terça-feira, 9 de junho de 2020

Pequeno Almanaque de uma Propaganda de Novelas - Último Capítulo


Paulo Rocco

O Reino de Avilan em
"Que Rei Sou Eu?".
E aqui estão as últimas resenhas dessa deliciosa turnê pelas clássicas novelas da nossa teledramaturgia que estão e estarão disponíveis na Globoplay. A ordem dos títulos seguida aqui foi a mesma que apareceu na primeira propaganda do serviço de streaming sobre esses lançamentos. Ao final apresento um breve resumo desse pequeno almanaque de uma propaganda de novelas escrito em oito capítulos. E agradeço a você leitor e telespectador, a grande audiência.

A Favorita – 2008. Sei que muitos não estão preparados para essa discussão, mas em minha opinião, essa novela de João Emanuel Carneiro é melhor que aquela que está no alto do pedestal: “Avenida Brasil”. O autor reverteu uma “ordem” pré-estabelecida na “cartilha” da telenovela e iniciou sua trama sem dizer quem era mocinha e quem era a vilã. Flora (Patrícia Pillar) e Donatela (Claudia Raia) formavam uma dupla sertaneja quando jovens. Flora é acusada pela morte do marido de Donatela – de quem era amante – e fica 18 anos na prisão. Depois que cumpre sua pena quer se aproximar da filha Lara (Mariana Ximenes) e se apaixona pelo mesmo homem de sua rival novamente, Zé Bob (Carmo Dalla Vecchia). Por alguns meses o público é levado a acreditar que Flora é do bem – e teria sido acusada injustamente – e que Donatela não é o que parece. Depois as coisas se invertem. Vários crimes com personagens importantes acontecem pela novela. Salvatore (Walmor Chagas), Maíra (Juliana Paes) e Gonçalo (Mauro Mendonça), por exemplo, são vítimas da vilã. Alguns morrem com requintes de crueldade. Ary Fontoura (Silveirinha) tem um papel de destaque e Iran Malfitano interpreta Orlandinho, homossexual que acaba se apaixonando por Maria do Céu (Deborah Secco). Outros personagens injetaram vitalidade na história embalada pelo “Beijinho Doce” da dupla principal, como é o caso de Romildo Rosa (Milton Gonçalves), um deputado corrupto que trafica armas e Catarina (Lilia Cabral), que sofre nas mãos de um marido violento até se tornar amiga da homossexual Stela (Paulo Burlamaqui) e se tornar independente. A música de abertura era a instrumental “Pa' Baillar”, da banda uruguaia/argentina Bajofondo. Por se tratar de um tango eletrônico, lembra muito a canção “Fina Estampa”, na abertura da novela homônima. “A Favorita” teve 197 capítulos e foi a primeira dessa lista a estrear na Globoplay. A novela não foi reeditada e todos os capítulos estão disponíveis na mesma quantidade de quando a obra foi ao ar.

