espécie de Disneylândia. A história se passa em alguma década entre os anos 40 e 60, sem precisar exatamente o ano em que estão. E isso gera maravilhosas chances de Burton destilar sua fantasia visual que permeia toda sua obra cinematográfica.

O coliseu para onde vai a família do circo – assim como todo o parque temático – é deslumbrante. No espaço dedicado à ciência do futuro (paixão da personagem adolescente vivida por Nico Parker) há várias referências, como ao clássico “Perdidos no Espaço”. Outros destaques do elenco são a maravilhosa Eva Green e o competente Alan Arkin.

Por falar em referência e reafirmando o que escrevi há pouco, o filme tem várias delas relacionadas também ao desenho animado. Timóteo, por exemplo, o camundongo companheiro de Dumbo é representado por um ratinho que usa casaco e cartola. Na cena em que Dumbo voa pela primeira vez, há o frame que mais me encantou pela memória afetiva: um dos slides sobre os quais falei, era do desenho de um garoto com grandes orelhas que tirava sarro de Dumbo. E não é que o tal garoto estava na plateia do circo rindo de Dumbo? O elefantinho então enche a tromba de água e, num rasante sobre o público, descarrega a carga sobre o menino de orelhas grandes e seus amigos. Uma cena divertida quem para mim, converteu-se em uma doce lembrança.

Falar mais pode tirar a magia do filme, se é que isso é possível. Mas garanto que mesmo que nunca tenha tido contato com Dumbo – o que parece mais estranho do que um elefante voar – você vai achar incrível essa nova versão. Agora, se for fã como eu, prepare o lenço. Dumbo vai te conquistar no primeiro olhar.

E você vai sentir vontade de pegá-lo no colo – com todas suas quase toneladas – abraçá-lo e niná-lo enquanto ele não encontra a mãe, tratando-o como a um bebê. Mesmo que esse seu novo amiguinho, em um espirro, possa saltar uns quatro metros do chão.
Sem comentários. 

terça-feira, 16 de julho de 2019

Vamos falar sobre Sylvia


Paulo Rocco

Elenco de "Sylvia" ao final da peça. 
Tive o prazer de assistir ao espetáculo “Sylvia” que estreou recentemente no Teatro das Artes, em São Paulo. Para falarmos sobre ela (a peça) e também a respeito dela (a Sylvia), vamos saber onde essa história começou.

Escrita por A.R. Gurney, dramaturgo americano falecido em 2017, “Sylvia” estreou na off- Broadway em 1995 e depois no próprio templo do show business em 2015. Foi quando a produtora e atriz Simone Zucato conheceu o texto, adquiriu os direitos sobre ele, fez a tradução e produziu, para nossa sorte, esse espetáculo incrível.
  
Agora sim, vamos falar sobre Sylvia, uma cadelinha apaixonante, carinhosa, brincalhona e sensível que muda a vida de um homem – e da família dele – com um poder do qual somente esses animaizinhos são capazes. A sinopse é simples, Greg – interpretado por Cassio Scapin com a excelência de sempre – encontra a cadela Sylvia em um parque e a leva pra casa. Sua mulher, Kate, vivida pela maravilhosa Françoise Forton não gosta da situação. Mas é tarde, Sylvia chegou para ficar.

E Sylvia é justamente o papel de Simone Zucato, já defendido por atrizes como Sarah Jessica Parker, na referida estreia americana e Annaleigh Ashford na montagem de 2015. Mas em Simone a cadelinha parece ter encontrado sua contraparte humana ideal.

A atriz é de uma delicadeza ao construir sua personagem e de tamanha técnica de expressão corporal que muitas vezes durante o espetáculo nos pegamos – o público – a ver em cena a cachorrinha de Greg. Detalhes no olhar ou no sutil coçar das “patinhas”, por exemplo, nos remete facilmente ao universo canino. Se tivermos uma amiga dessas em casa então, pronto, estamos rendidos.

