sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

A Roda Gigante das Novelas das Nove


Paulo Rocco

Sou noveleiro. Por paixão e profissão amo essa arte televisiva que nos acompanha há décadas, desde que Walter Forster deu a largada da primeira telenovela com o premonitório título “Sua Vida me Pertence” (1951). O país aprendeu a se apaixonar pelas mocinhas, reverenciar os galãs, odiar os vilões e endeusar os deuses – perdão, os autores, das tramas das 6, das 7, das 8 e das 10; pelo menos como era durante décadas.

Hoje, só na Globo – para falar da primeira divisão da teledramaturgia – temos novela às 16, 17, 18, 19 e 21 horas. São cinco histórias diárias acompanhadas por milhões de telespectadores no país inteiro. E, obviamente, fora daqui também.

A última novela alçada ao patamar de “clássico” nos últimos anos foi “Avenida Brasil”. Objeto de teses, estudos e análises detalhadas, a trama de João Emanuel Carneiro deu o que falar e – o mais importante – deu audiência. Uma prova de força é sua repercussão ao ocupar atualmente a sessão “Vale a Pena Ver de Novo”. 

Como citei essa história, vamos fazer aqui um breve “almanaque” das novelas das nove mais recentes, de “Avenida Brasil” (2012) – que substituiu o grande sucesso “Fina Estampa” (2011) de Aguinaldo Silva – até hoje.

Depois da trama de Carminha e Nina, entrou “Salve Jorge” (2012) de Glória Perez que registrou baixos números de audiência, acabou se recuperando no final, mas não como suas antecessoras. A trama fantasiosa da autora se chocou com a “realidade”, sobretudo das classes emergentes C e D, desnudadas no roteiro da avenida carioca.

Para recuperar a audiência no horário, foi chamado aquele que hoje é considerado o “coringa” dos autores, com novelas que inevitavelmente agradam ao público. Walcyr Carrasco estreia sua “Amor à Vida” (2013), apresenta o vilão Félix (Matheus Solano), redime-o e ainda o leva a protagonizar aquele que é oficialmente o primeiro beijo gay entre homens da telenovela brasileira.

Para substituir esse sucesso, entra Manoel Carlos com “Em Família” (2014). Helena, Rio de Janeiro iluminado, jantares chiques e viagens internacionais. Derrapagem, personagens que não agradaram, cortes de capítulos, audiência em queda livre.

Volta ao horário com a difícil missão de reerguê-lo, o criador de Nazaré Tedesco. Aguinaldo Silva nos apresenta “Império” (2014) com uma primeira fase que fisgou o público de imediato, personagens fortes e trama em ritmo acelerado, mas não tresloucado – como descreverei mais adiante.

A história do Comendador José Alfredo, interpretado por um surpreendente Chay Suede no início e por um ótimo Alexandre Nero no restante da novela, conquistou a audiência de pessoas de todas as idades, apresentou coadjuvantes hilários como o Téo Pereira de Paulo Betti e, de quebra, abocanhou o Emmy de Melhor Novela.

Aguinaldo recuperou em “Império” o protagonismo de personagens fortes e poderosos, como as novelas apresentavam nos anos 70 e 80, sobretudo. Nero sucedeu nesse quesito o Lucas Cantomaia (Francisco Cuoco) de “Eu Prometo” – de Janete Clair e o Renato Villar de Tarcísio Meira em “Roda de Fogo”, por exemplo, ou ainda os protagonistas de “Os Gigantes”, ambas de Lauro César Muniz.

A trama do Comendador que teve um final antológico, inspirado cenicamente em filmes do cinema de terror, foi substituída por “Babilônia” (2015), que levou a sério seu título. E veio abaixo.

