terça-feira, 3 de abril de 2018

Esgotos sob Brasília


Paulo Rogério Rocco

Basta um filme – ou série – se tornar “polêmico” que o planeta começa a ficar superpovoado de críticos e entendedores do setor audiovisual e da sétima arte.

É assim com “O Mecanismo”, que teve a primeira temporada disponibilizada pela Netflix. Produzida por José Padilha e roteirizada por ele e por Elena Soarez, a história gira em torno dos primórdios da Operação Lava-Jato e dos primeiros movimentos desse jogo de gato e rato que monopoliza – para o bem e para o mal – a manchetes brasileiras dos últimos anos.

Pois bem, não precisava ser nenhum vidente para saber que a repercussão da série seria gigantesca, mais precisamente do tamanho do fanatismo político e da divisão da arquibancada que move o país principalmente depois das últimas eleições presidenciais – cujos protagonistas desfilam pelos episódios em interpretações propositalmente caricaturais. Mas convenhamos, vivemos em um Brasil tão surreal que por mais ridículo que for a personagem, dificilmente supera seu contraponto real.

Em “O Mecanismo”, a história é narrada (em primeira pessoa como já é característica de Padilha) pelos policiais federais que desencadearam a Operação – PS: a partir daqui, tudo o que eu citar se refere aos episódios da série e não à história real. – e a guerra deles contra o que parece ser um dos maiores esquemas de corrupção da história do planeta.

Os “mocinhos” da trama são Marco Ruffo, um policial bipolar obcecado vivido por Selton Mello e Verena sua parceira também da Polícia Federativa, interpretada por Caroline Abras. Sim, a polícia é “federativa” por que a Federal queria ler o roteiro antes de ser exibido para que autorizasse o uso do nome verdadeiro. E como qualquer diretor ou produtor que se preze, logicamente Padilha negou.

Em síntese, a série é policial e não política, como tem sido nossa realidade, com homens e mulheres que frequentavam as páginas políticas indo parar na seção policial dos jornais.

Os atores que interpretam os políticos mais parecem ter saído de uma ópera bufa e o fazem com maestria, aproximando a interpretação, em alguns momentos, a uma charge ou – repito – caricatura viva.

Tudo o que está descrito ali já aconteceu, acontece e vai acontecer perto de você. Como diz o próprio Padilha, “se a nova lei de delações premiadas tivesse sido sancionada com o PSDB no poder, os políticos denunciados teriam sido Aécio, Serra e FHC. Mas como foi sancionada com o PT e o PMDB no poder, os denunciados foram Palocci, Lula, Cunha, Cabral e Temer”.

PS2: Pode ser que nem tudo o que eu publicar a partir deste parágrafo seja sobre a série. Posso me referir ao mecanismo.
A corrupção começa nas prefeituras das cidades menores, segue para o Estado e desemboca em Brasília. Não necessariamente nessa ordem. E parece irônico que o quartel general da Lava-Jato seja em Curitiba, reconhecidamente uma das melhores cidades do país.

Coube a um juiz tomar decisões que, se não tivessem ocorrido, o Brasil – de todos os partidos – teria empurrado, mais uma vez, todo esse esgoto para debaixo do tapete. O mesmo tapete onde estão a coroa-brastel, o escândalo das joias, o mensalão, o escândalo do metrô e tantos outros capítulos dessa pátria subtraída em tenebrosas transações, como canta meu caro amigo Chico.

Padilha, depois de ter escancarado a polícia militar do Rio de Janeiro em conluio com traficantes e políticos e de contar a vida de Pablo Escobar (que também causou inúmeros protestos do filho de Escobar, pelo menos) mostra, com esse novo trabalho, que o Brasil definitivamente não é para amadores.

Ainda espero do cineasta uma série sobre Collor de Mello, o impeachmado presidente escorraçado pelos caras-pintadas que voltou ao senado nos braços do povo, sendo parceiro político de um ex-líder dos... caras-pintadas; e de seu assessor direto, PC Farias, morto em um crime até hoje envolto nas brumas do poder. Mas isso é outra história.

Em resumo: “O Mecanismo” – a única série que já vem com spoiler – é muito legal como entretenimento (apesar dos “entendidos” acharem mil defeitos técnicos) e necessária como história recente de um país que supera qualquer ficção em seus desmandos diários.

A direção é segura, sabe o que faz, domina seu ofício. A fotografia (até ela criticada pelos experts) é profissional como em todos os trabalhos da equipe. O roteiro é bom – e falar mal de páginas e páginas por um diálogo equivocado se comparado com revistas da época – é um apontamento totalmente desnecessário face ao gigantismo negativo do fato.

Quem dramatiza um caso real está sujeito a erros e, no mais, uma frase solta que não altera em nada a dramaturgia é procurar liminar em ovo. E, por fim, os atores são muito bons, como nem precisam provar que são.

Haverá outras temporadas com certeza, pois mesmo com o boicote solicitado por apaixonados seguidores, a audiência e as novas assinaturas da Netflix devem ter tido um aumento considerável. É sempre assim: os maiores interessados em denegrir uma obra artística são os que mais a promovem.

Outro sinal de novas temporadas é que a história que move o mecanismo que volta a mover a história para mover novos mecanismos está girando a cada dia, como um oroboro macabro.

Mesmo que a eleições que estão por vir altere as personagens – o que, sinceramente, acho difícil – as engrenagens nos subterrâneos de Brasília sempre serão as mesmas. E farão jorrar os esgotos em tampas de bueiros superfaturadas.  

Sem comentários.