sábado, 30 de maio de 2020

Pequeno Almanaque de uma Propaganda de Novelas - Capítulo 4


Paulo Rocco

A deslumbrante Natasha
e o Conde Vlad de "Vamp".
Nesse nosso quarto capítulo sobre as obras mais marcantes da teledramaturgia brasileira, que estarão disponíveis na Globoplay, alguns sucessos incontestáveis que frequentaram nossas salas por tantos anos. Obrigado a todos que estão acompanhando essa viagem e relembrando vidas de personagens que se misturam à nossa.

Fera Radical – 1988. Assim como Walcyr Carrasco em partes de “Chocolate com Pimenta”, Walter Negrão teria se inspirado na peça “A Visita da Velha Senhora”, de Friedrich Dürrenmatt, para escrever essa novela. Para vingar o assassinato de sua família, Cláudia (Malu Mader) cria uma nova identidade e trabalha como empregada na fazenda cujos proprietários são suspeitos pelo crime. A história de amor é entre Cláudia e Fernando, personagem de José Mayer, filho do fazendeiro Altino Flores (Paulo Goulart). A vilania fica por conta de Marília (Carla Camurati) que tem um caso proibido com Fernando, apesar de ser casada com o irmão dele, interpretado por Thales Pan Chacon, falecido precocemente em decorrência da AIDS aos 41 anos, em 1997. Yara Amaral, no papel de Joana, mulher de Altino, também persegue a mocinha. A música de abertura foi gravada pela cantora Solange e mostrava Malu mexendo em um computador com tela ainda com linguagem em DOS. A novela teve 203 capítulos.

Vamp – 1991. Sucesso absoluto. Amada por uma geração, essa novela de Antonio Calmon ganhou uma continuação (“O Beijo do Vampiro”, em 2022) e mais recentemente um musical de sucesso. Não havia um adolescente ou jovem na época, inclusive eu, que não fosse apaixonado pela cantora de rock Natasha, interpretada por Cláudia Ohana. E é ela que chega à pacífica e fictícia cidade de Armação dos Anjos para bagunçar a vida de muita gente. Natasha é uma vampira que se tornou famosa após um pacto com o conde Vlad (papel icônico de Ney Latorraca, repetido nas versões citadas acima). Reginaldo Faria faz o capitão Jonas Rocha, viúvo e pais de seis filhos que se casa com Carmen Maura (Joana Fomm), também viúva e também com seis filhos. Esses 12 foram um sucesso à parte na novela, por suas aventuras ao estilo Goonies. Há também a rádio Corsário (que gerou um disco extra de trilha sonora com a programação a emissora). Outros personagens inesquecíveis são o padre Garotão (Nuno Leal Maia) e a família de vampiros de Matoso, formada por Otávio Augusto, Patrícya Travassos e os filhos Matosão (Flávio Silvino) e Matosinho (André Gonçalves). Impagáveis. Inclusive, Matoso era um vampiro com um só dente. Um momento marcante da novela foi o clip de Vlad e vários mortos-vivos dançando “Thriller” de Michael Jackson, cena repetida nos palcos com Latorraca e Ohana. A trilha sonora rendeu grandes sucessos, como a versão de Cláudia Ohana para “Sympathy for the Devil” dos Stones. A música de abertura era “Noite Preta” cantada por Vange Leonel, que infelizmente nos deixou aos 51 anos de idade. A novela teve 179 capítulos.

Rainha da Sucata – 1990. Silvio de Abreu criou aqui um dos grandes sucessos de sua carreira repleta deles. Os característicos tons de comédia ganharam alguns contornos dramáticos na história de Maria do Carmo (Regina Duarte, pré-tudo isso) que fica rica com o ferro-velho do pai vivido por Lima Duarte. Apaixona-se por Edu (Tony Ramos) que a humilhava na juventude, mas que está à beira da falência. Ela casa-se com ele e vai morar no casarão dos Figueroa, nos Jardins, bairro nobre paulistano. A madrasta de Edu, Laurinha Figueroa (Glória Menezes) passa a infernizar Maria do Carmo, por ser obcecada pelo enteado. Daniel Filho interpreta Renato Maia, um corrupto que aplica um golpe na protagonista e destrói os negócios de Laurinha. Uma cena marcante da novela é o suicídio de Laurinha se atirando de um dos prédios da Avenida Paulista, em uma da poucas vezes que algo assim foi mostrado em uma novela. Para complicar a trama ela tinha nas mãos um brinco de Maria do Carmo. Uma personagem que transcendeu a novela foi a Dona Armênia de Aracy Balabanian e seus filhos interpretados pelos atores Marcelo Novaes, Jandir Ferrari e Gerson Brenner. O bordão “Na chon” era repetido diariamente por milhares de pessoas pelo país afora. A família voltou na novela “Deus nos Acuda”, dois anos mais tarde. Um casal de sucesso da história foi a Adriana, de Cláudia Raia – a “bailarina da coxa grossa” – e o professor gago vivido por Antonio Fagundes.  Marisa Orth com sua Nicinha também construiu uma grande personagem. A música de abertura foi o grande sucesso “Me Chama que eu Vou”, de Sidney Magal e ajudou a alavancar o sucesso da lambada, febre musical na época. A novela foi a primeira da emissora a não ter mais as “Cenas do Próximo Capítulo” e durou 177 capítulos.

Sinhá Moça – 2006. Sinceramente não sei qual das duas versões será colocada no catálogo da Globoplay, então vou falar sobre a mais recente, o remake de 2006, exibido 20 anos após a primeira versão da novela de Benedito Ruy Barbosa. A história de Sinhá Moça (Débora Falabella repetindo o papel que havia sido de Lucélia Santos) que é filha do Barão de Araruna (Osmar Prado no papel defendido por Rubens de Falco na primeira versão) é baseada no romance de Maria Dezonne Pacheco Fernandes e foi um grande sucesso mundial em 1986, o que motivou a nova produção. Abolicionista, Sinhá Moça enfurece o pai com suas ideias e se apaixona pelo advogado Rodolfo (aqui vivido por Danton Mello). Esta obra foi indicada ao Emmy Internacional na categoria de Série Dramática e Milton Gonçalves concorreu ao prêmio de Melhor Ator pelo papel de Pai José. Chico Anysio também chegou a participar da novela. A música de abertura foi gravada por Leonardo. A novela teve 185 capítulos.

Cabocla – 2004. Essa é o mesmo caso, mas acredito que a novela que estará de volta, claro, seja a versão deste ano citado. Escrita pelas filhas de Benedito Ruy Barbosa e supervisionada pelo próprio, é o remake do grande sucesso de 1979. Aqui a história é sobre a disputa por terras e o romance entre a cabocla Zuca (Vanessa Giácomo) e Luís Gerônimo (Daniel de Oliveira). Indo morar no campo para cuidar da saúde, o rapaz se apaixona pela doce mocinha, que desiste do casamento com o peão Tobias (Malvino Salvador). Os atores Tony Ramos e Mauro Mendonça dão vida aos coronéis rivais Boanerges e Justino cujos filhos, no melhor estilo shakespeariano, se amam. Uma curiosidade é que temas polêmicos e que não puderam ser abordados devidamente na primeira versão – graças à Ditadura Militar – voltaram no remake com mais intensidade, como as questões de posse de torre e usucapião. A música de abertura era cantada pelo grupo Madrigal. A novela teve 167 capítulos.

