quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

O Sonho Impossível de Terry Gilliam


Paulo Rocco


Gilliam dirige Adam e Joana Ribeiro. 
Antes de ter início o filme sobre o qual vou escrever há o insert de uma legenda que diz “E agora, depois de mais de 25 anos entre fazendo e não fazendo...”. A autoconstatação ou séria brincadeira – ou mea culpa – precede o nome do roteirista e diretor Terry Gilliam como responsável pelo filme “O Homem que Matou Dom Quixote” (na programação do Telecine atualmente).

Para se ter uma ideia sobre o que estou falando basta dizer que as primeiras notícias desse filme remetem a antes de 1998,  ano em que teve início a pré-produção em si da adaptação da obra máxima de Miguel de Cervantes.

Não vamos nos ater aos nomes que passaram pelo elenco e às grandes dificuldades que foram enfrentadas pelo diretor, como fossem gigantes a persegui-lo. No meio do caminho houve sim, muito mais ameaça que os temidos moinhos de vento. Esses percalços estão todos na internet a um clique de curiosidade.

Só para uma explanação rápida da primeira tentativa, as filmagens foram interrompidas por aviões de caça que sobrevoavam o set todos os dias, por uma enchente devastadora que mudou paisagens e levou consigo equipamentos da produção, por doenças de atores importantes do elenco e por direitos do filme passado para as companhias de seguro, após a não realização dos trabalhos iniciais.

Avançamos dez anos na história e a tentativa continuou. Em 2008, Terry Gilliam começou a trabalhar numa nova versão do seu projeto. Problemas com os novos atores, agendas de astros convidados e discussões com produtores deixaram novamente o filme na prateleira das mais complicadas produções da história da Sétima Arte.

E, finalmente, outra década depois, estreou o novo delírio do diretor que começou sua carreira no lendário grupo inglês Monty Phyton, destacando-se, no início como o responsável pelas animações do clássico programa de televisão e depois como diretor no filme “Em Busca do Cálice Sagrado”.

Gilliam filma, com mestria, “sonhos” ou “pesadelos”, com preferir o espectador. Suas histórias, muitas vezes não lineares, parecem não fazer nenhum sentido – e outras vezes não fazem mesmo – exatamente como nossas viagens oníricas noturnas.

Seus personagens quase sempre são como o cavaleiro andante. É assim com o funcionário público de "Brazil", com o Barão de Munchausen, com o mendigo que busca o Cálice Sagrado na Nova York contemporânea de “O Pescador de Ilusões”, com o viajante do tempo que tenta evitar uma epidemia em “Os Doze Macacos” ou mesmo com o Dr. Parnassus e seu teatro fabuloso.

Só um adendo: esse último filme citado também demonstra a maré que Gilliam, às vezes, tem que enfrentar para concluir suas obras. Heath Ledger morreu durante as filmagens e o diretor escalou outros três atores: Johnny Depp, Colin Farrell e Jude Law para concluir o filme. Todos fazem o mesmo personagem de Ledger e, por incrível que pareça, funciona muito bem, como mais uma loucura do diretor.

Nada em seus filmes faz muito sentido. Mas se prestarmos atenção, todos os sentidos estão ali para serem absorvidos por olhares atentos, escutados por ouvidos sensíveis, cheirados, tocados, degustados... Exatamente como Quixote de La Mancha fazia diante da vida.

Nesta aguardada – modo de dizer, pois na verdade ela quase foi esquecida pelos admiradores do trabalho de Gilliam – produção, Adam Driver (indicado ao Oscar 2020 por “História de um Casamento”) interpreta um diretor de cinema, Toby, que está filmando justamente, as aventuras de Dom Quixote e seu fiel escudeiro Sancho Pança. Um tanto quanto desinteressado no próprio set, dirigindo o filme no piloto automático e sem uma inspiração digna daquelas que os grandes artistas procuram, a tal produção segue com seus problemas técnicos e com produtores (a metalinguagem em estado bruto).

Em um jantar com a equipe, Toby encontra no tabuleiro de um cigano malandro que vende DVDs piratas, uma cópia de seu primeiro filme, mais propriamente o seu trabalho de conclusão de curso da faculdade de cinema, um curta justamente sobre Dom Quixote que lhe valeu vários prêmios. Entre esses reconhecimentos está o fato de que Toby utilizou moradores locais e não atores em seu trabalho.

Pois bem, lembrando que seu filme de estreia foi realizado a poucos quilômetros do lugar onde estão filmando, o diretor volta para a aldeia que lhe serviu de cenário para reencontrar – mais do que as pessoas com que trabalhou – sua própria vontade de dirigir e a tal inspiração para continuar.