O figurino de Marcelo Marques – principalmente da cachorrinha-título – remete à cor dos pelos de Sylvia, nas composições que a atriz usa. Parece uma escolha óbvia, mas cada elemento foi estudado para isso e atinge o resultado de imediato, bem como a identificação da plateia. Aí está o mérito do profissional.

Assim como os figurinos, gosto muito mais do cenário da versão brasileira do que o original. Camila Schimtz criou um espaço que tanto é o apartamento do casal, quanto serve perfeitamente às cenas no parque, onde Greg brinca com Sylvia. Ajudado pela luz de Wagner Freire, a ambientação passa do “real” dos móveis e objetos cênicos para o onírico da noite de Nova York, São Paulo ou qualquer cidade por aí, iluminada por seus postes e lanternas contornados pela névoa.  

É justamente em algumas cenas no parque em que se percebe o trabalho da Direção precisa de Gustavo Wabner. Scapin e Rodrigo Fagundes conversam enquanto Sylvia e Trovão – o cachorro de Tom (um dos personagens de Fagundes) correm pelo gramado. Graças à marcação de cena de Wabner, “vemos” os cachorros brincando por todos os cantos mesmo sem estarem no palco. Nas demais cenas a Direção não é notada, mas está ali, o que é um mérito com louvor, já que a atenção no teatro deve ser dada, sobretudo, ao elenco.

E por falar em elenco, impossível não destacar a presença de Rodrigo Fagundes em três personagens: o já citado Tom, o (ou a) Nadir e, principalmente Sônia, amiga de Kate. É com essa persona que Fagundes “rouba” uma sequência inteira da peça para si, causa gargalhadas incessantes e – pelo menos na apresentação especial para convidados – foi aplaudido pelo menos umas cinco vezes em cena aberta.

“Sylvia” é feita disso, uma equipe tão apaixonada pelo que fez, quanto Simone Zucato, como idealizadora desse projeto que precisa ser visto por quem tem cachorro, por quem não tem, por quem ama esses anjos de quatro patas ou simplesmente por quem ama de qualquer maneira as pessoas, a vida, o teatro.

É uma comédia romântica, uma história sobre relações, uma peça que faz pensar sobre a vida que estamos levando e sobre quem somos.
E como a vida, não se espante se der risadas durante todo o espetáculo e guardar, para o final, a mais verdadeira e doce lágrima. É isso. Vamos falar mais sobre Sylvia.

Sem comentários.

sexta-feira, 31 de maio de 2019

Aladdin – Atendendo a Desejos


Paulo Rocco

A refilmagem em live-action dos clássicos Disney tem encantado, literalmente falando, espectadores de todo o mundo, seja pela maneira impecável com que é realizada, seja pela memória afetiva quer todos guardamos dessas obras.

A onde começou sem alarde em 1994 com uma versão de “O Livro da Selva”, a história do Mogli, mas não tinha a ver com a animação em si e era mais uma adaptação do livro em questão. Dali seguiu-se “101 Dálmatas”, mais próximo do desenho, a “Alice” de Tim Burton, “Malévola” e “Cinderela”, entre outros, mas todos com sua própria maneira de contar a história que já conhecíamos de cor.

Foi com “Mogli, o Menino Lobo” de Jon Fraveau, em 2016, que começamos a identificar nos novos filmes, as cenas que nos divertiram e emocionaram quando crianças. “A Bela e a Fera”, “Dumbo” – de Tim Burton de novo, “Aladdin” e o próximo “O Rei Leão” – novamente de Fraveau, fazem parte desta lista apaixonante.

Mas enquanto esperamos para chorar novamente a morte de Mufasa e acompanhar a jornada de herói de Simba, vamos ao cinema para nos deliciar com os mistérios das mil e uma noites de Aladdin.

Dirigido por Guy Ritchie, o ótimo cineasta britânico que ganhou de vez Hollywood com os dois filmes de Sherlock, “Aladdin” tem todos os elementos da animação de 1992. Dos números musicais de Alan Menken e Tim Rice aos coadjuvantes como Iago e o Tapete Mágico, tudo é – com perdão do pleonasmo – mágico.