A Viagem – 1994. Outro remake, mas desta vez de uma novela da TV Tupi. A original, de 1975, é uma de minhas primeiras lembranças de novela, de assistir na televisão em preto-e-branco na casa do meu avô. Tenho a imagem nítida na memória dos portões de um jardim que provavelmente era o céu da história. A trama da genial Ivani Ribeiro foi o último grande sucesso da extinta TV paulistana, já começando a ser ameaçada pela Rede Globo. Seguindo a doutrina espírita Kardecista, a autora mostrava vários personagens em suas vidas terrenas e depois de desencarnarem. Alexandre (Guilherme Fontes) é um bandido que se mata na cadeia, após ser condenado por homicídio. Já no Além, é mandado ao vale dos suicidas. De lá ele atormenta a vida na Terra, principalmente daqueles que julga culpados por seu destino. Seu irmão Raul (Miguel Falabella), Theo (Maurício Mattar) que é seu cunhado e o advogado Otávio Jordão (Antonio Fagundes) são os que mais sofrem as ameaças do espírito. Quando sua irmã Dinah (Christiane Torloni), apaixona-se por Otávio, desencadeia de vez a fúria de Alexandre. Sessões espíritas e sequências passadas em um céu ao som de “Crazy” de Julio Iglesias, com coelhinhos brancos dando passeios, completam o cenário. O vale onde fica Alexandre é muito mais sofisticado que o paraíso, do ponto de vista cenográfico. E, ao menos que minha memória aos oito anos seja muito vaga, eu tenho um carinho mais especial pela primeira versão. A música de abertura era a bela canção “A Viagem” do Roupa Nova. A novela teve 160 capítulos.

A Próxima Vítima – 1995. De uma coisa não se pode negar: Silvio de Abreu foi ousado na premissa de algumas de suas tramas. É o caso desse grande sucesso onde o gênero policial invadia de vez a teledramaturgia tradicional como se estivéssemos em um jogo de tabuleiros tipo “Scotland Yard” ou “Detetive”. Um elenco cheio de estrelas como Aracy Balabanian, Cecil Thiré, Susana Vieira, José Wilker, Tereza Rachel, Cláudia Ohana, Natália do Vale, Yoná Magalhães, Gianfrasceco Guarnieri, Rosamaria Murtinho, Viviane Pasmanter, Lima Duarte, Vera Holtz, Marcos Frota, Otávio Augusto e Tony Ramos, entre outros; participavam de uma trama calcada em três questões: “Quem Matou?”, Por que matou?” e “Quem será a próxima vítima?”. Ao todo, onze personagens são assassinados e um Chevrolet Opala preto que segue as vítimas é a única ligação entre os casos. O verdureiro Juca (Tony Ramos) fez tanto sucesso na novela que barracas do mercadão de São Paulo ganharam seu nome, na época. A história se passava na Mooca e no Bixiga, recorrentes também na obra de Silvio de Abreu. Discussões sociais e raciais, com uma família negra bem sucedida, formada por Antônio Pitanga e Zezé Motta e a relação homossexual de Sandro (André Gonçalves) e Jefferson (Lui Mendes) foram outros pontos marcantes da novela. Se um “quem matou?” em novela já instiga o público, aqui a ferramenta foi usada em série. O tema de abertura era “Vítima”, de Rita Lee. A novela teve 203 capítulos.

Continua...

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quinta-feira, 28 de maio de 2020

Pequeno Almanaque de uma Propaganda de Novelas - Capítulo 3


Paulo Rocco

Italianos desembarcam no porto
de Santos em "Terra Nostra". 
Nesse terceiro capítulo da nossa volta ao passado através das obras mais marcantes da teledramaturgia brasileira, que estarão disponíveis na Globoplay, é possível notar o que, na verdade, sempre soubemos: somos os melhores do mundo na arte da telenovela. Impossível não notar a diversidade de tramas, personagens, cenários e tudo o mais que envolve a produção dessa fábrica de sonhos.

Por mais que leigos insistam em dizer que “novelas” são todas iguais, desafio a você, caro leitor, a encontrar nessa próxima lista de resenhas, histórias idênticas ou personagens parecidos. Claro que há uma “fórmula” quase sempre seguida pelos autores, que é a base do sucesso dessa Arte, mas a criatividade e a busca pelo novo – dentro do gênero obviamente – mesmo que sejam seguidas “regras”, resultam em obras que, aos olhos do público sempre se tornam únicas e inesquecíveis.

A Indomada – 1997. Aguinaldo Silva e Ricardo Linhares escreveram esse grande sucesso calcado no gênero do realismo fantástico, uma das marcas dos autores e que surgiu nas telenovelas brasileiras em “Saramandaia”, de Dias Gomes. A alcunha vem de uma forma de literatura do início do Século 20 e que ganhou força das décadas de 60 e 70 na América do Sul, sobretudo com Gabriel García Márquez e Arturo Uslar Pietri. Mas nosso foco aqui é a novela. A história se passa em Greenville, uma das muitas cidades criadas por Aguinaldo e onde se mistura o inglês dos colonizadores e o nordestino, em um dialeto peculiar e divertidíssimo. Eva Wilma interpreta a vilã Altiva – um de seus grandes papéis de uma lista imensa – e Ary Fontoura é o deputado Pitágoras, representantes nobres da corrupção local. A mocinha Helena é vivida por Adriana Esteves, filha de Zé Leandro (Carlos Alberto Riccelli), que morre em um naufrágio com a amada Eulália (também interpretada por Esteves na primeira fase), após ter conseguido enriquecer no garimpo. Helena é a única sobrevivente e vai estudar na Inglaterra antes de voltar e sofrer nas mãos de Altiva. Personagens impagáveis garantiram o sucesso da trama, como a prostituta Zenilda (Renata Sorrah), o prefeito Ipiranga Pitiguari (Paulo Betti) e sua esposa Scarlet (Luzia Tomé) – que voltaram a aparecer na recente “O Sétimo Guardião” – e a juíza Mirandinha (Betty Faria). Personagens que “voltam” também são constantes na obra do autor, como Pitágoras que esteve também em “Porto dos Milagres”. Alguns tiveram finais “mágicos” como Manoel (Selton Mello) que vira um anjo e Motinha, o delegado interpretado por José de Abreu, que cai num buraco indo direto para o Japão. Claro que não dá pra falar dessa novela sem citar o Cadeirudo, uma misteriosa figura que atacava as mulheres em noites de lua cheia. A música de abertura era instrumental. A novela teve 203 capítulos.

Torre da Babel – 1998. Essa obra de Silvio de Abreu foi de cara “rejeitada” pelo público. Acostumados à trama lebloniana de “Por Amor”, o telespectador se deparou com uma história que já iniciava com José Clementino (Tony Ramos) matando a mulher após flagrá-la em traição com dois homens. Ele mata também um dos homens e é condenado a 20 anos de prisão. Como sempre interpretava heróis românticos, o personagem de Ramos casou estranheza. Ao sair da cadeia, Clementino decide explodir o shopping Tropical Towers, de propriedade de César Toledo (Tarcísio Meira) tido como a testemunha-chave de sua prisão. Quando se apaixona por Clara (Maitê Proença), Clementino desiste da vingança. Mas alguém explode o shopping, deixando muitos mortos e feridos. Recheada de temas fortes para a época como drogas, homossexualismo e violência, a novela gerou mais polêmica que audiência. Christiane Torloni e Silvia Pfeiffer viviam as lésbicas Rafaela e Leila e Cláudia Raia era a psicopata Ângela. Com essa “inversão” de papéis de alguns atores e atrizes, a novela ficou marcada de forma não muito positiva, mesmo com mudanças na história por parte de Silvio, como a personalidade de José Clementino. Isso cabe dentro do que citei no primeiro parágrafo, talvez, sobre a inovação e a fórmula. Mas merece ser revista hoje. Um destaque que caiu nas graças do público foi Cacá Carvalho e seu inesquecível Jamanta. Uma curiosidade que demonstra o “poder de Deus” de um autor: Vários personagens rejeitados pelo público morreram na explosão do shopping. A música de abertura era um épico instrumental de Alberto Rosenblite, gravada com um coral poderoso. A novela teve 203 capítulos.

