terça-feira, 30 de julho de 2019

Nosso Bebê


Paulo Rocco

A primeira lembrança que tenho de “Dumbo” é um compacto da coleção “Disquinho” da Disney que trazia a história do elefantinho voador. O disco de vinil era preto e ainda não fazia parte daquela coleção colorida da qual muitas pessoas com mais de 40 anos se recordam e tinham em suas discotecas. Minha mãe então recortava figurinhas dos gibis e as colava para eu saber quais eram os discos que queria ouvir mesmo antes de saber ler.

E desta mesma época da minha vida, outras duas lembranças reforçavam minha convicção de ser esta uma das minhas histórias Disney preferidas: um Dumbo inflável que volta e meia precisava ser “remendado” pelo meu pai e uma coleção de slides do filme.

Os slides – para quem não conheceu essa maravilha visual – eram cartõezinhos de papel com transparências no meio, que se tornavam quadros estáticos projetados como um data-show. Passados na sequência, contavam a história como uma fotonovela em tela grande. Como o slide não tinha som, a gente colocava o disquinho na vitrola e começava a projetar, simultaneamente, as lindas imagens na parede.

Algumas curiosidades antes de entrarmos no assunto propriamente dito deste artigo: “Dumbo”, o clássico de Walt Disney, foi lançado em 1941 e é um dos filmes preferidos do criador. Devido às economias de guerra foi uma das mais baratas produções do estúdio, que chegava a sua quarta produção – custou 814 mil dólares (quase a metade do custo de “Branca de Neve”, por exemplo) – e tem a menor duração com apenas 64 minutos.

Os slides que citei, assim como o vinil são do início da Década de 70. Em 1990 foi lançado no Brasil o VHS do filme. E é claro que ainda tenho todas essas versões.

O que nos leva ao tema principal: a releitura do clássico Disney pelas mãos do diretor Tim Burton, que estreou este ano nos cinemas e chega agora ao DVD e Blu-Ray. Burton criou um novo filme. Novos personagens, novas tramas e fortes emoções sem, no entanto, descuidar um minuto sequer dos 78 anos de história do personagem, respeitando cenas emblemáticas do longa de animação e homenageando sequências inteiras.

No novo filme, Colin Farrell é Holt Farrier é um ex-astro que retorna da guerra e encontra o circo em que trabalhava passando por grandes dificuldades financeiras. Sua esposa morreu e os filhos cresceram longe dele. Sem os cavalos com os quais trabalhava – vendidos para ajudar nas finanças – ele fica encarregado de cuidar da elefanta dona Jumbo e seu bebê recém-nascido, cujas orelhas gigantes fazem dele motivo de piada de toda a trupe.

São os filhos de Holt que descobrem que o pequeno elefante é capaz de utilizar essa sua diferença para um feito extraordinário: voar.

Essa é a premissa. Simples demais contando assim, mas que se torna nas mãos do genial Burton, uma poderosa história sobre superação, dedicação à arte, busca por objetivos e, sobretudo, amor por seus semelhantes e pelos animais. “Dumbo” é amor do princípio ao fim. E por estar razão – entre outras – arrancou lágrimas de milhões de pessoas através do planeta.

O público não enxerga ali um impossível elefante que voa, criado em CGI e que em momento algum esteve presente entre nós. O que vemos na tela é sim, um animalzinho indefeso no início, separado da mãe – a icônica cena de Dumbo no lado de fora do vagão-prisão de sua mãe está ali, em toda sua emoção e dor – por culpa da ganância e do desprezo humano que luta, ao lado do casal de crianças, apenas para encontrar sua felicidade. E como não ficar tocado ao ver os olhos de Dumbo?

A história se complica quando o circo dirigido pelo sempre incrível Danny DeVito é vendido para um empresário – Michael Keaton, sempre ótimo – que comanda uma espécie de Disneylândia. A história se passa em alguma década entre os anos 40 e 60, sem precisar exatamente o ano em que estão. E isso gera maravilhosas chances de Burton destilar sua fantasia visual que permeia toda sua obra cinematográfica.

O coliseu para onde vai a família do circo – assim como todo o parque temático – é deslumbrante. No espaço dedicado à ciência do futuro (paixão da personagem adolescente vivida por Nico Parker) há várias referências, como ao clássico “Perdidos no Espaço”. Outros destaques do elenco são a maravilhosa Eva Green e o competente Alan Arkin.

Por falar em referência e reafirmando o que escrevi há pouco, o filme tem várias delas relacionadas também ao desenho animado. Timóteo, por exemplo, o camundongo companheiro de Dumbo é representado por um ratinho que usa casaco e cartola. Na cena em que Dumbo voa pela primeira vez, há o frame que mais me encantou pela memória afetiva: um dos slides sobre os quais falei, era do desenho de um garoto com grandes orelhas que tirava sarro de Dumbo. E não é que o tal garoto estava na plateia do circo rindo de Dumbo? O elefantinho então enche a tromba de água e, num rasante sobre o público, descarrega a carga sobre o menino de orelhas grandes e seus amigos. Uma cena divertida quem para mim, converteu-se em uma doce lembrança.