A assinatura do diretor está em várias cenas, sobretudo quando Aladdin é jogado de uma sacada amarrado a uma cadeira. Os fãs dos trabalhos ingleses de Guy Ritchie vão reconhecer de imediato seu estilo. Característica também presente, obviamente, nas correrias do protagonista e de seu amigo, o macaco Abu, pelas vielas de Agrabah.

O ator Mena Massoud como Aladdin e Naomi Scott como a linda Jasmine estão adequados aos papéis, sobretudo pelo cinismo com que ele atua nas cenas mais exageradas e o tom correto quando inicia sua redenção. A princesa ganhou as cores fortes da mulher que toma a frente da situação, não aceitando somente ser a filha do sultão, mas se preparando para suceder o pai no trono real. Mas sem deixar de ser romântica e doce quando a cena pede isso. Sua interpretação da inédita canção “Speechless” deixa isso bem claro.

Por falar em romantismo, prepare seu lenço para a antológica cena do voo de Aladdin e Jasmine sobre o tapete mágico. A exibição em 3D engrandece exponencialmente o que já era maravilhoso no desenho. O público espera essa cena ao som de “A Whole New World” desde que compra o ingresso e é imensamente recompensado por isso.

Mas é claro que o filme tem dono, exatamente como a animação. Will Smith é o gênio da lâmpada e não precisa nem dizer nada para mostrar a que veio. Sem cair na armadilha de imitar o estilo que Robin Williams concedeu ao personagem original, Smith o homenageia em tonalidades parecidas e o filme tem sequências onde o desenho do gênio azul aparece.

A caverna onde fica a lâmpada é deslumbrante, assim como toda a direção de arte. Das feiras nas ruas ao palácio, tudo é impecável, assim como os figurinos. A cena em que Aladdin retorna como príncipe, em um desfile comandado pelo Gênio talvez só encontre comparação à entrada de Cleópatra em Roma ou ao desfile final do Episódio I de Star Wars. Cinema puro, de alta qualidade.

Se fosse colocar um senão em “Aladdin” seria justamente naquele personagem que, no desenho, é responsável por algumas das melhores cenas e se tornou um dos grandes vilões da Disney, além de ser um dos meus preferidos: Jafar. Não que Marwan Kenzari não seja um bom ator, mas aparenta ser mais novo que o vilão original e não tem, nem de perto, o semblante ameaçador do Jafar desenhado. Iago continua ao seu lado, mas de papagaio passou a ser quase uma arara inconveniente. E mesmo assim rouba a cena do “chefe” quando está junto a ele.

Mas nada que comprometa a diversão e que não faça de “Aladdin” um ótimo e divertido filme. Se ainda não viu no cinema, voe. Pode ser que tenha seus desejos atendidos.

Sem comentários. 

quinta-feira, 30 de maio de 2019

90 Anos do Incêndio na Matriz de Tambaú

O que aconteceu naquela sexta-feira de 1929? 

Paulo Rocco


“A história é um conjunto de variáveis”, afirmava J. Parker. E segundo o dicionário Michaelis, “variável” é algo sujeito a variações, inconstante, mudável. Conclui-se daí que, se seguirmos esse ponto de vista: a história se altera.

Mas estamos falando de história no sentindo literal, histórico. Ou seja: o que existiu, o que aconteceu é, pelo menos na teoria sensata, imutável. E não variável.

Mas também estamos falando de décadas e décadas de pouca informação, restrições tecnológicas, gerações se sucedendo e contando, à sua maneira, a sua história. Como um enorme e atemporal “telefone sem fio”.

A Matriz após o incêndio de 1929. 
E é daí que nascem as lendas, os mitos, a crença popular e a “nova verdade”. Até que, no entanto, as variáveis se afunilam e, através de documentos e relatos, tornam-se novamente: a História.

Toda essa introdução é para prefaciar as conclusões da minha ampla pesquisa sobre um fato ocorrido há quase noventa anos, precisamente no dia 11 de Outubro de 1929: o Incêndio na Matriz de Santo Antônio em Tambaú.