O Fim do Mundo – 1996. Foi a última novela escrita pelo genial Dias Gomes – ele viria a escrever ainda a adaptação de “Dona Flor e Seus Dois Maridos” para minissérie em 1998, um ano antes de sua morte em um acidente de carro. “O Fim do Mundo” era para ser originalmente também uma minissérie exibida às 22 horas, mas vários fatores a transformaram na mais curta novela das oito. Em seu lugar seria exibida “O Rei do Gado”, que substituiria “Explode Coração”, de Glória Perez, mas a novela de Benedito Ruy Barbosa estava com a produção atrasada. Decidiu-se então colocar a trama de Dias Gomes que se passa na fictícia Tabacópolis onde o paranormal Joãozinho de Dagmar (Paulo Betti) prevê a destruição do mundo dali a três meses. As personagens passam a correr contra o tempo para realizarem seus desejos mais secretos, que incluem desde a perda da virgindade pelas mocinhas até a soltura de detentos da prisão e loucos do hospício. Obviamente o mundo não acaba – não daquela vez – e todos tem que arcar com as consequências de suas loucuras. A música de abertura, claro, era “O Último Dia”, de Paulinho Moska. A novela teve apenas 35 capítulos o que, em minha opinião, deve torná-la uma das mais vistas no novo formato, por sua proximidade de duração com as atuais séries de streaming.

Terra Nostra – 1999. Essa é clássica também, não desmerecendo todas as outras, claro. Mas ela tem um tom de filme épico, da Era de Ouro de Hollywood. Talvez uma das mais caras produções da Globo. Benedito Ruy Barbosa nos trazia, na passagem entre os séculos XIX e XX, a história do romance entre Matteo (Thiago Lacerda) e Giuliana (Ana Paula Arósio), personagens da vida do casal de atores. Em 1894 os jovens italianos embarcam em um navio para o Brasil. Uma epidemia atinge a embarcação e a mocinha fica órfã. Os corpos dos doentes são jogados ao mar para evitar que a peste se espalhe (tenho arrepios ao escrever isso agora por razões óbvias). Uma cena fortíssima da novela e que arrebatou o público foi quando iam jogar um bebê ao mar, pensando ter morrido e ele chora segundos antes de ser atirado às águas. A novela foi toda carregada de fortes cores, seja na fotografia deslumbrante ou na construção das personagens e cenas. O casal principal chega ao nosso país e, claro, se perde um do outro, para que a clássica fórmula (de novo lembro a introdução desse artigo) se cumpra. Atores como Raul Cortez e Antonio Fagundes agigantam o sentido de épico que teve mais de cinco mil peças de figurinos confeccionadas e a adaptação de um navio a vapor de 1940 para se tornar o Andrea I da história. As cenas de embarque dos italianos foram filmadas em Southampton, na Inglaterra e no Canal da Mancha e reuniu cerca de 300 figurantes. O desembarque foi gravado no porto de Santos. Dois anos antes James Cameron emocionava o planeta com “Titanic” e algumas tomadas da novela foram inspiradas pelo filme americano. O tema de abertura era “Tormento d'Amore” nas vozes perfeitas de Charlotte Church e Agnaldo Rayol e se tornou um grande sucesso. A novela teve 221 capítulos.

A Gata Comeu – 1985. Ivani Ribeiro era o pseudônimo de Cleide Freitas Alves Ferreira, autora de 39 novelas e uma das precursoras do gênero. Entre seus clássicos absolutos estão “A Viagem”, “Mulheres de Areia” e “O Profeta”. Todos ganharam remakes, inclusive. Para se ter uma ideia da importância de Ivani, ela era admirada pela “maga das oito”, Janete Clair e por diversos teledramaturgos. “A Gata Comeu” é uma adaptação de sua novela “A Barba Azul”, exibida na TV Tupi nos Anos 70 e conta a história de Jô Penteado (Christiane Torloni) que fica noiva sete vezes sem nunca ter se apaixonado de verdade. Em uma excursão acaba ficando presa em uma ilha deserta onde se apaixona pelo professor Fábio Coutinho (Nuno Leal Maia). Claro que a história de amor terá seus reveses principalmente por culpa da noiva de Fábio, Paula (Fátima Freire) e Gláucia (Bia Seidl), irmã de Jô. O tema de abertura era “Comeu”, de Caetano Veloso, gravada pela Magazine, a banda de Kid Vinil. A novela teve 167 capítulos.  

Explode Coração – 1996. A novela do cigano Igor. Claro que é uma brincadeira, a trama de Glória Perez é muito mais do que essa lembrança do papel de Ricardo Macchi que, de uma forma ou de outra, era tema de conversas e revistas de TV. Na história, a cigana Dara (Tereza Seiblitz) estuda sem os pais saberem e esconde sua origem dos amigos, com medo de ser repreendida por Jairo (Paulo José), seu pai e Lola (Eliane Giardini), sua mãe, adeptos das tradições ciganas. Em um avanço digno das novelas de Glória, a moça se envolve, pela internet – apenas 10 anos após a rede ter chegado ao Brasil e na época em que surgiram os primeiros portais por aqui – com o empresário Júlio Falcão (Edson Celulari), apesar de prometida ao cigano Igor. Dara engravida de Júlio, mas mesmo assim Igor aceita se casar com ela. A questão é como comprovar a virgindade da moça, exigida pela tradição cigana. O cigano faz um corte no próprio pulso e mancha a saia dela de sangue, em uma cena marcante da trama. O núcleo cômico tem Regina Durado e Rogério Cardoso como o divertido casal Lucineide e Salgadinho. A questão social tão forte nas tramas da autora também aparece, sobretudo, na exploração do trabalho infantil e no desaparecimento de crianças. Fotos e depoimentos divulgados pela novela ajudaram a encontrar várias crianças desparecidas de verdade. Empresas se uniram a isso e participaram da campanha imprimindo em suas embalagens fotos de crianças que eram procuradas. O tema de abertura era uma música cigana instrumental e as imagens de Hans Donner mostravam um homem pesquisando as tradições em tela touchscreen – quase uma ficção científica na época – bem parecida com as que temos hoje. A novela teve 185 capítulos. 

Continua...

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quarta-feira, 27 de maio de 2020

Pequeno Almanaque de uma Propaganda de Novelas - Capítulo 2


Paulo Rocco

Carolina Dickermann em cena de
"Laços de Família". 
Continuamos aqui nossa aventura por algumas das obras mais marcantes da teledramaturgia brasileira que estarão de volta no serviço de streaming Globoplay. A importância de termos disponíveis essas histórias ultrapassa a curiosidade de quem não viu e o fato de se tornarem objetos de estudos de especialistas no assunto.