Falar mais pode tirar a magia do filme, se é que isso é possível. Mas garanto que mesmo que nunca tenha tido contato com Dumbo – o que parece mais estranho do que um elefante voar – você vai achar incrível essa nova versão. Agora, se for fã como eu, prepare o lenço. Dumbo vai te conquistar no primeiro olhar.

E você vai sentir vontade de pegá-lo no colo – com todas suas quase toneladas – abraçá-lo e niná-lo enquanto ele não encontra a mãe, tratando-o como a um bebê. Mesmo que esse seu novo amiguinho, em um espirro, possa saltar uns quatro metros do chão.
Sem comentários. 

terça-feira, 16 de julho de 2019

Vamos falar sobre Sylvia


Paulo Rocco

Elenco de "Sylvia" ao final da peça. 
Tive o prazer de assistir ao espetáculo “Sylvia” que estreou recentemente no Teatro das Artes, em São Paulo. Para falarmos sobre ela (a peça) e também a respeito dela (a Sylvia), vamos saber onde essa história começou.

Escrita por A.R. Gurney, dramaturgo americano falecido em 2017, “Sylvia” estreou na off- Broadway em 1995 e depois no próprio templo do show business em 2015. Foi quando a produtora e atriz Simone Zucato conheceu o texto, adquiriu os direitos sobre ele, fez a tradução e produziu, para nossa sorte, esse espetáculo incrível.
  
Agora sim, vamos falar sobre Sylvia, uma cadelinha apaixonante, carinhosa, brincalhona e sensível que muda a vida de um homem – e da família dele – com um poder do qual somente esses animaizinhos são capazes. A sinopse é simples, Greg – interpretado por Cassio Scapin com a excelência de sempre – encontra a cadela Sylvia em um parque e a leva pra casa. Sua mulher, Kate, vivida pela maravilhosa Françoise Forton não gosta da situação. Mas é tarde, Sylvia chegou para ficar.

E Sylvia é justamente o papel de Simone Zucato, já defendido por atrizes como Sarah Jessica Parker, na referida estreia americana e Annaleigh Ashford na montagem de 2015. Mas em Simone a cadelinha parece ter encontrado sua contraparte humana ideal.

A atriz é de uma delicadeza ao construir sua personagem e de tamanha técnica de expressão corporal que muitas vezes durante o espetáculo nos pegamos – o público – a ver em cena a cachorrinha de Greg. Detalhes no olhar ou no sutil coçar das “patinhas”, por exemplo, nos remete facilmente ao universo canino. Se tivermos uma amiga dessas em casa então, pronto, estamos rendidos.

O figurino de Marcelo Marques – principalmente da cachorrinha-título – remete à cor dos pelos de Sylvia, nas composições que a atriz usa. Parece uma escolha óbvia, mas cada elemento foi estudado para isso e atinge o resultado de imediato, bem como a identificação da plateia. Aí está o mérito do profissional.

Assim como os figurinos, gosto muito mais do cenário da versão brasileira do que o original. Camila Schimtz criou um espaço que tanto é o apartamento do casal, quanto serve perfeitamente às cenas no parque, onde Greg brinca com Sylvia. Ajudado pela luz de Wagner Freire, a ambientação passa do “real” dos móveis e objetos cênicos para o onírico da noite de Nova York, São Paulo ou qualquer cidade por aí, iluminada por seus postes e lanternas contornados pela névoa.  

É justamente em algumas cenas no parque em que se percebe o trabalho da Direção precisa de Gustavo Wabner. Scapin e Rodrigo Fagundes conversam enquanto Sylvia e Trovão – o cachorro de Tom (um dos personagens de Fagundes) correm pelo gramado. Graças à marcação de cena de Wabner, “vemos” os cachorros brincando por todos os cantos mesmo sem estarem no palco. Nas demais cenas a Direção não é notada, mas está ali, o que é um mérito com louvor, já que a atenção no teatro deve ser dada, sobretudo, ao elenco.

E por falar em elenco, impossível não destacar a presença de Rodrigo Fagundes em três personagens: o já citado Tom, o (ou a) Nadir e, principalmente Sônia, amiga de Kate. É com essa persona que Fagundes “rouba” uma sequência inteira da peça para si, causa gargalhadas incessantes e – pelo menos na apresentação especial para convidados – foi aplaudido pelo menos umas cinco vezes em cena aberta.

“Sylvia” é feita disso, uma equipe tão apaixonada pelo que fez, quanto Simone Zucato, como idealizadora desse projeto que precisa ser visto por quem tem cachorro, por quem não tem, por quem ama esses anjos de quatro patas ou simplesmente por quem ama de qualquer maneira as pessoas, a vida, o teatro.

É uma comédia romântica, uma história sobre relações, uma peça que faz pensar sobre a vida que estamos levando e sobre quem somos.
E como a vida, não se espante se der risadas durante todo o espetáculo e guardar, para o final, a mais verdadeira e doce lágrima. É isso. Vamos falar mais sobre Sylvia.

Sem comentários.