sexta-feira, 31 de maio de 2019

Aladdin – Atendendo a Desejos


Paulo Rocco

A refilmagem em live-action dos clássicos Disney tem encantado, literalmente falando, espectadores de todo o mundo, seja pela maneira impecável com que é realizada, seja pela memória afetiva quer todos guardamos dessas obras.

A onde começou sem alarde em 1994 com uma versão de “O Livro da Selva”, a história do Mogli, mas não tinha a ver com a animação em si e era mais uma adaptação do livro em questão. Dali seguiu-se “101 Dálmatas”, mais próximo do desenho, a “Alice” de Tim Burton, “Malévola” e “Cinderela”, entre outros, mas todos com sua própria maneira de contar a história que já conhecíamos de cor.

Foi com “Mogli, o Menino Lobo” de Jon Fraveau, em 2016, que começamos a identificar nos novos filmes, as cenas que nos divertiram e emocionaram quando crianças. “A Bela e a Fera”, “Dumbo” – de Tim Burton de novo, “Aladdin” e o próximo “O Rei Leão” – novamente de Fraveau, fazem parte desta lista apaixonante.

Mas enquanto esperamos para chorar novamente a morte de Mufasa e acompanhar a jornada de herói de Simba, vamos ao cinema para nos deliciar com os mistérios das mil e uma noites de Aladdin.

Dirigido por Guy Ritchie, o ótimo cineasta britânico que ganhou de vez Hollywood com os dois filmes de Sherlock, “Aladdin” tem todos os elementos da animação de 1992. Dos números musicais de Alan Menken e Tim Rice aos coadjuvantes como Iago e o Tapete Mágico, tudo é – com perdão do pleonasmo – mágico.

A assinatura do diretor está em várias cenas, sobretudo quando Aladdin é jogado de uma sacada amarrado a uma cadeira. Os fãs dos trabalhos ingleses de Guy Ritchie vão reconhecer de imediato seu estilo. Característica também presente, obviamente, nas correrias do protagonista e de seu amigo, o macaco Abu, pelas vielas de Agrabah.

O ator Mena Massoud como Aladdin e Naomi Scott como a linda Jasmine estão adequados aos papéis, sobretudo pelo cinismo com que ele atua nas cenas mais exageradas e o tom correto quando inicia sua redenção. A princesa ganhou as cores fortes da mulher que toma a frente da situação, não aceitando somente ser a filha do sultão, mas se preparando para suceder o pai no trono real. Mas sem deixar de ser romântica e doce quando a cena pede isso. Sua interpretação da inédita canção “Speechless” deixa isso bem claro.

Por falar em romantismo, prepare seu lenço para a antológica cena do voo de Aladdin e Jasmine sobre o tapete mágico. A exibição em 3D engrandece exponencialmente o que já era maravilhoso no desenho. O público espera essa cena ao som de “A Whole New World” desde que compra o ingresso e é imensamente recompensado por isso.

Mas é claro que o filme tem dono, exatamente como a animação. Will Smith é o gênio da lâmpada e não precisa nem dizer nada para mostrar a que veio. Sem cair na armadilha de imitar o estilo que Robin Williams concedeu ao personagem original, Smith o homenageia em tonalidades parecidas e o filme tem sequências onde o desenho do gênio azul aparece.

A caverna onde fica a lâmpada é deslumbrante, assim como toda a direção de arte. Das feiras nas ruas ao palácio, tudo é impecável, assim como os figurinos. A cena em que Aladdin retorna como príncipe, em um desfile comandado pelo Gênio talvez só encontre comparação à entrada de Cleópatra em Roma ou ao desfile final do Episódio I de Star Wars. Cinema puro, de alta qualidade.

Se fosse colocar um senão em “Aladdin” seria justamente naquele personagem que, no desenho, é responsável por algumas das melhores cenas e se tornou um dos grandes vilões da Disney, além de ser um dos meus preferidos: Jafar. Não que Marwan Kenzari não seja um bom ator, mas aparenta ser mais novo que o vilão original e não tem, nem de perto, o semblante ameaçador do Jafar desenhado. Iago continua ao seu lado, mas de papagaio passou a ser quase uma arara inconveniente. E mesmo assim rouba a cena do “chefe” quando está junto a ele.