Gilberto Braga e um time respeitável de colaboradores não conseguiu impedir a rejeição do público. E em uma semana um terço dos espectadores deixou de acompanhar a novela que tinha como cenário uma favela carioca. Um beijo lésbico entre as maravilhosas Fernanda Montenegro e Nathália Timberg repercutiu negativamente nesse país preconceituoso, hipócrita e intolerante em que já vivíamos. Silvio de Abreu foi chamado para interferir na história. Mas a matemática da audiência não perdoou e fez desta a campeã negativa da história da novela das nove.

Curiosamente, no mesmo ano, “Verdades Secretas” era exibida como uma novela das 23 horas. Carrasco apimentou sua trama ao máximo, a Direção bebeu da fonte das séries que faziam sucesso no mercado internacional e a trama teve ótima aceitação.

Para tentar recuperar o tempo e os meses “perdidos”, a emissora traz novamente João Emanuel Carneiro com a ingrata missão de alavancar a audiência e ao mesmo tempo se superar após o mega sucesso. “A Regra do Jogo” (2016) explicita a “caixa cênica” da diretora Amora Mautner que “esconde” a câmara no set e deixa os atores “livres” como se estivessem em um palco. O autor nomeava cada capítulo, aproximando-os de episódios de séries americanas nesse quesito. Não se considera um fracasso, mas a trama com personagens dúbios – a maioria de bandidos mesmo - confundiu o público que foi deixando o barco pelo caminho.

Por falar em barco, depois de quase quinze anos fora do horário principal da emissora, Benedito Ruy Barbosa e o diretor Luiz Fernando Carvalho apresentam a épica “Velho Chico” (2016). A audiência foi decepcionante e a novela sofreu intempéries que dariam um roteiro à parte. Interferência da cúpula da Globo, cortes em cenas, dificuldades de gravação e as trágicas mortes de Humberto Magnani e Domingos Montagner durante as gravações.

“A Lei do Amor” (2016) veio com a tarefa de amenizar o trauma de sua antecessora, trazendo de volta a estrutura mais clássica da teledramaturgia. Maria Adelaide Amaral estreou no horário depois de anos consagrando-se em séries, mas sua história teve a segunda pior média das nove, perdendo apenas para a imbatível “Babilônia”.

Glória Perez volta com “A Força do Querer” (2017) e o título se mostra adequadíssimo, superando em média de audiência as oito últimas novelas das nove, desde... “Avenida Brasil”. A trama que desta vez não saía para algum país exótico – característica até então utilizada pela autora – trouxe personagens fortes e marcantes, como a Bibi Perigosa de Juliana Paes e a Ivana/Ivan de Carol Duarte.

Em seguida entra “Walcyr Carrasco” (que não estava de férias e ocupava o horário das seis com o grande sucesso “Eta Mundo Bão”) com “O Outro Lado do Paraíso” (2017). A trama inspirada em partes no clássico “O Conde de Monte Cristo” – tendo sequências literalmente copiadas do romance de Alexandre Dumas – manteve os ótimos índices de audiência e até os elevou, chegando a empatar tecnicamente com o sucesso de João Emanuel Carneiro. O público comprou a história da mocinha vingativa, tema que já se provou eficaz em várias obras.

E já que lembramos – de novo – do nosso autor referência deste artigo, a próxima trama a ocupar o horário nobre foi justamente dele. João Emanuel estreia “Segundo Sol” (2018). Novamente a audiência de uma obra sua fica abaixo do desejado. Novamente isso é creditado a uma trama confusa. João Emanuel tem uma triste sina: superar João Emanuel.

Para ocupar novamente o horário chega Aguinaldo Silva com o aclamado retorno do “realismo mágico” presente em marcantes obras como “Pedra Sobre Pedra”, “Fera Ferida” e “A Indomada”. “O Sétimo Guardião” (2019) teve problemas de bastidores mesmo antes de sua estreia, mas a publicidade gerada até por estes fatos, aumentou a expectativa em torno da história. Os primeiros capítulos, ao mesmo tempo em que trouxeram cenas clássicas como aquelas do casamento dos filhos de Olavo (Tony Ramos) e Valentina (Lilia Cabral), beberam no estilo dos atuais seriados americanos, sobretudo na escolha da direção, como a sequencia em que o personagem de Bruno Gagliasso é enterrado vivo. Mas tanto mistério e uma linguagem às vezes equivocada da direção (assunto com o qual vou terminar essa epopeia) afastaram o público da “novidade” fantástica e da fonte milagrosa.

