quarta-feira, 3 de junho de 2020

Pequeno Almanaque de uma Propaganda de Novelas - Capítulo 6


Paulo Rocco

Sônia Braga na Frenetic Dancing Days.
Escrevo esse capítulo da nossa jornada pelas novelas que estão/estarão disponíveis no Globoplay – na ordem que apareceram na propaganda do serviço de streaming – no dia em que parte Maria Alice Vergueiro. Coincidentemente ela está no elenco de uma das novelas a terem sua resenha nesse artigo: “Sassaricando”, umas das duas em que participou na Rede Globo, ao lado de “Bebê a Bordo”. À grande atriz dos nossos palcos e telas, minha homenagem.

Barriga de Aluguel – 1990. Depois de terminar “Eu Prometo”, onde colaborava com Janete Clair após sua morte, de escrever “Partido Alto” com Aguinaldo Silva e de uma passagem pela Rede Manchete onde escreveu “Carmen”; Glória Perez tem sua estreia como autora principal nessa novela que já mostrava o caminho a ser seguido em suas obras. O tema científico estava presente na discussão sobre a inseminação artificial envolvendo mães de aluguel. Cássia Kiss é Ana que tem um casamento até então maravilhoso com Zeca (Victor Fasano), mas eles não conseguem ter filhos. Clara (Cláudia Abreu) é então contratada para ser mãe de aluguel, ou seja, gerar em seu útero o filho do casal. Pobre, a moça aceita a missão colocando um fim no seu romance com o caminhoneiro João (Humberto Martins) e é expulsa de casa pelo pai religioso Ezequiel (o grande Leonardo Villar). Claro que há os conflitos onde Ana sofre por não sentir os prazeres e dores da gravidez e onde Ana reluta em saber que a criança será entregue aos pais depois de nascer. E como uma novela que se preze, Clara acaba ainda se apaixonando por Zeca. Enquetes com pessoas reais alimentavam a discussão e as brilhantes participações de Mário Lago e Beatriz Segall como médicos, incentivavam o debate. Em 2001 a dupla voltou em uma participação especial em “O Clone”. Para o resultado final e jurídico de quem ficaria com a criança, a autora contou com a assessoria de dois juízes reais. A abertura era com a música “Aguenta Coração” de José Augusto. Daniela Perez, filha de Glória, estreou nessa obra, no papel de uma dançarina. A novela teve 243 capítulos, a maior até agora nessa lista, ficando quase 10 meses no ar.

Dancin’ Days – 1978. A mais antiga desse “almanaque”. Escrita por Gilberto Braga foi um divisor de águas no comportamento do jovem nacional que, inspirado pelo que vinha acontecendo no mundo, rendeu-se as discotecas e à moda que vinha das pistas. Duas irmãs, a ex-presidiária Júlia (Sônia Braga) e a socialite Yolanda (Joana Fomm) são rivais. Após 12 anos na prisão, Júlia tenta se adaptar novamente à sociedade e se aproximar da filha Marisa (Glória Pires, aos 15 anos). Nessa busca conhece o diplomata Cacá (Antônio Fagundes) com quem vive um romance, mas ela acaba se casando com Ubirajara (Ary Fontoura), um milionário. A grande reviravolta – que, perdão por me repetir, nos adoramos e aguardamos em quase todas as novelas – é quando Júlia volta da Europa completamente mudada. Uma cena icônica é o show de dança que Júlia protagoniza da Frenetic Dancing Days, a discoteca da novela que virou febre imediata. Com sequencias inspiradas no filme “Os Embalos de Sábado à Noite”, a história se consagrou tanto pelo enredo quanto pela moda lançada. A abertura era ao som das Frenéticas no hino “Dancing Days”, composto por Nelson Motta. A trilha musical vendeu perto de 1 milhão de cópias e as meias coloridas desapareciam das lojas. Foi a primeira novela brasileira exibida no México, também famoso produtor de teledramaturgia. A novela teve 174 capítulos.

Felicidade – 1991. Manoel Carlos traz uma nova Helena (Maitê Proença) nessa história inspirada em contos de Aníbal Machado, sobretudo “Tati, a Garota”. Na cidade de Vila Feliz, Helena se apaixona por Álvaro (Tony Ramos), mas ela acaba se casando com Mário (Herson Capri). Sempre tem um “acaba se casando com outro” nas novelas, na boa intenção dramatúrgica, claro. Depois de oito anos e com uma filha (Tatyane Goulart), Helena se separa e vai trabalhar no Rio com a mãe de Álvaro, Cândida (Laura Cardoso). Ele está casado com Débora (Viviane Pasmanter). Claro que a filha é de Álvaro e vendo a paixão do marido por Helena, Débora se torna a “vilã” da história. A música e abertura era “Felicidade” com Roupa Nova. A novela teve 203 capítulos.