Mas nada que comprometa a diversão e que não faça de “Aladdin” um ótimo e divertido filme. Se ainda não viu no cinema, voe. Pode ser que tenha seus desejos atendidos.

Sem comentários. 

quinta-feira, 30 de maio de 2019

90 Anos do Incêndio na Matriz de Tambaú

O que aconteceu naquela sexta-feira de 1929? 

Paulo Rocco


“A história é um conjunto de variáveis”, afirmava J. Parker. E segundo o dicionário Michaelis, “variável” é algo sujeito a variações, inconstante, mudável. Conclui-se daí que, se seguirmos esse ponto de vista: a história se altera.

Mas estamos falando de história no sentindo literal, histórico. Ou seja: o que existiu, o que aconteceu é, pelo menos na teoria sensata, imutável. E não variável.

Mas também estamos falando de décadas e décadas de pouca informação, restrições tecnológicas, gerações se sucedendo e contando, à sua maneira, a sua história. Como um enorme e atemporal “telefone sem fio”.

A Matriz após o incêndio de 1929. 
E é daí que nascem as lendas, os mitos, a crença popular e a “nova verdade”. Até que, no entanto, as variáveis se afunilam e, através de documentos e relatos, tornam-se novamente: a História.

Toda essa introdução é para prefaciar as conclusões da minha ampla pesquisa sobre um fato ocorrido há quase noventa anos, precisamente no dia 11 de Outubro de 1929: o Incêndio na Matriz de Santo Antônio em Tambaú.

Como se deu o incêndio? Como realmente se salvou a imagem de Nossa Senhora de Aparecida, fato desde sempre celebrado pela igreja e pelo povo como um milagre? Onde estava a imagem dentro da Matriz? Mais alguma imagem foi salva do mesmo incêndio?

Vamos aos fatos numerados e as provas documentadas – não que esse artigo tenha a pretensão de ser um julgamento, obviamente – de como os fatos daquela manhã de sexta-feira, 11 de outubro de 1929, aconteceram. Esta forma a seguir é apenas para facilitar o entendimento e as conclusões – do fato histórico, repito, não das crenças ou do milagre em si:


1 – Relato em “Literatura de Cordel” na Década de 50:

Ilustração de livrinho de 1955. 
As histórias em torno do fato em questão tomaram força na época das grandes romarias, entre 1954 e 1955. Em um dos vários livrinhos ao estilo cordel que foram publicados pela Editora Prelúdio, de São Paulo (1955), na edição “Fé e Milagres em Tambaú”, já consta a história da santa salva do incêndio. De maneira romanceada e exagerada, claro, característica desse tipo de publicação.

Esse mesmo livrinho traz a descrição de um “documento” – descrição que também está em um quadro na casa/museu do Padre Donizetti até hoje e que transcrevi no meu livro “Donizetti, Pe.”, erroneamente, como sendo do livro tombo da paróquia (o que não faria hoje, obviamente): “Atesto que a 11 de outubro de 1929, às 8 horas, irrompeu improvisamente pavoroso incêndio na matriz local, destruindo tudo. Vinte e duas imagens foram reduzidas a cinzas, restando do edifício apenas as paredes desvestidas de reboco. Entretanto, ilesa ficou a imagem de Nossa Senhora Aparecida com o manto de seda, o que causou profunda impressão a todos. Será perpetuado o fato insólito em suntuosa igreja que será para a conservação da milagrosa imagem”.

Segundo a publicação, esse relato foi escrito e assinado por Donizetti em 7 de setembro de 1946. Nunca vi esse documento e não o encontrei em nenhum livro Tombo. Mesmo que exista ou tenha existido, por qual razão o vigário escreveria esse edital (como é chamado na reprodução do livrinho) naquela data, 17 anos após o incêndio na matriz? E em momento algum o tal documento diz que a imagem foi retirada e sim que “ilesa ficou”.

A revista Monografia Brasileira – Tambaú, pág. 7, em 1964, também cita a data de 1946 como a de publicação desse “edital”. Voltaremos a esse assunto adiante.