Ele vai direto à casa do sapateiro que atuou como seu Quixote, no curta. Vê fantasmas da sua juventude, justamente aqueles que lhe davam força criativa para seu trabalho. O sapateiro não é encontrado. Em um bar fica sabendo que a filha do dono, uma moça linda e pura que viveu Dulcineia é hoje uma prostituta em Madri. Ele transformou, de alguma forma, o futuro da garota da aldeia, com seu filme.

No caminho de volta para seu set e sua realidade – por mais paradoxal que isso possa soar – Toby encontra uma placa com os dizeres “Dom Quixote Vive”, apontando para um casebre. Ali, um velho e uma mulher ganham a vida vendendo a turistas alguns poucos minutos ao lado do verdadeiro personagem de Cervantes.

Ele entra em um quartinho e em meio a projeções do seu filme estudantil e surge a figura do sapateiro, extraordinariamente vivido por Jonathan Pryce (indicado ao Oscar deste ano por “Dois Papas”), transfigurado em Dom Quixote e que o reconhece, de imediato, como Sancho Pança.

O que se segue é puro Gilliam. Toby foge dali em meio a um incêndio que destrói o casebre. Logo Quixote o encontra na estrada e o arrasta para as loucas aventuras saídas das páginas do clássico livro. Tudo se mistura. O diretor do filme do TCC, o diretor do filme novo, o Sancho Pança e as personagens que surgem, saídas ou não da imaginação de Toby, de Quixote ou da mente montanha-russa visual e dramatúrgica de Terry Gilliam.

O elenco traz ainda as belíssimas Olga Kurylenko, como a mulher do produtor do filme que vive provocando Toby ou uma rainha medieval e Joana Ribeiro, como a doce Dulcinéia ou a endiabrada Angélica, personagens que trocam de personalidade como trocam de figurino e transitam pelo deserto onde está o set de filmagens tão bem como caminham pelos castelos espanhóis. Mesmo que um baile reúna o rei, a rainha, convidados e seguranças com terno preto e óculos escuros. E nossa mente embarca de forma deliciosa nesse delírio.

Aviso importante: sou fã de Gilliam. Encanta-me seus delírios e devaneios de narrativas e imagens, portanto considero “O Homem Que Matou Dom Quixote”, como uma ótima experiência; assim como são seus outros filmes. Gosto da “esquizofrenia” das personagens principais transformadas em ideias de vida e busca por sonhos. Afinal, todos temos um cálice sagrado a buscar. 

Não vou falar mais – apesar da minha vontade – sobre algumas sequências do filme, sobretudo aquelas que acontecem no tal baile medieval – ou não – para que você, fã de Gilliam, do bom cinema narrativo ou simplesmente apreciador de um conto bem narrado, tenha todas as experiências que tive, ao assistir ao filme sem saber muita coisa sobre ele.

No mais, defenderei Quixote com a força de quem tem seu escritório repleto de estatuetas do herói de Cervantes e que, como ele acredita – principalmente no mundo em que vivemos hoje – que sempre pode aparecer um moinho de vento que queira nos devorar. E contra eles devemos erguer nossa espada e sonhar mais um sonho impossível.

Sem comentários.  

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

O Messias ou O que fizeram da nossa Fé?


Paulo Rocco
                                                       

O Messias - Netflix
Inicio esta pequena resenha com questões: por que uma nova vinda de Jesus incomodaria tanto os homens? Por que descobrir que ele não é da aparência ou do jeito que você o vê, pode perturbar-lhe tanto?

O controverso e contraditório escritor Neimar de Barros trata um pouco desse assunto em seu poema “Deus Decepção”, no best-seller “Deus Negro”. Os versos falam sobre um homem racista que, ao morrer e chegar ao céu depara-se com um Deus de raça diferente daquela que o imaginou a vida toda.

Antes de entrar no assunto em pauta, um manifesto contra a censura imposta por um juiz do Rio de Janeiro solicitando a retirada do especial do grupo Porta dos Fundos do catálogo da Netflix. É inconstitucional, é arbitrário, é uma afronta à liberdade de expressão artística.

Experiência pessoal: mesmo gostando do estilo de humor do Porta dos Fundos, dormi as duas vezes que tentei ver o especial em questão. Não é culpa dele, talvez. Era sono mesmo. E mesmo que o tivesse assistido inteiro, isso jamais abalaria minha fé ou minha crença. O fato que aconteceu na cidade maravilhosa, no entanto, abala sim minha desgastada fé na justiça e, sobretudo, no estado atual do país em que vivemos.

Senhor juiz, sinto lhe informar – já que não deve acompanhar a área cultural – que seu abuso de autoridade não foi o primeiro e não será o último em se tratando de questões ligadas a filmes ou livros que trazem Jesus como personagem. Daqui a alguns meses o senhor já terá voltado ao esquecimento de sua existência e outros surgirão na guerra santa pela moral e bons costumes da tradicional família brasileira.