Fera Ferida – 1993. Mais uma de Aguinaldo Silva, Ricardo Linhares e Ana Maria Moretzsohn, desta vez livremente baseados no universo literário de Lima Barreto. O cenário é Tubiacanga, para onde Feliciano Júnior (Edson Celulari) volta para se vingar da morte dos pais. José Wilker interpreta o prefeito Demóstenes, inimigo de Feliciano, assim como Praxedes (Juca de Oliveira), Numa Pompílio (Hugo Carvana) e major Bentes (Lima Duarte). Todos estão na lista de vinganças a serem efetuadas, mas Feliciano se apaixona por Linda Inês, filha do prefeito. Com o nome de Raimundo Flamel, Feliciano atiça a cidade dizendo ser um alquimista capaz de transformar ossos em ouro, fazendo com que o poço comece a violar as sepulturas da cidade. Adentrando ao universo do Realismo Fantástico mais uma vez, tudo o que Flamel toca acaba virando ouro, inclusive sua amada Linda. Camila (Cláudia Ohana) é um anjo que dorme por meses e acorda ao sentir o cheiro de estrogonofe de bacalhau (fico pensando como a cabeça dos autores pode pensar em coisa assim, no melhor dos sentidos, claro) e Cláudio Marzo interpreta Orestes, um coveiro que fala com os mortos. Uma cena marcante foi quando Rubra Rosa (Susana Vieira) faz amor com seu amante Demóstenes e tudo ao redor se incendeia. Esse fato também acontecia com a personagem de Sônia Braga, em “Saramandaia”. Cássia Kiss é a divertida Ilka Tibiriçá, que prepara receitas exóticas para ajudar curar Ataliba Timbó (Paulo Gorgulho) da impotência sexual. A música de abertura é uma das melhores composições de Roberto e Erasmo Carlos, em minha opinião e ganhou aqui a versão definitiva na intensa interpretação – quase teatral – de Maria Bethânia para os tristes versos. A novela teve 221 capítulos.

Sassaricando – 1987. Que delícia é ver Paulo Autran em cena. Sempre. E nessa novela de Silvio de Abreu ele faz o impagável Aparício Varella que, após a morte da esposa, passa a namorar três mulheres ao mesmo tempo: Rebeca (Tônia Carrero), Leonora (Irene Ravache) e Penélope (Eva Wilma). Repare no time em cena. Cristina Pereira interpreta outra personagem inesquecível da nossa teledramaturgia: Fedora, a mimada filha de Aparício, que é casada com Leonardo Raposo (Diogo Vilela), um assassino que só mata alvos errados. Também atormentam o velho protagonista as cunhadas Fabíola (Ileana Kwasinski) e Lucrécia (a grande homenageada de hoje, Maria Alice Vergueiro). Até a esposa (Jandira Martini), volta da morte para infernizá-lo. Cláudia Raia brilha no papel de Tancinha, a feirante que ficava “divididinha” entre os amores de Beto (Marcos Frota) e Apolo (Alexandre Frota). A música de abertura, claro, era a marchinha carnavalesca “Sassaricando”, gravada por Rita Lee. A novela teve 184 capítulos.

Tropicaliente – 1994. O litoral cearense foi cenário dessa ensolarada novela de Walter Negrão. A trama é simples: Letícia (Silvia Pfeiffer) larga a família para morar com o pescador Ramiro (Herson Capri). Depois que ele desaparece por três meses no mar, ela acha que foi abandonada e volta para a casa dos pais. Anos depois eles se reencontram. Ela, agora viúva, volta a se envolver com Ramiro, mas também é desejada por François (Victor Fasano). O pescador é casado com Serena (Regina Dourado). Outros romances que encantaram na novela foram com o casal Dalila (Carla Marins) e Cassiano (Márcio Garcia) e entre as personagens de Açucena (Carolina Dickermann) e Vitor (Selton Mello). Em resumo: Histórias de amor em belos cenários. A música de abertura foi “Coração da Gente” com Elba Ramalho. A novela teve 197 capítulos.

Continua...

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