quarta-feira, 15 de abril de 2020

Dentro de um Abraço


Paulo Rocco

Cléo De Páris como "Liz". 
Uma atriz está em casa quando está no palco. E o palco só tem significado de existir se um ator ou uma atriz estiver sobre ele. Em tempos como o que vivemos – ou sobrevivemos – não há palcos com vida. Eles estão no escuro, frios, inquietos somente com a companhia solitária da luz fantasma. Mas a vida – parafraseando Jurassic Park – sempre encontra um meio. Assim como a atriz.

No caso de Cléo De Páris, artista consagrada no teatro paulistano, o meio encontrado para saciar nossa vontade de vê-la, foi a outrora fria tela do celular, através de lives que honram a tradução da própria palavra. Cléo nos traz vida.

Nesta semana apresentou sua terceira live – que acontecem todas as terças, às 22 horas – direto da sua Macondo, a aldeia criada por Gabriel García Márquez em “A Revoada” e consagrada em “Cem Anos de Solidão”.

A pequena (em duração, tem só 20 minutos) apresentação chamada “Desamparos” é uma encenação teatral. Tem trilha sonora – iniciada pelos sinos da Macondo e pela singeleza de uma caixinha de música; tem iluminação – ora das velas sobre as mesas, ora de um abajur; e tem roteiro – seus textos – onde emoções são atropeladas e há pérolas como “de que adianta ter a chave de uma porta que não existe mais?”.

A Atriz sempre se refere a si mesma em terceira pessoa, como se falasse da autora dos textos que, por sua vez, refere-se também da mesma maneira, como se falasse da Atriz que, por ventura, viesse a interpretar suas palavras. Frases surrealistas que buscam seu lugar no real: “Os banhos de chuveiro elétrico são os melhores conselheiros”. Como Márquez, talvez.

Quando Cléo surge no vídeo, vem caminhando por um gramado iluminado, com uma boneca no colo. Pedaço de sua infância que não foi jogado fora. Como deveriam ser todas as peças boas desse quebra-cabeça chamado vida.

Na mesa do jardim, junto às folhas que esperam para serem lidas, uma taça de vinho e uma vela tremulando conforme a brisa a envolve.
A apresentação também tem Diretor, Fábio Penna, que gira a câmera em determinados momentos para nos fazer passear em torno da protagonista com a flor azul no cabelo. Tem movimentos marcados, mesmo que assim não pareçam. Característica de bons diretores.

Penna também serve de alter ego para nós, espectadores tão perto e tão longe da Atriz. Em determinado momento ela pergunta “Temos bastante tempo?”. E o diretor transforma em palavras o que gostaríamos todos de dizer a ela: “O tempo é seu”.

E assim passa o tempo. A delicadeza de sua voz em contrapartida com as palavras fortes dos desamparos faz com que os vinte minutos pareçam ainda bem menos.

Na última cena, Cléo nos leva a um espaço como uma capela, onde há... Um palco. E estão juntos de novo: o tablado e a Atriz. Corpo e alma do teatro.

Ela lê ali, com uma acústica perfeita, o último texto. De Rafael Primot. De onde surgem frases que necessitamos tanto ouvir: “Hoje só eu mesmo posso enxugar essa lágrimas, mas um dia quem sabe descansarei por longos instantes em seu abraço de novo. E não vou soltar. (...) O que antes parecia tão pouco, descubro aqui que é da imensidão do mar. Faz falta como o ar e me deixa azul de saudades...”.  Azul como a flor no cabelo da Atriz.

Tudo já estava consumado. Nossa alma alimentada por mais uma noite. Abraçada por um sentimento real, puro, palpável de um abraço – hoje impedido – que nos reforça o texto lido no início a nos ensinar que “algumas esperanças não temem que o mundo acabe. Sobreviverão mais que as baratas”.

Mas Cléo ainda nos reservava o epílogo. No espanhol original, destila um trecho da peça “Liz”, de Reinaldo Montero, encenada pelos Satyros – companhia que abriga o talento de Cléo – em 2009, sob Direção de Rodolfo García Vázquez.

Em um instante a atriz desaparece e a personagem surge imponente e visceral. Não houve troca de figurino, de luz, de cenário. Só de persona.

Esse momento me remeteu ao espetáculo “Quadrante” de Paulo Autran onde, em uma cena, ele se transformava na onça do conto “Meu Tio, o Iauaretê”, de Guimarães Rosa. A cena não tinha efeito especial, não tinha luz diferente, não tinha nada e você via o animal no palco. Foi assim com Cléo. Em segundos ela desapareceu para dar espaço à Rainha Elizabeth 1ª.

E ao final do texto, ao soprar da vela, retornamos ao escuro, à realidade difícil. A live acaba bruscamente. Estamos de volta ao mundo em quarentena.

Mas haverá outra live, outra semana. Haverá mais vida. Há abraços por vir. E uma vez dentro deles, não vamos querer sair.

Sem comentários.