No livrinho de cordel esses parágrafos sobre o incêndio estão no capítulo nomeado como “O Grande Sonho do Padre Donizetti”, em alusão aos seus planos de construção de um Santuário dedicado a Nossa Senhora Aparecida.


2 – A notícia do jornal O Tambaú, publicada dois dias após o incêndio:

A edição nº 1068 do Jornal “O Tambahú” de Domingo, 13 de Outubro de 1929, traz em sua última página a notícia intitulada “Incêndio na Matriz”.
Reproduzo aqui trechos da matéria, mantendo a forma e grafia com que foi redigida na época:
"O Tambahú" de 13/10/29.

“Pela manhã de ante-hontem foi o povo desta prospera cidade tristemente suprehendido em seus affazeres pelo subitâneo incendio da Igreja de Santo Antonio, matriz desta parochia. As 8 horas da manhã, pouco mais ou menos, corria pela cidade a lamentável noticia, tendo o povo acorrido em massa, dirigindo-se para o local; porém, pela escassez d’agua e falta de appareihamento adequado a extincção de incendios, nada conseguiu fazer, pois o fogo já era intenso; embora transportando água em latas das casas vizinhas e por meio de caminhões, foram apenas salvos duas imagens pequenas e outros objectos do culto, sendo o mais devorado pelas chammas e restando apenas as paredes da referida matriz”. (“O Tambahú”, 13 de Outubro de 1929).

Da notícia do jornal podemos destacar duas informações: a primeira é o horário do início do incêndio – por volta das oito horas – dado também assinalado pelo Padre no livro Tombo, como veremos abaixo.
A segunda e intrigante informação é a frase “foram salvos duas imagens pequenas”. Até então se tinha como certo apenas o salvamento da imagem de Nossa Senhora. O jornal “O Tambahú”, no entanto, não denomina quais eram as imagens.

Apenas como curiosidade, acrescento aqui, antes de entrar em outros detalhes, mais um trecho da referida matéria:

“Conforme fomos informados, o prejuízo monta em cento e cincoenta contos de reis aproximadamente. O commercio desta cidade permaneceu fechado e diversas fabricas suspenderam os serviços durante esse dia, em signal de pezar”. (“O Tambahú”, 13 de Outubro de 1929).


3 – O livro Tombo escrito por Padre Donizetti:

Padre Donizetti Tavares de Lima descreveu o acidente no livro Tombo nº 2 da paróquia, à página 48, que traz
Foto do Livro Tombo nº 2 da Paróquia.
exatamente o seguinte texto: “A onze de outubro deste anno de mil novecentos e vinte e nove, às 8 horas da manhan, quando precisamente o vigário celebrava missa na egreja São José, sita no Patrimônio, dava-se o pavoroso incendio que fez arder completamente a egreja Santo Antonio, matriz local. Estava ella confiada a Ernesto Rissardi e empregados, para limpeza e reparos externos, trabalho que custou uns treze contos de reis. Examinados os destroços, paredes, fios queimados, por um technico competente, foi constatado que teve por origem um curto-circuito. Nada se poude fazer em favor da parocchia em vista de natural proteção das autoridades locais à Companhia Força e Luz São Valentim.” 



4 – A notícia no jornal “A Ordem”, que circulou no domingo, dois dias após o incêndio:

Jornal "A Ordem" de 13/10/1929.
O jornal “A Ordem – Órgão do Partido Republicano de Tambahú”, com redação à Rua Santo Antonio, nº 10 e sob direção de Antonio de Almeida Santos Sobrinho, na edição nº 140, de 13 de Outubro de 1929, traz como manchete “Matriz de Santo Antonio – Pavoroso Incendio destro’e o Bello Templo da Cidade”.

A exemplo do anterior reproduzo aqui trechos da matéria com a grafia original:

“Pelas sete e meia, mais ou menos, da manhan de sexta-feira ultima, 11 do corrente, uma notica pungentíssima sacudia a população local: a nossa matriz era presa de um incêndio.

A essa hora, de facto, muita gente já havia observado, à distancia, a ascensão de grossos e negros rolos de uma fumaça, pelas immediações do Largo de Sto. Antonio, mas sem nunca suppor que tremenda catastrophe se realizava.