Em 1985, já sobre os ares da Nova República, mas levando na cara os ventos da ditadura militar – como os que sopram hoje em dia – o governo do inoxidável José Sarney proibiu em todo o país o filme “Je Vos Salue, Marie” de Godard. Como bom reacionário, assisti ao filme em uma exibição na Pontifícia Universidade Católica de Campinas, onde estudei.

Três anos depois foi a vez de Scorsese sentir na pele a morta-viva censura brasileira, ao ter sua obra “A Última Tentação de Cristo” – baseada no livro de Níkos Kazantzákis – impedida de ser exibida em várias cidades. Também assisti, em um cinema de Santos.

Em 1991, o ‘ateu’ José Saramago publica “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”. Como é literatura, juízes de plantão – salvo honrosas exceções – não costumam acompanhar essa arte, portanto, a polêmica se restringiu a poucos fanáticos, relativamente.

E assim segue o barco pelas águas turbulentas da arte X religião. Há poucos meses a peça teatral “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu” também sofreu censura. E, claro, vale sempre citar o “polêmico” musical de Andrew Lloyd Weber, “Jesus Cristo Superstar”, que é atacado a cada montagem em qualquer país que seja montado desde sua estreia em 1970. E mais atrás ainda, “O Evangelho Segundo São Mateus”, em 1964, de Pasolini.

Tudo isso para dizer que homens de bem, com poder para calar a voz de artistas, escritores, cineastas, dramaturgos; são de uma inteligência pouco avantajada do ponto de vista publicitário. Explico com um exemplo: o Porta dos Fundos já fez uns quatro ou cinco especiais de Natal. Você ouviu falar dos outros? Pois é.

Quando não é alardeado e amplamente divulgado pelas pessoas que querem proibi-las, as obras passam quase despercebidas pelo grande maioria da população. Em 2007 o livro “A Tumba da Família de Jesus” revela um achado arqueológico que seria justamente o que o título propõe. Ele termina por “convencer” o leitor daquela descoberta. James Cameron, que prefaciou o livro, produziu um documentário com o mesmo título, sobre as escavações. Quanto à veracidade do que foi mostrado, que cada um tire suas conclusões, mas como não foi “proibido”, ninguém correu pra ver.

E agora, quase no fim desse texto, resolvo entrar no assunto que iria tratar desde o começo. A Netflix – ela de novo – lançou a série “Messias”, em dez episódios, que fala sobre a aparição de um líder religioso no Oriente Médio. De início, ele impede a ocupação de Damasco pelo Estado Islâmico, provocando uma tempestade de areia.
A partir desse fato o tal homem é seguido por uma multidão e chamado de messias. Leva seus seguidores à fronteira da Síria com Israel, onde esses refugiados são impedidos de entrar. A movimentação acaba chamando a atenção da CIA e do FBI, obviamente. E o tal messias passa a ser investigado, perseguido e interrogado como suposto líder terrorista.

A ação desembarca no Texas onde um tornado destrói uma cidade inteira e deixa apenas a igreja intacta. E o tal messias – ou al-Masih – aparece por lá também. Seguem-se “milagres”, contradições, dúvidas. O homem é ou não o messias que está de volta. Qual seu nome? O que ele faz é apenas truque de ilusionismo? O termo usado para designá-lo pode ser também traduzido como “falso messias” ou, até, “anticristo” em algumas línguas e crenças.

O que me leva a outra obra literária que a grande mídia não deu muita atenção na época de seu lançamento, em 2001: “O Clone de Cristo”, de James BeauSeigneur. Uma trilogia sobre a tentativa de clonar Jesus com base em DNA preservado no santo sudário. O autor, analista da Agência Nacional de Segurança nos EUA, mistura ciência – mais precisamente ficção científica e religião, citando várias passagens da Bíblia para justificar as ações de Deus em um dos livros para depois – usar as mesmas passagens – para dizer o contrário. Uma bela e empolgante obra, mas que é assunto para outra hora. Voltamos ao Messias da Netflix. 

Quem vai tirar as conclusões é o espectador, diante de uma série tensa, mais política do que religiosa, com bons diálogos, personagens bem delineados e de personalidades complexas – o que às vezes deixa a história central e o próprio messias em segundo plano. E a pergunta principal: o mundo está diante de quê? De um espelho?
Eu gostei do que vi até agora. A trama não termina na primeira temporada, mas o último episódio tem um final que, se não surpreende quem esteja acostumado a ver séries, chega a causar alguma emoção em meio às dúvidas. E não é assim a Fé?

Sem comentários.