Eu tenho um texto onde escrevi
que o medo de não saber o que vamos encontrar atrás da porta, muitas vezes nos
impede de ir até ela. Não é o caso aqui.
Ir até o Teatro Itália para ver
“Entre! A Porta Está Aberta” é uma experiência como todo teatro tem que ser. Em
minha opinião – e gosto pessoal – um espetáculo deve instigar, emocionar, divertir
e, acima de tudo, deve fazer o público sair dali pensando no que acabou de
presenciar. Foi assim que passei pela porta neste sábado.
A primeira cena da peça escrita
por Glória Rabelo mostra Guta, um senhora sentada em uma poltrona, acompanhada
de três personagens – Gabriela Gama, Emerson Grotti e Guilherme Araújo, ótimos
– dizendo que não é impossível ser feliz sozinha. Sozinha? Essa frase permeia
toda a encenação. Como ficamos “sozinhos”?
A irmã de Guta, a própria Glória,
vai chegar para passar “uma semaninha” que pode ser um ano, uma vida. Elas vão
conversar sobre Deus e todo mundo, literalmente quase. Sempre acompanhadas das
recordações, pessoas, familiares ausentes, histórias, decisões e objetos que
compõem a vida de cada uma. As vidas de cada uma. As que vivem e as que
sonhavam viver.
A direção limpa de Dan Rosseto ao
invés de deixar clara a intenção da dramaturgia, propõe um jogo com o público –
que me lembrou de Meyerhold em vários momentos – mas, no entanto, sem deixar o
público “ganhar” de cara. E essa sensação vai até o final e o ultrapassa. Até
agora, escrevendo esses poucos parágrafos, coloco-me a pensar em alguns trechos
do que vi.
O cenário de Kleber Montanheiro é
de uma funcionabilidade incrível para a trama em cada momento que é composto,
decomposto e recomposto pelos atores que também – inteligentemente – são
contrarregras em cena. Com vários simbolismos, como a luz “presa” no vidro, a
cenografia é outra “atriz” em cena. Como o são a trilha de Fred Silveira e a
luz de Wagner Pinto.
Aliás, vale um parágrafo a
belíssima canção “Passagem, o Tempo”, cantada lindamente por Guilherme Araújo
em um recorte lindo da montagem.
Tudo se fecha em torno da relação
das duas irmãs e de como elas irão sair intactas de mais esse encontro. O que
não acontece, felizmente, com a plateia. Quase ninguém sai daquela porta da
mesma maneira que entrou. O que é ótimo.
Você tem somente mais uma chance
de vivenciar isso, no próximo sábado, às 18 horas. Melhor abrir a tampa do
vidro. Entre! A vida está aberta.
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