sábado, 28 de dezembro de 2019

Habemus Papas


Paulo Rocco

Pryce e Hopkins em cena de "Dois Papas".
Quando ainda estava no colégio havia uma pegadinha onde costumávamos perguntar aos mais desavisados: como se chama uma reunião de papas? Obviamente a brincadeira era seguida de risadas após ser revelado, obviamente, que não existia algo assim.

Mas a vida sempre trata de superar até mesmo brincadeiras infantis e alterá-las conforme o planeta vai dando suas voltas no universo. E foi mais precisamente em 2013 que a piada perdeu sua graça. Tínhamos no mundo – teórica e praticamente – dois papas.

Com a renúncia de Bento XVI em 11 de fevereiro daquele ano e a consequente eleição de Francisco, 30 dias depois, o Vaticano ficou com dois representantes máximos da igreja vivos, mesmo que um deles tenha deixado o cargo, o que historicamente teria acontecido apenas três vezes antes, nos anos 235 DC, 1294 e 1415. Bento é Papa Emérito e Francisco é... O Papa.

Mas tudo isso não cabe ser analisado aqui. A história é um conjunto de variáveis – como gosto de lembrar – e é justamente uma dessas variáveis que o Diretor Fernando Meirelles aborda no excelente “Dois Papas”, produção da Netflix disponível desde o dia 20 de dezembro e que foi indicada a quatro Globos de Ouro, inclusive de Melhor Filme.
Na sinopse – bem mais simples do que tal “reunião” poderia sugerir – Bento XVI, o alemão Joseph Ratzinger convoca o cardeal argentino, Jorge Mario Bergoglio, para uma conversa em Roma, ao mesmo tempo em que o segundo enviava ao Vaticano seu pedido de aposentadoria.

Esse encontro que acontece primeiro nos jardins da residência de verão de Sua Santidade vai trazer à tona não só o passado – muitas vezes controverso – dos religiosos, quanto aproximar dois antagonistas tão díspares em se tratando dos rumos da Igreja Católica naqueles turbulentos anos.

Voltando um pouco na história, o filme começa com a morte de João Paulo II em 2005 e o conclave que se seguiu para a eleição do novo representante máximo do catolicismo. Celebrando nos bairros pobres de Buenos Aires, Bergoglio é chamado e parte para Roma. Logo acontece uma cena divertida que – pedindo perdão pelo pecado de cometer um pequeno spoiler – dá a direção do que virá a seguir. Um filme com cenas de alguma tensão, diálogos muito bem escritos e uma boa dose de humor elegante.  

Pois bem, a tal cena: o argentino está no banheiro assoviando “Dancing Queen” quando o alemão entra e pergunta qual é aquela música. A explicação do cardeal sul-americano e as expressões em seu rosto quando faz isso são impagáveis.

Outro mini spoiler (lembrando que estou comentando apenas o início do filme) e que rende uma sequência – em minha opinião – já antológica é o conclave ao som do grande sucesso do Abba. Um divertido toque de mestre de Meirelles.

E de novo ao roteiro do filme – primorosamente escrito por Anthony McCarten, também indicado ao Globo de Ouro – a conversa dos dois continua em plena Capela Sistina, sob o teto de Michelangelo, em outra sequência entremeada por flashbacks e avanços na história que irão culminar em um dos anúncios mais impactantes da história do Vaticano.

É quase um desperdício de parágrafo aqui – e um pleonasmo crítico – falar da batalha de atuações entre Anthony Hopkins como Bento XVI e Jonathan Pryce como Francisco, tamanha a grandiosidade do que se vê na tela, desde um olhar para o lado, até um mexer nos dedos das mãos. Gestos pensados, milimetricamente concebidos por anos e anos do ofício da arte. Vale lembrar que as outras duas Indicações ao prêmio do Cinema e Televisão foram justamente para o trabalho dos dois protagonistas. Tudo captado e direcionado pelo talento de Meirelles.

O Diretor brasileiro mostra, mais uma vez, uma das maiores e melhores características de sua obra: o filme não é “dele”. É dos atores e da história em si, que se conta fluindo através da técnica perfeita da dupla principal do elenco.

O espectador não percebe a Direção, o que muitas vezes pode colocar um filme a perder, principalmente quando um diretor quer demonstrar suas características de filmagem a qualquer preço. Não é o caso de Meirelles, obviamente.

Não que o estilo do Diretor passe despercebido para os mais atentos. Sua ótima direção de atores está ali, bem como sua câmera na mão, distanciando-se quando o cenário é importante para a história – como na cena em que Ratzinger deixa Bergoglio falando sozinho no jardim e do alto os vemos seguindo em direções opostas (como suas ideologias) – e puxando um zoom no rosto do ator quando um franzir de testa é relevante para a cena. Nuances de um grande profissional.

“Dois Papas” tem ainda outras divertidas cenas – como a pizza com Fanta na sacristia – e momentos emocionantes, com se o público estivesse em plena Praça de São Pedro olhando atentamente para a sacada, momentos após a fumaça branca erguer-se nos céus de Roma.

É isso. Habemus Papam. Dois deles.

Sem comentários.