Para trazer o espectador de volta à realidade reaparece (!) Walcyr Carrasco e sua fórmula de sucessos. “A Dona do Pedaço” (2019) apresenta Maria da Paz, seus bolos mágicos e uma história de superação – outra característica que o público ama, assim como a vingança. A média de audiência supera as últimas antecessoras perdendo apenas para a trama anterior dele mesmo.  

E chegamos à “Amor de Mãe” (2019) apresentando a novata Manuela Dias no horário mais cobiçado pelos autores. A audiência? Nos últimos anos está à frente apenas de “A Lei do Amor” e “O Sétimo Guardião”. O que nos leva finalmente e muito brevemente a discutir a linguagem utilizada pela telenovela.

Manuela Dias vem de suas séries que obtiveram reconhecimento da crítica e sucesso, “Ligações Perigosas” e “Justiça”. A atual novela das nove estreou utilizando a mesma linguagem das séries, que por sua vez aproximam-se do estilo de produções da Netflix, HBO ou Amazon, por exemplo. Tanto no roteiro quanto na direção. Os primeiros capítulos com ritmo tresloucado – para usar o termo que citei anteriormente – dramas pesados, tragédias nas vidas das personagens, interpretações intensas, gritos – muitos gritos e histeria em alguns momentos; afastaram o público que saboreava os capítulos de “A Dona do Pedaço” como quem come bolo com café numa xícara de agata na tarde chuvosa.

O trio de protagonistas – apesar de boas atrizes – repetem nuances e técnicas que as trouxeram até aqui. Regina Casé, sobretudo. A trilha sonora traz clássicos da MPB, mas isso não “ameniza” o teor pesado dos capítulos (ao estilo, repito, das séries). Conclusão: a Globo já interferiu, solicitando mudanças na história, a eliminação de personagens e alterações na direção, como diminuição das imagens tremidas.

Os autores, mas principalmente os diretores, devem-se ater ao fato de que as linguagens – principalmente audiovisuais – são diferentes. Escreve-se para telenovela, para séries, para cinema. Dirige-se telenovelas, séries e cinema. Uma técnica que funciona em um veículo não necessariamente irá funcionar em outro. Aliás, raramente isso acontece satisfatoriamente.

Um exemplo “ao contrário” foi o belo filme “Olga”, onde o consagrado diretor de novelas Jayme Monjardim levou para os cinemas sua técnica tão aclamada na televisão. Apesar de ter sido um sucesso de bilheteria, incomodou-me, por exemplo, os closes excessivos no rosto dos atores. Apesar dos olhos lindos de Camila Morgado, na tela imensa dos cinemas a profusão de closes não era a melhor opção.

É difícil saber o que o público quer ver, o que dará audiência, o que irá agradar a milhões de pessoas ao mesmo tempo – tarefa ingrata para produtores, roteiristas e diretores; mas há pequenas “previsões” que podem ser feitas. Outro exemplo é a ótima recepção de “Bom Sucesso” no horário das sete e sua divertida sucessora “Salve-se Quem Puder”. A primeira mais séria e emotiva, a segunda mais descompromissada e divertida, mas ambas seguindo uma linha consagrada de se escrever telenovela – para o horário, no caso.

Outro fator da “fórmula” do sucesso é observar nesses últimos anos retratados aqui, nessa roda gigante da novela das nove, quais as cadeirinhas que permaneceram no topo enquanto as de baixo ficavam vazias, aguardando o retorno do público.

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