sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Hora de Acordar


Paulo Rocco

Os figurinos da gêmeas durante exposição
realizada em São Paulo em 2013. 
Se você gosta de filme de terror e não viu “O Iluminado” você não gosta de filme de terror. Se você viu e gosta da versão do incomparável Stanley Kubrick para a obra do inigualável Stephen King, pare de dormir em berço esplêndido e corra aos cinemas para conferir “Doutor Sono”.

Primeiro voltemos a 1977 quando Stephen King publicou seu terceiro livro, após os sucessos de “Carrie” e “Salem’s Lot”. “The Shining” – nem precisaria resumir, mas vamos lá – traz em suas páginas a história de Jack Torrance, sua mulher Wendy e o filho Danny. Jack aceita o emprego de zelador no hotel Overlook durante a temporada de inverno, quando o prédio fica vazio e isolado do mundo pela neve, no meio das montanhas rochosas do Colorado. O chefe da família é escritor e professor (como a maioria dos personagens de King), alcoólatra em recuperação e tem um passado problemático, quando inclusive chegou a quebrar acidentalmente o braço do filho e perdido o emprego.

Pois bem, eles chegam ao Overlook e descobrem que o hotel é grandioso, maravilhoso e muito bem assombrado, obrigado. Se você leu o livro primeiro é provável que seus medos particulares tenham criado imagens assustadoras, mas por mais que você seja criativo, essas imagens não vinham sob os ângulos perfeitos de Stanley Kubrick e nem acompanhadas da música inesquecível de Wendy Carlos.
Em resumo: O diretor americano pegou os pesadelos de King, elevou à potência máxima e nos entregou um pesadelo pronto, ainda maior do que supunha nossa vã imaginação ao ler o romance. Estamos em 1980, “The Shining” estreia nos cinemas.

O Iluminado do título é Danny, com seus amigos imaginários, mas nem tanto. É o garotinho loiro que vivencia e nos leva juntos a algumas das cenas mais impactantes do cinema. Seu triciclo correndo pelos corredores imensos do Overlook – com o som se alternando entre o “suave” ao passar pelos inúmeros tapetes e o “angustiante”, ao tocar o chão centenário de madeira.

Aliás, a abertura de “Doutor Sono” já nos remete automaticamente ao hotel. Mas ainda é cedo para falar do novo filme aqui. Antes continuemos no hotel.

As filmagens do clássico de Kubrick ocorreram em parte no Timberline Lodge, no Parque Nacional Mount Hood em Oregon, EUA. E uma curiosidade sobre essa locação: o famoso quarto 237 não existe no hotel. Os diretores pediram à produção do filme original que alterasse o número do quarto 217 (que era o descrito no roteiro) para o que aparece no filme, com receio de que as pessoas não alugassem o quarto. Até hoje o quarto 217, por conta disso, é um dos mais solicitados no hotel real.

Apesar da violência da sequência final e com o famoso machado atravessando uma porta em cena, é na imagem de duas gêmeas que – em minha opinião – está uma das piores (ou melhores) cenas do cinema de horror. Só de escrever essas linhas já estou arrepiado. E para a satisfação dos fãs de King e de Kubrick, “Doutor Sono”, que estreou recentemente, traz todo esse universo de volta.

É do conhecimento de todos que King não gostou da adaptação de Kubrick. O diretor alterou o final do livro e – simplesmente por ser quem era – acabou “tomando para si” a obra do escritor. “O Iluminado” se tornou então um filme de Kubrick mais do que um livro de King.

Mas essa opinião do autor premiadíssimo e que já publicou mais de 60 obras literárias – muitas adaptadas para o cinema e para a televisão com resultados irregulares, indo de obras-primas à filmes horrorosos (no mal sentido) – mudou um pouco após ver “Doutor Sono”. Ele teria dito ao diretor Mike Flanagan (da excelente minissérie “A Maldição da Residência Hill”) que seu filme teria “aquecido” sua opinião a respeito do filme original.