Em minha opinião, para muitas pessoas, rever essas novelas que durante meses nos acompanharam todas as noites, dentro de nossa casa e de nossa vida, tem o pode de nos levar de volta ao tempo, de recordar fatos e pessoas ligadas a essas determinadas épocas em que as histórias eram exibidas e repensarmos os caminhos trilhados desde então por cada um de nós.

Não é possível dissociar, principalmente em se tratando de alguns anos atrás, a novela do cotidiano brasileiro. Se puxarmos pela memória será possível uma viagem ao ano em que cada uma invadia nossa sala com suas mocinhas sofredoras, seus vilões sem escrúpulos, suas fantasias mirabolantes e seus grandes casos de amor. E, claro, com raras exceções, seus indefectíveis finais felizes. Voltemos então, não para pensar com amargura nos sonhos que tínhamos, mas para termos, nessa indústria da imaginação, inspiração para retomá-los ou criar novas aspirações.

Laços de Família – 2000. Talvez uma das mais icônicas cenas de teledramaturgia brasileira esteja nessa novela de Manoel Carlos. Impossível a quem assistia TV nesse ano, não se lembrar de Carolina Dickermann raspando o cabelo ao som de “Love By Grace”, da Lara Fabian. Sua personagem, Camila, tinha leucemia. Helena (Vera Fischer) era mãe de Camila e abre mão de seu namorado Edu (Reinaldo Gianecchini), vinte anos mais novo que ela e por quem a filha tinha se apaixonado. A chance de Camila é um transplante de medula o que faz com que Helena tenha que revelar quem é o pai misterioso da menina, vivido por José Mayer. Mayer nessa novela fez jus à sua fama de conquistador, com seu personagem se envolvendo com Silvia (Eliete Ciganrini), Cínthia (Helena Ranaldi) e Íris (Deborah Secco). A trama de Capitu (Giovanna Antonelli), uma universitária que trabalha como garota de programa para sustentar os pais fez muito sucesso com o público, assim como outras tramas paralelas como o casal vivido por Marieta Severo e Alexandre Borges: Alma e Danilo. Ele acaba tenho um caso com a empregada Ritinha (Juliana Paes) e a engravida de gêmeos. Após a mãe morrer no parto, Alma aceita criar os bebês. A Globo ganhou, por essa novela, o prêmio BITC Awars for Excellence, o mais importante na época para valorizar responsabilidade social pelo mundo. O fato se deu pela abordagem da leucemia e o aumento significativo de doações de sangue e medula óssea no Brasil, naquele ano. Outro fato importante abordado foi com o ator Flávio Silvino que interpretou um jovem com sequelas neurológicas semelhantes às suas, decorrentes de um acidente sofrido. A abertura era ao som de “Corcovado”, de Tom Jobim, gravada em inglês. A novela teve 209 capítulos.

Estrela-Guia – 2001 – Essa não tem como, será lembrada para todo o sempre como a novela da Sandy. De autoria de Ana Maria Moretzsohn, trazia um “embate” entre o mundo místico de sociedades alternativas e a ciência. Cristal, interpretada pela cantora vivia em Jagatah, no interior de Goiás e se apaixona por Tony (Guilherme Fontes), seu padrinho e tutor, após a morte de seus pais. Ela se muda para o Rio de Janeiro e enfrenta preconceitos e os ciúmes de Vanessa (Carolina Ferraz). Lilia Cabral faz uma mulher ambiciosa que tenta acabar com a paz dos moradores de Jagatah, que teve sua criação inspirada na comunidade Fraterunidade, localizada em Pirinópolis. Cumpriu sua missão de “novela das seis”, mas Sandy não conseguiu desassociar sua imagem já consagrada da personagem. Cristal ficou em segundo plano. A música da abertura com imagens oníricas era “Imagine”, de John Lennon, gravada por Paulo Ricardo. Rodrigo Santoro, hoje ator hollywoodiano, estava no elenco. A novela teve apenas 83 capítulos.

Chocolate com Pimenta – 2003. Esse grande sucesso se Walcyr Carrasco teve inspirações clássicas, segundo o autor, para ser escrito. Ele teria se baseado em obras como a opereta “A Viúva Alegre”, de Franz Lehár, escrita em 1905 e na peça teatral “A Visita da Velha Senhora”, de Friedrich Dürrenmatt, criada em 1956. A história se passa na fictícia cidade de Ventura, onde Ana Francisca (Maria Ximenes) vive um romance com Danilo (Murílio Benício). A vilã é a ciumenta Olga, vivida por Priscila Fantin, que dedica sua vida a separar o casal. Ana começa a trabalhar na fábrica de chocolates que movimenta a economia da cidade como faxineira e se torna amiga de Ludovico (Ary Fontoura), sem desconfiar que ele é o dono da empresa. Ele se disfarça de simples funcionário da própria fábrica. Ana engravida, mas por uma armação de Olga e da tia de Danilo (Lilia Cabral), acaba se separando dele. Ludovico então propõe casamento à Ana, revelando sua verdadeira identidade, para dar um nome à criança. Eles se mudam para Buenos Aires e Ana, quando volta, torna-se uma dama elegante, repetindo a clássica história já vista em várias e várias obras – e que amamos. Elizabeth Savala faz brilhantemente a vilã Jezebel, irmã de Ludovico. Uma história paralela que gerou comentários e acabou sendo um sucesso foi justamente de Bernadete/Bernardo (Kayky Brito), filha adotiva de Jezebel. A empregada da casa, mãe biológica, entrega o bebê para a patroa que desejava uma menina, sem dizer o sexo. A verdade só é revelada quando Bernadete vai se casar e adota o nome masculino. A divina Laura Cardoso e Osmar Prado interpretaram Carmen, avó de Ana e Margarido, seu tio, no divertido núcleo caipira da história. A música da abertura era, claro, “Chocolate com Pimenta” com Deborah Blando. A novela teve 209 capítulos.

Selva de Pedra – 1986. Também já pode ser considerada um clássico, embora não se trata de versão original escrita por Janete Clair em 1972. Nesse remake assinado por Regina Braga e Eloy Araújo, Tony Ramos interpreta Cristiano Vilhena, acusado de homicídio que foge para o Rio com Simone (Fernanda Torres), única testemunha de sua inocência. Christiane Torloni faz Fernanda, que se apaixona por Cristiano e tem a ajuda de Miro (Miguel Falabella) para separar o casal principal. Simone é perseguida pelo vilão e, após sofrer um acidente, é dada como morta. Simone volta com nova identidade. O remake manteve as tintas fortes na personalidade dos personagens, característica de Janete e, como sua obra inspiradora, tornou-se um grande sucesso. A abertura, um belo trabalho de Hans Donner, trazia como tema a versão instrumental e modernizada de “Rock And Roll Lullaby”, que estava presente na trilha da novela original. A novela teve 150 capítulos.  

