domingo, 27 de outubro de 2019

Send in the Joker!


Paulo Rocco

Joaquin Phoenix como o Coringa em cena já clássica. 
O que dizer do Coringa que ainda não foi dito? O que leva um filme cujo personagem é icônico, mas não é novidade, a alcançar tamanha bilheteria e ser aclamado pela crítica, a ponto de um autor consagrado como Aguinaldo Silva se referir a ele como o melhor filme que viu nos últimos dez anos?

Como já comentei sobre as expectativas do filme e os exagerados cuidados por parte de autoridades americanas quanto à possível fomentação de ataques de malucos no post anterior deste blog, vou me ater a falar somente sobre a obra em si. Se é que isso é possível em se tratando de um personagem criado em 1940 e que em pleno ano de 2019 provoca admiração, repulsa, surpresa e – acima de tudo – diversão, um dos objetivos da criação da Sétima Arte.

Por falar nesse aspecto – e já começo me contrariando a não me referir somente ao filme como prometido no parágrafo anterior – vale citar que “Joker” foi o estopim para uma polêmica declaração de Martin Scorsese que depois foi corroborada por ninguém menos que Francis Ford Coppola.

O primeiro teria dito que o que a Marvel faz não é cinema. Então, como é comum no implacável mundo virtual em que fingimos viver, a repercussão veio de grandes cineastas a pobres mortais que chegaram a comentar “quem é esse Scorsese pra julgar meu filme de herói preferido?”.

Se eu tiver explicar aqui quem é Martin Scorsese, você é que não precisa continuar a ler esse singelo artigo. Pode parar aqui mesmo e vamos continuar sendo amigos no facebook.

Pois então – voltando ao tema principal e tentando não fugir para outro assunto como se minha cabeça pirasse de vez em sempre – ao assistir o filme habilmente dirigido por Todd Phillips (cujo currículo tem como destaque a trilogia “The Hangover” ou “Se beber Não Case”, no criativo título que os filmes ganharam por aqui), compreendemos – nós que entendemos de Cinema – a frase dita por Scorsese.

Há música e existe Música. Há literatura e existe Literatura. Há teatro e existe Teatro. Obviamente existe o cinema e o Cinema. Nenhum deixa de ser música, literatura, teatro ou cinema; só para ficar nessas quatro áreas de tantas possíveis. Os filmes da Marvel e muitos outros são sim, cinema também.

Estão aí para divertir, emocionar e fazer milhões de pessoas torcerem nas salas escuras; mas com algumas exceções como “Pantera Negra”, assemelham-se sim, a parques temáticos e ajudam a vender milhares de HQs e Action Figures, sem falar em jogos e os próprios filmes em plataformas digitais ou formas físicas. A lição foi ensinada em uma galáxia distante, no longínquo 1977. E funciona com a mesma fórmula até hoje.

PS: Antes de me jogarem em um tanque com ácido nos comentários – nas respectivas páginas de vocês, por que aqui democraticamente é sem comentários – quero dizer que sou sim um fã da Marvel e de seus filmes também.

Viu como saí do assunto novamente? (Ouve-se ao fundo uma risada descontrolada).

Agora, diante de um filme como “Coringa”, percebe-se o cuidado com a interpretação – que deve levar Joaquin Phoenix ao seu segundo Oscar e o primeiro a ser dado a dois atores diferentes por um mesmo personagem; a impecável Fotografia que mantém a câmera no tripé, na grua ou no trilho quando necessário – ao contrário da maioria dos campeões de bilheteria atuais; a Trilha Sonora pontuada e perfeitamente disposta em cada sequência; a Direção de Arte minuciosamente criada em parceria com a iluminação e, claro, o já citado trabalho de Direção. E com tudo isso em conjunto já temos de imediato uma sequência clássica, uma nova “escadaria de Odessa”. Ou melhor, de Gotham ou Bronx, como queira.  

Tudo isso está em “Coringa”. O que faz dele um excelente filme, o tal Cinema.

O manual de jornalismo diz que antes de terminar tenho que citar um resumo da história, então lá vai: um palhaço que sonha ser um comediante de stand-up e que cuida da mãe doente é quase que literalmente massacrado pela sociedade – e nem tinha rede social ainda – e acaba surtando em uma catarse que é o primeiro ponto de virada do filme (estou bem didático hoje). O que ele vai se tornar já sabemos, o que não podíamos imaginar é que um louco assim teria seguidores. Send in the clowns!

O crítico de algum site disse que o filme tem uma “ligação” com o universo DC criado por Zack Snyder ao mostrar uma cena em que o casal Thomas e Marta Wayne saem do cinema – onde está em cartaz “A Marca do Zorro” – com o pequeno Bruce. Na verdade, o que está em cartaz em "Coringa" é "As Duas Faces do Zorro", paródia do herói californiano com George Hamilton produzida em 1981, que pode ser a época em que se passa a história. Outro filme cujo cartaz aparece é "Excalibur", do mesmo ano. Esse sim também é mostrado na obra de Snyder.  

Mas “Joker” não tem ligação nenhuma com os filmes da DC realizados ultimamente. Essa obra tem vida própria. E isso está arrastando multidões aos cinemas. A propagada violência é mais psicológica do que real, com exceções dos assassinatos cometidos pelo príncipe palhaço do crime e com duas cenas em particular que podem impressionar os mais desavisados. Mas é só.

Se o seu Superego, no entanto, não permite que você saia do cinema e despache o primeiro desafeto que encontrar no beco, seu Id poderia facilmente – nesses tempos brechtinianos em que vivemos – levá-lo a uma loja de fantasias para comprar uma máscara.

Sorria. Ao menos que você não tenha entendido a piada.

Sem comentários.