Como se deu o incêndio? Como realmente se salvou a imagem de Nossa Senhora de Aparecida, fato desde sempre celebrado pela igreja e pelo povo como um milagre? Onde estava a imagem dentro da Matriz? Mais alguma imagem foi salva do mesmo incêndio?

Vamos aos fatos numerados e as provas documentadas – não que esse artigo tenha a pretensão de ser um julgamento, obviamente – de como os fatos daquela manhã de sexta-feira, 11 de outubro de 1929, aconteceram. Esta forma a seguir é apenas para facilitar o entendimento e as conclusões – do fato histórico, repito, não das crenças ou do milagre em si:


1 – Relato em “Literatura de Cordel” na Década de 50:

Ilustração de livrinho de 1955. 
As histórias em torno do fato em questão tomaram força na época das grandes romarias, entre 1954 e 1955. Em um dos vários livrinhos ao estilo cordel que foram publicados pela Editora Prelúdio, de São Paulo (1955), na edição “Fé e Milagres em Tambaú”, já consta a história da santa salva do incêndio. De maneira romanceada e exagerada, claro, característica desse tipo de publicação.

Esse mesmo livrinho traz a descrição de um “documento” – descrição que também está em um quadro na casa/museu do Padre Donizetti até hoje e que transcrevi no meu livro “Donizetti, Pe.”, erroneamente, como sendo do livro tombo da paróquia (o que não faria hoje, obviamente): “Atesto que a 11 de outubro de 1929, às 8 horas, irrompeu improvisamente pavoroso incêndio na matriz local, destruindo tudo. Vinte e duas imagens foram reduzidas a cinzas, restando do edifício apenas as paredes desvestidas de reboco. Entretanto, ilesa ficou a imagem de Nossa Senhora Aparecida com o manto de seda, o que causou profunda impressão a todos. Será perpetuado o fato insólito em suntuosa igreja que será para a conservação da milagrosa imagem”.

Segundo a publicação, esse relato foi escrito e assinado por Donizetti em 7 de setembro de 1946. Nunca vi esse documento e não o encontrei em nenhum livro Tombo. Mesmo que exista ou tenha existido, por qual razão o vigário escreveria esse edital (como é chamado na reprodução do livrinho) naquela data, 17 anos após o incêndio na matriz? E em momento algum o tal documento diz que a imagem foi retirada e sim que “ilesa ficou”.

A revista Monografia Brasileira – Tambaú, pág. 7, em 1964, também cita a data de 1946 como a de publicação desse “edital”. Voltaremos a esse assunto adiante.

No livrinho de cordel esses parágrafos sobre o incêndio estão no capítulo nomeado como “O Grande Sonho do Padre Donizetti”, em alusão aos seus planos de construção de um Santuário dedicado a Nossa Senhora Aparecida.


2 – A notícia do jornal O Tambaú, publicada dois dias após o incêndio:

A edição nº 1068 do Jornal “O Tambahú” de Domingo, 13 de Outubro de 1929, traz em sua última página a notícia intitulada “Incêndio na Matriz”.
Reproduzo aqui trechos da matéria, mantendo a forma e grafia com que foi redigida na época:
"O Tambahú" de 13/10/29.

“Pela manhã de ante-hontem foi o povo desta prospera cidade tristemente suprehendido em seus affazeres pelo subitâneo incendio da Igreja de Santo Antonio, matriz desta parochia. As 8 horas da manhã, pouco mais ou menos, corria pela cidade a lamentável noticia, tendo o povo acorrido em massa, dirigindo-se para o local; porém, pela escassez d’agua e falta de appareihamento adequado a extincção de incendios, nada conseguiu fazer, pois o fogo já era intenso; embora transportando água em latas das casas vizinhas e por meio de caminhões, foram apenas salvos duas imagens pequenas e outros objectos do culto, sendo o mais devorado pelas chammas e restando apenas as paredes da referida matriz”. (“O Tambahú”, 13 de Outubro de 1929).