Entretanto, a nova acabrunhadora célere se foi propalando. Padre Donizetti, o virtuoso e incansável vigário da parochia, celebrava, na egreja de São José, a missa habitual. Ahi chegou-lhe o aviso. Finda a cerimonia seguiu, sem perda de tempo, para a igreja sinistrada, em cujas proximidades a multidão, que accorrera aos primeiros rebates, pronta a prestar auxílios, assistia, estupefacta, ao seu desmoronamento. É que já era impossível qualquer esforço: o fogarêo, pressentido tarde demais, já havia assoberdado o templo. Inútil qualquer tentativa”. (“A Ordem”, 13 de Outubro de 1929).

Destaco uma citação deste trecho: “Padre Donizetti, o virtuoso e incansável vigário da parochia, celebrava, na egreja de São José, a missa habitual. Ahi chegou-lhe o aviso. Finda a cerimonia seguiu, sem perda de tempo, para a igreja sinistrada (...)".

Portanto, segundo este jornal, Padre Donizetti estava celebrando na Igreja São José quando ocorreu o incêndio, fato também confirmado pelo relato do livro Tombo feito de próprio punho pelo vigário.

Continuemos acompanhando a notícia, em um trecho que, se não muda a história como a conhecemos, acrescenta elementos importantes:

“Alguns abnegados, porém, em lances heróicos, vencendo as chammas, haviam lhes arrebatado a pequena imagem de Santo Antonio, orago da cidade, a primeira que para cá viera, há 40 annos, destinada à capellinha construída pelo Cap. David de Almeida Santos, há tempos demolida; e, bem assim, a imagem, também pequena, de Nossa Senhora d’ Apparecida, milagrosa padroeira do Brasil, e alguns paramentos.” (“A Ordem”, 13 de Outubro de 1929).

O trecho cita alguns “abnegados”, palavra que define “o que se sacrifica desinteressadamente por alguém ou alguma coisa”. Nota-se que são citados no plural, portanto mais de uma pessoa teria entrado na igreja em chamas para salvar as imagens, também no plural. Aliás, a reportagem fala primeiramente da imagem de Santo Antônio, retirada do incêndio e depois cita a de Nossa Senhora.

Sobre essa segunda imagem não é preciso acrescentar nada, tamanha a sabedoria popular e declarações posteriores existentes. Segundo esses próprios relatos, de pessoas com mais idade, de historiadores e pesquisadores, um desses “abnegados” teria sido o senhor Ângelo Latari, fato confirmado por sua viúva Ana Silva Latari, falecida há algum tempo com mais de 90 anos.

O jornal conclui a matéria: “A população, compungida, contemplava a tudo aquilo com lágrimas nos olhos. Durante todo o dia foi intensíssimo o movimento no Largo Santo Antonio e muitos foram os commentarios a respeito do sinistro cuja causa, até a hora em que traçamos estas linhas, não estava ainda perfeitamente averiguada (...) Attendendo ao appelo do Prefeito do município, o comercio cerrou as portas, em manifestação de pesar, assim que foi divulgada a catastrophe e, pelo mesmo motivo, a empresa do Cine Royal suspendeu o espectaculo desse dia.” (“A Ordem”, 13 de Outubro de 1929).


5 – Relato de Maria do Rosário no livro de José Wagner Azevedo:

No livro “Padre Donizetti de Tambaú”, do escritor e pesquisador José Wagner de Azevedo, há o relato de Maria do Rosário Meirelles, que conviveu muito diretamente com o vigário, que descreve na página 104 e 105: “Havia acabado a missa da Igreja São José, lá pelas 8:00 h. Era um dia de semana. Aparecida Resende, Mariquinhas Resende, o Padre e eu saíamos da Igreja. Vimos ao longe o incêndio da Igreja Santo Antônio. (...) Alguém
Livro de José W. Azevedo.
pega o Padre de carro e o leva rapidamente para o local do incêndio. Eu subi, a pé, apressadamente com as companheiras. A igreja fumegava. A fumaça saía pela torre. O Ângelo Latari salvou a imagem de Nossa Senhora Aparecida. Quando eu cheguei, a imagem já havia sido retirada. A imagem ficava num altarzinho de madeira, que foi queimado, mas Nossa Senhora não!”.

