terça-feira, 23 de abril de 2019

O Processo: Um Breve Romance da Alma

Cena de O Processo em registro de Murilo Gezuis Vigatto

Paulo Rocco

Entre os grandes espetáculos que tive o prazer de assistir como integrante do júri do 13º Festival Nacional de Teatro Cacilda Becker, estava “O Processo”, na produção da Cia. Âmago, de Campinas.
Com a montagem utilizando o próprio palco como uma arena – tendo o público em círculo em torno dos atores – a história escrita por Franz Kafka por volta de 1920, aumentou exponencialmente a sensação de pesadelo contida da obra.

Assim como em “A Metamorfose”, do mesmo autor, o personagem principal desperta exatamente em uma história de horror real, sem ter a mínima ideia do que está acontecendo. E a plateia desperta ao mesmo tempo que ele, sendo atirada em um redemoinho repleto de personagens estranhos, opressores, aparentemente sem sentido; que parece longe de terminar.

Como Joseph K, o personagem principal interpretado com segurança por Vitor Santos, somos colocados no centro desse furacão – literalmente – de imagens oníricas, ambíguas, ameaçadoras; retratos tão caros à obra kafkaniana.

As personagens em torno de Joseph se movimentam milimetricamente, fruto da dedicação do elenco e, sobretudo, da direção limpa e precisa de Barbosa Neto. O espaço é aproveitado em cada centímetro do palco/arena e a plateia acompanha a história em todos os detalhes, principalmente por conta dos movimentos circulares dos atores – como se fosse (fazendo um paralelo com o cinema) a câmera girando em um trilho circular o tempo todo.

Já que citei o cinema, impossível não lembrar, durante a peça da espetacular última obra de Stanley Kubrick, “De Olhos Bem Fechados”, baseada no livro “Um Breve Romance de Sonho”, pela temática tão próxima de Kafka.

A Direção de Neto também remete a uma série de mosaicos, tanto pela entrada e saída das diversas personagens – em quadros tão bem definidos – quanto no cenário compostos exatamente de quadros, pintados pelo também ator e músico Gabriel Lopes.
Algumas dessas pinturas também se modificam ao vivo no espetáculo, fazendo com que a arte plástica (de certo modo eterna) ajude a perpetuar a arte cênica (efêmera).

A Direção de Arte – com as já citadas obras – também é composta de objetos que remetem à época em que se passa a dramaturgia e em figurinos tão criativos quanto fantásticos, como o caso do padre com mais de dois metros de altura, um dos personagens defendidos pelo excelente ator Wagner Carboni.

A planta de luz desenhada pelo próprio diretor limita a área de ação no círculo proposto, com feixes rasteiros e efeitos interessantes, como quando Joseph é iluminado através do reflexo de um espelho erguido por outra personagem. Um exemplo simples, mas que demonstra o cuidado com a marcação de cena.

Não saímos incólumes deste processo. Como Josef, tentamos fretar com a justiça o tempo todo, como se quiséssemos conquistá-la, com se nosso futuro dependesse deste romance.

Uma cena, em particular, remete a isso: a lavadeira vivida por Natália Zakia é a Justiça personificada, em uma sequência de delicadeza extrema. Um oásis de paz em meio ao caos que se torna a vida de Joseph e a nossa, meros espectadores, parceiros da vítima e cúmplices do sistema.

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