sábado, 30 de maio de 2020

Pequeno Almanaque de uma Propaganda de Novelas - Capítulo 4


Paulo Rocco

A deslumbrante Natasha
e o Conde Vlad de "Vamp".
Nesse nosso quarto capítulo sobre as obras mais marcantes da teledramaturgia brasileira, que estarão disponíveis na Globoplay, alguns sucessos incontestáveis que frequentaram nossas salas por tantos anos. Obrigado a todos que estão acompanhando essa viagem e relembrando vidas de personagens que se misturam à nossa.

Fera Radical – 1988. Assim como Walcyr Carrasco em partes de “Chocolate com Pimenta”, Walter Negrão teria se inspirado na peça “A Visita da Velha Senhora”, de Friedrich Dürrenmatt, para escrever essa novela. Para vingar o assassinato de sua família, Cláudia (Malu Mader) cria uma nova identidade e trabalha como empregada na fazenda cujos proprietários são suspeitos pelo crime. A história de amor é entre Cláudia e Fernando, personagem de José Mayer, filho do fazendeiro Altino Flores (Paulo Goulart). A vilania fica por conta de Marília (Carla Camurati) que tem um caso proibido com Fernando, apesar de ser casada com o irmão dele, interpretado por Thales Pan Chacon, falecido precocemente em decorrência da AIDS aos 41 anos, em 1997. Yara Amaral, no papel de Joana, mulher de Altino, também persegue a mocinha. A música de abertura foi gravada pela cantora Solange e mostrava Malu mexendo em um computador com tela ainda com linguagem em DOS. A novela teve 203 capítulos.

Vamp – 1991. Sucesso absoluto. Amada por uma geração, essa novela de Antonio Calmon ganhou uma continuação (“O Beijo do Vampiro”, em 2022) e mais recentemente um musical de sucesso. Não havia um adolescente ou jovem na época, inclusive eu, que não fosse apaixonado pela cantora de rock Natasha, interpretada por Cláudia Ohana. E é ela que chega à pacífica e fictícia cidade de Armação dos Anjos para bagunçar a vida de muita gente. Natasha é uma vampira que se tornou famosa após um pacto com o conde Vlad (papel icônico de Ney Latorraca, repetido nas versões citadas acima). Reginaldo Faria faz o capitão Jonas Rocha, viúvo e pais de seis filhos que se casa com Carmen Maura (Joana Fomm), também viúva e também com seis filhos. Esses 12 foram um sucesso à parte na novela, por suas aventuras ao estilo Goonies. Há também a rádio Corsário (que gerou um disco extra de trilha sonora com a programação a emissora). Outros personagens inesquecíveis são o padre Garotão (Nuno Leal Maia) e a família de vampiros de Matoso, formada por Otávio Augusto, Patrícya Travassos e os filhos Matosão (Flávio Silvino) e Matosinho (André Gonçalves). Impagáveis. Inclusive, Matoso era um vampiro com um só dente. Um momento marcante da novela foi o clip de Vlad e vários mortos-vivos dançando “Thriller” de Michael Jackson, cena repetida nos palcos com Latorraca e Ohana. A trilha sonora rendeu grandes sucessos, como a versão de Cláudia Ohana para “Sympathy for the Devil” dos Stones. A música de abertura era “Noite Preta” cantada por Vange Leonel, que infelizmente nos deixou aos 51 anos de idade. A novela teve 179 capítulos.

Rainha da Sucata – 1990. Silvio de Abreu criou aqui um dos grandes sucessos de sua carreira repleta deles. Os característicos tons de comédia ganharam alguns contornos dramáticos na história de Maria do Carmo (Regina Duarte, pré-tudo isso) que fica rica com o ferro-velho do pai vivido por Lima Duarte. Apaixona-se por Edu (Tony Ramos) que a humilhava na juventude, mas que está à beira da falência. Ela casa-se com ele e vai morar no casarão dos Figueroa, nos Jardins, bairro nobre paulistano. A madrasta de Edu, Laurinha Figueroa (Glória Menezes) passa a infernizar Maria do Carmo, por ser obcecada pelo enteado. Daniel Filho interpreta Renato Maia, um corrupto que aplica um golpe na protagonista e destrói os negócios de Laurinha. Uma cena marcante da novela é o suicídio de Laurinha se atirando de um dos prédios da Avenida Paulista, em uma da poucas vezes que algo assim foi mostrado em uma novela. Para complicar a trama ela tinha nas mãos um brinco de Maria do Carmo. Uma personagem que transcendeu a novela foi a Dona Armênia de Aracy Balabanian e seus filhos interpretados pelos atores Marcelo Novaes, Jandir Ferrari e Gerson Brenner. O bordão “Na chon” era repetido diariamente por milhares de pessoas pelo país afora. A família voltou na novela “Deus nos Acuda”, dois anos mais tarde. Um casal de sucesso da história foi a Adriana, de Cláudia Raia – a “bailarina da coxa grossa” – e o professor gago vivido por Antonio Fagundes.  Marisa Orth com sua Nicinha também construiu uma grande personagem. A música de abertura foi o grande sucesso “Me Chama que eu Vou”, de Sidney Magal e ajudou a alavancar o sucesso da lambada, febre musical na época. A novela foi a primeira da emissora a não ter mais as “Cenas do Próximo Capítulo” e durou 177 capítulos.