O autor do livro arremata: “A imagem de Nossa Senhora – a mesma que há poucos anos viera em procissão num dia de forte chuva, que parara enquanto ela passava – é milagrosamente salva de um incêndio. Não se queimou porque fora salva ou foi salva para não se queimar? Não importa. O fenômeno em si é que deve ser ponderado”.

Alberto Crepaldi diz em depoimento ao autor que o pai dele, Olívio, contou que Padre Donizetti pediu a ele para assinar como testemunha que a Santa não havia se queimado. Ele então teria perguntado ao padre: “Por que assinar, seu vigário?” O padre pacientemente respondeu a ele: “Crepaldi, temos que registrar isso por escrito, porque, daqui uns 50 ou 60 anos, nós não vamos mais estar aqui e ninguém poderá provar que a Santa foi salva do incêndio”. (AZEVEDO, J. Wagner Cabral de; “Padre Donizetti de Tambaú”, pág. 106). 

Talvez essa preocupação do vigário explique o fato do tal edital ter sido registrado em 1946, como vimos no início desta matéria.

Segundo o professor Sebas Sundfeld, falecido recentemente aos 91 anos, em vários relatos, a imagem ficava à esquerda da entrada da Matriz, em um oratório. Latari teria entrado, com a igreja já em chamas e retirado a imagem sem sofrer qualquer ferimento. Ana Silva Latari considerava esse fato ocorrido com seu marido, como um verdadeiro milagre.


6 – A biografia de Ângelo Latari em livro de historiador:

Livro de Roque D. de Camargo. 
No livro “História de Tambaú Através das Ruas”, do professor de história Roque Diaulas de Camargo (publicado em 2002) há uma biografia de Ângelo Latari com o seguinte teor: nasceu em Vargem Grande do Sul, filho de Francisco Latari e Carmo Latari, foi casado com Leonor Latari e posteriormente com Ana Silva Latari. Do primeiro casamento teve a filha Guiomar. “Veio para a cidade de Tambaú, desempenhando importante papel na construção da Santa Casa de Misericórdia local. (...) Quando a Igreja de Santo Antônio pegou fogo, ele entrou no meio das labaredas para salvar a imagem da Santa Padroeira do Brasil...”.


7 – Relato de Vera Sandoval no questionário do Processo de Beatificação em 1993:

Outra confirmação do nome de Latari dá-se através do relato de Vera Parreira Sandoval, falecida também há alguns anos, em seu depoimento ao Processo de Beatificação do Padre Donizetti.

Vera Sandoval, amiga pessoal do Padre Donizetti. 
Respondendo a questão 5.20 do primeiro “Questionário para Testemunhas” elaborado pelo então postulador Padre Dante Donzelli e pelo colaborador José Wagner Azevedo (em 8 de Setembro de 1993) onde se perguntava “que detalhes V. Sa. sabe sobre o incêndio da Igreja Matriz de Santo Antônio?” e “Qual foi o comportamento do Padre em relação a este acontecimento?”; Vera respondeu da seguinte forma: “Ele ficou muito abalado com o incêndio. A igreja estava se queimando e o povo estava assistindo sem poder fazer nada. O senhor Ângelo Latari entrou pelo lado da igreja, em meio as chamas, arriscando a vida, e retirou a imagem de Nossa Senhora, sem sofrer nenhum arranhão”.


8 – A descrição do fato no Livro do Centenário:
               
Publicado por ocasião do Centenário da cidade, o livro “Cem Anos de Tambaú”, editado por Luiz Álvaro Fernandes, no capítulo sobre a história das igrejas consta a seguinte descrição:

“No interior da igreja incendiada, onde fica o batistério, havia uma imagem de N.S. Aparecida. Enquanto o incêndio se alastrava, o povo obviamente aglomerava-se na praça. Foi quando, num ato insensato, porém demonstrando decisão sobre-humana um homem, Angelo Latari, saltou por entre as chamas e o braseiro, resgatando a imagem. Ambos saíram incólumes, havendo documento histórico sobre o ocorrido”.

Desconheço tal “documento”, mas creio que a descrição se refere ao edital de 1946 já citado.


