segunda-feira, 1 de junho de 2020

Pequeno Almanaque de uma Propaganda de Novelas - Capítulo 5


Paulo Rocco

Capa da Veja em 1985. 
Começamos a entrar na reta final – ou pelo menos na segunda metade – desse pequeno almanaque sobre grandes obras da nossa teledramaturgia que estão e estarão disponíveis no serviço de streaming Globoplay e que foram divulgadas na propaganda.

Estamos nos capítulos finais desse garimpo em busca de personagens inesquecíveis – que se tornaram tão reais que parece ser possível que os encontremos ao dobrar a esquina em época de não isolamento social, de acontecimentos fictícios que poderiam ter saído de livros de história e de tramas que – nascidas das cabeças de geniais autores – invadiram nossas memórias e se tornaram parte de nossas vidas.

Os mais atentos hão de perceber duas ocasionalidades nos textos: às vezes o tempo dos verbos se confunde, já que estou escrevendo sobre novelas que foram exibidas e que, no entanto, estão ou estarão de novo nas telas. E a outra particularidade é que, em alguma resenha é inevitável o spoiler, mas ao contrário das atuais séries de televisão, novela sempre foi “impulsionada” também pelo spoiler antes mesmo de o conhecermos como tal. As famosas revistas de TV e hoje os sites, inclusive da própria emissora – trazem o resumo e acontecimentos dos capítulos antes de serem exibidos.

Isto posto vamos às obras deste capítulo:

Pedra Sobre Pedra – 1992. Nesse grande sucesso, Aguinaldo Silva, Ricardo Linhares e Ana Maria Moretzsohn escancaram o realismo fantástico (sobre o qual falei no capitulo 3 dessa saga). Renata Sorrah é Pilar Batista e Lima Duarte interpreta seu inimigo político Murilo Pontes. A fictícia cidade de Resplendor, localizada na Chapada Diamantina e no mesmo universo de Greenville, Tubiacanga, Asa Branca ou Serro Azul; é o palco da disputa entre esses dois rivais que já foram amantes. A sina de “Romeu e Julieta” volta em Marina (Adriana Esteves) e Leonardo (Mauricio Mattar), herdeiros apaixonados das famílias que se odeiam. Fábio Júnior faz o papel da sua vida na pele de Jorge Tadeu, o fotógrafo que é assassinado, mas aparece para seduzir as mulheres que comem a flor que nasce em seu túmulo. A flor é uma espécie do Antúrio, escolhida por seu formato fálico, talvez. Jorge Tadeu, que depois de morto tinha seu corpo coberto de borboletas, virou febre nacional. Outro personagem inesquecível foi o Sérgio Cabeleira de Osmar Prado, que sofre de terríveis dores de cabeça em noites de lua cheia (aliás, “noites de lua cheia” costumam alterar personagens e acontecimentos em várias novelas de Aguinaldo). Miriam Pires interpreta Dona Quirina que aos 120 anos tem uma memória perfeita. Outro ponto marcante do realismo fantástico foi o vilão Cândido Alegria (Armando Bógus) – atenção para Spoiler – virar pedra no final da novela. Em tempo: Murilo Pontes voltou a participar em algumas cenas de “A Indomada”. Devido ao grande sucesso, essa obra que teve coprodução da emissora RTP de Portugal, foi vendida para vários países, inclusive Cuba, onde alcançou êxito também. A abertura foi com o grande sucesso “Pedras Que Cantam” de Fagner e, a exemplo de “Tieta”, trazia uma bela modelo, Mônica Fraga, nua, com seu corpo se unindo à natureza. Depois Mônica se tornou atriz chegando a participar de “Senhora do Destino”. A novela teve 176 capítulos.

Brega e Chique – 1987. Uma deliciosa trama de Cassiano Gabus Mendes, autor de primeira grandeza que participou da fase inaugural da TV no Brasil e foi responsável por inúmeros programas de sucesso. Sua novela de estreia na Globo foi “Anjo Mau”, em 1976. Nessa aqui, o personagem de Jorge Dória, o empresário Herbert Alvaray, tinha duas famílias e simula sua morte para fugir do país. Suas duas mulheres interpretadas por Marília Pêra, a chique e Glória Menezes, a brega; tornam-se amigas sem saber do “parentesco”. Naquelas viradas que amamos, Rosemere da Silva (Glória) herda uma fortuna e passa a ensinar Rafaela (Marília) a economizar depois dela ficar endividada com a “morte” do marido. O tal volta ao país com outro nome e outra cara (agora vivido por Raul Cortez). A abertura é uma das mais lembradas da história das telenovelas e mostrava um modelo nu, ao som da música “Pelado”, da banda Ultraje a Rigor. Por um tempo a famigerada censura federal exigiu que uma folha de parreira (!) fosse colocada para tapar a bunda do homem. Depois de muita negociação, a versão original voltou a desfilar todas as noites em nossas salas. A novela teve 173 capítulos.