Sinhá Moça – 2006. Sinceramente não sei qual das duas versões será colocada no catálogo da Globoplay, então vou falar sobre a mais recente, o remake de 2006, exibido 20 anos após a primeira versão da novela de Benedito Ruy Barbosa. A história de Sinhá Moça (Débora Falabella repetindo o papel que havia sido de Lucélia Santos) que é filha do Barão de Araruna (Osmar Prado no papel defendido por Rubens de Falco na primeira versão) é baseada no romance de Maria Dezonne Pacheco Fernandes e foi um grande sucesso mundial em 1986, o que motivou a nova produção. Abolicionista, Sinhá Moça enfurece o pai com suas ideias e se apaixona pelo advogado Rodolfo (aqui vivido por Danton Mello). Esta obra foi indicada ao Emmy Internacional na categoria de Série Dramática e Milton Gonçalves concorreu ao prêmio de Melhor Ator pelo papel de Pai José. Chico Anysio também chegou a participar da novela. A música de abertura foi gravada por Leonardo. A novela teve 185 capítulos.

Cabocla – 2004. Essa é o mesmo caso, mas acredito que a novela que estará de volta, claro, seja a versão deste ano citado. Escrita pelas filhas de Benedito Ruy Barbosa e supervisionada pelo próprio, é o remake do grande sucesso de 1979. Aqui a história é sobre a disputa por terras e o romance entre a cabocla Zuca (Vanessa Giácomo) e Luís Gerônimo (Daniel de Oliveira). Indo morar no campo para cuidar da saúde, o rapaz se apaixona pela doce mocinha, que desiste do casamento com o peão Tobias (Malvino Salvador). Os atores Tony Ramos e Mauro Mendonça dão vida aos coronéis rivais Boanerges e Justino cujos filhos, no melhor estilo shakespeariano, se amam. Uma curiosidade é que temas polêmicos e que não puderam ser abordados devidamente na primeira versão – graças à Ditadura Militar – voltaram no remake com mais intensidade, como as questões de posse de torre e usucapião. A música de abertura era cantada pelo grupo Madrigal. A novela teve 167 capítulos.

A Viagem – 1994. Outro remake, mas desta vez de uma novela da TV Tupi. A original, de 1975, é uma de minhas primeiras lembranças de novela, de assistir na televisão em preto-e-branco na casa do meu avô. Tenho a imagem nítida na memória dos portões de um jardim que provavelmente era o céu da história. A trama da genial Ivani Ribeiro foi o último grande sucesso da extinta TV paulistana, já começando a ser ameaçada pela Rede Globo. Seguindo a doutrina espírita Kardecista, a autora mostrava vários personagens em suas vidas terrenas e depois de desencarnarem. Alexandre (Guilherme Fontes) é um bandido que se mata na cadeia, após ser condenado por homicídio. Já no Além, é mandado ao vale dos suicidas. De lá ele atormenta a vida na Terra, principalmente daqueles que julga culpados por seu destino. Seu irmão Raul (Miguel Falabella), Theo (Maurício Mattar) que é seu cunhado e o advogado Otávio Jordão (Antonio Fagundes) são os que mais sofrem as ameaças do espírito. Quando sua irmã Dinah (Christiane Torloni), apaixona-se por Otávio, desencadeia de vez a fúria de Alexandre. Sessões espíritas e sequências passadas em um céu ao som de “Crazy” de Julio Iglesias, com coelhinhos brancos dando passeios, completam o cenário. O vale onde fica Alexandre é muito mais sofisticado que o paraíso, do ponto de vista cenográfico. E, ao menos que minha memória aos oito anos seja muito vaga, eu tenho um carinho mais especial pela primeira versão. A música de abertura era a bela canção “A Viagem” do Roupa Nova. A novela teve 160 capítulos.

A Próxima Vítima – 1995. De uma coisa não se pode negar: Silvio de Abreu foi ousado na premissa de algumas de suas tramas. É o caso desse grande sucesso onde o gênero policial invadia de vez a teledramaturgia tradicional como se estivéssemos em um jogo de tabuleiros tipo “Scotland Yard” ou “Detetive”. Um elenco cheio de estrelas como Aracy Balabanian, Cecil Thiré, Susana Vieira, José Wilker, Tereza Rachel, Cláudia Ohana, Natália do Vale, Yoná Magalhães, Gianfrasceco Guarnieri, Rosamaria Murtinho, Viviane Pasmanter, Lima Duarte, Vera Holtz, Marcos Frota, Otávio Augusto e Tony Ramos, entre outros; participavam de uma trama calcada em três questões: “Quem Matou?”, Por que matou?” e “Quem será a próxima vítima?”. Ao todo, onze personagens são assassinados e um Chevrolet Opala preto que segue as vítimas é a única ligação entre os casos. O verdureiro Juca (Tony Ramos) fez tanto sucesso na novela que barracas do mercadão de São Paulo ganharam seu nome, na época. A história se passava na Mooca e no Bixiga, recorrentes também na obra de Silvio de Abreu. Discussões sociais e raciais, com uma família negra bem sucedida, formada por Antônio Pitanga e Zezé Motta e a relação homossexual de Sandro (André Gonçalves) e Jefferson (Lui Mendes) foram outros pontos marcantes da novela. Se um “quem matou?” em novela já instiga o público, aqui a ferramenta foi usada em série. O tema de abertura era “Vítima”, de Rita Lee. A novela teve 203 capítulos.

Continua...

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