9 – A descrição do livro “Tambaú, Crônica de uma Cidade”:

Livro de José de S. Meirelles Filho. 
No livro “Tambaú, Crônica de uma Cidade” (São Paulo – 2000), de José de Souza Meirelles Filho, pai do cineasta Fernando Meirelles, é descrito o incêndio da Matriz na página 53:

“Dez anos depois, em 1929, um incêndio destruiu quase totalmente a matriz de Santo Antônio, inclusive o lindíssimo altar mor esculpido por Primo Uliana. Três anos depois, a matriz estava reconstruída graças a generosa contribuição do povo de Tambaú. Foi redecorada por Ernesto Ricciardi, imigrante italiano radicado em nossa cidade. Um fato inusitado, alguns acreditam que até milagroso, aconteceu naquele dia. Angelo Latari enfrentou o incêndio, entrou na Igreja em chamas e trouxe para fora a imagem de Nossa Senhora Parecida. Nem ele nem a imagem foram afetados pelo fogo!”.


10 – A imagem de Santo Antônio:

Santo Antonio que também teria sido salvo.
A matéria do jornal “A Ordem” citou “a pequena imagem de Santo Antonio, orago da cidade, a primeira que para cá viera”, que também teria sido salva pelos corajosos homens. Orago é uma palavra do português europeu que significa “padroeiro”.

Concluímos então, não por dedução pessoal e sim pelo relato da imprensa publicada dois dias depois do incêndio – a exemplo de dias atuais, os jornais em Tambaú eram publicados semanalmente – que duas imagens foram salvas do incêndio.

Atentemos para o fato do primeiro jornal (O Tambahú) citar isso: “foram apenas salvos duas imagens pequenas” e do segundo (A Ordem) relatar inclusive quais foram elas. 

A imagem de Nossa Senhora está hoje de posse da Paróquia e a imagem de Santo Antônio, que igualmente teria sido salva do incêndio, está sob responsabilidade de uma família, desde a década de 60 ou 70, por ordem do então pároco Padre Luis Girotti.


11 – Os jornais citam as obras de reforma da igreja:

Obras da reforma da Matriz. 
O Jornal “O Tambahú”, em 24 de Maio de 1931, sob o título “As Obras na Matriz”, já fala da reconstrução e cita o trabalho de dois homens: Ângelo Latari (“Chamam-nos. É o Angelo Lattari. Estende-nos sorridente a mão. Convite amável: - Não quer ver como vão adiantadas as obras na Matriz?”) e Ernesto Ricciardi (“No alto, sobre os andaimes da capella-mór, o Ernesto Ricciardi pincelava”).

As obras que Ernesto Ricciardi “pincelava” são as mesmas que hoje estão no teto, sobre o altar da Matriz.

Já o Jornal “A Ordem”, na edição de 07 de setembro de 1930 diz que “O Sr. Angelo Latari, encarregou-se em nome de uma commissão, para angariar donativos para a reconstrução da igreja de Santo Antonio. Sendo uma ideia louvável como é, devem os catholicos de Tambahú, coadjuval-o, para vermos quanto antes o templo reconstruido”.


12 – As publicações atuais:

Livro de Gaetano Passarelli.
De um tempo para cá, quando se resolveu reforçar a lenda sem, no entanto, maiores comprovações; tomou-se como fato o vigário de Tambaú ter retirado pessoalmente a imagem de Nossa Senhora do meio do incêndio o que, depois de tudo o que concluímos até aqui, não se comprova. O que não desmerece nem desqualifica, no entanto, quem crê nesta versão. 

A própria igreja, mesmo divulgando o fato dessa última maneira em publicações e em cerimônias religiosas amenizou a “alteração histórica” em um dos livros recentes sobre Donizetti, mais precisamente na obra do escritor italiano Gaetano Passarelli, “Padre Donizetti, um Sacerdote para os Outros” (Edições CNBB, 2013), publicado também na Itália.

Depois de muitos anos sem que a instituição se manifestasse sobre a possível participação de Ângelo Latari na história, o autor – na página 60 – cita o mesmo como tendo entrado na matriz, no momento do incêndio, “seguindo o padre Donizetti”Essa descrição, com narrativa semelhante ao cordel do começo desta matéria e como estrutura gramatical, é recortada do contexto e foi inserida de forma “gratuita” do ponto de vista da construção literária.