Da notícia do jornal podemos destacar duas informações: a primeira é o horário do início do incêndio – por volta das oito horas – dado também assinalado pelo Padre no livro Tombo, como veremos abaixo.
A segunda e intrigante informação é a frase “foram salvos duas imagens pequenas”. Até então se tinha como certo apenas o salvamento da imagem de Nossa Senhora. O jornal “O Tambahú”, no entanto, não denomina quais eram as imagens.

Apenas como curiosidade, acrescento aqui, antes de entrar em outros detalhes, mais um trecho da referida matéria:

“Conforme fomos informados, o prejuízo monta em cento e cincoenta contos de reis aproximadamente. O commercio desta cidade permaneceu fechado e diversas fabricas suspenderam os serviços durante esse dia, em signal de pezar”. (“O Tambahú”, 13 de Outubro de 1929).


3 – O livro Tombo escrito por Padre Donizetti:

Padre Donizetti Tavares de Lima descreveu o acidente no livro Tombo nº 2 da paróquia, à página 48, que traz
Foto do Livro Tombo nº 2 da Paróquia.
exatamente o seguinte texto: “A onze de outubro deste anno de mil novecentos e vinte e nove, às 8 horas da manhan, quando precisamente o vigário celebrava missa na egreja São José, sita no Patrimônio, dava-se o pavoroso incendio que fez arder completamente a egreja Santo Antonio, matriz local. Estava ella confiada a Ernesto Rissardi e empregados, para limpeza e reparos externos, trabalho que custou uns treze contos de reis. Examinados os destroços, paredes, fios queimados, por um technico competente, foi constatado que teve por origem um curto-circuito. Nada se poude fazer em favor da parocchia em vista de natural proteção das autoridades locais à Companhia Força e Luz São Valentim.” 



4 – A notícia no jornal “A Ordem”, que circulou no domingo, dois dias após o incêndio:

Jornal "A Ordem" de 13/10/1929.
O jornal “A Ordem – Órgão do Partido Republicano de Tambahú”, com redação à Rua Santo Antonio, nº 10 e sob direção de Antonio de Almeida Santos Sobrinho, na edição nº 140, de 13 de Outubro de 1929, traz como manchete “Matriz de Santo Antonio – Pavoroso Incendio destro’e o Bello Templo da Cidade”.

A exemplo do anterior reproduzo aqui trechos da matéria com a grafia original:

“Pelas sete e meia, mais ou menos, da manhan de sexta-feira ultima, 11 do corrente, uma notica pungentíssima sacudia a população local: a nossa matriz era presa de um incêndio.

A essa hora, de facto, muita gente já havia observado, à distancia, a ascensão de grossos e negros rolos de uma fumaça, pelas immediações do Largo de Sto. Antonio, mas sem nunca suppor que tremenda catastrophe se realizava.

Entretanto, a nova acabrunhadora célere se foi propalando. Padre Donizetti, o virtuoso e incansável vigário da parochia, celebrava, na egreja de São José, a missa habitual. Ahi chegou-lhe o aviso. Finda a cerimonia seguiu, sem perda de tempo, para a igreja sinistrada, em cujas proximidades a multidão, que accorrera aos primeiros rebates, pronta a prestar auxílios, assistia, estupefacta, ao seu desmoronamento. É que já era impossível qualquer esforço: o fogarêo, pressentido tarde demais, já havia assoberdado o templo. Inútil qualquer tentativa”. (“A Ordem”, 13 de Outubro de 1929).

Destaco uma citação deste trecho: “Padre Donizetti, o virtuoso e incansável vigário da parochia, celebrava, na egreja de São José, a missa habitual. Ahi chegou-lhe o aviso. Finda a cerimonia seguiu, sem perda de tempo, para a igreja sinistrada (...)".

Portanto, segundo este jornal, Padre Donizetti estava celebrando na Igreja São José quando ocorreu o incêndio, fato também confirmado pelo relato do livro Tombo feito de próprio punho pelo vigário.