O Clone – 2001. Glória Perez, uma das herdeiras criativas de Janete Clair – sua primeira novela foi justamente “Eu Prometo” da qual era colaboradora e teve que terminar de escrever sozinha após o falecimento precoce de Janete aos 58 anos, abordou aqui um tema que há apenas cinco anos fazia parte da cultura mundial: a clonagem. A ovelha Dolly, primeiro mamífero nascido a partir da clonagem de uma célula adulta, surgiu em 1996 e foi apresentada ao mundo em 1997. Como uma ótima autora ficcional, Glória foi além. Em sua novela, o clone já era humano. Lucas (Murílio Benício) conheceu Jade (Giovanna Antonelli em sua primeira protagonista) durante uma viagem ao Marrocos. O irmão gêmeo de Lucas, Diogo sofre um acidente e morre. Abalado pela morte do afilhado, o cientista Albieri (Juca de Oliveira) decide clonar Lucas sem que ninguém saiba do experimento. Passam-se vinte anos. Lucas está casado com outra mulher e tem uma filha. Jade está casada com Said (Danton Vigh) e também tem uma filha, Khadija, papel que caiu nas graças do público na pele de Carla Diaz. O clone, Leo, tem Albieri com padrinho, mas não sabe de sua origem. Em viagem ao Marrocos, Leo vê Jade e se apaixona, exatamente como Lucas anos atrás. Ao descobrir a verdade sobre sua vida, tenta descobrir seu lugar no mundo. Mas não é assim com todos nós? “O Clone” estreou menos de um mês após os atentados de 11 de Setembro e o fato de ter a cultura islâmica como pano de fundo, preocupou a Globo quanto sua aceitação, mas a novela foi um grande sucesso. Não havia uma pessoa no país que não soltava um “inshalá” vez ou outra no dia. A trama ainda trazia o núcleo do bar da Dona Jura (Solange Couto) que emplacou outro bordão famoso: “Não é brinquedo, não”. Os atores tiveram aulas de dança, de costumes, rituais religiosos e expressões árabes além, claro, de noções sobre técnicas de clonagem. Glória e o diretor Jayme Monjardim foram premiados pelo FBI e pelo DEA, órgãos americanos de combate às drogas, pela campanha desenvolvida através dos personagens de Débora Falabella, Tiago Fragoso e Osmar Prado, procurando mostrar o perfil dos usuários e a busca por tratamento. A música de abertura era “Sob o Sol” de Marcus Viana, Malu Aires e a Transfônica Orkestra. A novela teve 221 capítulos.

Continua...

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terça-feira, 26 de maio de 2020

Pequeno Almanaque de uma Propaganda de Novelas - Capítulo 1

Paulo Rocco
Capítulo 1

Isadora Ribeiro na
abertura de "Tieta".
Tem uma coisa que todo publicitário deveria saber: se quiser atingir certo público seletivo com uma publicidade, basta colocar um clássico de Roberto Carlos como trilha sonora. Não tem erro.

Foi o que aconteceu comigo, por exemplo, enquanto telespectador, quando passava pelo corredor e começou a tocar “O Portão” em uma propaganda de televisão. Corri para a sala imediatamente e ao ver do que se tratava fiquei feliz e emocionado como quem volta, após anos de ausência, ao seu local preferido.

Estou me referindo à propaganda da Globoplay sobre as clássicas novelas brasileiras que estarão de volta no serviço de streaming, uma a cada duas semanas, sendo que a primeira, enquanto escrevo estas linhas, já está disponível aos assinantes.

Ao ver os títulos – contei 43 deles – foi inevitável uma volta ao passado e com tudo o que uma viagem assim tem direito. Lembranças de capítulos, pares românticos, vilões, músicas, pessoas que passaram por nossas vidas, acontecimentos, tempos melhores, tempos difíceis, carros, viagens, lugares, amigos, namoradas, cheiro de saudades.

Por estas razões, entre outros fatores, reprises de novelas - sobretudo de "Fina Estampa" que é a mais antiga no ar nesta quarentena - tem feito tanto sucesso. 

Nossa conexão com uma obra artística tem o poder inevitável de transcender a arte onde ela está alocada e trazer suas percepções para nossa vida. Isso acontece com filmes, com peças teatrais, com música, com literatura e, claro, com telenovelas e programas de televisão.

Então me propus a escrever aqui um breve almanaque em capítulos – muito resumido e pessoal, obviamente – envolvendo os quarenta e três títulos de novelas brasileiras que teremos a oportunidade e, por que não dizer, o grande prazer de rever. 

Para quem as assistiu será como uma deliciosa brincadeira, um jogo de memória onde as cartas serão viradas uma a uma. Quem não teve a oportunidade de ver, seja bem vindo a uma época não tão distante, mas carregada de uma magia que influenciou gerações, inclusive a sua.

Em 2015, a Globo comemorou 50 anos da criação de novelas que a elevaram ao patamar de uma das melhores do mundo – se não a melhor – produtora do gênero no planeta. E, claro, todos os títulos citados a seguir são dela. E a ordem é a que aparece na chamada comercial:

Pai Herói – 1979. Um enorme sucesso de autoria da “maga das oito”, como era conhecida a genial Janete Clair.  A novela contava a história de André Cajarana (Tony Ramos) que tentava descobrir a verdadeira história de seu pai Malta Cajarana (Lima Duarte). O par romântico foi formado por André e a bailarina clássica Carina (personagem da maravilhosa Elizabeth Savala). E o vilão, um dos grandes da nossa teledramaturgia foi Bruno Baldaracci, magnificamente – claro – vivido por Paulo Autran. Eu tinha 12 anos quando foi ao ar e me lembro bem da novela. A abertura era ao som da icônica canção do Fábio Júnior. Dois espetáculos de ballet foram montados para a novela: “Lagos dos Cisnes” e “Gisele”, ambos com a participação de bailarinos franceses. A novela teve 178 capítulos.

Baila Comigo – 1981. Manoel Carlos traz a maravilhosa história dos gêmeos João Victor e Quinzinho (Tony Ramos) que não sabiam da existência um do outro. Tony usou somente recursos de voz e de expressão corporal, sobretudo, para distinguir os irmãos, em uma atuação elogiadíssima até hoje. Lilian Lemmertz – incrível – foi a primeira Helena de uma série de personagens do autor como o mesmo nome. Uma cena marcante: o encontro dos irmãos. Um assunto importante: o preconceito racial abordado no romance entre as personagens de Beatriz Lyra e Milton Gonçalves, que causou polêmica naquele início da Década de 80. Na abertura, a música homônima gravada por Rita Lee, em versão instrumental. A novela teve 162 capítulos.

Tieta – 1989. Obviamente cercada de grande expectativa por ser inspirada em uma obra de Jorge Amado, a novela de Aguinaldo Silva, Ana Maria Moretzsohn e Ricardo Linhares foi ainda além. Desde a abertura com a deslumbrante Isadora Ribeiro nua – que seria certamente censurada nesses tempos hipócrita e politicamente corretos em que vivemos – mesclando-se a natureza de Mangue Seco na Bahia (um dos lugares mais lindos que conheci)ao som da contagiante música de Luiz Caldas, a novela tirava o brasileiro da realidade onde o presidente eleito – o primeiro de forma direta após anos – era Fernando Collor de Mello. A história era conhecida: após 25 anos depois de ter sido expulsa pelo pai, Tieta volta à Santana do Agreste, rica, maravilhosa e decidida por vingança sobre quem a maltratou. Curiosamente – e um dos grandes momentos da novela, já no início – ela volta justamente no dia em que a cidade estava fechada para celebrar uma missa em sua memória. Sua chegada muda a vida da pequena vila de pescadores. Personagens memoráveis como o prefeito Artur da Tapitanga (Ary Fontoura) e suas rolinhas e Ascânio (Reginaldo Faria), entre outros, viviam em Santa do Agreste. A verve do realismo mágico de Aguinaldo Silva surgia na “mulher de branco”, uma assombração que atacava os homens da região e era vivida pela linda Cláudia Alencar. Mas a personagem que o público elegeu como a favorita foi a vilã Perpétua, irmã da protagonista, um dos melhores papéis da carreira de Joana Fomm. O conteúdo de sua caixa branca, revelado somente no final da trama, era assunto em todos os lugares. A novela teve 196 capítulos.