Guerra dos Sexos – 1983. A versão que estará disponível é a clássica (mesmo porque a nova, de 2012, já está no serviço). Essa obra de Silvio de Abreu também dispensa uma grande resenha. Está no inconsciente coletivo de todo mundo que viveu naqueles incríveis anos 80. Para começar, uma novela que tem Fernanda Montenegro e Paulo Autran já nasce obra-prima. A comédia escrachada é, obviamente, sobre a disputa entre homens e mulheres, tendo como “líderes” os primos Charlô (Fernanda) e Otávio (Paulo). A premissa era simples, como convém ao gênero de humor: um tio deixa uma herança milionária, mas os dois só podem colocar as mãos no dinheiro se deixarem as brigas de lado, morando na mesma casa e trabalhando juntos. O tom farsesco é predominante em todos os capítulos, desde a batalha da equipe feminina de Charlô – para elevar os lucros da rede de lojas que leva seu nome e não permitir que Otávio seja o único proprietário da fortuna – até a icônica sequência do café da manhã entre os protagonistas. No remake de 2012, a cena do café foi reproduzida em computação gráfica para a nova abertura. A metalinguagem está presente nas ações da personagem Nieta (Yara Amaral) que, apaixonada por novelas achava Felipe (Tarcísio Meira) muito parecido com o galã Tarcísio Meira. Glória Menezes vive Roberta, que tem um romance com o motorista Nando (Mário Gomes), mais novo do que ela. A abertura trazia Os Fevers com a música “Guerra dos Sexos”. A novela teve 185 capítulos.
Que Rei Sou Eu? – 1989. Essa talvez seja uma das novelas pela qual tenho o maior carinho. Estava na faculdade quando a comédia histórica de Cassiano Gabus Mendes estava no ar. Ela estreou em fevereiro, portanto, antes de começarem as aulas. Quando o curso de Publicidade voltou eu viajava todas as noites para Ribeirão Preto para estudar. O ônibus chegava por volta das 19 horas – horário de exibição da trama. Eu me sentava nos carrinhos de lanche em frente à Universidade para jantar e assistia à novela na pequena TV. Eu e dezenas de fãs. Nos últimos meses o sucesso era tanto que professores – que assistiam à novela na cantina ou nos carrinhos com a gente – só começavam as aulas quando terminava o capítulo. E a obra ainda era objeto de discussão na classe. Uma paródia genial do sempre caótico governo brasileiro, “Que Rei Sou Eu?” contava a história do reino de Avilan a partir do momento que o rei (Gianfrancesco Guarnieri) morre. O único herdeiro é o filho bastardo Jean-Pierre (Edson Celulari) que não sabe disso. Os impagáveis conselheiros da Rainha Valentine (Tereza Rachel, no papel de sua vida) resolvem “criar” um rei (como sempre acontece por aqui) na figura do mendigo Pichot (Tato Gabus Mendes). Por trás de tudo está o bruxo Ravengar – ou Olavo de Carvalho ou PC Farias ou ACM; entre outros, só para ver como a trama pode ser atual sempre – interpretado magistralmente por Antônio Abujamra. Jean-Pierre lidera um grupo de revolucionários para derrubar o governo corrupto. Jorge Dória, Carlos Augusto Strazzer, Laerte Morrone, John Hebert e Oswaldo Loureiro formam o Conselho Real. A mãe da Rainha é ninguém menos que Dercy Gonçalves e Stênio Garcia faz Corcoran, o bobo da corte. Claro que tem a história de amor do príncipe e a plebeia (a doce Giulia Gam) e da princesa (Cláudia Abreu) pelo mendigo. A alusão aos acontecimentos reais no Brasil era imediata, com a maior velocidade que as gravações permitiam. Até troca de moedas Avilan teve em meio ao desastroso Plano Cruzado. Ao final, em uma cena catártica, o povo de Avilan grita “Viva o Brasil”. Não perca essa chance de assistir a essa obra-prima. O ritmo alucinante, a reconstituição de época, a interpretação de gigantes da nossa dramaturgia, a genialidade de Cassiano Gabus Mendes, enfim... Veja. A música de abertura era “Rap do Rei”, composta por Boni (o próprio) e cantada por Luni, que também faz uma participação especial na gravação do outro tema que permeava a novela: “Que Rei Sou Eu” na voz de Eduardo Dusek. A obra teve 185 capítulos. E foi pouco.
Quatro por Quatro – 1994. Divertida novela de Carlos Lombardi sobre a vingança orquestrada por quatro amigas contra seus ex-parceiros. Abigail (Betty Lago), Auxiliadora (Elizabeth Savala), Tatiana (Cristiane Oliveira) e Babalu (Letícia Spiller) se conhecem após baterem seus carros ao mesmo tempo e serem presas na mesma cela. O tom de comédia escrachada do autor conquistou milhões de fãs. Outra característica de Lombardi, de colocar os homens sem camisa em várias cenas das novelas, já despontava aqui. Aqueles que seriam as vítimas do plano das mulheres eram vividos por Gustavo (Marcos Paulo), Alcebíades (Tato Gabus Mendes), Fortunato (Diogo Vilela) e Raí (Marcello Novaes). Esse último protagonizou um dos casais mais famosos da história das novelas ao lado de Babalu. O tema de abertura era “Picadinho de Macho” com Sandra de Sá. A novela teve 233 capítulos.