Concluindo, esta matéria não tem nenhuma intenção de reverter fatos, provocar polêmicas, desconstruir crenças ou denegrir o que ou quem quer que seja. E muito menos de alterar, apesar do pleonasmo, as variáveis da história. 

O objetivo é apresentar, através de uma pesquisa jornalística e histórica, detalhes do acontecimento que mexeu com a história da cidade, confirmando a fé de seu povo, a bravura de tambauenses, a santidade do hoje Beato Donizetti Tavares de Lima e o poder de Deus, materializado em centenas de milhares de milagres que se sucederam àquela manhã de sexta-feira em 1929.

Sem comentários. 

quinta-feira, 23 de maio de 2019

Embarque Imediato na Caravela da Ilusão


Paulo Rocco
  
O ator Matheus Gonçalvez em Foto de Murilo Gezuis Vigatto.  
“Caravela da Ilusão” é um desses espetáculos que precisam ser vistos nos dias sombrios em que vivemos. Qualquer texto que venha de Gabriel García Marquez é obrigatório no mundo de hoje.

Enquanto jurado no 13º Festival Nacional de Teatro Cacilda Becker, realizado em Pirassununga, terra natal da grande dama dos palcos brasileiros, tive o prazer – e o verbo é esse mesmo – de embarcar nessa nau, ao lado dos atores Matheus Gonçalvez, Felipe Santos e Robson Rebechi.

Aliás, é importante ressaltar – embarcamos todos: centenas de pessoas da plateia e alguns felizardos espectadores que ocuparam as cadeiras sobre o enorme palco do Centro de Convenções. A Cia. Espaço Núcleo de Limeira teve a ótima ideia de encenar o espetáculo em uma arena, com o público ao redor do minimalista cenário por onde desfila a magia, a poesia e – por que, não? – o humor maravilhoso do texto.

A sinopse é simples: uma família se vê perdida em uma ilha após um naufrágio, vivendo repetidamente aquele cotidiano. Tudo se transforma, para eles e para nós, com a chegada de um misterioso anjo. E é aí que somos fisgados em um redemoinho sem volta, exatamente como as personagens inspiradas no conto “Um Senhor Muito Velho Com Umas Asas Enormes”, de Marquez.

A Direção de Jonatas Noguel é precisa e não permite que nenhum espectador – esteja ele no palco ou na plateia – perca detalhes preciosos do espetáculo. A chegada do tal anjo, por exemplo, é um desses detalhes. Invocando o Teatro de Sombras asiático, o novo personagem pousa no círculo da ação com uma suavidade e delicadeza só pertinente aos seres divinos.

A sonoplastia de Pablo Abritta pontua cada movimento da família que se vê abençoada pelo sagrado e – mais ainda – vê no ser de asas negras a chance de tirar proveito daquilo, organizando romarias para visitarem o anjo que é aprisionado em uma gaiola – uma maravilhosa solução cenográfica.

Tantos os figurinos – nitidamente estudados desde a escola dos tecidos até sua concepção - das personagens, que são mais do que a trinca de atores; quanto os demais objetos cênicos auxiliam nessa viagem que, neste momento do espetáculo, estamos mais do que imersos.

Há que se destacar ainda a expressão corporal dos atores, tão necessária para compor cada figura, como para distinguir com um simples gesto qual delas está ali, debaixo de determinado foco. Iluminação que merece nota: Matheus Gonçalvez, também responsável pela planta de luz, auxilia a Direção na criação desse universo mágico com soluções simples e eficientes.

Para quem não leu o conto ou não viu o espetáculo – e se você faz parte desse universo corra para conhecer os dois – não vou dizer mais nada sobre a história. O final literalmente arrebatador é maravilhoso.

Assim como o é a partida do anjo. Se ele chegou na delicadeza das sombras, ele sobe aos céus debaixo de trovões, efeitos especiais e névoa; como se dissesse “não esqueçam a minha presença”.
É impossível esquecê-lo. Parafraseando Luiz Fernando Veríssimo, ele é a última coisa que você vai ver em sua vida. Espero que daqui a muitos e muitos anos.

Sem comentários.