Porto dos Milagres – 2001. Mais uma de Aguinaldo Silva e Ricardo Linhares. E mais uma adaptação de Jorge Amado. Na verdade juntando dois livros: “Mar Morto”, de 1936 e “A Descoberta da América pelos Turcos”, de 1994; a novela trazia personagens inesquecíveis como a Rosa Palmeirão de Luiza Thomé, além dos protagonistas Félix (Antonio Fagundes) e Adma (Cássia Kiss). Quando o casal volta para Porto dos Milagres, descobre que o irmão gêmeo de Félix é um homem poderoso e Adma o mata envenenado. O irmão toma seu lugar. Na abertura, um fundo de mar maravilhoso ao som de Gal Costa cantando “Caminhos do Mar”. A novela teve 203 capítulos.

Vale Tudo – 1988. Ainda continuando nas autorias de Aguinaldo Silva, aqui com Gilberto Braga e Leonor Bassères, essa novela é um clássico absoluto da nossa teledramaturgia. A abertura já rasgava nosso dia-a-dia com a versão de Gal Costa para o hino de Cazuza. Um mosaico formava a bandeira brasileira – quando ela ainda não era usada de forma tão leviana como hoje – deixando transparecer justamente o que a novela era, um retrato do país de Sarney, comandante da nova república após o falecimento da esperança em Tancredo Neves. A íntegra Raquel (Regina Duarte) e seu embate com a inescrupulosa filha Maria de Fátima (Glória Pires) era o fio condutor de uma trama recheada de corrupção, personagens sempre querendo se dar bem às custas dos outros e uma das maiores vilãs da nossa história, a poderosa empresária Odete Roitman. Ela também protagonizou um dos mais famosos “Quem matou?” da nossa teledramaturgia (só comparado ao assassinato de Salomão Ayala em “O Astro”). O homossexualismo foi abordado no romance entre as personagens de Cristina Prochaska (Laís) e Lala Deheinzelin (Cecília) e a censura interviu, obrigando os autores a reescreverem vários diálogos. A cena inesquecível em meio a tantos finais onde os vilões se deram bem: Marco Aurélio (Reginaldo Faria) foge do país com a assassina Leila dando uma banana para o Brasil, a bordo de um jato. A novela teve 204 capítulos e foi exibida em mais de 30 países.

Bebê a Bordo – 1988. Depois do sucesso de “Vereda Tropical”, sua estreia como autor titular, Carlos Lombardi trouxe mais intensamente para a teledramaturgia elementos próximos da linguagem do cinema – e de desenhos animados – e dos quadrinhos, na maneira como algumas cenas eram construídas, sobretudo na criação de personagens e estética. Em meio a Perseguições, elementos da comédia pastelão, interpretações às vezes caricatas – sem, no entanto, perder a “humanidade” e muita bagunça organizada, o telespectador poderia até esperar que uma bigorna caísse do céu e atingisse algum dos vilões. Esse era o espírito da trama que começava com Ana (Isabela Garcia) dando à luz no carro de Tonico (Tony Ramos) e abandonando o bebê para fugir da polícia. Ana não sabe ao certo quem é o pai da criança que tem entre os candidatos o Zezinho interpretado por Léo Jaime. Um destaque fica para as cenas onde Ângela (Maria Zilda Bethlem) se apaixonava pela voz do locutor de rádio vivido por José de Abreu. Seus sonhos e fantasias sensuais eram sempre momentos cinematográficos. A abertura era ao som de Eduardo Dusek com a música “Amor e Bombas” e mostrava anjos preparando vários bebês como uma linha industrial para a cegonha entregar. A trama foi a última novela da atriz Dina Sfat, falecida em 1989. A novela teve 209 capítulos.

Continua...

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terça-feira, 19 de maio de 2020

Pra não Dizer que Não Falei da Besta


Paulo Rocco

Sam Neill em cena de "A Profecia 3". 
Alerta de spoiler: Se você não gosta de verdades além das que recebe pelo whatsapp é bom parar por aqui. Agora, se você continua lendo é por sua conta e risco. São cinco laudas. Se já vai, obrigado pela preferência. Volte sempre. Bom dia, boa tarde, boa noite.

Vamos à saga. Às vezes posto nas redes sociais alguma crítica, brincadeira ou mesmo informação sobre excelentíssimo que ocupa a cadeira da presidência de república. Faço-o por duas razões: sou também Comunicador Social, escrevi sobre quase todos os ex-presidentes, governadores, prefeitos e etc. Fui vereador por quatro anos em minha cidade natal e trabalhei muito com política pública e assessoria de comunicação. Sei do que estou falando. Conheço a raça de perto.

A outra razão: o hábito adquirido durante anos de profissão quando nós, jornalistas ou articulistas, éramos reconhecidos como “formadores de opinião”.

Em cidades pequenas, por exemplo, um formador de opinião que escrevia, dirigia a redação ou possuía um jornal tinha até mesmo o “poder” de eleger prefeitos ou vereadores e, da mesma forma, tirá-los dos respectivos cargos se assim fosse merecido. Tudo isso influenciando os leitores, baseado em fatos, acusações ou elogios.

E por que a alcunha? Porque para “formar” uma opinião e passá-la a um grande número de pessoas, em um passado não tão distante, era necessário ter estudo, bom senso, responsabilidade e principalmente conhecimento sobre aquilo que se falava ou escrevia.

Depois de ter escrito em jornais – seja os da minha cidade no interior – seja um dos maiores jornais do país; hoje em dia exercito minhas mal traçadas linhas em blogs e redes sociais, claro, sem ter abandonado, vez ou outra, uma publicação em veículo impresso.

Então, se você continua lendo até aqui é porque costuma me acompanhar nessa aventura atual de redigir como se as palavras fossem um leve sereno que pela manhã já terá se dissolvido.

Nós jornalistas não temos mais a intenção de formar a opinião de ninguém. Seria pretensão e megalomania, já que as opiniões vêm formadas de berço virtual e – o mais perigoso – sobre todo e qualquer assunto. Principalmente nesse país onde, para muitos, a mensagem infundada do grupo de whatsapp tem a força de um decreto presidencial.

Mas digamos que em uma viagem mais nonsense que a música “Astronauta de Mármore”, eu resolvesse interpretar aqui trechos da Bíblia, em um exercício ficcional, obviamente, mais precisamente do livro que mais se aproxima do nosso momento atual: o Apocalipse; relacionando-os com nossa triste realidade. Todos os versículos citados em itálico são do livro do Apocalipse, capítulo 13.

E adoraram o dragão que deu à besta o seu poder; e adoraram a besta, dizendo: Quem é semelhante à besta? Quem poderá batalhar contra ela?

O primeiro versículo é claro: O dragão que deu à besta o seu poder deve ter sido o Partido dos Trabalhadores. Não aquele embrião lá de trás com suas lutas inglórias e batalhas necessárias. Falo do PT que traiu a si mesmo, aos criadores e aos políticos e pensadores sensatos que acreditavam nele; foi esse onde a corrupção se tornou o carro-chefe; onde assessores poderosos mostraram suas garras, onde Luis Inácio não soube preparar um sucessor à altura do seu legado político, onde se elegeu uma presidente um tanto quanto despreparada – que o próprio partido não foi capaz de mantê-la no poder – e onde importantes avanços em áreas específicas – como a social – ficaram chamuscados por uma disputa no poder, onde a oposição não fazia nem cócegas.