Vereda Tropical – 1984. Essa foi a estreia de Carlos Lombardi como autor titular, dez anos antes de “Quatro Por Quatro”. Walmor Chagas interpreta Oliva, um empresário que perde um filho e decide criar o neto Zeca (Jonas Torres) para fazer dele o seu herdeiro. A mãe do menino, Silvana (Lucélia Santos), operária da fábrica, entra na briga judicial. A vilã da história é Catarina (Marieta Severo) que tenta se livrar do garoto. Mário Gomes como Lucas, um jogador de futebol, ganhou a atenção do público, assim como Jamil (Gianfrancesco Guarnieri). Marcos Frota também foi sucesso com o impagável Téo, um gago com muita imaginação que pensava ser um super-herói. A música de abertura, obviamente era o sucesso de Ney Matogrosso com o mesmo nome da novela, que teve 184 capítulos.

E assim chegamos ao final dessa lista de 43 grandes sucessos. Claro que a Globoplay tem outras novelas em seu catálogo, como as vencedoras do Emmy Internacional: “Império” (Aguinaldo Silva), “Jóia Rara” (Duca Rachid e Thelma Guedes), “Lado a Lado” (João Ximenes Braga e Cláudia Lage), que venceu – entre outras – “Avenida Brasil”; o remake de “O Astro” (Alcides Nogueira e Geraldo Carneiro, baseados na original de Janete Clair) e “Caminho das Índias” (Glória Perez).
Nesse pequeno Almanaque o autor que mais teve novelas citadas – que terá suas obras clássicas inclusas no Globoplay – é Aguinaldo Silva, com sete de suas criações.

A novela mais longa é “Barriga de Aluguel” – com 243 capítulos – seguida de perto por “Quatro por Quatro”, com 233.
A trama mais curta que foi ao ar dessa lista foi “O Fim do Mundo”, com 35 capítulos. E a segunda que ficou menos tempo em exibição foi “Estrela-Guia”, com 83 capítulos.

A média, ao final, é de 187 capítulos por novela, a duração em vigor nos anos em que foram escritas. A tendência atual é a diminuição no número de capítulos.

Ao todo, somente nessa série de resenhas, a novelas exibidas somam 8.060 capítulos, o que equivale a aproximadamente 322 meses no ar, ou seja, se você escolher assistir todas na íntegra no Globo play, com um capítulo por dia, irá demorar cerca de 27 anos.

Entre os autores lembrados aqui, já nos despedimos de Janete Clair em 1983, Dias Gomes em 1999, Ivani Ribeiro em 1995 e Cassiano Gabus Mendes em 1993.

Benedito Ruy Barbosa é o autor com mais idade – 89 anos – seguido de Manoel Carlos com 87. Ambos não escrevem mais novelas.

Alguns dos atores e atrizes citados nesses oito capítulos também já se foram. Tornaram-se estrelas ainda maiores e vivem intensamente nas obras das quais fizeram parte: Tônia Carrero, Paulo Autran, Lilian Lemmertz, Dina Sfat, Raul Cortez, Rogério Cardoso, Paulo Goulart, Thales Pan Chacon, Chico Anysio, Rubens de Falco, Maria Alice Vergueiro, Armando Bógus, José Wilker, Tereza Rachel, Gianfrancesco Guarnieri, Yoná Magalhães, Miriam Pires, Guilherme Karan, Ileana Kwasinski, Walmor Chagas, Daniela Perez, Marília Pera, Paulo Gracindo, Eloísa Mafalda, João Carlos Barroso, Yara Amaral, Hugo Carvana, Cláudio Marzo, Dercy Gonçalves, Antônio Abujamra, Betty Lago, Marcos Paulo e todo o conselho do reino de Avilan: Jorge Dória, Carlos Augusto Strazzer, Laerte Morrone, John Hebert e Oswaldo Loureiro. Meus respeitos e saudades. Aplausos.

Dos monstros sagrados da atuação em nosso país, ainda em atividade, com mais idade, meus aplausos de pé para Lima Duarte – 90 anos e para as atrizes Fernanda Montenegro – 90 anos e Laura Cardoso – 92 anos.

Assim é feita a melhor fábrica de telenovelas do planeta. Não só dos gigantescos estúdios do Projac, mas, sobretudo, do talento de nossos atores e atrizes, produtores, cenógrafos, figurinistas, contrarregas, câmeras, fotógrafos, visagistas, camareiros, diretores; enfim, de todos aqueles que dão vida à imaginação do profissional onde tudo isso começa: o Autor.

A seguir cenas dos primeiros capítulos...

FIM

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