sábado, 28 de setembro de 2019

O filme mais violento que ainda não vi


Paulo Rocco

Coringa - 2019
Nesta semana um dos mais icônicos e conhecidos vilões do planeta toma de assalto os cinemas do mundo todo. O primeiro filme solo do Coringa, o arqui-inimigo do Batman criado em 1940, ainda nem estreou é já tem causado polêmica. Aliás, em um mundo ditado pelas fake news twitter-facebookianas, polêmica é algo tão cotidiano como escovar os dentes. Cada dia surge uma nova. E a bola da vez é essa produção envolvendo o personagem que nasceu das cabeças geniais de Jerry Robinson, Bill Finger e Bob Kane, na revista Batman nº 1.

Não vou me estender aqui sobre o personagem. Se você não viveu os últimos 79 anos de Marte para frente já ouviu falar dele. Até na Lua deve ter alguma pegada com o número maior do que a de Armstrong.

Vamos falar sobre o filme que já é tido como uma obra incrível baseada nos quadrinhos da DC e que em sua gênese teve a valiosa colaboração de Martin Scorsese. E por que ele chega também com essa aura “pesada” a ponto do FBI editar um memorando interno sobre o mesmo, alertando que há um grupo de suspeitos chamados de “incel” (um diminutivo da expressão "involuntary celibates"), ou celibatários involuntários; homens que não conseguem ter relações sexuais e amorosas e culpam as mulheres e os homens sexualmente ativos por isso. O memorando diz que esses indivíduos idolatram figuras violentas como o atirador do cinema na cidade de Aurora, no Colorado e também o vilão do Batman. Coisas assim levaram o exército americano a ficar em alerta para a estreia do filme.

O Cavaleiro das Trevas
Ressurge - 2012
A tal discussão teria começado após um grupo de familiares de vítimas justamente do ataque no Colorado recorrer à Warner – produtora do filme – dizendo-se preocupado com possíveis repetições do que sofreram. O grupo falava sobre o fato ocorrido em 2012 quando um homem identificado como James Holmes, invadiu uma sessão de “Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge” em Aurora, matou 12 pessoas e deixou 70 feridos.

Respeito a dor dos familiares, condeno veementemente o ocorrido, mas não consigo ver relação alguma com o novo filme, a não ser talvez Bob Kane. Na sessão em que ocorreu o ataque, não há sequer menção do Coringa. Os vilões que aparecem ali são Bane, o Espantalho, Ra's Al Ghul e – por definição – a Mulher-Gato.

As pessoas aplaudem Trump e seus admiradores tupiniquins – que proclamam o uso da arma como se fosse um complemento da sua roupa de trabalho; aprovam a venda livre dos armamentos e acham o máximo políticos fazendo sinais de revólveres com as mãos. E colocam a culpa da violência em personagens de ficção.

Se você que estiver lendo agora esse texto tiver menos que 40 anos saiba que não é a primeira vez que a Sétima Arte incomoda tanto e não será a última. Em 1986, por exemplo, apesar de pouca gente se lembrar e quase não haver notícias na internet sobre isso – mas graças à minha memória me recordo perfeitamente – aconteceram no Brasil, já sob a Nova República, censuras e cortes em filmes de grandes diretores e reconhecidos atores mundiais, acusando-os de violentos ou blasfemos. Uma das vítimas foi Stallone com seu filme “Cobra”.

Cobra - 1986
Exibido como veio ao mundo, a história do violento policial Marion Cobretti foi um sucesso arrebatador, após o igualmente violento “Rambo 2 – A Missão”. Acontece que Cobra – com perdão do trocadilho, não estava na selva – e sim agindo na cidade, contra uma gang de malucos que trucidavam as vítimas com foices e ganchos.

Vi o filme no cinema, na íntegra. Semanas depois a censura cortou cinco cenas consideradas de extrema violência, ou seja, justamente aquelas que eram importantes para a ação. O filme – que já era de um roteiro sofrível – ficou sem um mínimo de sentido. E não há relatos de que nos EUA ou qualquer outro lugar tenha havido ataques inspirados no trabalho de Marion Cobretti.

Je Vous Salue, Marie - 1986
No mesmo ano – apenas para citar, já que não tem a ver com violência propriamente dito e a “acusação” passa a ser a blasfêmia – acontece a proibição do Presidente José Sarney para o “Je Vous Salue, Marie”, de Godard. Um filme de arte, chato em certos pontos e que passaria despercebido, a não ser pelos fãs do Diretor, caso não tivesse sido proibido, com uma repercussão que levou até a uma discussão via Folha de S. Paulo entre Roberto Carlos (a favor da proibição) e Caetano Veloso (contra). Como também não é o tema aqui, pesquise sobre isso se quiser aprofundar o assunto.

A Última Tentação - 1988
A história veio se repetir em 1988 com a proibição de “A Última Tentação de Cristo”, uma das mais incríveis obras de Martin Scorsese, baseada na livro de Nikos Kazantzakis. O governo, já sob os ares da Nova Constituição que – em teoria – liquidou a censura, quis proibir justamente a sequência que dá sentido à existência da obra. Vi o filme em um cinema “escondido” na cidade de Santos, mas em diversas grandes cidades ele foi retirado dos cinemas.

A Paixão de Cristo - 2004
E assim vai. Para ficar no mesmo tema, o mundo – e governos – considerou violentíssimo o filme “A Paixão de Cristo” de Mel Gibson lançado em 2004, por conta das torturas sofridas por Jesus há mais de dois mil anos e retratadas – dizem os estudiosos – exatamente como deve ter acontecido. Em vários países a obra foi “condenada” por conta disso.

E como a questão das armas – com uma liberdade de análise, obviamente –, as pessoas vão à igreja, ouvem o evangelho na Semana Santa, choram por Jesus ter sido torturado e entregue aos romanos, velam o Cristo morto, o enterram e – quando um filme conta exatamente a mesma coisa, condenam-no pela “violência”.

Voltando ao “Coringa”, alguns afirmam que têm medo de que uma pessoa que está à beira de se tornar um atirador pode ser encorajada por esse filme. Claro que isso pode acontecer, mas poderia ser com um admirador de Michael Douglas em “Um Dia de Fúria”; ou com um fã de Jason usando uma máscara de hóquei em qualquer sexta-feira 13; ou com seguidores de Michael Myers no final de outubro. Ou tantos outros, como o mesmo John Rambo já citado e que, no capítulo IV e recentemente no V, corta inimigos ao meio com suas armas.

Com Direção de Todd Phillips, “Coringa” tem no elenco Joaquim Phoenix e Robert De Niro, entre outros e conta a história de Arthur Fleck que trabalha como palhaço para uma agência de talentos e toda semana precisa comparecer a uma agente social, devido aos seus problemas mentais. Após ser demitido, Fleck reage mal às provocações de três homens e os mata. Os assassinatos iniciam um movimento popular contra a elite de Gotham City, da qual Thomas Wayne é seu maior representante. Thomas é o pai de Bruce o que leva a história a um passado de Gotham onde ainda não existe o Batman.

Vamos torcer para que toda a preocupação sobre a estreia não passe da teoria e do marketing involuntário que a DC ganhou para sua produção. E como diria uma faixa em um protesto contra a proibição de “A Última Tentação de Cristo”: “It’s only a movie”.

Quem está doente não é o Coringa. É a humanidade.

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