Paulo Rocco
Ela começou
com o quase sempre usual flashback, – em relação aos tempos atuais da história
– um recurso dos autores para transformar as personagens em “conhecidos de uma
vida toda” para os espectadores. “O Outro Lado do Paraíso”, confesso, não me
pegou de cara. Aos poucos, no entanto, tornou-se a minha novela a ser seguida.
Sempre acompanho com mais frequência uma ou duas delas – a outra atualmente é “Malhação”,
em minha opinião uma ótima obra teledramatúrgica, principalmente pelo texto e
construção das personagens. Claro que também dou uma olhada em “Tempo de Amar”,
conheço as personagens e me encanta o texto e direção de arte, sobretudo. “Deus
Salve o Rei” não vi quase nada ainda. Mas é da novela das nove que estamos
falando.
Listar os atores
e atrizes aqui não é necessário, pelo simples fato de estarmos diante de alguns
dos melhores profissionais do país, como é o caso de Fernanda Montenegro, Juca
de Oliveira, Lima Duarte, Marieta Severo, Laura Cardoso – e todo o elenco que
cerca esse quinteto obrigatoriamente a ser citado, pela história pessoal e
profissional de cada um nessa História toda.
Walcyr Carrasco sempre soube como segurar o
público diante da TV, mas de “Amor à Vida” para cá, parece ter se pós-graduado nessa
técnica com louvor. Com obras tão díspares quanto “Verdades Secretas” e “Eta
Mundo Bom”, para citar apenas as mais recentes, o autor encontrou no trabalho
atual, aquele que seria seu correspondente na literatura: o mestre dos
best-sellers, Sidney Sheldon.
Os ganchos
colocados no final dos capítulos em muito se assemelham àqueles que finalizam
também os capítulos de livros como “Se Houver Amanhã”, “Conte-me Seus Sonhos”,
“O Reverso da Medalha” ou “O Outro Lado da Meia-Noite”, título primo-irmão da
novela. E não falo isso desmerecendo um ou outro autor. É um elogio aos
escritores que, se não são unanimidade entre críticos; arrebata milhões de
leitores e reúne muitos milhares de pessoas diante da tela, respectivamente.
Um mestre da
teledramaturgia, Aguinaldo Silva – de quem tive a honra de ser aluno em sua
Master Class – ensina que entre a lógica e a boa história, devemos optar pela
segunda. E é nesse ponto que alguns torcem o nariz para o estilo de Walcyr de desenvolver
a sua trama. Mas quase não me interessa procurar lógica e “falhas” em novelas,
peças teatrais ou filmes. Se a história, a interpretação e a direção me fisgam
pela emoção e pelo trabalho apresentado, a arte cumpriu seu papel.
Se há um senão
que me incomoda em “O Outro Lado do Paraíso” são alguns diálogos entre Clara (a
excelente Bianca Bin) e Renato (Rafael Cardoso), por exemplo, quando falam da tal
vingança e repetem à exaustão frases do tipo “- Agora é a vez do delegado. –
Sim, agora é a vez do delegado Vinicius que forjou provas contra mim” ou algo
assim. O ‘didatismo’ cansa nesse momento, mas também tenho consciência de que a
novela é escrita para todos os tipos de público, inclusive para aquele curioso
que nunca a assistiu, mas resolveu ver naquela noite. Isso acontece também nos
diálogos de Sophia com Gael ou com Lívia. São quase sempre sobre o mesmo
assunto e de igual construção, soando artificiais em alguns momentos.
O núcleo de
humor funciona às vezes sim às vezes não, seja no salão de beleza frequentado
pela sociedade de Palmas ou recentemente na casa do Dr. Samuel, sua ex, seu
namorado, a ex dele e a mãe. Algumas piadas acabam sendo repetitivas e à base
de bordões, mas o elenco tem segurado a onda, principalmente no salão.
De um modo
geral os diálogos, fora desses exemplos são bons. E alguns atores ou atrizes
contribuem para momentos de uma sensibilidade ímpar, como foi o caso de Malu
Rodrigues na cena em que sua Karina esteve com Diego (Arthur Aguiar) e não
contou a ele sobre a gravidez. A fala quase tragada pela tristeza e o olhar de
Malu enriqueceram a sequencia e trouxeram à tona todo o sofrimento da garota de
programa que sonha com uma vida diferente.
Voltando ao
encontro telenovela/literatura de “O Outro Lado do Paraíso”, não é segredo que
toda a história da vingança de Clara, bem como os cenários e sequências
inteiras foram “retiradas” de “O Conde de Monte Cristo”. Todos que tenham lido
o romance de Dumas publicado em 1844 já esperavam as cenas serem vistas na
novela. Repito: nenhum demérito. Um talento, isso sim, para contar de novo uma
história tão antiga e tão brilhante e fazê-la nova, para um novo público.
Outro recurso
dominado por Carrasco é a “história do gatinho”, como diria o dramaturgo
Roberto Alvim. Trata-se de um objeto ou citação ou personagem que será
“utilizado” em futuras cenas para o desenvolver da história. Um exemplo foi a
sequencia onde Sophia (Marieta) reprendia a filha Estela (Juliana Caldas) por
ir a um baile com um vestido novo feito por Rosalinda (Vera Mancini). Sophia
pegou uma tesoura e picotou o vestido no melhor estilo Cinderela. Sophia sai.
Quando Estela olha para a mesa em seguida, a tesoura não está mais lá. É com
esse objeto que a vilã irá assassinar a prostituta algumas cenas mais tarde.
Mas ela não sabia disso quando colocou a tesoura na bolsa por impulso.
Outra situação
foi Clara ter deixado a porta da sua casa aberta para o caso de Duda (Glória Pires)
“passar mal e chamar socorro mais rapidamente”. A casa foi invadida por
Natanael (Juca de Oliveira) – que não usou a porta da frente, mas o artifício
foi útil para seu filho chegar em seguida, entrar e flagrar a conversa.
Há um "gatinho" também escondido na história de Renato. De algum tempo pra cá, há uma convenção informal entre autores de que somente os vilões fumam nas novelas - sem entrar no mérito da questão - e o médico já apareceu em várias cenas com o cigarro, o que poderia indicar uma transformação de seu personagem.
Há um "gatinho" também escondido na história de Renato. De algum tempo pra cá, há uma convenção informal entre autores de que somente os vilões fumam nas novelas - sem entrar no mérito da questão - e o médico já apareceu em várias cenas com o cigarro, o que poderia indicar uma transformação de seu personagem.
Nos capítulos
mais recentes, do julgamento de Duda/Elizabeth e as revelações que aconteceram
naquele tribunal, resultaram em ganchos muito bons como há tempos não se via
nas novelas. Mesmo que para trazer o público no dia seguinte, na mesma hora, no
mesmo sofá; fosse necessário em alguns momentos subverter a lógica.
Mas o público em geral não se importa. Logo estará em Palmas, mais uma vez, para acompanhar atento ao desenrolar – e novos enrolares – dessa história, refletida no verso e reverso das esmeraldas escavadas no paraíso de Carrasco.
Mas o público em geral não se importa. Logo estará em Palmas, mais uma vez, para acompanhar atento ao desenrolar – e novos enrolares – dessa história, refletida no verso e reverso das esmeraldas escavadas no paraíso de Carrasco.
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