Continuemos acompanhando a notícia, em um trecho que, se não muda a história como a conhecemos, acrescenta elementos importantes:

“Alguns abnegados, porém, em lances heróicos, vencendo as chammas, haviam lhes arrebatado a pequena imagem de Santo Antonio, orago da cidade, a primeira que para cá viera, há 40 annos, destinada à capellinha construída pelo Cap. David de Almeida Santos, há tempos demolida; e, bem assim, a imagem, também pequena, de Nossa Senhora d’ Apparecida, milagrosa padroeira do Brasil, e alguns paramentos.” (“A Ordem”, 13 de Outubro de 1929).

O trecho cita alguns “abnegados”, palavra que define “o que se sacrifica desinteressadamente por alguém ou alguma coisa”. Nota-se que são citados no plural, portanto mais de uma pessoa teria entrado na igreja em chamas para salvar as imagens, também no plural. Aliás, a reportagem fala primeiramente da imagem de Santo Antônio, retirada do incêndio e depois cita a de Nossa Senhora.

Sobre essa segunda imagem não é preciso acrescentar nada, tamanha a sabedoria popular e declarações posteriores existentes. Segundo esses próprios relatos, de pessoas com mais idade, de historiadores e pesquisadores, um desses “abnegados” teria sido o senhor Ângelo Latari, fato confirmado por sua viúva Ana Silva Latari, falecida há algum tempo com mais de 90 anos.

O jornal conclui a matéria: “A população, compungida, contemplava a tudo aquilo com lágrimas nos olhos. Durante todo o dia foi intensíssimo o movimento no Largo Santo Antonio e muitos foram os commentarios a respeito do sinistro cuja causa, até a hora em que traçamos estas linhas, não estava ainda perfeitamente averiguada (...) Attendendo ao appelo do Prefeito do município, o comercio cerrou as portas, em manifestação de pesar, assim que foi divulgada a catastrophe e, pelo mesmo motivo, a empresa do Cine Royal suspendeu o espectaculo desse dia.” (“A Ordem”, 13 de Outubro de 1929).


5 – Relato de Maria do Rosário no livro de José Wagner Azevedo:

No livro “Padre Donizetti de Tambaú”, do escritor e pesquisador José Wagner de Azevedo, há o relato de Maria do Rosário Meirelles, que conviveu muito diretamente com o vigário, que descreve na página 104 e 105: “Havia acabado a missa da Igreja São José, lá pelas 8:00 h. Era um dia de semana. Aparecida Resende, Mariquinhas Resende, o Padre e eu saíamos da Igreja. Vimos ao longe o incêndio da Igreja Santo Antônio. (...) Alguém
Livro de José W. Azevedo.
pega o Padre de carro e o leva rapidamente para o local do incêndio. Eu subi, a pé, apressadamente com as companheiras. A igreja fumegava. A fumaça saía pela torre. O Ângelo Latari salvou a imagem de Nossa Senhora Aparecida. Quando eu cheguei, a imagem já havia sido retirada. A imagem ficava num altarzinho de madeira, que foi queimado, mas Nossa Senhora não!”.

O autor do livro arremata: “A imagem de Nossa Senhora – a mesma que há poucos anos viera em procissão num dia de forte chuva, que parara enquanto ela passava – é milagrosamente salva de um incêndio. Não se queimou porque fora salva ou foi salva para não se queimar? Não importa. O fenômeno em si é que deve ser ponderado”.

Alberto Crepaldi diz em depoimento ao autor que o pai dele, Olívio, contou que Padre Donizetti pediu a ele para assinar como testemunha que a Santa não havia se queimado. Ele então teria perguntado ao padre: “Por que assinar, seu vigário?” O padre pacientemente respondeu a ele: “Crepaldi, temos que registrar isso por escrito, porque, daqui uns 50 ou 60 anos, nós não vamos mais estar aqui e ninguém poderá provar que a Santa foi salva do incêndio”. (AZEVEDO, J. Wagner Cabral de; “Padre Donizetti de Tambaú”, pág. 106). 

Talvez essa preocupação do vigário explique o fato do tal edital ter sido registrado em 1946, como vimos no início desta matéria.

