Paulo Rogério Rocco
Basta um filme – ou série – se
tornar “polêmico” que o planeta começa a ficar superpovoado de críticos e
entendedores do setor audiovisual e da sétima arte.
É assim com “O Mecanismo”, que
teve a primeira temporada disponibilizada pela Netflix. Produzida por José
Padilha e roteirizada por ele e por Elena Soarez, a história gira em torno dos
primórdios da Operação Lava-Jato e dos primeiros movimentos desse jogo de gato e
rato que monopoliza – para o bem e para o mal – a manchetes brasileiras dos últimos
anos.
Pois bem, não precisava ser
nenhum vidente para saber que a repercussão da série seria gigantesca, mais
precisamente do tamanho do fanatismo político e da divisão da arquibancada que
move o país principalmente depois das últimas eleições presidenciais – cujos
protagonistas desfilam pelos episódios em interpretações propositalmente
caricaturais. Mas convenhamos, vivemos em um Brasil tão surreal que por mais
ridículo que for a personagem, dificilmente supera seu contraponto real.
Em “O Mecanismo”, a história é
narrada (em primeira pessoa como já é característica de Padilha) pelos
policiais federais que desencadearam a Operação – PS: a partir daqui, tudo o
que eu citar se refere aos episódios da série e não à história real. – e a
guerra deles contra o que parece ser um dos maiores esquemas de corrupção da
história do planeta.
Os “mocinhos” da trama são Marco
Ruffo, um policial bipolar obcecado vivido por Selton Mello e Verena sua
parceira também da Polícia Federativa, interpretada por Caroline Abras. Sim, a
polícia é “federativa” por que a Federal queria ler o roteiro antes de ser
exibido para que autorizasse o uso do nome verdadeiro. E como qualquer diretor
ou produtor que se preze, logicamente Padilha negou.
Em síntese, a série é policial e
não política, como tem sido nossa realidade, com homens e mulheres que
frequentavam as páginas políticas indo parar na seção policial dos jornais.
Os atores que interpretam os
políticos mais parecem ter saído de uma ópera bufa e o fazem com maestria, aproximando
a interpretação, em alguns momentos, a uma charge ou – repito – caricatura
viva.
Tudo o que está descrito ali já
aconteceu, acontece e vai acontecer perto de você. Como diz o próprio Padilha,
“se a nova lei de delações premiadas tivesse sido sancionada com o PSDB no
poder, os políticos denunciados teriam sido Aécio, Serra e FHC. Mas como foi
sancionada com o PT e o PMDB no poder, os denunciados foram Palocci, Lula,
Cunha, Cabral e Temer”.
PS2: Pode ser que nem tudo o que
eu publicar a partir deste parágrafo seja sobre a série. Posso me referir ao
mecanismo.
A corrupção começa nas prefeituras
das cidades menores, segue para o Estado e desemboca em Brasília. Não
necessariamente nessa ordem. E parece irônico que o quartel general da
Lava-Jato seja em Curitiba, reconhecidamente uma das melhores cidades do país.
Coube a um juiz tomar decisões
que, se não tivessem ocorrido, o Brasil – de todos os partidos – teria
empurrado, mais uma vez, todo esse esgoto para debaixo do tapete. O mesmo
tapete onde estão a coroa-brastel, o escândalo das joias, o mensalão, o
escândalo do metrô e tantos outros capítulos dessa pátria subtraída em
tenebrosas transações, como canta meu caro amigo Chico.
Padilha, depois de ter
escancarado a polícia militar do Rio de Janeiro em conluio com traficantes e
políticos e de contar a vida de Pablo Escobar (que também causou inúmeros
protestos do filho de Escobar, pelo menos) mostra, com esse novo trabalho, que
o Brasil definitivamente não é para amadores.
Ainda espero do cineasta uma
série sobre Collor de Mello, o impeachmado presidente escorraçado pelos
caras-pintadas que voltou ao senado nos braços do povo, sendo parceiro político
de um ex-líder dos... caras-pintadas; e de seu assessor direto, PC Farias,
morto em um crime até hoje envolto nas brumas do poder. Mas isso é outra
história.
Em resumo: “O Mecanismo” – a
única série que já vem com spoiler – é muito legal como entretenimento (apesar
dos “entendidos” acharem mil defeitos técnicos) e necessária como história
recente de um país que supera qualquer ficção em seus desmandos diários.
A direção é segura, sabe o que
faz, domina seu ofício. A fotografia (até ela criticada pelos experts) é
profissional como em todos os trabalhos da equipe. O roteiro é bom – e falar
mal de páginas e páginas por um diálogo equivocado se comparado com revistas da
época – é um apontamento totalmente desnecessário face ao gigantismo negativo
do fato.
Quem dramatiza um caso real está
sujeito a erros e, no mais, uma frase solta que não altera em nada a
dramaturgia é procurar liminar em ovo. E, por fim, os atores são muito bons,
como nem precisam provar que são.
Haverá outras temporadas com
certeza, pois mesmo com o boicote solicitado por apaixonados seguidores, a
audiência e as novas assinaturas da Netflix devem ter tido um aumento
considerável. É sempre assim: os maiores interessados em denegrir uma obra artística
são os que mais a promovem.
Outro sinal de novas temporadas é
que a história que move o mecanismo que volta a mover a história para mover
novos mecanismos está girando a cada dia, como um oroboro macabro.
Mesmo que a eleições que estão
por vir altere as personagens – o que, sinceramente, acho difícil – as
engrenagens nos subterrâneos de Brasília sempre serão as mesmas. E farão jorrar
os esgotos em tampas de bueiros superfaturadas.
Sem comentários.