quarta-feira, 17 de junho de 2020

Pássaros sobre Xícaras a Observarem


Paulo Rocco

Esse tempo sombrio de quarentena – no qual ainda estamos entranhados por mais que saiam às ruas afoitos consumidores do nada – tem trazido novidades artísticas que acompanham a solidão da única cadeira ocupada na plateia.

Se não há palco para preencher, não há crítica para escrever sobre o que estaria no tablado. Então, há que se substituir o alvo da escrita, como artistas humildemente trocaram – neste momento – o palco pela tela a nossa frente.

Foi assim que comecei a escrever sobre esse novo formato do teatro na tela, que não é cinema, que não é novela e – tema de infindável discussão entre colegas – não seria teatro. Da maneira como vejo, alguns espetáculos virtuais são sim teatro, na sua essência do imediato, na emoção do “ao vivo” ou na troca de experiências e olhares com o público.

É acima de tudo um formato novo que pode continuar em um mundo pós-pandemia ou cair no esquecimento das nuvens quando voltarmos aos Teatros. Esquecimento a que me refiro é no sentido de se continuar criando esse tipo de encenação e não sobre seu conteúdo obviamente que, nos exemplos que estou presenciando serão lembrados sempre, da mesma maneira que uma peça toca nossa alma quando se fecham as cortinas.

Foi assim que guardei na lembrança – e nas resenhas que fiz – o espetáculo “Todos os Sonhos do Mundo” de Ivam Cabral ou que – todas as terças – tenho a sala invadida pelo talento de Cléo de Paris e sua peça, sempre inédita, “Desamparos”.  Ambos, aliás, integrantes da Cia. Os Satyros que produziu o primeiro espetáculo on line, com grande elenco e ao vivo, para ser assistido em plataforma digital: “A Arte de Encarar o Medo”, justamente sobre esse período.

Mas o assunto desta vez é sobre outro carinho imenso na alma, a lembrança viva de um tempo onde as cores eram outras. Estou falando de "Desconscerto", a peça online criada por Matheus Nachtergaele e adaptada do seu espetáculo “Processo de Conscerto do Desejo" – e que pode ser vista na página do Sesc São Paulo no You Tube.

A criação da palavra no título é intencional. O jogo do conserto e concerto está exposto, mesmo que sutilmente, nos poemas e nas palavras da mãe do artista, Maria Cecília Nachtergaele, que partiu pouco tempo depois do seu nascimento.

Mas ela não só vive nas palavras proferidas com a técnica perfeita do Ator, como em cada gesto que ele, meticulosamente, constrói para acompanhar os versos. Ela vive também no vestido com o qual ele cobre o corpo, evocando a presença feminina que está em cada espaço do cenário/casa. “Cenário”, aliás, com uma profundidade de deixar orgulhoso qualquer cenógrafo e que permite a um diretor marcar as cenas em diferentes alturas do palco. Belo complemento cênico.

Uma música às vezes permeia a cena e até os latidos ao fundo parecem planejados, como se a sonoplastia eficiente entrasse no momento exato em que as memórias da personagem se fundem com as nossas próprias.

Matheus sabe que está sendo visto através de uma lente – tem experiência rica em cinema e televisão – mas o que se vê em “Desconscerto” é a relação do Ator com o público, olho no olho, como quando ele se aproxima da câmera, sempre parada, até ser possível tocarmos com as mãos sua emoção.

E também é cinema, como quando ele sai para o canto da cena e seu rosto aparece no espelho sobre a mesa, emoldurando o reflexo de um passado distante e tão presente.

A lanterna pendurada no fundo da cena seria como um sinal de onde possamos chegar se mergulharmos a fundo nas lembranças. Um túnel cujo final tem uma luz, a única que não se apaga quando ele termina o espetáculo.

Versos tão lindos como “Mãos de jardineiro quando está chovendo” ou “O coração bate no pescoço e o relógio cada vez mais alto” são exemplos do tamanho da poesia de dona Maria, que encerra suas palavras não com rimas ricas ou sílabas emotivas, mas com um recado para não se esquecerem de levar o menino – o mesmo que brincava com o sininho no berço – para tomar a segunda dose da vacina.

E sai. Nas paredes os pássaros pousados sobre xícaras de porcelana observam o vazio há pouco preenchido de passado. Escondido na memória ou algum canto da casa onde não conseguimos alcançar, o trenzinho que o menino não ganhou.

Toda uma vida que poderia ter sido e não foi se constrói. Matheus é o gigante de sempre, uma aula de interpretação, uma alma generosa a repartir conosco versos tão necessários nesses dias e sempre.

Obrigado por esse momento capaz de cortar essa realidade com o fio afiado da poesia. Matheus, quase sem perceber, amamos você.

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