Quanto à “Doutor Sono”, King derreteu-se de amores e elogios à nova produção. E é realmente um grande filme que, se não se aproxima muito do capítulo anterior – fato impossível em se tratando de Stanley Kubrick – também não faz feio e entrega uma sequência respeitosa, empolgante e, obviamente, assustadora.

King gostou de cara desse filme por uma simples razão: seu terror costuma ser visceral. Ele gosta do sangue, da violência, da ação andando de mãos dadas com o horror psicológico. E isso “Doutor Sono” tem em equilíbrio perfeito.

O filme novo é baseado também em livro de King onde o mestre continuou uma de suas obras mais aclamadas. Foi lançado em 2013 e conta como é hoje a vida de Danny Torrance. Ele continua sendo um iluminado, mas tenta – só tenta – se manter distante dos fantasmas vivos e mortos que o aterrorizaram há bem mais de trinta anos. 

Como o personagem principal dos livros e dos filmes, consequentemente, sabemos ser o Overlook, é claro que esperamos ansiosamente que a imagem da monstruosa construção em meio à neve preencha a tela toda do cinema, levando os fãs às lágrimas.
Falar muito de “Doutor Sono” é estragar a magia de assisti-lo em toda sua plenitude, segredos e referências, então vou me ater a apresentar apenas alguns personagens novos que passam a povoar o universo de Danny e ficam harmonizados com a realidade atual do protagonista (interpretado por Ewan McGregor).

Há a garotinha Abra (Kyliegh Curran), iluminada como ele; há Rose the Hat (a maravilhosa Rebecca Ferguson que rouba a cena com sua beleza e talento), há o bando de Rose que – como vampiros de almas – sobrevive com a essência dos iluminados e, principalmente, há alguns personagens de volta – que não vale citar aqui.

A Direção de Arte é um espetáculo à parte, tanto na “reconstrução” dos espaços do Overlook, como na “ressurreição” de alguns personagens. Flanagan destila pelas cenas várias referências, citações nos diálogos, nas imagens, nos ângulos; que são um deleite de perfeição e uma clara homenagem à Kubrick e sua obra. E a música... Ah, a música... Garanto que se, após o filme, ela fosse executada pelos corredores do shopping e você precisasse ir ao banheiro, iria pensar duas vezes.

Não creio que o filme fará grande bilheteria. Ele não tem super-herói, continua uma história exibida há quase 40 anos e “afasta” quem não viu o filme de Kubrick. É um capítulo 2. Não tem conversa. Mas o cinema precisa dele.

Daqui a algum tempo não digo que será cultuado como seu antecessor, mas estará na mesma caixa, na estante ou na lembrança dos fãs de dois dos maiores gênios do cinema e da literatura fantástica.

Sem comentários.

sábado, 2 de novembro de 2019

Entrelaçados


Paulo Rocco 


Giulia Benite, Kevin Vechiatto, Laura Rauseo e Gabriel Moreira.
“Turma da Mônica - Laços” é o primeiro filme live action da turminha mais querida do Brasil e que nos segue desde os primeiros meses de vida até enquanto quisermos continuar a sonhar, nos divertir e – sobretudo depois do lançamento do selo “Graphic MSP” – nos emocionar. 

Emoção foi o que gritou mais alto quando li há seis anos mais ou menos, a primeira Graphic assinada por Vitor e Lu Cafaggi com a Turma de Mônica e a segunda da série aberta pelo Astronauta de Danilo Beyruth. 

No texto, o Floquinho desaparece e a turminha tem que encontrar e resgatar o cãozinho verde do Cebolinha.  As primeiras páginas do livro – com o momento em que um Cebolinha bebê ganha o seu pet – é de uma delicadeza que só poderia sair do traço da Lu Cafaggi. Mas isso é assunto para outro texto que publicarei em breve sobre as graphics editadas por Sidney Gusman com os personagens icônicos do mestre. 