Do ódio de uma grande parcela da sociedade a esse PT, um senhor que foi deputado federal por sete mandatos sem que ninguém ouvisse falar dele, apareceu na votação do último impeachment clamando glórias a um dos maiores torturadores da história da Ditadura Militar nesse país. Antes disso, esse homem era só motivo de piadas em um humorístico de televisão ou participava de programas de entrevistas em emissoras de categoria duvidosa. Estou errado? Não, então continuemos e vamos ao próximo versículo:

E foi-lhe dada uma boca, para proferir grandes coisas e blasfêmias; e deu-se-lhe poder para agir por quarenta e dois meses.

Veio a eleição. De mais de uma dezena de candidatos das mais variadas profissões e histórias políticas nesse país, o pleito afunilou-se em uma disputa entre dois candidatos: De um lado o PT, professor, inteligente, sensato; mas que tinha ao seu lado o estigma manchado do alvo principal da Lava-Jato, da turbulenta administração da sua companheira de partido abandonada às feras até pelo próprio colegiado e o fato do presidente ser Michel Temer, o vice que foi eleito junto com o PT.

Do outro lado do ringue eleitoral a besta de partido minúsculo que graças a uma facada certeira – ou não dependendo do ponto de vista – ganhou pontos (!) a mais para levá-lo ao Palácio da Alvorada. O povo, principalmente as hienas brasileiras, adoram um drama digno de telenovela mexicana. Foi assim com o ataque do Bispo ao Messias.

Há aqueles que levantam teorias da conspiração para os dois lados. Mas isso existe desde que o Brasil era a Ilha de Vera Cruz. Os mais experientes vão se lembrar do polêmico Paulo César Farias, braço direito de Fernando Collor de Mello. Milionário, segundo – ou primeiro – homem mais poderoso do país, inteligente como Al Capone e que sabia tudo sobre o presidente e seu governo; PC Farias foi encontrado morto, em 1996, em uma casa de praia junto com a namorada, Suzana Marcolino, mais nova do que ele.

A conclusão do famoso legista Badan Palhares sobre o caso: Silvana matou PC e depois se suicidou. O fato é considerado oficialmente apenas como um crime passional, mas para o médico-legista alagoano George Sanguinetti e o perito criminal Ricardo Molina de Figueiredo, o casal foi assassinado. Nunca mais se falou sobre o assunto.

Voltando ao nosso assunto, o candidato eleito tomou posse. Um dos primeiros – e um dos únicos efetivamente funcionais – atos como presidente foi o decreto das armas, promessa de campanha que era a menina dos olhos dos seus eleitores que nem sabiam por que, já que não compraram, não podem comprar, não sabem usar e nem querem ter armas. Mas enfim...

E abriu a sua boca em blasfêmias contra Deus, para blasfemar do seu nome, e do seu tabernáculo, e dos que habitam no céu.

Dizendo-se católico não praticante casado com uma evangélica, o Messias fez tudo o que quis para abortar o estado laico em favor dos seus súditos e apoiadores religiosos. Mesmo que várias ações e declarações soassem como blasfêmias. Como pregar o amor comum a tantas religiões fazendo sinal de armas com as mãos? Mostre-me uma coisa só que combine arma com amor que fico de dedos parados no teclado. Portanto, continuo...

E foi-lhe permitido fazer guerra aos santos, e vencê-los; e deu-se-lhe poder sobre toda a tribo, e língua, e nação.

A besta fez guerra aos santos, aos jornalistas, aos artistas, aos cientistas, aos ambientalistas, aos ecologistas, aos professores, aos intelectuais, aos políticos do executivo e legislativo que não compartilharam de suas neuroses, aos ministros do maior órgão judiciário do país, enfim, a todos que mostram um índice mínimo de inteligência – ou conhecimento ou cultura – maior que o dele. Ou seja, você não precisa ser Einstein e nem Forrest Gump para a besta não gostar de você.

Ou pior: ela pode perseguir você em nome de gurus que acreditam – igual aos que queimaram Galileu Galilei e a Santa Joana D’Arc – que a terra é plana, contrariando Fernão de Magalhães; e que a Covid-19 é uma gripezinha, contrariando a humanidade.

Sou artista, sou jornalista, considero-me culto (a não modéstia é permitida em período de quarentena), sou contra a violência, sou a favor da preservação da natureza, da liberdade de expressão, da livre opção sexual, da escolha da religião, da supremacia da ciência em caso de pandemia; ou seja, sou tudo o que ele não gosta, portanto, por essas e outras razões, também não gosto dele.

E engana os que habitam na terra com sinais que lhe foi permitido que fizesse em presença da besta, dizendo aos que habitam na terra que fizessem uma imagem à besta que recebera a ferida da espada e vivia.

Esse versículo não precisa de muita interpretação, a besta recebeu a ferida da espada de Adélio, o Tonto e viveu. E engana os que habitam sua terra das maravilhas com sinais enviados por fake news.

E foi-lhe concedido que desse espírito à imagem da besta, para que também a imagem da besta falasse, e fizesse que fossem mortos todos os que não adorassem a imagem da besta.

E a besta fala. Como fala. Todo dia. Fala sempre para um curralzinho às portas do Alvorada repleto de uma dezena de pessoas que, se não ganham para estar ali, são mais idiotas do que aparentam quando vistas pela TV.

Por falar nisso, se eu fosse responsável pelos grandes órgãos de imprensa – os importantes, ignorando os chapas-branca; retiraria todos os correspondentes daquele lugar e deixava o tal cuspindo sozinho, sem máscara, suas bobagens incendiárias.

E por que ele fala tanto e tanta bobagem ao mesmo tempo? Porque quer provocar, imediatamente, o andamento de pelo menos um dos trinta pedidos de impeachment já protocolados contra ele. Um, inclusive, no Supremo.

O homem sabe que, após comprar o centrão que recebe ordens de figuras idôneas como Roberto Jeferson – pesquise no Google, não vou perder tempo escrevendo sobre esse desqualificado – ele ainda tem um número de deputados, seus colegas de copo e de cruz, suficiente para barrar hoje um eventual processo que impeça a continuidade do seu governo.

Outra razão. Estamos em pandemia, você sabia? Ele não. Então, nenhum político responsável, em plena capacidade das suas faculdades mentais – seja ele de qualquer um dos três poderes ou de qualquer Estado – tem tempo para, pelo menos, pensar na besta nesse momento. Há mais de 18 mil mortos no país, 5 mil só no estado de São Paulo, vítimas da Covid-19.

Não vou repetir aqui tudo o que o ser esbravejou a favor da doença e menosprezou seu invisível causador, mas pode ter certeza de que a vingança do super vírus contra ele já se concretizou, se não pela doença em si, pela derrocada do seu plano de poder aliado à sustentação da sua família formada por números de sobrenome igual ao dele, alguns igualmente eleitos.

Em 2018, essa onda levou também dezenas de militares ao poder, em um Brasil que sofreu mais de 20 anos sob a mão pesada dos mesmos. Há militares bons? Claro, conheço alguns. Mas não são esses que estão nos noticiários.

E faz que a todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e servos, lhes seja posto um sinal na sua mão direita, ou nas suas testas,

Para que ninguém possa comprar ou vender, senão aquele que tiver o sinal, ou o nome da besta, ou o número do seu nome.