Segundo o professor Sebas Sundfeld, falecido recentemente aos 91 anos, em vários relatos, a imagem ficava à esquerda da entrada da Matriz, em um oratório. Latari teria entrado, com a igreja já em chamas e retirado a imagem sem sofrer qualquer ferimento. Ana Silva Latari considerava esse fato ocorrido com seu marido, como um verdadeiro milagre.


6 – A biografia de Ângelo Latari em livro de historiador:

Livro de Roque D. de Camargo. 
No livro “História de Tambaú Através das Ruas”, do professor de história Roque Diaulas de Camargo (publicado em 2002) há uma biografia de Ângelo Latari com o seguinte teor: nasceu em Vargem Grande do Sul, filho de Francisco Latari e Carmo Latari, foi casado com Leonor Latari e posteriormente com Ana Silva Latari. Do primeiro casamento teve a filha Guiomar. “Veio para a cidade de Tambaú, desempenhando importante papel na construção da Santa Casa de Misericórdia local. (...) Quando a Igreja de Santo Antônio pegou fogo, ele entrou no meio das labaredas para salvar a imagem da Santa Padroeira do Brasil...”.


7 – Relato de Vera Sandoval no questionário do Processo de Beatificação em 1993:

Outra confirmação do nome de Latari dá-se através do relato de Vera Parreira Sandoval, falecida também há alguns anos, em seu depoimento ao Processo de Beatificação do Padre Donizetti.

Vera Sandoval, amiga pessoal do Padre Donizetti. 
Respondendo a questão 5.20 do primeiro “Questionário para Testemunhas” elaborado pelo então postulador Padre Dante Donzelli e pelo colaborador José Wagner Azevedo (em 8 de Setembro de 1993) onde se perguntava “que detalhes V. Sa. sabe sobre o incêndio da Igreja Matriz de Santo Antônio?” e “Qual foi o comportamento do Padre em relação a este acontecimento?”; Vera respondeu da seguinte forma: “Ele ficou muito abalado com o incêndio. A igreja estava se queimando e o povo estava assistindo sem poder fazer nada. O senhor Ângelo Latari entrou pelo lado da igreja, em meio as chamas, arriscando a vida, e retirou a imagem de Nossa Senhora, sem sofrer nenhum arranhão”.


8 – A descrição do fato no Livro do Centenário:
               
Publicado por ocasião do Centenário da cidade, o livro “Cem Anos de Tambaú”, editado por Luiz Álvaro Fernandes, no capítulo sobre a história das igrejas consta a seguinte descrição:

“No interior da igreja incendiada, onde fica o batistério, havia uma imagem de N.S. Aparecida. Enquanto o incêndio se alastrava, o povo obviamente aglomerava-se na praça. Foi quando, num ato insensato, porém demonstrando decisão sobre-humana um homem, Angelo Latari, saltou por entre as chamas e o braseiro, resgatando a imagem. Ambos saíram incólumes, havendo documento histórico sobre o ocorrido”.

Desconheço tal “documento”, mas creio que a descrição se refere ao edital de 1946 já citado.


9 – A descrição do livro “Tambaú, Crônica de uma Cidade”:

Livro de José de S. Meirelles Filho. 
No livro “Tambaú, Crônica de uma Cidade” (São Paulo – 2000), de José de Souza Meirelles Filho, pai do cineasta Fernando Meirelles, é descrito o incêndio da Matriz na página 53:

“Dez anos depois, em 1929, um incêndio destruiu quase totalmente a matriz de Santo Antônio, inclusive o lindíssimo altar mor esculpido por Primo Uliana. Três anos depois, a matriz estava reconstruída graças a generosa contribuição do povo de Tambaú. Foi redecorada por Ernesto Ricciardi, imigrante italiano radicado em nossa cidade. Um fato inusitado, alguns acreditam que até milagroso, aconteceu naquele dia. Angelo Latari enfrentou o incêndio, entrou na Igreja em chamas e trouxe para fora a imagem de Nossa Senhora Parecida. Nem ele nem a imagem foram afetados pelo fogo!”.