O foco aqui é o filme, que assisti somente agora, após adquirir o DVD. E foi uma pena não ter conseguido ver nos cinemas. Rezende conduziu a obra com um respeito imenso tanto ao livro em que o roteiro de Thiago Dottori é inspirado, quanto aos personagens de Mauricio de Sousa. 

Há sequências idênticas aos quadrinhos e personagens “secundários” – como o Xaveco – que pipocam na tela e nos cenários coloridíssimos, com as casas, cercas e objetos em matizes fortes por todos os lados, em uma Direção de Arte primorosa de Cássio Amarante e Mariana Falvo.  

Há o Titi xavecando a Aninha perto de uma árvore, tem o Jeremias, a Cascuda, o Quinzinho, a Clotilde e a Cremilda - que vivem querendo dar banho no Cascão - e até a Xabéu, a apaixonante irmã do Xaveco, capaz de fazer brilhar os olhinhos do Cascão e do Cebolinha. Ah, tem também a participação da turma da rua de cima, responsável por aumentar a confusão em que a turminha se mete. 

Há também o Gusman como vendedor de flores, os irmãos Cafaggi e até o próprio mestre Mauricio em uma aparição como o dono de uma banca de revistas. É dele a observação mais divertida do filme ao ver o cartaz das crianças procurando o Floquinho: “É verde?”. 

Os fãs mais atentos vão se deliciar com o vendedor de cachorro-quente da pracinha que ninguém mais é do que o querido Sr. Juca, que tanto a turminha azucrina nos quadrinhos, em suas mais diversas tentativas profissionais. 

Há outros detalhes que nos remetem aos gibis, como o Jotalhão e o Horácio em bonecos de pelúcia e tantas referências clássicas a histórias já contadas. E isso é um deleite visual e emocional. 

Além dos atores do quarteto principal, escolhidos a dedo para nos trazer personagens tão conhecidos da nossa vida e memória afetiva – com atuações excepcionais, sobretudo da Giulia Benite, que faz a Mônica – há participações especiais como a de Paulo Vilhena como Seu Cebola, Monica Iozzi como a Dona Luisa, mãe da Mônica e Rodrigo Santoro como o Louco. 

Por falar no Louco é aí que cabe minha vírgula quanto ao filme. Primeiro meu afago: Santoro é um dos grandes atores de sua geração e que tão bem tem representado nosso país na maior indústria cinematográfica do mundo; seu “Louco” é a perfeita encarnação do personagem que atormenta e só contracena com o “Cenourinha” nos gibis. Sou fã. Dos dois. 

A cena é divertida até, mas em minha opinião – bem particular e que nem um pouco deprecia a obra em si – não precisaria necessariamente estar neste filme. A sequencia avança muito pouco a história principal, altera o livro original (quando Cascão fica vigiando o acampamento da floresta e não o Cebolinha e o Louco nem aparece) e tem apenas uma sutil e luminosa ligação com um momento lá na frente.

Mas foi uma opção de roteiro, da Direção e de toda a equipe e deve ser respeitada. Mas é sempre bom ver Santoro em cena e o seu Louco merece uma adaptação de sua própria graphic. 

No mais, com pequenas alterações de cenário nos momentos finais, a história segue como na graphic, sempre ilustrada por uma trilha sonora muito legal – composta por Fábio Góes – com citações ao clássico tema da Mônica e uma bela canção de Tiago Iorc. Com detalhes ricos acrescentados, como os laços colocados na floresta e na história. Que venham “Lições” e “Lembranças”. E tantos outros. 

“Laços”, o filme, ainda deixa a mensagem para o público de todas as idades de que precisamos vencer nossos próprios medos para conseguir o que queremos. Parece óbvio, mas a maneira como a boa Direção de Daniel Rezende ilustra isso é o que mantém Mônica, Cebolinha, Magali, Cascão, enfim, toda a turma e nós, fãs e espectadores, entrelaçados para sempre.
  
Sem comentários.