domingo, 13 de janeiro de 2019

Salve Regina - Um Mea Culpa sobre Elis


Paulo Rogério B. Rocco

Assim que foi ao ar, pela Rede Globo, a minissérie “Elis – Viver é Melhor que Sonhar”, postei minha opinião dizendo que a nova edição e a inserção de reportagens jornalísticas iriam “matar” o filme e desprovê-lo de toda a emoção que senti ao assisti-lo no cinema.
Agora, encerrada a série, invoco uma frase da cantora para justificar este artigo: “Eu mudei de ideia. Sou artista. Artistas mudam de ideia”.

Minha primeira impressão foi de aversão e desrespeito a uma obra da qual tinha gostado tanto e que me levou às lágrimas quando vi na tela grande. O filme de Hugo Prata, roteirizado por ele, Luiz Bolognesi e Vera Egito, era exatamente a obra que eu – com perdão pela pretensão – gostaria de ter escrito ou dirigido para homenagear Elis Regina. 

Aí começo a assistir à série. No primeiro capítulo a edição, comparada ao filme, já me incomodou. Quando apareceu ainda, de cara, a notícia do Jornal Nacional noticiando a morte da artista, foi como um banho de realidade crua na emoção que eu esperava sentir novamente ao rever o filme.

Desliguei a TV da sala e fui me deitar. À espera da série sobre Eder Jofre que passaria em seguida, liguei o aparelho do quarto enquanto ainda passava “Elis” pensando: por que não colocaram o filme como foi editado anteriormente e as matérias e entrevistas deixaram para um “capítulo extra”, como aqueles que a gente nunca assiste quando compra um DVD duplo?

E foi assim, entre pensamentos e a leitura em uma ou outra página de um livro, que voltava os olhos para a TV quando aquela voz – incomparável – ecoava, fisgando minha atenção novamente para a interpretação impecável de Andréia Horta.

Ao final do primeiro capítulo estava rendido pelas imagens de arquivo, pelas entrevistas com ícones culturais e artísticos do nosso país, pela Pimentinha quebrando regras, ousando ser livre, criando em meio aos turbulentos anos e à nuvem negra que pairava sobre o Brasil.

Fiquei quase com raiva de mim mesmo por ter ousado “criticar” a obra no início. “Elis” agora era uma minissérie. “Elis – o Filme” era outra coisa. Era preciso separar minha emoção e embarcar neste capítulo da nossa história, extremamente bem reestruturado pela produção e equipe criativa do filme.

Uma das primeiras lembranças que tenho de Elis é justamente a noticia de sua morte. Estávamos de férias na Praia Grande, litoral de São Paulo, quando aquela notícia do Jornal Nacional apareceu na pequena televisão em preto-e-branco que ficava sobre a geladeira. Era 19 de janeiro de 1982. Eu estava com 14 anos. Até ouvia seus discos antes, gostava de sua música. Mas o que me marcou primeiro foi essa notícia.

A inserir esse material jornalístico na criação dramatúrgica, a série trouxe mais uma vez, para as novas gerações, a contextualização da época, a pressão sobre os artistas, os absurdos de um país governado por “gorilas” – sem querer ofender os gorilas, como disse a cantora. As imagens da série remetiam a lembranças minhas e de amigos, que foram vítimas daqueles anos.

Fui para a faculdade três anos depois daquelas férias na Praia Grande. Recordo-me de um dia em 1985 – o ano da nova república – quando estávamos assistindo ao filme “Je Vous Salue, Marie”, de Godard, igualmente em uma TV preto-e-branco, no pátio da cantina da PUC em Campinas. A polícia praticamente invadiu a faculdade para exigir explicações do Diretório Acadêmico e parar com aquela “ofensa” ao país, já que o filme havia sido proibido em todo território nacional pelo senhor José Sarney, o primeiro de uma série de presidentes-tampão que teríamos. 

No interior de São Paulo, não tínhamos tanta noção do que era o governo militar, mas amigos meus, pessoas que me ensinaram muito na vida, já estavam correndo dos cavalos da polícia ao saírem da USP ou sendo torturados nos porões do DOPs, o infame Departamento de Ordem Política e Social.

“Elis” me despertou essas lembranças estranhas e outras – essas melhores, como um encontro que tive com Miéle em São Paulo e, entre um pedaço de pizza e outro, na madrugada em frente a um hotel, ele contava histórias daquelas que só alguém como ele tinha acesso.
Lúcio Mauro Filho – que naquela época também estava no mesmo hotel (eles estavam atuando juntos em “O Mágico de Oz”) – interpretou de forma maravilhosa o inesquecível Luiz Carlos Miele.

Miele e Ronaldo Bôscoli (Gustavo Machado) na série, quando um empresário diz que o programa “O Fino da Bossa” apresentado por Elis e Jair Rodrigues estava perdendo audiência para a “Jovem Guarda”, criticam o programa de Roberto dizendo que eles só copiam os Beatles e que a banda inglesa é uma merda.

Anos depois, os melhores shows de Roberto Carlos – inclusive os especiais de fim de ano – foram produzidos por Miele e Bôscoli. Artistas mudam de ideia.

“Elis” trouxe ainda algumas cenas e personagens a mais que o filme – Tom, Vinicius e Rita Lee deram as caras – e suprimiu algumas sequências. Mas é claro que as linguagens do cinema e da televisão são diferentes e que estou cansado de saber disso, mas meu amor pelo filme fechou meus olhos no primeiro capítulo.

Como roteirista – mesmo tendo a série esse caráter semidocumental – talvez eu não tivesse colocado a notícia da morte no início, mas confesso que foi isso que puxou pela minha memória afetiva e cativou minha audiência nos três capítulos restantes.

Essa é uma história necessária em tempos onde são ventilados resquícios daquela fumaça negra. Uma cantora única que deixou um legado ímpar e literalmente ajudou a criar o termo Música Popular Brasileira. Uma artista que nos deixou cedo, aos 36 anos, mas que ajudou a contar uma história que não pode ser esquecida, de tanta gente que partiu naquele rabo de foguete.

Muitas das pessoas retratadas na série e perpetuadas naquelas imagens não estão mais aqui: Miéle, Bôscoli, Tom, Vinicius, Jair Rodrigues, Nara Leão, Henfil, Betinho – o irmão do Henfil e Elis, que agora é uma estrela.

Salve Regina.

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