10 – A imagem de Santo Antônio:

Santo Antonio que também teria sido salvo.
A matéria do jornal “A Ordem” citou “a pequena imagem de Santo Antonio, orago da cidade, a primeira que para cá viera”, que também teria sido salva pelos corajosos homens. Orago é uma palavra do português europeu que significa “padroeiro”.

Concluímos então, não por dedução pessoal e sim pelo relato da imprensa publicada dois dias depois do incêndio – a exemplo de dias atuais, os jornais em Tambaú eram publicados semanalmente – que duas imagens foram salvas do incêndio.

Atentemos para o fato do primeiro jornal (O Tambahú) citar isso: “foram apenas salvos duas imagens pequenas” e do segundo (A Ordem) relatar inclusive quais foram elas. 

A imagem de Nossa Senhora está hoje de posse da Paróquia e a imagem de Santo Antônio, que igualmente teria sido salva do incêndio, está sob responsabilidade de uma família, desde a década de 60 ou 70, por ordem do então pároco Padre Luis Girotti.


11 – Os jornais citam as obras de reforma da igreja:

Obras da reforma da Matriz. 
O Jornal “O Tambahú”, em 24 de Maio de 1931, sob o título “As Obras na Matriz”, já fala da reconstrução e cita o trabalho de dois homens: Ângelo Latari (“Chamam-nos. É o Angelo Lattari. Estende-nos sorridente a mão. Convite amável: - Não quer ver como vão adiantadas as obras na Matriz?”) e Ernesto Ricciardi (“No alto, sobre os andaimes da capella-mór, o Ernesto Ricciardi pincelava”).

As obras que Ernesto Ricciardi “pincelava” são as mesmas que hoje estão no teto, sobre o altar da Matriz.

Já o Jornal “A Ordem”, na edição de 07 de setembro de 1930 diz que “O Sr. Angelo Latari, encarregou-se em nome de uma commissão, para angariar donativos para a reconstrução da igreja de Santo Antonio. Sendo uma ideia louvável como é, devem os catholicos de Tambahú, coadjuval-o, para vermos quanto antes o templo reconstruido”.


12 – As publicações atuais:

Livro de Gaetano Passarelli.
De um tempo para cá, quando se resolveu reforçar a lenda sem, no entanto, maiores comprovações; tomou-se como fato o vigário de Tambaú ter retirado pessoalmente a imagem de Nossa Senhora do meio do incêndio o que, depois de tudo o que concluímos até aqui, não se comprova. O que não desmerece nem desqualifica, no entanto, quem crê nesta versão. 

A própria igreja, mesmo divulgando o fato dessa última maneira em publicações e em cerimônias religiosas amenizou a “alteração histórica” em um dos livros recentes sobre Donizetti, mais precisamente na obra do escritor italiano Gaetano Passarelli, “Padre Donizetti, um Sacerdote para os Outros” (Edições CNBB, 2013), publicado também na Itália.

Depois de muitos anos sem que a instituição se manifestasse sobre a possível participação de Ângelo Latari na história, o autor – na página 60 – cita o mesmo como tendo entrado na matriz, no momento do incêndio, “seguindo o padre Donizetti”Essa descrição, com narrativa semelhante ao cordel do começo desta matéria e como estrutura gramatical, é recortada do contexto e foi inserida de forma “gratuita” do ponto de vista da construção literária.

Concluindo, esta matéria não tem nenhuma intenção de reverter fatos, provocar polêmicas, desconstruir crenças ou denegrir o que ou quem quer que seja. E muito menos de alterar, apesar do pleonasmo, as variáveis da história. 

O objetivo é apresentar, através de uma pesquisa jornalística e histórica, detalhes do acontecimento que mexeu com a história da cidade, confirmando a fé de seu povo, a bravura de tambauenses, a santidade do hoje Beato Donizetti Tavares de Lima e o poder de Deus, materializado em centenas de milhares de milagres que se sucederam àquela manhã de sexta-feira em 1929.

Sem comentários.