Esses versículos estão claros. Ele governa só para o “povo” dele. Para aqueles que adoram a deusa Arlequina mesmo sem saber do que estão falando e da sua eficiência médica no tratamento da nova doença; para aqueles que condenam a violência nas favelas e se armam nem que for com gestos; para aqueles que se vestem com a camisa da seleção brasileira (nem aquela dos 7 x 1 merecia tamanha vergonha); para aqueles que erguem a nossa bandeira em manifestações contra as medidas que estão salvando vidas e para aqueles que querem acabar com a corrupção escondendo debaixo do tapete do Ministério da Justiça e da PF as sujeiras cometidas pelo clã da profecia.

Acontece que a besta não tem a noção real do tamanho do povo dele, por isso contrata a galera do chiqueirinho como se fossem diaristas que ajudam a erguer o tapete. Vamos tentar calcular o número da besta.

Ele teve 57.797.847 votos no segundo turno. Sabe quantos votos ele não teve? Ele não teve 47.040.906 votos que foram para o Haddad. Não teve 2.486.593 votos brancos. Não teve 8.608.105 votos que foram anulados e não teve o voto de 31.371.704 de pessoas que nem saíram de casa naquele dia. Portanto, 89.507.308 não o queriam no poder. Ou seja, ele tem a maioria do lado dele aonde, cara-pálida?

“Ah, mas sempre tem um monte de gente nas manifestações a favor do 666”. Quantas? 300, 500, mil pessoas? Aquela carreata enfileirada não toma três quarteirões gigantes de Brasília quando vista dos drones.

Sua moral é a mesma tanto fora do país quanto aqui, para grande parte dos brasileiros. Ele é ridicularizado pela imprensa mundial e execrado pelos mais importantes veículos da imprensa nacional. Ele manda seus eleitores a não assistirem a Globo (a mesma que era criticada pelos petistas há alguns meses e que agora é “de esquerda”) e a maior parte do país assiste, como sempre.

Em dados do dia 14 de maio, a audiência do Jornal Nacional ficou em 31,8 pontos, perdendo apenas para o sucesso “Fina Estampa” com média de 35 pontos. Cada ponto equivale a 74.987 mil domicílios sintonizados na Grande São Paulo. Então o Jornal Nacional, que ele não recomenda a seus seguimores, foi visto por cerca de 2 milhões e 385 mil pessoas somente nesse dia e só nessa região citada, enquanto o jornal da Record foi visto por 675 mil pessoas, por exemplo.

Meu parecer – e isso obviamente é muito pessoal – ele não governa mais (se é que um dia o fez). E agora não é figurativo. E ainda sai desmoralizado e  condenado pela maioria expressiva do planeta que ele julga plano, por não ter tido a capacidade mínima de unir o país no combate à pandemia, chegando ao absurdo inominável de demitir dois ministros da Saúde em menos de um mês, apenas porque não concordavam com suas sandices.

Por falar em ministros, somente a namoradinha e o astronauta, além do caçador de milagres econômicos, fora os generais, vão carregá-lo para casa depois que acabar a festa. E aí ficaremos com um país literalmente doente e com uma das piores economias do mundo pós-pandemia.

Passando essa crise sanitária e econômica e as eleições municipais – sejam elas quando forem – os canhões serão todos apontados para a besta que, ao contrário da Hidra de Lerna tem uma só cabeça, mesmo que todos seus filhos carreguem sobre o couro cabeludo a mesma marca de nascença.

Aqui há sabedoria. Aquele que tem entendimento, calcule o número da besta; porque é o número de um homem...

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quinta-feira, 7 de maio de 2020

A Longa Viagem Dentro da Noite

Paulo Rocco

Com a Netflix, entre outras, estamos tendo a oportunidade de conhecer as teledramaturgias - sobretudo séries - de países às quais tínhamos pouco acesso. É o caso de "Into The Night" ou “Noite Adentro”, no Brasil.

A produção é belga, criada por Jason George e inspirada em um livro polonês - "The Old Axolotl" (O Velho Axolote) de Jacek Dukaj. Axolote é uma espécie de anfíbio mexicano que vive em ambientes escuros. A associação com a premissa da série é exatamente essa: o escuro.

Um grupo de pessoas está a bordo de um avião quando fica sabendo que o sol está matando todas as pessoas do planeta. Então o objetivo é seguir sempre para o oeste, dentro da noite, fugindo da ameaça. Essa jornada já teria todas as dificuldades de praxe, como falta de combustível, aeroportos sem ninguém para auxiliar pouso e decolagem, familiares das pessoas do avião que já se foram e tudo o mais. No entanto, a situação fica ainda mais tensa pela construção das personagens. E coloca tensão nisso.

Há dentro do avião, além do comandante; adultos, idosos, jovens, uma criança – que, claro, tem que ter graves problemas de saúde; civis, militares, italianos, muçulmanos, brancos, negros; enfim, uma amostragem de parte da humanidade. E, cá entre nós, se o avião for como uma Arca de Noé e depender deles a continuidade da raça humana; nosso futuro seria complicado. Obviamente não pela idade, raça, patente, profissão ou religião, entre outras características, mas pela dúbia personalidade de todos naquela aeronave.

Temos um assassino, uma potencial suicida, um contrabandista, cafetão e soldados estupradores. Soma-se ainda na lista de passageiros – que em determinados momentos surgem como uma solução “fácil” para determinada ação, mas que não compromete o todo – uma enfermeira, uma digital influencer, uma comissária de bordo, uma mulher que vendeu um rim e um piloto com coisas a esconder, entre outros. E você vai me perguntar se tudo isso junto dá liga. Por incrível que pareça vou dizer que sim.

A trama é eletrizante desde a primeira sequência, quando um militar italiano rouba a metralhadora de um agente no aeroporto de Bruxelas e praticamente sequestra o avião. Essa tensão não diminui ao longo dos seis episódios de cerca de quarenta minutos cada nessa primeira temporada.

Até o breve flashback, necessário para conhecemos alguns personagens e suas atitudes – quase obrigatório em séries desde o surgimento da cartilha de “Lost” – não altera o ritmo. Os títulos dos episódios tem justamente o nome das personagens centrais mostradas nessas sequências do passado, mesmo que seja difícil separar seis protagonistas apenas em um reduzido elenco de treze pessoas, como é o caso.

A teledramaturgia, sobretudo na ficção científica – gênero em que se enquadra “Noite Adentro” – sempre encontra parâmetros na realidade, por mais absurdo que pareça o motor central da trama. Aqui não é diferente, sobretudo nesses tempos sombrios de pandemia.

Ao longo da viagem rumo ao nada, dentro da noite, reconhecemos algo bem terrível do ser humano: a maneira como as pessoas – em um momento de crise e com a morte iminente – pensam primeiro em si do que na coletividade.  O preconceito, a xenofobia, a intolerância, a falta de empatia vêm à tona para que as personagens tentem “justificar” suas atitudes mais condenáveis.

É triste, principalmente, por termos exemplos assim atualmente, todos os dias, nos telejornais. E pelo mundo todo.

Hoje é um vírus, amanhã pode ser o sol colocando toda a vida em um micro-ondas gigantesco e nós, dentro desse asteroide pequeno que todos chamam de Terra, estamos incessantemente fugindo para o oeste e dando graças a Deus pelo planeta ser, ao menos, redondo.

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