Roque Santeiro – 1985. Essa próxima resenha deveria ser escrita de joelhos. Não é uma novela apenas. Ultrapassou qualquer parâmetro da teledramaturgia. Virou mania nacional. Tornou-se objeto de estudos acadêmicos. Transformou a vida de vários dos envolvidos em sua produção e recebeu o título de clássico absoluto. Foi eleita pela revista Veja (da qual foi capa) como uma das três melhores telenovelas brasileiras – ao lado de “Vale Tudo” (de Gilberto Braga e Aguinaldo Silva) e “Avenida Brasil” (de João Emmanuel Carneiro). E tem história aqui.

Com uma audiência invejável, a trama de Dias Gomes e Aguinaldo Silva, foi baseada na peça escrita pelo primeiro, “O Berço do Herói”, proibida pela Ditadura Militar em 1963 e montada apenas dois anos depois. Em 1975, Dias tentou levar sua novela ao ar com o título “A Incrível história de Roque Santeiro e sua fogosa viúva, a que era sem nunca ter sido”. A censura implacável também proibiu a novela. Dez anos mais tarde, no entanto, sob os ares da Nova República e o “fim da censura”, “Roque Santeiro” estreou.

Na fictícia Asa Branca os moradores vivem em torno dos supostos milagres de Roque Santeiro, um coroinha que teria sido morto ao defender a cidade de um bandido, conforme cantado na música de Sá e Guarabira. Dezessete anos depois o tal reaparece, ameaçando a paz local e o poder de Sinhozinho Malta (um dos melhores papéis de Lima Duarte, ao lado de Zeca Diabo, em minha opinião), do prefeito Florindo Abelha (Ary Fontoura), do comerciante Zé das Medalhas (Armando Bógus) e até do padre Hipólito (Paulo Gracindo). Sinhozinho é amante da fogosa “viúva” Porcina que dizia ter sido casada com Roque. A que foi sem nunca ter sido foi vivida intensamente por Regina Duarte, maravilhosa no papel que a afastou do título de “namoradinha do Brasil” e da imagem de mocinha correta das outras novelas.

Discorrer sobre a trama aqui exigiria um artigo à parte, mas é impossível não citar personagens como o mulherengo ator Roberto Mathias (Fábio Júnior) que interpreta Roque Santeiro em uma filmagem que ocorre na cidade sobre a vida do seu ilustre morador; o padre vivido por Cláudio Cavalcanti, que defende contar a verdade sobre a não morte de Roque e se envolve com Tânia (a linda Lídia Brondi), filha de Sinhozinho e as dançarinas da boate Sexus: Ninon (Cláudia Raia em sua estreia em novelas) e Rosaly (Isis de Oliveira). As meninas comandadas por Matilde (Yoná Magalhães) enfrentavam as beatas comandadas por Pombinha Abelha (Eloísa Mafalda), mulher do prefeito de Asa Branca. Lucinha Lins também está adorável como Mocinha, a eterna noiva de Roque Santeiro, que permanece virgem até a volta do mesmo. Difícil não lembrar também de Jiló (João Carlos Barroso) o guia turístico de Asa Branca. Outro personagem icônico é o professor Astromar (Rui Rezende), que nas noites de lua cheia vira lobisomem.

Há pouco tempo perguntei a Aguinaldo Silva se, enquanto escritores e colaboradores, eles tinham muito contato com Dias Gomes ou a missão de escrever os capítulos era mesmo dele? O autor respondeu: “Quando a novela estreou, Dias estava viajando pela Europa e, antes de ir, nos dera carta branca. Quando ele voltou, eu já estava no capítulo cento e poucos e a novela era o que era. A certa altura ele decidiu fazer reuniões quinzenais para que eu dissesse a ele o que tinha planejado para os próximos capítulos. Até que, num dado momento, quando faltavam 30 capítulos para o fim, ele decidiu que escreveria o final da novela. Ainda fiquei dois blocos e saí quando faltavam dezoito capítulos, mas aí a novela foi esticada em mais trinta e ele continuou até o fim com Joaquim (Assis) e Marcílio (Moraes)”.

Em um post no facebook, no início de maio, Aguinaldo fala da novela: “Roque Santeiro me dava a mesma alegria que dava ao povo. Mas não era nisso que pensava quando, junto com Joaquim Assis e Marcílio Moraes, produzíamos um após outro, seus capítulos diários. Eu pensava no que já acontecera com a novela antes por conta da censura - os cortes, as restrições que resultariam na morte de personagens e tramas e, por fim, o pior de tudo: a proibição de um produto cultural de tamanho alcance e, em sua essência e no bom sentido, tão subversivo. A nós o que cabia era resgatá-la do seu passado terrível. Sim, a alegria de escrever a novela era menor que o senso da responsabilidade de escrevê-la. Porém, maior que tudo isso era a própria novela, que saía de nossas máquinas de escrever aos borbotões, afinal sem nada que a constrangesse".

O último capítulo trouxe uma referência ao clássico “Casablanca”, reproduzindo quase em detalhes a sequência final do filme de Michael Curtiz. A abertura trazia o grande sucesso “Santa Fé” de Moraes Moreira, carro-chefe de uma trilha de clássicos imediatos da MPB. A história de sucesso ganhou um pequeno romance adaptado por Mauro Alencar em 2008 e um musical há três anos. A novela teve 209 capítulos.

Continua...

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